3. Theory and existing literature
6.3 Results for different groups
Entrevistado
Humanas e Ciências Sociais Aplicadas, foi a primeira universidade especializada por campo de saber, possibilidade aberta pela Lei de Diretrizes e Bases de 1996 e requerida pelo então Conjunto Univer- sitário Cândido Mendes. Mantida pela Sociedade Brasileira de Ins- trução — SBI, fundada em 1901 para organizar a Congregação da Academia de Comércio do Rio de Janeiro, a Ucam tem tradição nas áreas que consolidou: em 1919 foi criada a Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro e, em 1935, a Faculdade de Direito Cândido Mendes. O decreto que credenciou a Universidade foi assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 24 de novembro de 1997 e contempla a sede da instituição no município do Rio de Janeiro e os campi nos municípios do Rio de Janeiro, Cam- pos e Nova Friburgo.
Candido Antônio Mendes de Almeida
Professor, advogado e doutor em Direito. Assumiu a chefia da Assessoria Técnica do presidente Jânio Quadros (1961); tornou-se presidente da Sociedade Brasileira de Instrução — SBI (1963) e fundou o Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro — Iuperj (1969). Presidente da International Political Science Association — IPSA (1979-1982), do International Social Science Council (ISSC), da Unesco, (1981-1992) e do Senior Board do Conselho Superior de Ciên- cias Sociais da Unesco (1992- ). Entre 1981 e 1982 foi presidente da Asso- ciação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior Privado e do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Superior Privado no Rio de Janeiro. Em novembro de 1986 obteve uma suplência à Câmara dos Deputados, tendo assumido o mandato entre 1990 e 1991. Em outu- bro de 1994, candidatou-se novamente a deputado federal, obtendo mais uma vez uma suplência e assumindo o mandato entre 1997 e 1998. Em 1989,foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Em 1999, tornou-se reitor da Universidade Cândido Mendes. Recebeu-nos na Reitoria da Ucam, no Centro do Rio, nos dias 7 e 10 de novembro de 2000, para uma entrevista de 1h40m de duração.
As décadas de 1960 e 1970 foram importantes para a expansão da Cândido Mendes: em 1969 foi implantado o mestrado no Iuperj, em 1973 foram criadas as Faculdades Integradas de Ipanema, em 1975 houve a expansão para Campos de Goitacazes e em 1976 foi criada uma faculdade em Nova Friburgo. Como o senhor vê esse processo de expansão?
Os anos 60 foram muito mais importantes do que os 70, no sentido da definição de um projeto para esta casa. Minha premissa era exatamente a de que não poderíamos nos manter apenas na área da preleção. A marca de diferença da casa foi a criação do Iuperj, o Insti- tuto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, que foi con- cebido como atividade constante praticamente desde 1963, 64. Estáva- mos, aliás, dando seqüência a visões prospectivas contidas nas nossas
de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro — nome esse que já trazia em si mesmo uma enorme antecipação. Imagine, nos anos 20 e antes dos anos 20, se falar numa faculdade de ciências políticas no Brasil! Não se falava nisso. Quem sabia o que era isso? Meu avô, fre- qüentando e tendo contato com professores de Harvard e Chicago sobretudo, sentiu que era muito importante criar uma faculdade de ciências políticas e econômicas. Guardou a idéia no nome e entendeu que isso devia ser realizado exatamente também em função da pes- quisa. Nos anos 60, o Iuperj funcionou basicamente como instituto de pesquisa. Começamos a trabalhar com pesquisas interessantes ao governo. Na época do ministro Muniz de Aragão como titular da pasta de Educação, fizemos pesquisas de mercado de trabalho: sobre a de- manda de químicos no Brasil, sobre a demanda de serviços sociais e de enfermagem…1 Essa posição cresceu a partir da intensificação dos contatos com o exterior, que se tornaram imperativos depois do 31 de março de 1964. As bolsas de estudo de instituições como as funda- ções Ford, Naumann e Tinker me deram a convicção de que eu podia levar a pós-graduação ao Brasil, formando meus professores em cursos das melhores universidades americanas. Esses professores vieram da Universidade Ann Arbor, em Michigan, como foi o caso do prof. César Guimarães, da Universidade da Califórnia, ou da Universidade de Stan- ford, também na Califórnia, como foi o caso do prof. Wanderley Gui- lherme dos Santos. É possível relacionar cada um dos nossos profes- sores fundadores do Iuperj a um treinamento americano de primeira categoria. Isso foi reforçado ainda pelo fato de nossos primeiros traba- lhos de campo em ciência política e em sociologia estarem ligados à análise pari passu, quase que contemporânea, do problema da que- bra dos sistemas democráticos, do sistema de poder e da forma de reor- ganização do Estado brasileiro, no que fosse de fato um regime tec- nocrático que começava.
