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– MEETING LEARNING CHALLENGES IN PRODUCT DESIGN

In document PRODUCT DESIGN CRITIQUE ON (sider 147-160)

MAKING: INVESTIGATING THE ROLE OF THE 3D PRINTER IN DESIGN

PUBLICATION 4 – MEETING LEARNING CHALLENGES IN PRODUCT DESIGN

Tal discrepância se mostra, em primeiro lugar, no modo como cada um deles vai construindo sua obra: enquanto o caminho de Ricoeur aponta para um certo tipo de obsessão, que antes ronda e depois exige97, o inacabado de uma obra chamando, por assim dizer, a obra seguinte, Lévinas é animado por uma “intuição primeira”, ou uma idéia fixa, desde sua primeira obra: sair do ser, questão que retorna insistentemente, obsessivamente. Se pensar é para ambos obsedante, cada um viveu a obsessão a seu modo.

Não somente na construção da obra, mas também e principalmente no tratamento das questões, uma espécie de abismo os separa. Pode-se falar de um ‘estilo Ricoeur’ e de um ‘estilo Lévinas’, estilos ou jeitos de pensar e de escrever que exigem do leitor atitudes e olhares totalmente distintos. Se algo têm em comum, seria talvez o fato de causar no leitor, (pelo menos, confesso, na leitora que sou), cada um a seu modo, uma certa irritação. O primeiro por demandar muita calma e paciência, o segundo porque, como diz seu comentador Benjamin Hutchens: “O que é mais interessante – e algumas vezes irritante – é que Lévinas evita a limpidez da composição, e tem toda a intenção de ser obscuro e elusivo”98.

O primeiro, tendo “horror aos caminhos mais curtos do pensamento”99, admite: “peço ao leitor uma longa paciência” (TRI, 168). A “via longa” escolhida por Ricoeur passa não somente pela já mencionada “greffe” da hermenêutica sobre a fenomenologia, mas também pelo “desvio da reflexão pela análise”. É assim que ele exige infinita paciência, acompanhamento de seus longos desvios, incessantes retomadas, exaustivas explicitações, atenção sem descanso aos pensadores mais diversos, convocados a todo momento para melhor circunscrever a problemática em questão – e, nesse sentido, nunca é demais apreciar a generosidade de Ricoeur – e para melhor fundamentar seu argumento. Argumento que é geralmente construído a partir da idéia da justa medida, que, vale lembrar com Jean Greisch, não é de modo algum um “compromisso bastardo”100 O resultado desta

97 “Após terminar um trabalho, me encontro confrontado a algo que lhe escapa, algo que dele exorbita, que se

torna para mim obsedante e constitui o próximo tema a ser tratado. (...) Penso que qualquer um que escreva faz esta experiência de um tema que primeiro ronda nas margens da consciência, depois vem se instalar no centro e finalmente se torna obsedante.”(CC, 125/126)

98 Benjamin C. Hutchens. Compreender Lévinas, op.cit., p.12.

99 Bernard Ilunga Kayombo. Paul Ricoeur. De l´attestation du soi, op.cit., p. 5 100 Jean Greisch. Paul Ricoeur . L´Itinérance du Sens, op.cit., p. 380

démarche é um discurso, no qual o argumento é progressivamente construído, discurso estruturado segundo padrões lógicos, no qual as idéias se entrelaçam e se encadeiam de modo que uma leva à outra, eu ousaria dizer, sem muita surpresa: o leitor é, por assim dizer, conduzido, passo a passo, pelo autor.

