Resulta plausível que o adelantado Fernández de Lugo ou o licenciado Gonzalo Jiménez de Quesada Ŕ graças à sua educação formal Ŕ lessem as Cartas de Hernán Cortés antes de embarcar para América. É ainda provável que caísse em suas mãos alguma das notícias impressas relativas ao Peru que indicamos anteriormente. Mas não resta dúvida de que o rumor transmitido por meio da fala317 sobre as novas “descobertas” chegou a seus ouvidos, e aos de muitos outros membros da expedição de Lugo, alimentando as imaginações e aspirações de concretizar os dois principais sonhos dos espanhóis nas Índias: a elevação social e o lucro pessoal.318
314 VITORIA, Francisco de. “La conquista del Perú. Carta dirigida a Miguel de Arcos”. In: Relecciones sobre los
indios y el derecho de guerra. Madrid: Espasa Calpe, 1975, p. 20.
315 SOMEDA, Hidefuji. “Las Casas y el problema de la perpetuidad de la encomienda en el Perú”. In: Histórica,
vol. V, No. 2, 1981, p. 263-294. Las Casas acreditava que o império inca em sua totalidade devia ser restituído a Tito Cusi Yupanqui, um neto de Huayna Cápac, que foi o último Inca que governou antes da intrusão dos espanhóis. MACCORMACK, Sabine. On the wings of time. Rome, the Incas, Spain, and Peru. Princenton e Oxford: Princeton University Press, 2007, p. 55.
316 BRADING. Orbe indiano, op. cit., p. 46. Assim, a idealização de Francisco Pizarro viu se parcialmente
obstruída pelas guerras civis entre alamagristas e pizarristas.
317 Para um estudo do papel do rumor em um processo posterior da Nova Granada, mas com algumas
considerações aplicáveis ao conjunto do período colonial cf. EARLE, Rebecca. “Information and disinformation in late colonial New Granada”. In: The Americas, Vol. 54, No. 2, p. 167-184.
318 Sobre as principais aspirações dos conquista-dores cf. STERN, Steve. “Paradigmas de la conquista: historia,
historiografìa y polìtica”. In: Boletín del Instituto de Historia Argentina y Americana, No. 6, p. 7-39. O autor menciona outra poderosa aspiração Ŕ denomina-a utopia ou paradigma Ŕ que era a conversão religiosa. Sobre as motivações de Pedro Fernández de Lugo para viajar a Santa Marta cf. LUCENA SALMORAL, Manuel. “La capitulación de Fernández de Lugo para Santa Marta y su relación con la conquista del Río de la Plata”. In: MORALES PADRÓN, Francisco (coord.). I Coloquio de Historia Canario-Americano (1976). Las Palmas de Gran Canaria: Cabildo de Gran Canaria, 1976, p. 66-83.
Com efeito, no horizonte de expectativas319 dos europeus que participaram da invasão da região muísca, o referente do Peru era o que primava. Em primeira instância, sabe-se que a aproximação ao país dos incas teve uma repercussão imediata na governação de Santa Marta, como se ilustra mediante a seguinte anedota. Em 1528, um navio espanhol destinado a Sevilha aportou na cidade. Não era raro que tal evento acontecesse, pois Santa Marta recebia com certa regularidade barcos dirigidos à Península ibérica. Porém, nesta ocasião a embarcação gerou uma grande excitação, já que carregava alguns dos “tesouros” que Francisco Pizarro e seus homens haviam coletado no litoral do Pacífico Ŕ em incursões perto da atual cidade de Tumbes Ŕ, os quais continham peças de cerâmica, vasilhas de metal, roupa fina e algumas lhamas, descritas como “ovelhas” nas fontes. Eram as primeiras evidências do império andino. Pizarro abrigava a esperança de que esses obséquios agradassem aos reis e lhe ajudassem a obter os direitos sobre as comarcas recém-percorridas.320
Pouco depois da passagem do barco, Rodrigo Álvarez Palomino, governador de Santa Marta naquele momento, se apressou em organizar uma força expedicionária com o objetivo de localizar a origem dos chamativos animais antes do retorno de Pizarro. De acordo com uma
relação anônima que repousa no Arquivo de Índias em Sevilha:
Palomino […] había dicho a algunos amigos suyos, que determinaba de no volver a Santa Marta hasta llegar a donde vinieron dos ovejas que habían pasado por allí, por Santa Marta, que venían del Peru para la Corte. Y estas eran dos ovejas que Pizarro había hallado en los primeros descubrimientos y las enviaba a que las viesen […] diciendo el Palomino que pensaba, con la ayuda de Dios, llegar primero a donde ellas se criaban, que no Pizarro ni los de la Mar del Sur.321
O governador García de Lerma, sucessor de Álvarez Palomino, continuou com a mesma fixação e organizou cerca de doze explorações ao sul. Tentativas idênticas replicaram- se desde o Darién, a governação de Cartagena e as Antilhas.322 Todavia, foram infrutuosos, pois careciam de suficientes homens, fundos e abastecimentos, e estavam baseados em ideias
319 Sobre este conceito cf. KOSELLECK, Reinhart. “ „Espaço de experiência‟ e „horizonte de expectativa‟: duas
categorias históricas”. In: Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006, p. 305-327.
