7. Deltakerrelasjoner og deltakerfellesskap
7.2. Deltakere og produksjonsfellesskap
7.2.3. Anerkjennende fellesskap
Dentre os opúsculos publicados por Las Casas entre 1552-1553, a Brevíssima é o mais conhecido e o que teve um maior impacto, não só durante a vida do frade, mas também ao longo dos séculos seguintes.685 De fato, tornou-se a obra do período colonial hispânico mais bem conhecida internacionalmente e um dos títulos chaves da biblioteca indiana. Mais importante ainda, a apaixonada denúncia de seus compatriotas viria a fornecer um dos insumos fundamentais da chamada “lenda negra” anti-espanhola, principalmente nas sucessivas
679 A hipérbole é uma figura de estilo que exagera propositadamente um conceito para definir algo de forma
dramática, transmitindo uma ideia aumentada.
680 Brevíssima, capìtulo “Del nuevo reino de Granada”. 681 Ibid., Introdução.
682 Essa é a hipótese de DOMÍNGUEZ REBOIRAS. “Y hasta agora no es poderoso”, op. cit. Na sua recente
biografia de Las Casas, Bernat Hernández apoia a mesma hipótese.
683 Com efeito, Sepúlveda se apressou em denunciar o fato num manuscrito intitulado: “Proposiciones temerarias,
escandalosas y heréticas que notó el Dr. Sepúlveda en el libro de la Conquista de las indias que fray Bartolomé de Las Casas, obispo que fue de Chiapas, hizo imprimir sin licencia en 1552”, grifos nossos.
684 A Brevíssima não seria impressa novamente em castelhano até 1646. Adorno. The polemics of possession, op.
cit., p. 78.
685 Para as edições, reimpressões e traduções, cf. ibid.; MARTÍNEZ TORREJÓN. “Fray Bartolomé de Las Casas”,
traduções e reedições em outros idiomas por parte das potências rivais.686 Dentre elas, a mais impactante foi, sem dúvida, a edição da Brevíssima feita pela casa editora de Theodor de Bry e seus filhos, cujas gravuras de cenas de brutalidade espanhola potenciaram ainda mais a força da linguagem verbal e atingiram um amplo público.687 Pode-se argumentar que as ilustrações da Brevíssima feitas por De Bry converteram-se em ícones visuais do ideário lascasiano. Por outro lado, foram as primeiras Ŕ e uma das poucas Ŕ representações iconográficas dos indígenas muíscas e dos conquista-dores do Novo Reino de Granada que circularam impressas no Velho Continente.
686 Sobre a lenda negra existem diferentes estudos. Remetemos à discussão e bibliografia Ŕ embora um pouco
desatualizada Ŕ de KEEN, Benjamin. “The Black Legend revisited: assumptions and realities”. In: The Hispanic
American Historical Review, Vol. 49, No. 4, 1969, p. 703-719. Não conhecemos uma análise específica da lenda negra para o caso neogranadino. Um estudo clássico sobre a lenda negra e o papel de Las Casas é CARBIA, Rómulo. Historia de la leyenda negra hispano-americana. Madrid: Marcial Pons Historia, 2004 (1ª ed. 1943).
687 Sobre a família De Bry e a reedição da Brevíssima cf. VAN GROESEN, Michiel. The representations of the
overseas world in De Bry collection of voyages (1590-1634). Leiden y Boston: Brill, 2008, p. 117-118. Para uma interessante análise das gravuras cf. FREIRE, Deolinda de Jesus. “Theodor de Bry e a narrativa visual da
Brevísima relación de la destrucción de las Indias”. In: Revista USP. No. 77, 2008, p. 200-215. Figura 7. Ilustração da Brevíssima relação publicada pela família De Bry em latim, intitulada Narratio regionum indicorum (Fráncfort del Meno, 1598). Representa a tortura do cacique Bogotá por parte de Quesada e seus homens.
