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7. Deltakerrelasjoner og deltakerfellesskap

7.1. Spillere og spillerfellesskap

7.1.1. Den ambivalente kroppen

A chamada “conversão” de Las Casas foi inspirada nas denúncias que os primeiros missionários dominicanos enviados à Hispaniola haviam feito antes dele. A primeira missão dominicana chegou à ilha em 1510, integrada por três sacerdotes (Pedro de Córdoba, Antón de Montesinos e Bernardo de Santo Domingo) e um irmão leigo. Um ano depois, Montesinos pronunciou um sermão que se tornaria ícone das mitologias de defesa dos indígenas e mesmo da gênese dos direitos humanos, recolhido por Las Casas em Historia de las Indias e citado inúmeras vezes desde a publicação da obra.596 Essa foi a primeira acusação veemente, pública e documentada, contra as ações dos encomenderos por parte de um religioso em América. Mas

Vários biógrafos sublinham o bom tratamento que Las Casas deu aos indígenas que tinha encomendados, mas não há provas acerca disso.

594 Para o demógrafo Levi-Bacci o principal fator da hecatombe demográfica dos taínos não foram as crueldades

dos espanhóis Ŕ que não nega Ŕ nem as epidemias, mas sim a profunda desarticulação das estruturas sociais causadas pela implementação da ordem colonial. LIVI-BACCI, Massimo. “The depopulation of Hispanic America after the conquest”. In: Population and Development Review, Vol. 32, No. 2, 2006, p. 213.

595 Citado por JULIÁN, “La conquista”, op. cit., p. 20.

596 Entretanto, Las Casas não escutou o sermão, portanto sua versão deve ser uma reconstrução que segue a pauta

não foi a única. A partir daí, os dominicanos do Caribe enviaram outros memoriais ao rei protestando pelo maltrato dos ameríndios, instaurando assim um modelo de apelação que Las Casas adoptou depois. O segundo componente desse modelo Ŕ além dos memoriais por escrito Ŕ seria o envio de delegados para exercer pressão direta na Corte.597

Vale a pena anotar que, desde o Medievo, os dominicanos tinham uma tradição de apostolado missionário-intelectual e, junto com os franciscanos, participaram ativamente na expansão europeia com um papel ambíguo, tanto de justificadores quanto de críticos morais da mesma.598 Por exemplo, membros das ordens mendicantes tentaram frear a escravização da população guanche originária das ilhas Canárias. Por outra parte, os primeiros missionários dominicanos da Hispaniola haviam sido educados na Universidade de Salamanca, onde estava ocorrendo uma renovação intelectual da ordem, liderada por Francisco de Vitoria e seus discípulos, que integraram a chamada Escola de Salamanca. Eles ofereceram a primeira elaboração filosófica-teológica sistemática da liberdade dos nativos americanos durante as décadas de 1520-1530, atuando como o braço erudito do coletivo pacifista.599

Desse modo, quando Las Casas aproximou-se de Pedro de Córdoba e Antón de Montesinos em 1514, e quando ingressou formalmente na Ordem dos Pregadores oito anos depois, usufruiu de umas modalidades de ação já em processo de construção perante os poderosos. Com o aval de Córdoba e a companhia de Montesinos, Las Casas realizou sua primeira estância na Corte durante os anos 1515-1517, tendo audiências privadas com os monarcas e seus achegados: primeiro com o senil Fernando; depois de sua morte, com os dois regentes designados, o cardeal Francisco Jiménez de Cisneros e Adriano de Utrecht, futuro papa Adriano VI; enfim, com Carlos de Gante e seus conselheiros flamencos.600 Em 1516, Las

597 Para uma interessante análise cf. do ativismo eclesiástico hispânico cf. STAMATOV, Peter. The origins of

global humanitarianism. Religion, empires, and advocacy. Nueva York: Cambridge University Press, 2013.