Por outro lado, o elemento surpresa é o que não falta na leitura dos textos de Lévinas: este freqüentemente parece, como se diz em francês, “sauter du coq à l´âne”: entre uma frase e outra, parece, à primeira vista, não haver nenhum nexo, nenhuma conexão, de modo que ler Lévinas exige um certo abandono, uma desistência, por assim dizer: renúncia ao raciocínio puramente lógico dedutivo (mas não por isso exigência de intuição!), abertura para a surpresa e disponibilidade em acompanhar os inúmeros saltos e ‘vai-vem’ de uma escrita descontínua e de um argumento que, segundo Ricoeur, não avança (Cf. OUT17) mas se repete 101, a cada vez, de modo diferente: os ‘vazios’ presentes (ausentes?) de seu discurso fazem com que nunca se tenha terminado de ler um texto de Lévinas.

Por isto, não é de se admirar que Ricoeur tenha assinalado, na linguagem de Lévinas, o uso do excesso e da hipérbole, pondo-o na conta não somente de seu lado judeu, mas também de seu lado russo. Ricoeur, que nada tem de judeu ou de russo – tampouco de excessivo ou hiperbólico - não parece poder compactuar com este modo de falar e de pensar, ancorado que está em sua sempre cara “dialética da justa medida”, justa medida que exclui extremidades, tanto a que oferece Nietzsche - muitas vezes convocado mas geralmente rechaçado – quanto a que interessa aqui, proposta por Lévinas. A despeito disso, como sublinha Danielle Cohen-Lévinas, foi Ricoeur que percebeu a significação extrema do uso da hipérbole:

“Paul Ricoeur deplorará muitas vezes o uso negativo que alguns comentadores farão de suas colocações, como elas fossem um argumento apontado contra a filosofia de Emmanuel Levinas. Em ‘Emmanuel Levinas, pensador do testemunho’ (1989), ele mostra até que ponto estas figuras de tropos e de hipérbole, certamente desconcertantes, até mesmo provocantes, vêm, em definitivo, coroar ‘esta série de expressões excessivas’ como devedoras de uma necessidade conceitual”102

101 Como já tinha notado Jacques Derrida em L´Écriture et la Différence, op.cit., p. 124, nota 1.

102 Danielle Cohen-Lévinas. “Introduction. Une philosophie à l´épreuve de l´hétéronomie.” In: Lévinas.

Éditon et présentation de Danielle Cohen-Lévinas, op.cit., p. 17 note 23: “Paul Ricoeur déplorera maintes fois l´usage négatif que d´aucuns commentateurs feront de ses propos, comme si ce fut un argument pointé contre la philosophie d´Emmanuel Levinas. Dans: ‘Emmanuel Levinas, penseur du témoignage’ (1989), il

Já se mencionou como, para Lévinas, a linguagem excessiva, hiperbólica, é um modo de abandonar a linguagem fenomenológica e ontológica – de responder a Derrida – e como o superlativo, mais do que a negação, é capaz de romper com o sistema. Contra “o método transcendental [que] consiste sempre em buscar o fundamento”, método pelo qual “uma idéia é justificada quando encontrou seu fundamento, quando se mostrou as condições de sua possibilidade”(DVI126), Lévinas propõe um novo método de associar uma idéia com a outra, um novo modo de relacionar os conceitos: o da ênfase ou da

surenchère (sobrelance) “Há outra maneira de justificação de uma idéia pela outra: passar de uma idéia a seu superlativo, até sua ênfase. Eis que uma nova idéia - de forma alguma implicada na primeira – decorre ou emana da ênfase”(DVI126)

“Trato a ênfase como um procedimento. Penso reencontrar aí a via eminentiae. Em todo caso, é a maneira pela qual passo da responsabilidade à substituição. A ênfase significa ao mesmo tempo uma figura de retórica, excesso da expressão, maneira de se exagerar e maneira de se mostrar. O termo é muito bom, como o termo ‘hipérbole’: há hipérboles em que as noções se transmutam. Descrever esta mutação também é fazer fenomenologia. A exasperação como método de filosofia!” (DVI127)