A Brevísima estava dedicada ao príncipe Felipe e seu objetivo explícito e imediato era sacudir a consciência da monarquia para que cessassem as conquistas, sob a premissa de que o rei estava mal informado em relação ao que ocorria na América, e a mera notícia das injustiças bastaria para dissipá-las.688 Entretanto, cabe apontar outro propósito subjacente: responsabilizar a Coroa pelo estado lamentável das Índias e impressionar um público mais vasto por meio da eficácia da obra impressa a respeito da “destruição” que estava tendo lugar, e que se não parasse, levaria à ruina da Espanha.689
Las Casas investia-se a si mesmo como testemunha privilegiada dos excessos dos
encomenderos e conquista-dores. As injustiças e atrocidades vão sendo elencadas, região após região, e em ordem cronológica, ao longo de um período de quarenta anos (1502-1542), que coincidem com o arco temporal da estadia de Las Casas na América até o momento da redação da obra.690 A morte da rainha Isabel, ocorrida em 1504, assinala o começo do verdadeiro extermìnio da população aborìgene: “porque hasta entonces solo en esta isla [Hispaniola] se habían destruido algunas provincias por guerras injustas, pero no del todo”.691 Desde então, o autor estabelece uma tendência de incrementum magnitudo, de acordo com a qual as tiranias e opressões cresciam exponencialmente e se diversificavam conforme avançava a invasão, e os vilões eram a cada vez piores.692 É importante termos presente esse recurso retórico para interpretar o conteúdo relativo às terras muíscas.
Em geral, os capítulos são de extensão proporcional e cada um deles versa sobre uma região de colonização, começando pela ilha Espanhola e terminando pelo Novo Reino de Granada, que inclui a governação de Popayán e um epílogo sem solução de continuidade.693 O
688 Cf. o “Prólogo” da Brevíssima, que em realidade é mais uma dedicatória. Las Casas pede ao príncipe Felipe
para ser um canal de intermediação com o imperador e o pressione para agir: “Lo cual visto [...] Vuestra Alteza tenga por bien de com eficacia suplicar e persuadir a Su Majestad [o rei Carlos] que deniegue a quien a las pidiere tan nocivas y detestables empresas [as conquistas]...”.
689 Subscrevemos essa tese de Martínez Torrejón e Domínguez Reboiras. Na Brevíssima, destruição é sinónimo de
despopulação.
690 A ordem cronológica não é totalmente estrita, mas corresponde grosso modo com o arco da expansão
castelhana.
691 Brevíssima, capìtulo “De la isla Española”. O fato da “destruição” sistemática dos indìgenas começar a partir
do decesso da rainha Isabel deve-se ao “grandìssimo cuidado e admirável zelo” da soberana com “aquelas gentes”. Ibid.
692 Las Casas estabelece essa “regra” já no primeiro capítulo, e a recalca várias vezes ao longo do texto,
reforçando assim sua eficácia retórica.
693 1. De la isla Española Ŕ 2. Los reinos que había en la isla Española Ŕ 3. De las dos islas de San Juan y Jamaica
Ŕ 4. De la isla de Cuba Ŕ 5. De la Tierra Firme Ŕ 6. De la provincia de Nicaragua Ŕ 7. De la Nueva España [general] Ŕ 8. De la Nueva España [particular] Ŕ 9. De la provincia y reino de Gautimala Ŕ 10. De la Nueva España y Pánuco y Jalisco Ŕ 11. Del reino de Yucatán Ŕ 12. De la provincia de Santa Marta Ŕ 13. De la provincia de Cartagena Ŕ 14. De la Costa de las Perlas y de Paria y de la isla de la Trinidad Ŕ 15. Del río Yuyapari Ŕ 16. Del
enredo opõe as ações e padecimentos de dois macro-personagens antagônicos: os indígenas e os espanhóis.694 Ecoam em Las Casas diferentes imagens da tradição clássica e judeu-cristã na caracterização de cada grupo. Quanto à representação dos primeiros, chamados de índios ou
naturais, destaca sua idealização, associada ao topos do bom selvagem.695 Cabe ressaltar que o recurso retórico da comparação entre os indígenas e os habitante da mítica arcádia ou idade de ouro imaginada por autores gregos e romanos, já havia sido explorada nas crônicas de Colombo e Mártir de Anglería.696 Porém, Las Casas dá a esse topos a máxima expressão. Para o dominicano não existem traços de maldade nos nativos americanos, e qualquer resposta violenta aos espanhóis é justificada como uma legítima defesa. Na introdução lemos que Deus os criou:
…los más simples, sin maldades ni dobleces, obedientísimas, fidelísimas a sus señores naturales y a los cristianos a quien sirven; más humildes, más pacientes, más pacíficas y quietas, sin rencillas ni bollicios, no rijosos, no querulosos697, sin rancores, sin odios, sin desear venganzas, que hay en el mundo.
