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Le Temps et l´Autre é um livro constituído por quatro conferências apresentadas em 1946/1947, no Colégio Filosófico fundado por Jean Wahl. Logo na abertura, Lévinas apresenta sua tese central: “O tempo não é o fato de um sujeito isolado e solitário, mas é a própria relação do sujeito com outrem” (TA17). Esta frase, embora bastante enigmática, tem o mérito de nos introduzir, por assim dizer, de chofre, nesta questão – ou novamente deveria se falar em obsessão? - tão cara a Lévinas: o outro, ou como se dirá mais tarde, outrem. É assim o tema da temporalidade que permitirá a Lévinas abrir a porta ao outro. Tema que, se é explicitamente exposto nesta obra de 1947, igualmente aparece nas páginas finais de De l´Existence á l´Existant (EE103 a 114): nelas, antecipando a obra futura, embora quase contemporânea, o tempo já não pode ser pensado sem o outro.

Lévinas contrapõe, bem ao gosto benjaminiano71, a uma concepção linear e cronológica do tempo, um tempo no qual os instantes não se sucedem harmoniosamente, mas irrompem e rompem a linha do tempo, surgindo, a cada instante, como novos, como outros. O tempo não como sincronia, mas como diacronia: o instante seguinte não é continuação do instante anterior, mas “ressurreição”:

“Trata-se de perguntar se o evento do tempo não pode ser vivido mais profundamente como a ressurreição do insubstituível instante. No lugar do ‘eu’

71Cf Walter Benjamin. Sobre o Conceito da História, in: Obras Escolhidas, Volume I, Magia e Técnica, Arte

e Política, op.cit. Cf. também a tradução de Jeanne-Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller in: Michael Löwy. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, op.cit.

que circula no tempo, colocamos o ‘eu’ como o próprio fermento do tempo no presente, o dinamismo do tempo.(...) Exigência de um recomeço de ser e, em cada recomeço, esperança de seu não-definitivo. O ‘eu’ não é o ser que, resíduo de um instante passado, tenta um instante novo. Ele é essa exigência do não- definitivo. A ‘personalidade’ do ser é sua própria necessidade do tempo como de uma fecundidade milagrosa no próprio instante pelo qual ele recomeça como outro.” (EE110/11)

O tempo sincrônico, no qual os instantes se sucedem, “de forma que em cada instante o ‘eu’ se reencontra consigo mesmo (...) é um mesmo tempo ou tempo do mesmo”

72. É somente na dimensão temporal diacrônica que se pode falar de alteridade: cada

instante é novo, outro, sem medida com o instante anterior, e a cada novo instante, o ‘eu’ pode surgir como novo ‘eu’, como outro ‘eu’.

“A alteridade absoluta do outro instante (...) não pode se encontrar no sujeito que é definitivamente ele próprio. Essa alteridade só me vem de outrem. (...) Se o tempo é constituído por minha relação com outrem, ele é exterior ao meu instante, mas ele também é outra coisa que não um objeto dado à contemplação. A dialética do tempo é a própria dialética da relação com outrem.” (EE111)

A despeito desta antecipação, e da quase simultaneidade entre as obras citadas, parece haver uma espécie de salto entre uma e outra. Encontramos em ambas, as mesmas teses de partida da obra de Lévinas, isto é, o ser como excesso e como mal, a necessidade de evasão, mas também novas postulações, tais como o il y a e, na hipóstase, o surgimento de um nome, de um existente no seio da existência anônima, sem nome, a-substantiva. A saída do ser, desejada em De l´Évasion, vislumbrada em De l´Existence à l´Existant, toma forma mais consistente em Le Temps et l´Autre, a partir da tematização da temporalidade.

Aqui Lévinas se põe a pensar sobre o tempo: o tempo é aquilo sobre o qual eu não posso poder. Portanto é paradigma da alteridade, sobre a qual, justamente, eu não posso poder. Permite assim sair da solidão e deste mal que é o ser. Como isto é possível? Só é possível se algo de outra ordem, totalmente fora e exterior a mim vem, por assim dizer, ‘bagunçar’ o meu ser tranqüilo e grudado a mim: somente o que é absolutamente outro pode me fazer sair do mesmo. Só aquilo que não posso prender, segurar, controlar, fazer caber em mim pode me fazer sair de mim mesmo: isto é, somente fora da luz do

conhecimento e da razão, diante do mistério do absoluto desconhecimento, o sujeito pode ser desapossado de si.