Paralelamente ao Iuperj, outro instituto florescia na época: o Centro de Estudos Afro-Asiáticos, CEAA, fundado em 1973. Ele estava na esfera da Presidência da República e, com a cooperação de Vasco Leitão da Cunha, ministro do Exterior do governo Castello Branco, foi
1 Raimundo Augusto de Castro Muniz de Ara- gão foi ministro da Edu- cação entre 1966 e 1967, época em que recrudesceram as crises no meio estu- dantil que acabaram levando à reforma uni- versitária de 1968. Foi também membro do Conselho Federal de Educação entre 1971 e 1978, sendo sido seu presidente nos anos de 1971 e 1972. Ver
avocado ao setor privado, e eu o absorvi dentro da nossa casa de ensi- no. Enquanto o Iuperj se dedicava aos estudos interdisciplinares das ciências sociais, o CEAA se voltava para o conhecimento da realidade emergente nos Estados independentes de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné, e buscava também o resíduo lusitano que existia em
Macau.2 Os institutos deram, portanto, uma marca muito clara à
Cândido Mendes. Nenhuma universidade privada tinha, à época, ins- titutos de pesquisa. E nós fazíamos esses institutos com professores formados no exterior, treinados dentro de uma noção do que era uma carreira e do que era sua capacidade de progredir a partir das defesas de tese de mestrado e doutorado. Acredito que nesses anos 60, já em plena ditadura, só a USP podia rivalizar com a Cândido Mendes, do ponto de vista desses estudos e da formação desses quadros, que per- mitiram que nos habilitássemos à pós-graduação em ciências políticas. Já no fim dos anos 60,o Iuperj era considerado centro de excelência nes- sa área acadêmica, em todo o território do Brasil.
A Cândido Mendes nunca abriu cursos de graduação nas áreas de ciência política e sociologia, apesar da atuação do Iuperj como núcleo de excelência. Por quê?
Pelo absoluto irrealismo que seria imaginar que o Brasil ti- vesse, na época, professores de sociologia e ciência política. Essas eram carreiras absolutamente desertas. Se criássemos cursos de gra- duação, eles viveriam da má qualidade nacional. O que fiz foi primeiro formar professores. Só dentro da pós-graduação eu poderia criar uma equipe suficientemente consistente, para depois levar a sério o que era uma pândega no Brasil, que eram os estudos de ciência política. Nem existiam. Se formos ver os estudos de ciência política em torno dos anos 70, desde a UFF, a Universidade Federal Fluminense, até a Uni- versidade de Fortaleza, vamos ver que os autores são egressos do Iuperj. Seria totalmente errado, se não anedótico, começar pelo princípio. E mais recentemente também não nos interessava criar graduação nes- sas áreas porque são cursos de muito pouca demanda, que só são sé- rios no nível de pós-graduação. Sabemos muito bem que os cursos de ciência política e sociologia são quase tão diminutos no Brasil quanto os cursos de história.
Universidade
Cândido Mendes Candido Antônio Mendes de Almeida
2 A Guiné Bissau teve sua independência reconhe- cida por Portugal em 1974, após ter sido de- clarada unilateralmente em 1973. Angola, Mo- çambique e Cabo Verde tornaram-se indepen- dentes em 1975. Macau permaneceu como província ultramarina de Portugal até 1999, quando foi entregue à China com o status provisório de Região Administrativa Especial de Macau (Raem), que lhe confere autonomia administrativa durante 50 anos.
A estratégia da casa nos anos 60 foi de fortalecimento dos ins- titutos. A década de 1970 foi a década em que criamos outras áreas de pós-graduação. Um dos grandes institutos fundados nesse momen- to, e que ainda está aí, tendo também marcado a dominância de pes- quisa dentro desta casa, foi o Instituto de Ciências Penais, dirigido pelo prof. Heleno Fragoso e continuado pelo prof. Nilo Batista. A criação de cursos fora do Rio de Janeiro, que também data desse período, de- rivou da condição lamentável em que se encontravam essas regiões. Por causa das capitanias educacionais hereditárias, digamos assim, dos anos 60,verificávamos a pobreza de atendimento da procura desses cursos numa área mais ampla. Me dei conta da migração de campistas para o Rio de Janeiro e da migração de friburguenses para o Rio de Ja- neiro… Em 1967, 68, eu tinha sido professor da University of California, Los Angeles, a Ucla, era o tempo do Carli Kaklan, e tinha posto na ca- beça a idéia de criar a multiversity no Brasil — quer dizer, a universi- dade que, a partir de um centro, projetasse o seu genoma, ou a sua ar- ticulação como proposta de ensino, reproduzindo-se em núcleos. Foi o que fiz, começando com a cidade de Campos, que era aquela onde eu sentia com mais violência a chibata migratória, levando os alunos de Campos a terem de vir para o Rio de Janeiro. E a mesma regra de três valeu para os outros campi. Essa política de expansão combinou-se com a política de fortalecimento da pós-graduação.
Duas outras iniciativas devem ser lembradas com relação à década de 1970. Em primeiro lugar, a política de publicações universi- tárias. É muito raro uma universidade ter journals. Nos anos 70 me dediquei bastante a manter a revista Dados,3que me parece a mais importante do Brasil, se não a única na sua continuidade — já que a
Revista Brasileira de Estudos Políticos de Belo Horizonte não continuou.
