Durante o mesmo período de espera em Cartagena, dois capitães de infantaria da hoste de Quesada, chamados Juan de San Martín e Antonio de Lebrija, que viajavam com o
licenciado rumo à Península com suas consideráveis partes do botim, escreveram a primeira
relação sobre a invasão do Novo Reino, a qual foi encaminhada ao Conselho de Índias através da Real Audiência de Santo Domingo.427 O imperador Carlos V foi informado da mesma por meio de um resumo elaborado pelo relator do Conselho.428 Eram as primeiras notícias de certa extensão sobre os muíscas que chegavam à Corte, depois das cartas de Lebrón.
San Martín e Lebrija eram conquista-dores com certa experiência nas Índias, e participaram em explorações pelo Rio Magdalena antes da expedição de Fernández de Lugo. Do primeiro, sabe-se que nasceu em Burgos e tomou parte nas guerras de Itália antes de cruzar o Atlântico. O segundo era natural de Extremadura e neto de Elio Antonio de Nebrija, considerado o principal humanista espanhol do século XVI e autor de várias obras de grande significado histórico, como a famosa Gramática castelhana de 1492.429 Depois da viagem de
426 Segundo a anotação marginal no documento, cf. FRIEDE, Documentos inéditos para la historia de Colombia,
T. III. Bogotá: Academia Colombiana de Historia, 1956, p. 20. Pedro de Heredia conseguiu uma segunda capitulação de Cartagena e apresentou no Conselho de Índias um arrazoado para provar que “las tierras de Bogotá que llaman Nuevo Reino de Granada, caen y se incluyen dentro de los lìmites de la dicha provincia de Cartagena”. Citado por HERRERA ÁNGEL, Marta. Popayán, la unidad de lo diverso. Territorio, población y poblamiento en
la provincia de Popayán, siglo XVIII. Bogotá: Universidad de los Andes, 2006, p. 46.
427 Existem várias transcrições e edições dessa relação. A mais cuidadosa é “Relación del Nuevo Reyno: carta y
relación para Su Magestad que escriben los oficialesde [sic] V(uest)ra M(ages)t(ad) de la provincia de Santa Marta (1539). In: TOVAR PINZÓN, Hermes. Relaciones y visitas a los Andes. S. XVI. T.III. Bogotá: Instituto Colombiano de Cultura Hispánica, 1995, p. 93-117.
428 Tratar-se-ia da relação de outra relação, como se pode constatar pelo tìtulo do documento: “Relación de uma
carta [de relación] que los capitanes Juan de San Martín y Antonio de Lebrija, tenientes de oficiales que han sido en la provincia de Santa Marta, escriben a Vuestra Majestad acerca de lo sucedido en esta provincia”, in: FRIEDE. Documentos inéditos, T. V, op. cit., p. 262-265.
429MARTÍN BAÑOS, Pedro. “Frey Marcelo de Lebrija (1479?-1543), primogénito del humanista Antonio de
Nebrija. Ensayo bio-bibliográfico (I)”. In: Revista de Estudios Extremeños, T. LXIII No. 2, 2007, p. 617-654; idem. “Documentos referentes al humanista Antonio de Nebrija y sus descendientes en el Legado Paredes del Archivo Histórico Provincial de Cáceres”. In: CHAPARRO GÓMEZ, César; MAÑAS NÚÑEZ, Manuel; ORTEGA SÁNCHEZ, Delfín (coords.). Nulla dies sine línea. Humanistas extremeños: de la fama al olvido. Cáceres: Universidad de Extremadura, 2009, p. 197-217. Chama-nos a atenção que esses dois
1539, tanto San Martín quanto Lebrija ficaram na Espanha.430 Ao que parece, os dois autores eram semicultos, e nenhum deles pode ser considerado um “homem de letras”.
artigos do historiador espanhol Pedro Martín Baños não sejam citados na historiografia colombiana e que, portanto, o parentesco entre o capitão Antonio de Lebrija e o humanista Nebriga seja ignorado.
430 Lebrija morreu pouco depois de chegar, em 1540 ou 1541. Desconhece-se a data de morte de San Martín.
Figura 6. Primeiro folho de uma das cópias da relação de Lebrija e San Martin. AGI, Patronato, 27, R. 15.
O documento de Lebrija e San Martín foi consultado e copiado verbatim por Fernández de Oviedo, naquele momento coronista real e alcaide da Fortaleza de Santo Domingo. Além dessa versão, conservam-se duas cópias feitas por diferentes escribas da mesma relação no Arquivo Geral de Índias.431 Ao cotejar rapidamente essas cópias com a transcrição de Oviedo constata-se uma significativa correlação, o que indica que ele se ateve ao texto original quase totalmente. O historiador, ademais, recebeu informação de viva voz de outros dois participantes da mesma entrada: o capitão de infantaria Juan del Junco e o capitão de bergantim Gómez del Corral.432 Esses dois relatórios orais e escritos foram usados por Oviedo na confecção da segunda parte da sua Historia general y natural de Indias, que embora estivesse pronta em meados do século XVI, permaneceu inédita até três séculos depois.433
Mais uma relação dos eventos da expedição de Quesada, datada cerca de dez anos depois das supracitadas (ca. 1550), é atribuída a outro capitão de bergatim da expedição de Quesada: Antonio Díaz Cardoso.434 É conhecida como “Relación anónima” ou “Relación de Santa Marta” e constitui outra fonte relativamente minuciosa sobre os muìscas e sua “conquista”.435 Diferentemente da relação de Lebrija e San Martín, não foi conhecida por Fernández de Oviedo, permanecendo inédita até 1916. Díaz Cardoso era português e também chegou às Índias antes da armada de Lugo, tomando parte em várias entradas no espaço litorâneo de Santa Marta. Ao contrário dos outros capitães de Quesada comentados, ficou no Novo Reino e se tornou encomendero.
431 No Arquivo de Índias de Sevilha (AGI), conservam-se duas cópias da relação de Lebrija e San Martín feitas
por diferentes copistas. A primeira encontra-se no catálogo com o seguinte tìtulo: “Relación descubrimiento de Santa Marta” (Patronato, 27, R. 14); possui a data errada de 1536. A segunda figura no catálogo como “Relación descubrimientos provincia de Santa Marta” (Patronato 2, 27, R. 15). Ambos os documentos estão digitalizados em https://www.archivesportaleurope.net. Não existe um estudo comparativo sobre essas duas cópias, nem sua correlação com a versão oferecida por Oviedo.
432 Enquanto Gómez del Corral chegou às Índias com a armada de Fernández de Lugo, Juan del Junco esteve
presente desde antes dessa expedição, participando da “conquista” de Cartagena com Pedro de Heredia. Os dois capitães deixaram o Novo Reino depois da viagem de Quesada e nunca retornaram.
433 No capítulo XI do livro XXVI da Historia general. Esse tema será tratado no capítulo 5. 434 Tal atribuição foi feita por Friede e subscrita por Michael Francis.
435 Conserva-se uma cópia no AGI com o tìtulo “Relación del descubrimiento y población de Santa Marta” (Patronato, 27, R. 9), e a data errada de 1532. Disponìvel em https://www.archivesportaleurope.net. Existem várias transcrições e edições. A primeira apareceu em Relaciones históricas de América (Espanha, 1916). A mais cuidadosa é “Relación de Santa Marta”. In: TOVAR PINZÓN, Hermes (ed.). Relaciones y visitas a los Andes. S. XVI. T. I. Bogotá: Instituto Colombiano de Cultura Hispánica, 1995, p. 125-188.