Diante da morte, por exemplo, o sujeito experimenta o desconhecimento absoluto, pois está diante de algo que não vem dele, e sobre o qual ele nada pode, ele “perde seu domínio próprio de sujeito” (TA62). A aproximação da morte é “uma experiência de passividade.” (TA57), que “indica que estamos em relação com algo que é absolutamente outro, algo que porta a alteridade (...) algo cuja experiência mesma é feita de alteridade. Minha solidão, assim, não é confirmada pela morte, mas quebrada pela morte.” (TA63)73

A proximidade da morte é um acontecimento da ordem do mistério, pois ele não pode ser nem antecipado, nem apreendido, nem pode entrar num presente (Cf.TA65). Assim como a morte, o tempo abre as portas para a alteridade, pois : “O que não é, de nenhum modo apreendido, é o futuro. (...) O futuro, é o outro. O futuro é a relação mesma com o outro. Falar de tempo num sujeito solitário, falar de uma duração puramente pessoal, nos parece impossível” (TA64). O tempo é, assim, paradigma da alteridade.

Mas na morte o eu se anula, daí a questão: “O ente poderia entrar em relação com o outro sem deixar esmagar pelo outro seu si mesmo?” (TA65). É possível uma relação com a alteridade na qual o eu não seja anulado, como na morte, ou absorvido pelo outro como no êxtase? Não se trata, portanto, nem de morte nem de êxtase, mas de uma relação na qual o eu se encontra diante de algo sobre o qual não possa poder, impotente e passivo. Que relação seria esta, se pergunta Lévinas:

“Esta situação na qual o acontecimento acontece a um sujeito que não o assume, que não pode poder nada em relação a ele, mas na qual no entanto ele está face a ele de algum modo, é a relação com outrem, o face a face com outrem, o encontro com um rosto que, ao mesmo tempo, oferece e oculta outrem. O outro assumido – é ‘outrem’” (TA67 – grifo meu)74

Sublinho este último trecho pois, nele, já se encontra o léxico predileto, por assim dizer de Lévinas: outro, outrem, face a face, e, notadamente, a palavra chave que se encontrará 12 anos mais tarde, em Totalité et Infini: visage, ou seja, rosto. Além disso, a

73 Mais um importante distanciamento em relação a Heidegger. Ao “ser para a morte” heideggeriano, Lévinas

oporá o “ser para o outro”. Cf. o artigo “Morrer por...” In: Emmanuel Lévinas. Entre nós. Petrópolis: Editora Vozes, 1997, p.250 a 262.

74 “Cette situation où l´évènement arrive à un sujet qui ne l´assume pas, qui ne peut rien pouvoir à son égard,

mais où cependant il est en face de lui d´une certaine façon, c´est la relation avec autrui, le face-à-face avec autrui, la rencontre d´un visage qui, à la fois, donne et dérobe autrui. L´autre ‘assumé’ – c´est autrui.”

última frase anuncia uma sutil diferenciação entre outro e outrem, diferença esta que foi apontada como essencial por um dos eminentes comentadores de Lévinas: o outro, enquanto absolutamente outro, sem medida comum comigo, é outrem.75

Outrem que é procurado, não mais na morte, mas no Eros, “Penso na relação erótica que nos fornece o protótipo. O Eros, forte como a morte, nos fornecerá a base da análise desta relação com o mistério” (TA64). Ao “ser para a morte” de Heidegger, Lévinas responde com o “ser para o outro”: decisiva ultrapassagem da alteridade da morte pela alteridade erótica76. A relação erótica - mais especificamente, com o feminino - e a relação de filiação, poderiam ser pensadas como relações com o mistério, pois nelas me encontro face a face com o outro, um outro totalmente estranho a mim, fora de mim, totalmente outro, e sobre ele não só não tenho poder algum, como ainda mais, não posso poder, não tenho o poder de ter poder; ele me escapa, me ultrapassa, ele me retira de meu lugar ao sol, a ele me dobro, pois não tenho outra escolha. Eros e Filiação: duas figuras da alteridade.