598ORIQUE, David Thomas, O.P. “A comparison of the voices of the Spanish Bartolomé de Las Casas and the

Portuguese Fernando Oliveira on just war and slavery”. In: E-Journal of Portuguese History, Vol. 12, No. 1, June 2014, p. 87-118

599 Lembre-se que a família Fernández de Lugo participou na ocupação violenta do arquipélago canário. No caso

da Hispaniola, os religiosos que aí estavam antes dos dominicanos pertenciam a várias ordens como os mercedários e os franciscanos. Ao que parece, eles não elevaram denúncias contra as injustiças dos colonos. Porém, houve um protesto isolado por parte de um leigo chamado Cristóbal Rodrìguez, conhecido como “la lengua”, que fazia parte do cìrculo de Colombo. LOSADA. Bartolomé de las Casas, op. cit., p. 60.

Casas foi nomeado “Protetor e defensor dos ìndios”, um tìtulo que lhe permitiria reunir grande quantidade de queixas sobre os desmandos da colonização.601

Naquela conjuntura Las Casas também inaugurou sua carreira como escritor Ŕ para uma audiência privada no começo Ŕ de um enorme corpus manuscrito que incluiria cartas, petições, tratados, pareceres, projetos, relatórios e obras maiores.602 Com efeito, a escrita e a leitura foram a partir de então duas atividades centrais para clérigo. Destaca-se o Memorial de

remedios para las Indias (1516),603 a primeira de uma longa série de proposições de “denúncias e remédios”, que anunciavam as duas caras do proselitismo lascasiano: o sistemático assinalamento dos excessos de seus conterrâneos na América, e a propostas para solucionar esses problemas. Não obstante, os mais poderosos partidários dos encomenderos na Corte, Juan Rodríguez de Fonseca e Lope de Conchillos, opuseram grande resistência à ação do clérigo pacifista e seus simpatizantes.604

Para os propósitos da presente pesquisa resultam de maior importância as denúncias do que os remédios por via da ação e a recomendação. Com respeito a esses últimos, limitamo-nos a indicar algumas linhas gerais.605 Nas duas décadas seguintes, Las Casas alargou sua agenda conforme o expansionismo hispânico atingia novas fronteiras. Episódios de relativos êxitos e fracassos sucederam-se com certa regularidade. Assim, entre 1518-1522 orientou seu foco a Cumaná, na parte norte da atual Venezuela Ŕ na vizinhança da governação de Santa Marta Ŕ onde seu plano de criar uma zona de evangelização livre da intervenção dos colonos malogrou.606 Na década de 1530, embarcou rumo ao Peru com uma comitiva de dominicanos, com o intuito de tomar parte na evangelização da terra dos incas. Entretanto, a viagem não se efetivou e ele resolveu radicar-se na região de Nicarágua por dois anos (1535-1536), onde continuou a reprovar a escravização dos aborígenes. Nos quatro anos seguintes viajou pela

601 Sobre o protetorado dos índios cf. CUNILL, Caroline. “Fray Bartolomé de las Casas y el oficio de defensor de

indios en América y en la Corte española.” In : Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Edição digital: http://nuevomundo.revues.org/63939. Última consula 15-VI-2016.

602 As obras maiores são a referida Historia de las Indias e a Apologética historia sumaria. A primeira foi

elaborada entre 1527-1559 e publicada postumamente em 1875. A segunda foi escrita em sua maior parte entre 1527 e 1531 na Hispaniola, e impressa de forma integral em 1909. Nenhuma dessas obras aborda o Novo Reino de Granada.

603 Tratava-se de um plano de reforma que propunha a exploração agrícola por lavradores castelhanos e indígenas

livres. O texto inscreve-se na corrente de literatura utópica do momento e tem duas versões, de 1516 e 1518. Lembre-se que em 1516 foi publicada a Utopia de Thomas More.

604 Desenvolveremos esse tema no capítulo 5.

605 Para um bom resumo das três etapas do reformismo de Las Casas cf. ADORNO, Rolena. The polemics of

possession in Spanish American narrative. New Haven e Londres: Yale University Press, 2007, capítulo 3.

606 A principal causa foi o ataque dos nativos, reagindo às agressões dos colonialistas na região; muitos colonos e

Mesoamérica, onde a luta entre pacifistas e encomenderos estava em alta, e seu projeto de predicação pacífica em Tuzulutlán (atual Vera Paz, em Chiapas) obteve bons resultados.607