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Forskersubjekt og forskerrolle

Para melhor compreendermos e contexto de produção das primeiras notícias sobre o Novo Reino, retomemos e complementemos alguns aspectos do périplo de Quesada e as expedições subsequentes na região, tratados brevemente no capítulo 1.

Depois do naufrágio dos bergantins destinados a remontar o curso do Rio Grande da Magdalena para encontrar os homens que marchavam por terra conduzidos por Quesada em 1536, um segundo destacamento de 5 barcos foi enviado desde Santa Marta, sob o comando do capitão Diego Hernández Gallego.411 Dessa vez, as embarcações conseguiram navegar com sucesso pela artéria fluvial e reunir-se com a gente do licenciado andaluz, que estava aguardando em um ponto chamado Sompallón. Os dois corpos avançaram juntos algumas léguas ao sul até outro lugar batizado como La Tora, em um dos flancos da Cordilheira Oriental. A partir daí saíram várias expedições menores de reconhecimento por um afluente do Magdalena Ŕ o rio Opón Ŕ e acima das montanhas próximas, nas quais divisaram-se populações muíscas pela primeira vez.412

Perante as boas novas de comarcas povoadas e abastecidas, em dezembro de 1536 Quesada decidiu empreender a ascensão com as pessoas sadias, e conveio com Gallegos para que ele ficasse no rio com os doentes e alguns homens de guarda, esperando pelo seu retorno. Entretanto, por causa das condições precárias e provavelmente por ataques dos indígenas da zona, Gallegos se viu forçado a retornar a Santa Marta, aonde chegou em abril de 1537,413 com um bergantim a menos e só a metade da tropa hispana. Ele foi o primeiro a reportar o achado das comarcas muíscas com base na comunicação oral dos expedicionários comissionados por Quesada desde La Tora.414

410 Historiadores gregos como Heródoto, Diodoro Siculus e Estrabo foram traduzidos ao latim pelos humanistas e

suas obras se venderam bastante bem nos primórdios do século XVI. Eles forneceram modelos para compor detalhadas descrições sobre gentes pouco familiares. GRAFTON, Anthony. New worlds, Ancient texts. The power

of tradition and the shock of discovery. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1992, p. 40-41.

411 Gallego era lugarteniente do adelantado Pedro Fernández de Lugo e licenciado em leis, como Quesada. A

relação entre ambos não foi muito cordial. FRIEDE, Juan. El adelantado Don Gonzalo Jiménez de Quesada. Bogotá: Intermedio, 2005, p. 35-36.

412 Os capitães San Martín e Lebrija, dois autores de uma relação que analisaremos mais à frente, participaram

dessas explorações.

413 Ou seja, justo quando Quesada estava entrando na região muísca.

No mês seguinte, aportou na cidade litorânea Jerónimo Lebrón de Quiñonez, enviado pela Audiência de Santo Domingo para atuar como governador interino em lugar do

adelantado Pedro Fernández de Lugo, que havia morrido de forma inesperada em outubro do ano anterior e cujo filho, Alonso, voltara para a Espanha, como anotado no capítulo 1.415 Pois bem, contando com as informações fornecidas por Gallegos, Lebrón encaminhou pelo menos três cartas a Carlos V. Nas duas primeiras missivas, escritas no ano 1537, ele deu indicações escritas acerca da região dos muíscas, misturadas com expectativas e imaginações.416 Algumas das novidades concerniam à ordem do superlativo em relação à população, à terra, à riqueza e à cultura material: “habìa una gran población de muchos buhìos417 y muchas muestras de oro, tan grandes como ollas, y muchas mantas [...] y habían traído gran nueva de ella [la tierra] de ser muy llana y muy fértil [...] y muy ancha y muy grandes campos en ella”.418

Lebrón referia-se também a uma suposta “Laguna de la sal”, localizada a vários dias de caminho do ponto alcançado pelos expedicionários, onde: “habia muchos bohios y [...] abìa mucho oro y mantas y otras cosas […] y que de allì para adelante habìa muy grandes poblaciones y que en ellas había mucha cantidad de oro y piedras”.419 A existência da suposta laguna cercada de abastadas aldeias só pode ter sido indagada Ŕ ou imaginada Ŕ indiretamente, uma vez que os indígenas que atuavam como lenguas420 com toda probabilidade não falavam a língua dos muíscas. Porém, ela se baseava em elementos reais que tinham a ver com a importância do comércio do sal na sociedade muísca. De fato, as amostras de intercâmbio de

415 Lebrón ocupava o cargo de alcalde mayor de Santo Domingo e supõe-se que era natural de Tenerife. Mais à

frente organizaria uma expedição ao território muísca. A respeito de Jerónimo Lebrón e seu pai cf. BORGES, Analola. “La región Canaria en los orìgenes americanos”. In: Anuario de Estudios Atlánticos, No. 18, p. 262. Fernández de Oviedo também trata sobre Lebrón no capítulo XIV da terceira parte da sua Historia general y

natural de las Indias (Madrid: Ediciones Atlas, 1959, p. 95-96). O irmão de Jerónimo Lebrón foi um dos primeiros visitadores da Nova Espanha e teve importantes conexões com a rede pacifista, notadamente com Bartolomé de las Casas.