Excesso, hipérbole, superlativo, ênfase, surenchère, exaltação, exasperação: tantos substantivos que apontam não somente para modos de dizer como também para um certo tipo de procedimento, de método, um certo arranjo dos conceitos que os torna, eles próprios, excessivos, hiperbólicos, enfáticos, exasperados, etc... Dito de outro modo, e como já o tinha percebido Ricoeur, a hipérbole não é apenas uma figura de estilo, um modo de falar, é também o próprio conteúdo da fala, ou seja, aponta para um excesso presente nos próprios conceitos pensados por Lévinas:

“Por hipérbole, é preciso sublinhá-lo com força, não se pode entender uma figura de estilo, um tropo literário, mas uma prática sistemática do excesso na argumentação filosófica. A hipérbole aparece assim como a estratégia apropriada à produção do efeito de ruptura ligado à idéia de exterioridade no sentido de alteridade ab-soluta.”(SA389)103

montre jusqu´où ces figures de tropes et d´hyperbole, certes déroutantes, voire provocantes, viennent en définitive couronner ‘cette suíte d´expressions excessives’ comme redevables d´une nécessité conceptuelle.”

103 “Par hyperbole, il faut le souligner avec force, il ne faut pas entendre une figure de style, un trope littéraire,

Exterioridade absoluta da alteridade, que se recusa a ser englobada pela intencionalidade e pela representação, isto é, pelo Mesmo, e que só pode se atestar sob o regime da ética:

“Quando o rosto de outrem se eleva face a mim, acima de mim, não é um aparecer que eu possa incluir no recinto de minhas representações; certamente, outrem aparece, seu rosto o faz aparecer, mas o rosto não é um espetáculo, é uma voz. Esta voz me diz: “Não matarás”. Cada rosto é um Sinai que proíbe o assassinato. E eu? É em mim que o movimento que parte do outro termina sua trajetória: o outro me constitui responsável, isto é, capaz de responder.”(SA388)104

Este preciso comentário de Ricoeur aponta para os significados essenciais presentes na noção de Rosto tal como a entende Lévinas: o Rosto é uma voz - Ricoeur se apóia em duas afirmações de Totalité et Infini: “O rosto fala”(TI37), e “O olho não reluz, ele fala”(TI38) - é mandamento, que vem das alturas do monte Sinai. A referência ao Sinai não é gratuita nem inocente: aponta para uma certa inspiração bíblica ou, como prefere dizer Derrida, uma respiração profética105, presente na filosofia de Lévinas. Inspiração bíblica que não saberia se restringir aos limites da filosofia, trazendo consigo, a desmedida e o excesso.

De um lado, portanto, a justa medida de Ricoeur e, de outro a desmedida de Lévinas - o leitor já terá percebido que o que se disse aqui acerca dos estilos de cada um dos autores, também se aplica aos próprios conceitos - de um lado o sujeito modesto ou o homem capaz, de outro o sujeito deposto ou o refém. A diferença entre ambos não se limita a uma questão de vocabulário mas, uma vez que linguagem e pensamento são indissociáveis, é do próprio pensamento que se trata...

titre comme la stratégie appropriée à la production de l´effet de rupture attaché à l´idée d´extériorité au sens d´altérité ab-solue.”

104 “Quand le visage d´autrui s´élève face à moi, au-dessus de moi, ce n´est pas un appaître que je puisse

inclure dans l´enceinte de mes représentations miennes; certes l´autre apparaît, son visage le fait apparaître, mais le visage n´est pas un spectacle. C´est une voix. Cette voix me dit: ‘Tu ne tueras pas.’ Chaque visage est un Sinaï qui interdit le meurtre. Et moi? C´est en moi que le mouvement parti de l´autre achève sa trajectoire: l´autre me constitue responsable, c´est-à-dire capable de répondre.”

105 Derrida, para quem o pensamento de Levinas “nos convida a abandonar o lugar grego (...) em direção a

uma respiração, uma palavra profética”. Jacques Derrida. L´Écriture et la Différence, op.cit., p. 122. Grifo do autor.

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