320 Cf. FRIEDE, Juan. “Las ideas geográficas en la conquista del Nuevo Reino de Granada”. In: Revista
Geográfica [Instituto Panamericano e Geografía e Historia]. Tomo 15, No. 41, p. 49; LUCENA SALMORAL, Manuel. Ximénez de Quesada, el caballero de El Dorado. Madrid: Ediciones Anaya, 1989, p. 26-27; FRANCIS, Michael. Invading Colombia: Spanish accounts of the Gonzalo de Quesada expedition of conquest. Pennsylvania: Pennsylvania State University Press, 2007, p. 1.
321 Anônimo. “Relación de Santa Marta”, op. cit., p. 133.
322 FRIEDE. “Las ideas geográficas”, op. cit., p. 49. FRANCIS. Invading Colombia, op. cit., p. 9. Friede fornece
geográficas que presumiam que Santa Marta era uma ilha e que existia apenas uma curta distância entre os mares do Norte e o do Sul.323
O atrativo do Peru continuou crescendo na década de 1530, quando os rumores da terra dos incas já estavam confirmados, provocando um êxodo que colocou a sorte de Santa Marta em risco.324 A relação acima citada oferece um testemunho impactante, que nos faz evocar cenas semelhantes da atualidade, como os balseros cubanos que se lançam em barcas improvisadas à procura da costa da Flórida, ou imigrantes do norte da África arriscando-se nas águas do Mediterrâneo para tentar chegar à Europa:
Estando las cosas en este estado, con las grandes nuevas que venían del Peru cada día, viéndose los conquistadores de Santa Marta pobres y fatigados y pensando ser gente que podían pasar por todas partes, estaban todos desabridos y deseosos de se ir al Peru. Había muchos que se echaban a nado, pasando navíos por allí, para que los navíos los tomasen, por no dar el gobernador licencia a ninguno para que saliesen de la tierra, y el gobernador estaba muy fatigado porque no se podía valer con la gente.
325
Assim, quando a expedição de Pedro Fernández de Lugo partiu da ilha de Tenerife em direção à América do Sul em 1535, a situação da província de Santa Marta era lamentável e o fascínio do Peru muito forte. Nas capitulações que Lugo negociou com a Coroa, não há menção explícita ao Peru, mas especificou-se que a governação de Santa Marta se estendia de “mar a mar” e o adelantado comprometia-se a construir seis embarcações para remontar o curso do rio Magdalena.326 Do ponto de vista do rei e seus ministros, parece que o principal interesse era a busca de uma via terrestre mais expedita entre o Caribe e as terras capitaneadas por Pizarro, que diminuiria as despesas e o tempo da viagem. Entretanto, desde a ótica do próprio Lugo e seus companheiros, resultava mais atrativo que o impulso para arriscar suas vidas em direção ao sul fosse o de achar outros “Perus” e “Cajamarcas”, ao invés de uma simples passagem terrestre para um lugar que já havia sido penetrado e saqueado. Ou seja, topar com novas terras. Assim se deduz da documentação produzida por Quesada e sua hoste.327 Na recriação do saque da residência do cacique de Tunja, cheia de peças de ouro, o coronista Juan de Castellanos versifica as seguintes expressões por parte de um dos espanhóis em presença de Quesada: “¡Pirú! ¡Pirú! ¡Pirú! Buen Licenciado, que ¡voto a tal! que es outro
323 FRIEDE. “Las ideas geográficas”, op. cit., p. 45-66.
324 FRANCIS. Invading Colombia, op.cit., p. 2. FRIEDE., “Las ideas geográficas.”, op. cit., p. 45-66. Palacios e
Safford, pelo contrário, falam em superpopulação da província de Santa Marta. PALACIOS, Marco; SAFFORD, Frank. Colombia. País fragmentado, sociedad dividida. Bogotá: Editorial Norma, 2002.