Assim, entre De l´Existence à l´Existant e Le Temps et l´Autre77, ‘algo’ aconteceu: um salto, que poderia se inscrever numa certa despedida da fenomenologia, cuja necessidade, como se viu, é apontada pelo próprio Lévinas. Diferentemente de em De

l´Évasion e De l´Existence à l´Existant, ele parece centrar menos sua atenção nas análises fenomenológicas de estados como a vergonha, a náusea, a preguiça, o cansaço, a insônia, etc... abandonando o registro descritivo para pensar sobre o tempo. Para pensar, como direi, de modo mais, por assim dizer, ‘abstrato’. Sem dúvida, este léxico não é muito apropriado – a palavra ‘abstrato’ talvez não se aplique de modo adequado. O que tento dizer aqui é que Lévinas parece abandonar as descrições de estados existentes para pensar a partir de metáforas: Eros e Filiação. Sem dúvida, estes podem ter representantes na realidade das coisas, podem se objetivar, mas mais do que estados, são possibilidades de existência que, concretizadas ou não, têm um lugar na existência. Poder-se-ia pensar as duas figuras

75 Cf. Rodolphe Calin e François-David Sebbah. Le Vocabulaire de Lévinas. Paris: Ellipses Editions, 2002,

p.8.

76 Ver a este respeito, o supracitado artigo de Lévinas em Entre Nós: “Morrer por...”. Noto que a relação

erótica também será por sua vez ultrapassada pela ética: em Totalité et Infini, o Desejo erótico será substituído pelo desejo metafísico, como indica o belo e preciso título do ensaio de Ilana do Amaral: “Do Eros a Ética: caminhos do Desejo nos ditos e dizer de E. Lévinas.”

77 Talvez seja mais preciso dizer: entre as páginas iniciais e finais de De l´Existence à l´Existant (mais

precisamente ainda: a partir da p.102), algo aconteceu. Como se Lévinas tivesse escrito De l´Existence à

l´Existant em dois tempos: um primeiro a partir do próprio horizonte de De l´Existence à l´Existant, e um segundo, com os olhos já voltados para Le Temps et l´Autre!

paradigmáticas da alteridade, isto é, a Mulher e o Filho como “personagens conceituais”, aqueles mesmos dos quais falam Deleuze e Guattari78 – evidentemente, sob os protestos de seu próprio criador, cujo projeto é o de ir para além do ser, e do conceito que diz este ser.

Ao mesmo tempo em que Lévinas se distancia das descrições fenomenológicas, ele também encontra uma via de saída do ser: a do outro, ou de outrem. No entanto, como nota Ilana Viana do Amaral, ele “busca ainda um ser que detenha a alteridade a título positivo, encontrando-o, no âmbito da relação erótica, no feminino”79. Sem querer levantar nenhuma bandeira feminista, me parece bastante evidente que colocar o feminino como figura da alteridade só é possível a partir de um ponto de vista masculino. Devo confessar que estes trechos de Le Temps et l´Autre, notadamente os que Lévinas dedica à figura do feminino, me deixam pouco à vontade. Cito um deles: “O modo de existir do feminino é o de se esconder, e este fato de se esconder é precisamente o pudor” (TA79). O pudor faria parte de uma essência ou substância feminina? Não deveria Lévinas – e especialmente Lévinas – dessubstancializar? Causa estranheza que um pensador do ‘para além da essência’ pareça estar, de algum modo, buscando uma certa essência feminina. E mais: porque se, no face a face com o outro, este outro não tem medida comum com o eu, haveria medida comum entre as mulheres? Ou, para dizê-lo de mais espirituoso, como o faz Ilana Viana do Amaral: “alguém pode seriamente pensar que apresentar o feminino como alteridade, embora mais simpático que o retrato daquela Xantipa rabugenta de Platão, no Fédon, é por isso menos misógino e universalista que aquele?” 80

É bem verdade que Lévinas abandona posteriormente a identificação do feminino e da alteridade, como ele próprio declara numa entrevista realizada em 1982: “outrora eu pensava que a alteridade começa no feminino. É, efetivamente uma alteridade muito estranha: a mulher não é nem o contraditório, nem o contrário do homem” (EN131). Mas apenas para ‘situá-la’ na interioridade: “A mulher é a condição do recolhimento, da interioridade da Casa e da habitação” (TI138).