Son así mesmo las gentes más delicadas, flacas y tiernas en complisión698 y que menos pueden sufrir
trabajos, y que más fácilmente mueren de cualquiera enfermedad; que ni hijos de príncipes y señores entre nosotros, criados en regalos y delicada vida no son más delicados que ellos, aunque sean de los que entre ellos son de linaje de labradores.699
Os indígenas também são assemelhados à imagem cristã dos mansos cordeiros, e em alguns momentos de anjos.700 Em geral, são mostrados como agentes passivos e em total desvantagem perante os invasores. Outros aspectos que vale a pena considerar é a reiteração da grande abundância de população nativa antes da invasão, assim como a rudimentar cultura material.701 Destarte, nas páginas da Brevíssima, Las Casas configura um índio genérico com pouquíssimas diferenças entre as múltiplas regiões e etnias, que respondeu de forma semelhante aos intrusos, geralmente na ordem da passividade.702
reino de Venezuela Ŕ 17. De las provincias de Tierra Firme por la parte que se llama la Florida Ŕ 18. Del Río de la Plata Ŕ 19. De los grandes reinos y grandes provincias del Perú Ŕ 20. Del nuevo reino de Granada. Conservamos a grafia original.
694 Deve-se notar que nesse grupo figuram alguns conquista-dores não espanhóis, como os da Venezuela.
695 A expressão bom selvagem não é totalmente rigorosa do ponto de vista histórico, porém, descreve
corretamente um dos estereótipos dos nativos americanos que começava a aparecer.
696 Mencionamos esse aspecto no capítulo 2. 697 Belicosos.
698 Constituição.
699 Brevissima, Introdução.
700 “…recibiéronlos los indios como ángeles del cielo”. Brevíssima, capìtulo “De la costa de las perlas y de Parìa y
laisla de Trinidad”.
701 Por exemplo, a maioria dos índios descritos na Brevíssima andam desnudos, inclusive os de regiões frias como
o Novo Reino de Granada.
702 Essa imagem genérica e elementar dos indígenas foi-se tornando mais complexa nas obras maiores de Las
No que diz respeito aos europeus, são representados como monstros malvados orientados unicamente pela cobiça e pela ambição, sem remorso nenhum por suas ações. O termo mais usado para descrevê-los é tiranos, seja em sentido análogo ao moderno como agente da opressão e crueldade, ou bem aplicado àqueles que exercem um domínio injusto.703 Também são denominados ladrões e salteadores. A caracterização como diabos ou demônios reserva-se para os piores conquista-dores e os episódios mais extremos. Assim, no capítulo concernente à Venezuela lemos: “Han asolado, destruido y despoblado estos demonios encarnados más de cuatrocientas leguas de tierras felicísimas, y en ellas grandes y admirables provincias”.704
Outro aspecto a levar em consideração tem a ver com a elipse do nome próprio dos conquista-dores, que contrasta com o a nominação de vários senhores indígenas. Convém lembrar que, no discurso poético, o anonimato tem o valor de afronta. Quiçá a finalidade de Las Casas era excluir esses personagens da fama e glória da história, num momento em que as narrativas do coletivo encomendero tentavam fazer justamente o contrário.705 Nem mesmo os “grandes” condutores da invasão como Pizarro ou Cortés são referidos pelos sobrenomes. Dessa forma, o frade dominicano constrói a figura dos anti-heróis anônimos do paraíso tornado inferno das Índias castelhanas.706