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Os aspectos da Ecologia que serão destacados vão além da análise biológica. Desejamos focar a ecologia na perspectiva de aspectos antropológicos, econômicos e sociais. Com o objetivo de ampliar a visão sobre a discussão do tema, na pesquisa, inserimos as questões ambientais junto à ecologia e suas interpretações dissertando sobre ―As Três ecologias‖ de Félix Guattari. (2001)

Este trecho de sua obra, chamada ―As três ecologias‖, é um breve resumo da sua teoria, que tem a intenção de tratar a questão ecológica não somente pela perspectiva ambiental, mas de se aprofundar na análise de outros aspectos ecológicos. Pressupõe uma mudança global, universal, integral, sem perder de vista uma mudança pessoal e interior.

Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Essa revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo. (GUATTARI, 2001. p. 8.)

Guattari dá o nome de registros ecológicos, a estes aspectos que estão imersos numa nova articulação, ético-política. A ecosofia consiste nos três aspectos que compõe este campo: o do meio ambiente (aspecto ambiental), o das relações sociais (aspecto social) e o da subjetividade humana (aspecto mental). Observe-se:

O que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre esse planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico- científicas e do considerável crescimento demográfico. Em função do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico redobrado pela revolução informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou da cultura, da criação, da pesquisa, da re-invenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e da sensibilidade? (GUATTARI, 2001, p. 8-9)

Para Guattari não existe a mínima condição de mudança da mentalidade global, no que diz respeito à consciência ecológica, sem o caráter holístico, o senso de integralidade. Isto é, não abordando apenas o aspecto ambiental da crise ecológica. Pois, dentro desta perspectiva, a crise ambiental é uma conseqüência de uma crise maior, a crise das relações.

A referência ético-estética dos valores ecosóficos indica possibilidades de recomposição da práxis humana nos mais diversos domínios da vida cotidiana, pois, na atual etapa do capitalismo, não são apenas as espécies vegetais e animais que correm os riscos de extinção; também os gestos e as palavras de solidariedade estão ameaçados de desaparecerem.

A ecologia ambiental, até os dias atuais, não teria condições de responder a todas as questões apresentadas pelo panorama de degradação ambiental mundial. Como diz Gattari: ―A conotação da ecologia deveria deixar de ser vinculada à imagem de uma minoria de amantes da natureza ou de especialistas diplomados. Ela põe em causa o conjunto da subjetividade e das formações de poder capitalístico – os quais não estão de modo algum seguros que continuará a vencê- la, como foi o caso da última década‖. (cf. GUATTARI, 2001, p. 16)

O processo de globalização veio consolidar o capitalismo mundial integrado, que tende cada vez mais a descentrar seus focos de poder das estruturas de produção de bens e de serviços para as estruturas produtoras de signos, de sintaxe e de subjetividade, especialmente pelo controle que exerce sobre a mídia, a publicidade, as sondagens de opinião.

É nesse contexto que se deve pensar em uma nova conotação de Ecologia, mais integralizada com outras ciências, como: economia, filosofia, geografia, sociologia, teologia e muitas outras que poderiam ser elencadas. Destacando-se o aspecto econômico, que é uma ênfase na teoria de Guattari. Esta perspectiva vai ao encontro da visão ecológica de Boff:

[...] a ecologia é um saber das relações, interconexões, interdependências e intercâmbios de tudo com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. Nessa perspectiva, a ecologia não pode ser definida em si mesma, fora de suas implicações com outros saberes. Ela não é um saber de objetos de conhecimento, mas de relações entre os objetos de conhecimento. Ela é um saber de saberes, entre si relacionados. (BOFF, 2004, p. 17)

Na visão ecosófica, os equilíbrios naturais dependerão mais das intervenções técnicas, que podem ser instrumentais tantos as piores catástrofes quanto às evoluções flexíveis. Na via ecológica ambiental das três ecologias, o meio ambiente apresenta-se como ―orçamento de flexibilidades‖ (cf.BATESON, 1972, p. 18);

Guattari (2001), diz que para um programa de preservação ambiental, será necessária mais que uma ação ofensiva a fim de reconstituir as paisagens naturais da biosfera.