78 Gilles Deleuze e Felix Guattari. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. “A filosofia não é

contemplação nem reflexão nem comunicação, mas fabricação, criação, invenção de conceitos; estes “têm necessidade de personagens conceituais que contribuam para sua definição” (p.10). Para uma melhor compreensão, reenvio ao capítulo sobre personagens conceituais (p.81 a 109)

79 Ilana Viana do Amaral. “A quatríade profética interpela a quadrindade: do escuta do ser à aproximação do

próximo. A ética como filosofia primeira contra a ontologia fundamental.” Manuscrito.

80 Ilana Viana do Amaral. “Do Eros a Ética: caminhos do Desejo nos ditos e dizer de E. Lévinas.” In:

Prefiro os trechos nos quais Lévinas fala da relação amorosa, ou erótica, nos termos de uma não posse e não fusão:

“É somente mostrando no que o eros difere da posse e do poder, que podemos admitir uma comunicação no eros. Ele não é nem luta, nem fusão, nem conhecimento. É preciso reconhecer seu lugar excepcional entre as relações. É a relação com a alteridade, com o mistério, isto é, com o futuro. (...) Là onde todos os possíveis são impossíveis, là onde não se pode mais poder, o sujeito ainda é sujeito pelo eros. O amor não é uma possibilidade, ele não se deve a nossa iniciativa, ele é sem razão, nos invade e nos fere e, no entanto, o eu sobrevive nele.” (TA81/82) 81

Mais interessante também me parecem ser suas páginas acerca da filiação:

“A paternidade é a relação com um estrangeiro que, ao mesmo tempo em que é outro, é, também, ‘eu’; a relação do eu com um si próprio, que é no entanto estrangeiro a mim.(...) Eu não tenho meu filho; eu sou, de algum modo, meu filho.(...) A alteridade do filho não é a de um alter ego. A paternidade não é uma simpatia pela qual eu posso me colocar no lugar do filho. É pelo meu ser que sou meu filho e não pela simpatia” (TA85/86)82

Feminino e paternidade, figuras que se desvanecerão em Totalité et Infini, para dar lugar à metáfora do Rosto, ultrapassando assim a busca de uma positividade na alteridade. Esta ultrapassagem parece andar par a par com um certo abandono da ontologia em direção à ética. Rosto e ética: duas noções inauguradas em Totalité et Infini e incontornáveis na trajetória de Lévinas.

81 “C´est seulement en montrant ce par quoi l´eros diffère de la possession et du pouvoir, que nous pouvons

admettre une communication dans l´eros. Il n´est ni une lutte, ni une fusion, ni une connaissance. Il faut reconnaître sa place exceptionelle parmi les relations. C´est la relation avec l´altérité, avec le mystère, c´est- à-dire avec l´avenir (...) Là où tous les possibles sont impossibles, là où on ne peut plus pouvoir, le sujet est encore sujet par l´eros. L´amour n´est pas une possibilité, il n´est pas dû à notre iniciative, il est sans raison, il nous envahit et nous blesse et cependant le je survit en lui.”

82 “La paternité est la relation avec un étranger qui, tout en étant autrui, est moi; la relation du moi avec un

moi-même, qui est cependant étranger à moi. (...) Je n´ai pas mon enfant; je suis en quelque manière mon enfant. (...) L´altérité du fils n´est pas celle d´un alter ego. La paternité n´est pas une sympathie par laquelle je peux me mettre à la place du fils. C´est par mon être que je suis mon fils et non par la sympathie.”

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