Diante dessa conceituação, que articula o sujeito ao campo do gozo, pode-se reconhecer que as últimas considerações de Freud (1930/2011) apontam para uma espécie de técnica vital, na qual o toxicômano encontraria uma forma de lidar com o insuportável da renúncia ao gozo.
Em “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/2011) discorre sobre as respostas
alternativas que o homem, por vezes, apresenta diante das vicissitudes da vida, ou seja, uma maneira de lidar com o sofrimento e a infelicidade inerentes ao existir humano99. Com efeito,
98 Com isso, remeto ao fato de que a conceitualização do objeto a permite um avanço na formalização de “um
novo campo estruturado por aparelhos de linguagem que determinam as relações entre as pessoas. Pois é o objeto
a que ‘tetraedra’ o campo do gozo em quatro discursos” (QUINET, 2006, p. 27).
99 Segundo Freud (1930/2011): “A vida, tal como como nos coube, é muito difícil para nós, traz demasiadas dores
diante da decrepitude do corpo, das forças da natureza (mundo material) e do Outro (cultura e sociedade), os homens desenvolvem algumas possibilidades de enfrentamento. E dentre as tantas alternativas relacionadas por Freud (1930/2011), encontramos o que ele chama a mais grosseira de todas, porém a mais eficaz: o uso de drogas, que tanto aumenta o prazer, como diminui a sensibilidade ao desprazer. De acordo com a teoria freudiana, a droga passa a funcionar para alguns sujeitos como um “amortecedor de preocupações”, afastando a pressão
da realidade e proporcionando um refúgio em um mundo próprio e, dessa forma, evitando o sofrimento (FREUD, 1930/2011).
Portanto, o homem fracassa em sua empreitada de alcançar a felicidade e obter o gozo absoluto, isto é, essa esperança humana apresenta-se como impossível. E dessa forma, o recurso ao uso de drogas surge com uma alternativa para compensar sua condição de fracasso, “protegendo”, assim, os sujeitos de “três condições humanas essenciais: o desamparo (Hilflosigkeit), a culpabilidade fundamental e a falta de provisões narcísicas (PACHECO FILHO, 2007, p.31).
Dessa forma, o uso de drogas seria uma escolha na economia libidinal, que quando está configurado como toxicomania, considera-se mais seu efeito de fascinação do que seu efeito
psicoativo, ou seja, uma resposta possível do sujeito ao mal-estar existente na civilização100.
Com isso, pode-se indagar: esse posicionamento subjetivo redesenha uma espécie de volta ao estado de ausência de tensão e consequentemente de prazer absoluto, isto é, a suspensão
momentânea do sujeito do desejo?
Neste sentido, estabelece-se uma busca interminável para reencontrar o desde sempre perdido “objeto do desejo”, em uma tentativa impossível de reparar a rachadura do ser. O objeto que causa o desejo (a) é impossível de ser atingido e mesmo nomeado, e o próprio contato direto com ele seria mortífero, isto é, da ordem da pulsão de morte. É, portanto, inerente à condição humana ser atingida pela barragem do gozo absoluto e pela ordenação da lei (PACHECO FILHO, 2007).
Portanto, a ascensão e a nomeação do pai simbólico representa a Lei e a ordenação das relações entre os sujeitos. Isto é, ele regula o gozo, que só pode ser parcial, conferindo o acesso aos objetos, que apenas simbolicamente, articulam-se ao objeto primordial, que constitui a
as medidas paliativas que visam auxiliar-nos a suportar a vida, Freud enumera a atividade científica, a arte e as substâncias tóxicas etc.
100 Freud (1930/2011) considerou que as substâncias tóxicas assumem certa preferência de escolha, por agirem
diretamente sobre a química do corpo humano e tornarem seus usuários insensíveis ao próprio desespero de viver a vida como ela é em suas contradições.
origem do próprio desejo. A falta estrutural da existência humana gravita ao redor (sem nunca atingir) daquilo que denominamos objeto causa do desejo [objeto a] (PACHECO FILHO, 2007). Não obstante, o toxicômano é aquele que foi siderado pelo objeto droga: um mais-de- gozar particular, um gozo cínico, ou ainda um gozo auto-erótico. Com efeito, a droga como
gadget no mercado capitalista representa essa aceleração da tendência totalitária do capitalismo. Em Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan (1946/1998) reconhece no recurso ao tóxico um caráter tamponador da falta constituinte do sujeito, uma tentativa de buscar a unidade através de um complemento imaginário. Sendo que, “essa miragem das aparências em que as condições orgânicas da intoxicação101, por exemplo, podem desempenhar
seu papel exige o inapreensível consentimento da liberdade” (p. 188). Não se pode deixar de lembrar que “por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis” (LACAN, 1966a/1998, p. 873). A liberdade surge no horizonte da discussão apenas em uma margem de mínima escolha, que representa um reposicionamento do sujeito diante da petrificação do gozo. Neste sentido, “a única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo” (LACAN, 1959-60/2008, p. 376).