325Anónimo, “Relación de Santa Marta”, op. cit., p. 154.
326 O texto das capitulações econtra-se em FRIEDE. Documentos inéditos para la historia de Colombia, T. III.
Bogotá: Academia Colombiana de Historia, 1956.
Caxamalca”.328 Em outra relação da época relata-se que, ao atravessar a zona de Neiva e Timaná Ŕ um pouco mais ao sul do altiplano muísca Ŕ, os caudilhos de Belalcázar disseram-lhe que haviam encontrado “outro México”.329
Por outra parte, o referente, ou melhor, a experiência330 do Peru foi levada efetivamente Ŕ e não de forma imaginária Ŕ ao Novo Reino por Belalcázar e sua gente, os chamados
peruleros, que haviam passado previamente pelo Tahuantinsuyo.331 Como vimos, Belalcázar foi um dos invasores de Cajamarca que resolveu seguir sua própria senda em direção ao norte, afastando-se do clã pizarrista. Em sua longa travessia, ele e seus companheiros hispanos não andavam sozinhos. Com eles ia um enorme contingente de indígenas denominados yanaconas procedentes do Chinchaisuyu,332 que combateram nas filas dos conquista-dores e se assentaram nas atuais terras colombianas. Ou seja, ao Novo Reino de Granada chegaria um bom número de habitantes incaicos, levando consigo sua bagagem cultural.333 Talvez pudéssemos aplicar a categoria de conquista-dores índos para alguns deles.
A percepção dos peruleros não era muito favorável por parte dos primeiros invasores do Novo Reino de Granada, que os enxergavam como gente chegada para complicar o que já havia sido repartido. Juan de Castellanos menciona o seguinte dos “maus conselheiros” de Hernán Pérez de Quesada durante a ausência de seu irmão Gonzalo: “venidos del Perú, de cuya parte, pendetur omne malum. ¡Dios quisiera que nunca gente dél en esta tierra hubiera puesto pies a gobernallo! Hubiéranse excusado pesadumbres, pues todos ó los más que vienen traen un olor y aun sabor de cherinolas”.334 Na Espanha também surgiu uma imagen negativa dos
peruleros, sobretudo a partir da guerra civil entre pizarristas e almagristas, e dos desafios
328 CASTELLANOS, Juan de. Elegías de varones ilustres de Indias. Madrid: M. Rivadeneira, 1857, p. 176. Voto
a tal era uma expressão de admiração, usual nos livros de piratas e cavaleiros. Na obra de Juan de Castellanos, que foi uma das primeiras corônicas escritas sobre o Novo Reino de Granada, abundam as referências ao Peru, enquanto as relativas ao México escasseiam.
329 “Relación de los encuentros que lucieron en el Perú el Adelantado Benalcazar, don Pedro de Alvarado,
Almagro, Pizarro y otros capitanes. Trata sobre la entrada en el Dorado; sin fecha ni firma”. In: Colección de
documentos para la historia de Chile desde el viaje de Magallanes hasta la batalla de Maipó, 1518-1818.
Coletados y publicados por José Toribio Medina, Tomo IV. Santiago de Chile: Imprenta Ercilla, p. 192.
330 No sentido de Reinhart Koselleck.
331 Perulero era um vocábulo polissêmico. Além de ser aplicado para os primeiros invasores do Tahuantinsuyo,
também se usou para descrever mercadores peruanos, seus agentes na Península, e comerciantes espanhóis com interesses econômicos nos Andes centrais. Nos três casos tinha uma conotação pejorativa. Cf. FRANCIS, Michael (ed.). Iberia and the Americas: Culture, politics and history, Vol. 1. Santa Barbara: ABC-Clio, 2006, p. 863.
332 O Chinchaisuyu correspondia ao suyu ou província mais populosa do Tahuantinsuyu, localizado na área
ocupada pelo atual Equador até a divisa com a Colômbia.
333MATALLANA PELÁEZ, Susana, “Yanaconas: indios conquistadores y colonizadores del Nuevo Reino de
Granada. Siglo XVI”. In: Fronteras de la historia, Vol. 18, No. 2, 2013, p. 21-45.
334 CASTALLEANOS, Elegía de varones, op. cit., p. 178. A palavra cherinola tem uma conotação de grupo de
lançados aos representantes da Coroa no marco da aplicação das chamadas Leis Novas em 1544.335