Nos vários tipos de pensamento de inter-relação, o que se pretende é relacionar a liturgia com a ecologia e suas questões conceituais com os discursos sobre a crise do meio ambiente presente na sociedade contemporânea, a fim de que situe o sujeito interpretante em particular e o ser humano em geral dentro da complexidade maior do universo criado. O físico Capra diz sobre a nova realidade e sua visão: ―A nova visão da realidade (...) baseia-se na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Esta nova visão transcende as atuais fronteiras disciplinares e conceituais‖. (2000, p.259.)
O pensamento sistêmico ou da "complexidade" é uma escola filosófica que enxerga o mundo como sendo um todo indissociável, propondo uma abordagem multidisciplinar para a construção do conhecimento. Ela nega a causalidade e aborda os fenômenos como totalidade orgânica. Este pensamento de MORIN, (cf. 2005. p. 175-176), a ecologia profunda de CAPRA, (2000) e a Ecologia Social de BOFF (1993), estão intrinsecamente ligados.
Boff cita sobre esta conexão como: ―A percepção da unidade do todo e da interligação de todos os seres evoca, como primeiro sentimento, o senso de fraternidade universal...‖ BOFF (1992). É uma visão holística, como pensa da vida, WEIL, (1996), isto é, relativa ao todo (hólos provém do grego e significa ―tudo / todos‖), ―[...] ―tudo interage com tudo em todos os pontos e em todas as circunstâncias... ―Em que há uma circularidade e uma inclusão de todas as relações e de todos os seres relacionados‖. (BOFF, 1992, p. 52)
Boff a define como ciência da relação: ―Ecologia é a relação, interação e dialogação de todas as coisas existentes (viventes ou não) entre si e com tudo o que existe, real ou potencial [...]‖ A questão ecológica remete a um novo nível de consciência mundial: a importância da Terra como um todo, o bem comum como bem das pessoas, das sociedades e do conjunto dos seres da natureza, o risco apocalíptico que pesa sobre todo criado. (1993, p. 15.)
Capra diz que esta ―interconexão da parte no todo se erradia para todas as áreas do saber, criando novos valores, transformando-os de auto-afirmativos para integrativos, em suma "um pensar mais equilibrado". Com base no pensamento e nos valores, compilamos da obra de CAPRA, (cf. 2000. p. 24-27), a tabela abaixo, nos orienta no tocante as divergências entre as mudanças de paradigmas com base na auto-afirmação e na integração para que, de forma mais pedagógica e simples possamos analisar essas divergências.
Pensamento Valores Auto- afirmativo racional análise reducionista linear Integrativo intuitivo síntese holístico não-linear Auto- afirmativo expansão competição quantidade dominação Integrativo conservaçã o cooperação qualidade parceria
Esse é um modelo de expressar a procura por um pensar e viver a vida como um todo. Como um conjunto de relações, como um grande ecosistema, num equilíbrio de inter-retro-relação entre todas as partes, na qual incluímos a vivência do Sagrado como um sistema maior de energias e trocas simbólicas e uma visão
Esse conjunto de práticas e pensamentos vem sendo chamado de pensamento ecológico, (KUHN, 1996) que é parte de um novo paradigma, ―designa toda uma constelação de opiniões, valores e métodos..., compartilhados pelos membros de uma sociedade, fundando um sistema disciplinar, mediante o qual esta sociedade se orienta a si mesmo e organiza o conjunto de suas relações‖. (cf. CAPRA, 2000, p. 24-27)
Diante desses desafios da pós-modernidade, a visão de Deus e espiritualidade têm ficado em segundo plano, onde o homem tem sido o centro de todas as coisas. Para Morin a crise ecológica, diz respeito à crise dos saberes, da identidade, do ser, da consciência humana, alienado da essência da vida, do mundo e de todo o Universo. É a crise do respeito com a vida humana, com seus valores e com a natureza. O pensamento complexo busca antes de qualquer coisa deve encarar o homem sob uma ótica multidimensional.
Morin diz sobre cinco caminhos que conduzem ao "desafio da complexidade‖, cito apenas dois:
O segundo caminho é a transgressão, pois, nas ciências naturais a abstração universalista elimina a singularidade, a localidade e a temporalidade não permitindo que a biologia atual conceba a espécie como um quadro geral do qual o indivíduo é um caso singular, o desenvolvimento da disciplina ecológica nas ciências biológicas mostra que é no quadro localizado dos ecossistemas que os indivíduos singulares se desenvolvem e vivem, e, por isso, não podemos trocar o singular e o local pelo universal, ao contrário devemos uni-los; a terceira avenida é a da complicação, que surge a partir do momento da percepção de que os fenômenos biológicos e sociais demonstram um número incalculável de interações, de inter-retroações (e nesse ponto podemos afirmar que a economia também está em inter-retroação permanente com todas as outras dimensões humanas), uma quantidade expressiva de misturas que o mais potente dos computadores não seria capaz de calcular. (cf. MORIN, 2005. p. 175-178)
Morin relembra Pascal (2003) ao afirmar que: ―a compreensão do todo só é possível através do conhecimento das partes, e só se pode conhecer as partes a partir do momento que se conhece o todo‖. Para ele as teorias científicas são organizadas a partir de princípios que não derivam da experiência, ou seja, são os chamados paradigmas.
Ele diz: ―Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele. Todo o conhecimento deve contextualizar seu objeto para ser pertinenteν "quem somos?‖é inseparável de "onde estamos", "de onde viemos', para "para onde vamos?‖, Isto é, tudo está interligado e não existe fora de seu contexto micro e macro. (cf. MORIN, 2000 p.6-10)
Moltmann também reconhece a questão integral do pensamento do todo e a questão mecanicista e diz:
A era da subjetividade e do domínio mecanicista do mundo chegou aos limites definitivos através da contínua destruição da natureza pelas nações industriais e pela crescente auto-ameaça da humanidade através do armamento nuclear. Nestes limites existe somente ainda uma alternativa à destruição universal: a comunhão ecológica universal, não-violenta, pacífica e solidária. (cf. 1993, p.14- 16)
Este modo de pensar para ele salvaria o homem e o planeta, o reconhecimento da integralidade para participar das relações de tudo aquilo que tem vida diante do Cosmos.