Realmente, quando a alienação da falta-a-ser não é mais suficiente para satisfazer o sujeito, o recurso a esse complemento imaginário da intoxicação pode significar essa busca da unidade do eu em sua exigência de liberdade. A imposição ao eu desse componente ilusório da intoxicação produz-se, como já foi dito, na tentativa de unilateralizar a divisão do sujeito, atenuando, assim, as incidências do Outro sobre ele. Segundo Lacan, na miragem de unificação, o sujeito procura o meio de terapeutizar a discórdia existente entre o eu e o ser orientado por seu ideal de liberdade. Assim, o exemplo da prática da intoxicação aparece, em seus Escritos, para expressar o ideal de auto-suficiência extrema do sujeito. Por meio dessa prática de automedicação, o sujeito consegue reduzir os efeitos do Outro do significante. Em resumo, essa vontade da fugidia liberdade encarnada pelo ato de se intoxicar traduz- se, em termos analíticos, na ambição do sujeito de remediar e ‘mesmo de reduzir-se a zero o campo de ação do Outro’. (SANTIAGO, 2000a, pp.155-156).
O ponto axial dessa problemática converge para o reconhecimento de que o uso metódico dos tóxicos delineia uma forma de tratamento médico sob a rubrica da autoprescrição de um artifício, uma espécie de estancamento dos efeitos insuportáveis da divisão subjetiva.
101 Em 1938 no texto Os complexos familiares na formação do indivíduo, Lacan (1938/2003) faz sua primeira
referência ao tema das drogas. A temática da toxicomania aparece inicialmente na reflexão lacaniana relacionada ao complexo de desmame, isto é, à constituição do indivíduo no interior do seio familiar correlacionado a um traumatismo psíquico. O diagnóstico lacaniano, envolto pela concepção de uma tendência psíquica à morte, apresenta que a forma oral do complexo de desmame configura-se na greve de fome da anorexia mental, no envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca e no regime de fome das neuroses gástricas (LACAN, 1938/2003). Com isso, Lacan estava relacionando o complexo de desmame às “contingências operatórias que comporta”, pois, frequentemente apresenta-se como um “traumatismo psíquico cujos efeitos individuais” fazem
Isto é, uma tentativa de produzir uma unificação da divisão peculiar à falta-a-ser pela via do mais-de-gozar particularizado da era da ciência. Neste sentido, a toxicomania configura-se como um remédio ilusório da unidade subjetiva, ou seja, um complemento de ser que no registro imaginário encontra seu funcionamento. Portanto, a suposta técnica toxicomaníaca do corpo revela que essa operação não encontra ressonância na função da causa (do desejo), mas, antes, como efeito nesse mais-de-gozar particular que implica a própria fascinação do consumo que conduz a consumição102.
Dessa forma, a droga inserida no interior do discurso capitalista se apresenta como mercadoria, ou seja, funciona como um artefato do discurso. A droga, portanto, entendida como um produto da ciência, uma espécie de materialização do efeito real da ciência sobre o corpo. Pode-se dizer, o fruto do casamento da ciência com o capitalismo. Se durante o início do capitalismo, a ligação com a ética protestante foi fundamental para sua constituição e solidificação, atualmente, o capitalismo tem angariado forças para sua manutenção e expansão a nível planetário, através da união mais que estável com a ciência: dessa relação temos seus pequenos frutos: os gadgets. Assim, os tóxicos são relacionados a partir “dos diversos produtos que vão desde os tranquilizantes até os alucinógenos” (LACAN, 1966e/2001, p.4, grifo nosso).
Com efeito, o campo lacaniano, delineia as formas de gozo em um mundo atravessado pelo capitalismo em copulação com a ciência. O recurso ao tóxico, portanto, pode ser enquadrado nesta lógica, sendo que, “a característica de nossa ciência não é ter introduzido um melhor e mais amplo conhecimento do mundo, mas sim ter feito surgir no mundo coisas que de forma alguma existiam no plano de nossa percepção” (LACAN, 1969-1970/1992, p. 168). Com isso, as substâncias tóxicas são incluídas no bojo daquilo que se apresenta como os produtos da ciência (gadgets), em um mundo amplamente, dominado pelo discurso capitalista.
No entanto, mais adiante analisaremos a última palavra de Lacan sobre a relação do sujeito com as drogas, que pela via do uso metódico dos tóxicos, procura instituir uma forma de tratamento contra as exigências imperiosas do Outro do sexo, bem como contra o aspecto desarmônico do gozo. Neste horizonte, o toxicômano estabelece uma estratégia de rompimento com o gozo fálico.
102 Defendemos que na verdade esse mais-de-gozar particular da toxicomania implica um efeito de fascinação