Procuramos fazer de Dados a revista padrão de pesquisa e de busca de conhecimento nessa área. Através dela, abrimos a revista do Centro
de Estudos Afro-Asiáticos.4A outra iniciativa foi a série de convites a professores de renome internacional. Convidamos ao Brasil o prof. Gunnar Myrdal, possivelmente a maior autoridade em economia do subdesenvolvimento; convidamos Arnold Toynbee, talvez o maior his-
3 A revista Dados começou a ser publicada pelo Iuperj em 1966 com periodicida- de semestral. A partir de 1980, passou a chamar-se Dados – Revista de Ciências Sociais, tornando-se quadrimensal. 4 A revista Estudos Afro-
Asiáticos começou a ser publicada pelo CEAA em 1978.
toriador do século passado, conhecido por suas análises de case studies comparativos das civilizações; convidamos o prof. Georges Lavau; con- vidamos o prof. Karl Deutsch, talvez, entre os harvardianos, o maior especialista em ciência política dos anos 60, com quem convivi lá — como convivi com o prof.Talcott Parsons,que praticamente é o fundador americano da sociologia weberiana. Entre Deutsch, Lavau, Myrdal e, evi- dentemente, Parsons, criamos um quadrilátero de cursos e de defini- ção de um padrão de qualidade. Não era possível dar as mesmas aulas no Brasil depois de ouvir Parsons, Deutsch, Alex Inkeles, Samuel Hun- tington… Trouxemos também o juiz da Corte Suprema americana, William Orville Douglas, que nos deu todo um curso sobre a noção do estado de direito, a noção da defesa desse estado e dos seus princi- pais institutos, exatamente no negror do governo militar. É uma expe- riência que só posso comparar à experiência da missão francesa nos anos 30 em São Paulo. Com uma grande distinção: a criação da USP foi toda feita com recursos públicos, e a Cândido Mendes criou o seu ciclo de professores internacionais financiando-os inteiramente com recursos próprios.5 Nunca tivemos um tostão público dentro dessa realização. Os anos 70 são, portanto, os anos de intensificação da pes- quisa, de generalização da nossa experiência no estado do Rio de Ja- neiro e de criação de um contato internacional muito difícil.
Haveria alguma relação entre sua experiência anterior no Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o Iseb, e essa tentativa de trazer para o Brasil todo esse alto padrão de produção de ciência política e ciências sociais?6
O Iseb só teve influência no sentido da busca do saber rele- vante e da busca do saber comprometido, do saber para mudar, e no sentido de eu ter uma visão muito clara do processo geracional bra- sileiro. O Iseb me ensinou a sair do ensino formal, do ensino das uni- versidades árabes. Quer dizer, não somos uma Universidade Al Azhar, a principal Universidade da cidade do Cairo, como são muitas uni- versidades públicas no Brasil. A universidade El Azhar era um padrão de certa cultura muçulmana, no sentido de um ensino formal, de mera transmissão extrínseca do conhecimento. Nossa preocupação, ao contrário, era com o estudo vinculado às realidades político-sociais. Cla-
Universidade
Cândido Mendes Candido Antônio Mendes de Almeida
5 A Universidade de São Paulo (USP) foi criada em 1934, por decisão do go- vernador de São Paulo, Armando de Salles Oli- veira. Teve como mentor intelectual Júlio de Mes- quita Filho, então diretor do jornal O Estado de S. Paulo, que publicava arti- gos favoráveis à criação de uma universidade em São Paulo e sobre os problemas do ensino su- perior no Brasil. Acadê- micos de alguns países foram arregimentados para impulsionar a ativi- dade universitária. Entre os professores franceses destacaram-se Fernand Braudel, Claude Lévi- Strauss, Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide e Pierre Monbeig. Ver www.estadao.com.br. 6 O Instituto Superior de
Estudos Brasileiros foi criado em julho de 1955 como órgão do
Ministério da Educação e Cultura, com o objetivo de promover as ciências sociais, aplicando seus dados e categorias à análise e compreensão crítica da realidade brasi- leira. Candido Mendes de Almeida foi um dos formuladores — junta- mente com Guerreiro Ramos, Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier e Nélson Werneck Sodré, entre outros — da ideologia “nacional- desenvolvimentista” que foi a tônica da produção do Iseb e que impregnou o sistema político brasileiro entre o fim do segundo governo de Getúlio Vargas e a queda de João Goulart. Com a instauração do regime militar, em 1964, o Instituto foi extinto por decreto. Ver DHBB.
tante, de maneira muito intensa, nos anos 65, 66, 67 e 68, em Harvard, Columbia e Los Angeles. Para modernizar minha casa, quis ser profes- sor visitante; quis fazer a experiência dos dois lados. E fiz conferên- cias e term studies em muitas outras universidades americanas, en- tre elas Princeton, New Mexico e San Francisco. Um dos reflexos disso foi a instituição do sistema de tenure aqui na Cândido Mendes. Fui muito agredido por meus rivais, que queriam estabelecer aquela re- lação subdesenvolvida de patronato com o professor. Esta casa não