A ecosofia vai além da problemática ambiental: as práxis ecológicas devem possuir potenciais de subjetivação e de singularização em cada campo da vida cotidiana. Guattari faz uma distinção entre os conceitos de indivíduo, subjetividade e singularidade.

O termo indivíduo deve ser entendido como uma entidade abstrata

produzida pela modelização, serialização e fragmentação nas sociedades capitalistas. Já a subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação, sendo fabricada e modelada no registro social: os processos de subjetivação não são centrados em indivíduos ou em grupos, sendo duplamente descentrados. Os

processos de subjetivação implicam no funcionamento de

máquinas de expressão que são de caráter extraindividual e intrapsíquica, sendo uma função cuja fonte é o modo de organização social, política, econômica, jurídica e cultural. Singularidade, ou

processo de singularização, é a criação de novos territórios de

vida, cruzamento transversal inesperado de territórios já existentes, ação subversiva do desejo como semiotização inédita da existência social e não como representação ou simbolização. (GUATTARI, 2001, p. 8)

Assim os processos de heterogênese irão possibilitar o funcionamento conjunto das lutas em grande escala com as práxis ecológicas e as micropolíticas39 do desejo, sem que os diversos níveis de práticas sejam homogeneizados e ajustados uns aos outros sob uma tutela transcendente.

Bateson (1972) as práxis ecológicas devem ter:

39 A micropolítica é um modo de recortar a realidade a partir do campo das forças, na medida em que essas também produzem realidades, afetos, desejos. A micropolítica nos permite analisar cada saber, cada corpo, cada endereço, cada objeto sob uma perspectiva de produção de realidade a partir das relações de poder.

As fronteiras desta ―ecology of mind‖, não mais coincidem com os indivíduos que dela participam, ainda que a ―tomada de contexto‖ existencial dependa sempre de uma práxis instaurando-se em ruptura com o ―pretexto‖ sistêmico. A ecosofia propõe novos sistemas de valores superpondo, ao sistema de valorização capitalista, instrumentos de valorização baseados nas produções que não podem ser determinadas em função unicamente de um tempo de trabalho abstrato, nem de um lucro capitalista esperado. A promoção de valores do desejo resultará de um deslocamento generalizado dos atuais sistemas de valor e da aparição de novos pólos de valorização, nos quais a singularidade e a finitude serão levadas em conta pela lógica multivalente da ecologia mental e pelo princípio de ―Eros de grupo‖ da ecologia social. A proposta ético-estética da ecosofia é produzir uma subjetividade da ressingularização. (BATESON, 1972, p. 18)

Nessa perspectiva, portanto, a tarefa da ecologia social consiste em fazer atravessar da sociedade capitalista da era da mídia para uma era pós-mídia, onde os grupos-sujeito serão capazes de uma reapropriação da mídia para geri-la em um processo de singularizarão.

Por sua vez, cabe à ecologia mental produzir linhas de ruptura no projeto de uniformização midiática, reinventando a relação com o corpo, com o tempo e os espaços da vida cotidiana.

É na perspectiva de Guattari (2001) que se torna possível colocar a mídia no centro da crise ecológica contemporânea, com a potencialização do conceito de ecosofia. É sua a proposta que se apresenta como um dispositivo de subjetivação (funcionamento de uma organização) que atua em três campos, simultaneamente.

Guattari cita:

Como ciência dos ecossistemas, instrumento de revigoramento política e também engajamento ético-estético, na iminência de criar novos sistemas de valores a partir de suavidade entre os gêneros, as faixas etárias e as etnias. (GUATTARI, 2001, p. 36-71)

A ecologia não substitui outras ciências, mas se apresenta como um desafio da interconexão das mesmas. Cumprindo assim o seu papel de regulamentar o funcionamento da casa, o nosso planeta Terra, em todas as suas necessidades!