416 As três cartas estão datadas em 9 de maio de 1537, 10 de agosto de 1537 e 5 de junho de 1538. Foram

reproduzidas parcialmente em FRIEDE, Juan. Gonzalo Jiménez de Quesada a través de documentos inéditos. Bogotá: Academia Colombiana de Historia, 1960, p. 127-131. A carta de 10 de agosto foi transcrita na íntegra in: LANGEBAEK, Carl Henrik. Indios y españoles en la antigua provincia de Santa Marta, Colombia. Documentos

siglos XVI y XVII. Bogotá: Universidad de los Andes, 2007, p. 9-12. Cabe anotar que os membros do cabildo de Santa Marta também encaminharam uma carta ao rei sobre o mesmo assunto, datada em 20 de novembro de 1537. Nela, avisavam dos rumores de um suposto cacique “Guazis, que es muy rico y poderoso”, e dos provados sinais “do Perú”, o que se pode interpretar simplesmente como ìndices de evidente prosperidade. FRIEDE. Gonzalo

Jiménez, op. cit., p. 131-132.

417 A palavra bohío ou buhío é de origem taíno e se refere a uma cabana elaborada com materiais como madeira e

palha.

418 Ibid., p. 128.

419 Ibid., p. 130. A menção das “pedras” refere-se a gemas preciosas, e mais especificamente, acreditamos que a

esmeraldas. Na primeira carta também se menciona a procura da laguna da sal.

um sal de origem diferente ao marinho ao longo do rio Magdalena Ŕ e em menor medida tecidos de algodão Ŕ foram interpretadas pelo bando de Quesada como indício de uma sociedade indígena mais densa e “polìtica”, encorajando-os a prosseguir a marcha.

Já na terceira carta, escrita em meados do ano seguinte Ŕ 1538 Ŕ o entusiasmo do governador interino recuou ao comunicar a total incerteza sobre a sorte de Quesada e sua hoste: ...porque, según la gran tardanza, o há de ser cosa muy rica o están desbaratados y perdidos, porque há ya dos años y tres meses que partieron de esta ciudad [Santa Marta], y temo que […] no hayan llegado a tierra donde les haya sucedido algún infortunio y trabajo, lo cual plega a nuestro Señor no haya permitido ni permita.421

3.3.1 As atas de Cartagena

Lebrón e as outras autoridades do litoral não obteriam confirmações acerca do destino da expedição até junho de 1539, quando Quesada, Federmán, Belalcázar e alguns membros de alta categoria de suas comitivas pararam em Cartagena por dois meses a caminho para a Espanha. Nessa conjuntura produziu-se a segunda onda de informação escrita sobre os muíscas. Consistia das declarações que os mencionados três conquista-dores e mais dois422 prestaram perante Antonio de Aragón, o procurador-síndico da mencionado porto, entre 2 e 5 de julho de 1539.423 Os depoimentos foram ordenados por Juan de Santa Cruz que, por sua vez, estava encarregado de proceder ao juízo de residência424 do governador Pedro de Heredia, acusado de fraude à Coroa.425 Como resultado, Santa Cruz enviou Heredia à Espanha para dar sua defesa na Corte.

De acordo com Juan Friede, as declarações de Quesada e seus companheiros foram levadas à Península por Heredia e apresentadas no Conselho de Índias em março de 1540,

421 Ibid., p. 133. Na sequência, Lebrón informava das precárias condições das pessoas de Santa Marta e afirmava

que ele mesmo havia despachado pelo Rio Grande quatro embarcações em busca de Quesada, mas ainda esperava seu retorno. Certamente, depois se pensou que Quesada e seus homens tinham morrido, pelo qual os pertences de Quesada e seus acompanhantes foram vendidos em leilão como bens de defuntos. Ibid., p. 38.

422 Pedro de Puelles, integrante da expedição de Belalcázar e Gonzalo de la Peña, tesoureiro da mesma. Para

Friede, todos esses depoimentos “constituyen los primeros datos fidedignos sobre la extraordinaria jornada [ao território muisca]”. Ibìd., p. 66.

423 Os documentos incluem as impressões do próprio Antonio de Aragón. “Actas hechas en Cartagena ante el

licenciado de Santa Cruz sobre el descubrimiento del Nuevo Reino de Granada”, 1539. In: FRIEDE, Juan.

Documentos inéditos para la historia de Colombia, T. V. Bogotá: Academia Colombiana de Historia, 1956, p. 201-216.

424

Essa prática se explicou no capítulo 1 (nota 128).

425LUTZ GÓMEZ, Pedro. “El problema de la ubicación espacial del Nuevo Reino de Granada al momento de su

creación”. In: Memoria y Sociedad, Vol. 4, No. 4, 2000, p. 154. O licenciado Santa Cruz chegou a Cartagena em 1538 comissionado para aplicar o juízo de residência contra Pedro de Heredia. Pouco depois, este último se deslocou para a Espanha e Santa Cruz permaneceu em Cartagena até 1540. Não se deve confundir este licenciado com o cosmógrafo Alonso de Santa Cruz.

como parte do material utilizado para reclamar o território do Novo Reino e gestar uma segunda capitulação da província de Cartagena.426 A transcrição e publicação desses documentos Ŕ que denominaremos “atas de Cartagena” Ŕ devem-se ao historiador Juan Friede. Mesmo que não sejam relações em sentido estrito, serão tomadas como parte das primeiras notícias sobre a meseta muísca.