Se fosse necessário resumir em poucas palavras o tema desta obra monumental, eu escolheria esta formulação: “Este livro interpreta o sujeito como refém e a subjetividade como substituição do sujeito rompendo com a essência do ser” (AE282). Tese central de
Autrement qu´être formulação repetida inúmeras vezes, sob outra roupagem, desde o início. De acordo com Ricoeur, Autrement qu´être “não oferece – não permite – nenhuma introdução; é-se de chofre jogado in media res” (OUT16/17)159 e “tudo está dito no texto denominado Argumento” (OUT17)160 Mas até mesmo antes do Argumento (capítulo I), logo na nota preliminar, Lévinas explica a que veio:
“Reconhecer na subjetividade uma ex-ceção desregrando a conjunção da essência, do ente e da ‘diferença’; perceber na substancialidade do sujeito, no núcleo duro do ‘único’ em mim, em minha identidade sem par, a substituição a
155 Idem, p. 219
156 Jacques Rolland. “Un chemin de pensée”, op.cit., p. 38.
157 Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p.192. 158 Jacques Rolland. “L´Ambiguité comme façon de l´Autrement”, op. cit., p.444
159 Numa espécie de provocação, Ricoeur aproxima este modus operandi de Lévinas ao de seus maiores
‘adversários’: Hegel e Heidegger ! Cito: “(...) como em Hegel, negando a possibilidade de uma introdução à filosofia que já não seja a própria filosofia, e como em Heidegger para quem a enunciação do esquecimento da questão do ser, na primeira linha da primeira página de Ser e Tempo, vale como esboço de prefácio.”
160 Se isto é verdade, é também verdade que Lévinas, na nota preliminar de AE, diz que o livro foi escrito em
outrem161 ; pensar esta abnegação, anterior ao querer, como uma exposição sem
trégua ao traumatismo da transcendência conforme uma suscepção mais – e outramente – passiva que a receptividade, a paixão e a finitude; fazer derivar desta susceptibilidade inassumível a praxis e o saber interiores ao mundo – eis as proposições deste livro que nomeia o além da essência. Noção que não saberia, certamente, pretender-se original, mas cujo acesso em nada perdeu de seu antigo escarpamento. As dificuldades da ascensão – e seus fracassos e retomadas – se inscrevem numa escrita que, sem dúvida também, atesta o ofegar do explorador. Mas entender um Deus não contaminado pelo ser é uma possibilidade humana não menos importante e não menos precária que tirar o ser do esquecimento no qual ele teria caído na metafísica e na ontoteologia.” (AE10)162
Este pequeno trecho, no limite da compreensão, lembra o comentário de Xavier Tiliette acerca da “linguagem tarabiscotée”163 de Autrement qu´être: linguagem cheia de preciosismos, ou de floreios, quase barroca. Tratar-se-ia apenas de uma questão de preciosismo? Pode-se, junto com Jacques Rolland, apostar que não: para ele, os dois livros:
Totalité et Infini. Essai sur l`Exteriorité e Autrement qu´être ou Au-delà de l´Essence dizem talvez a mesma coisa, mas não a dizem do mesmo modo164 – e este modo faz toda a diferença. Decisiva diferença já anunciada nos próprios títulos dos livros: enquanto o primeiro faz uso de substantivos: Totalidade, Infinito e Exterioridade, no segundo, encontra-se um outro modo de dizer, expresso, precisamente, por um advérbio de modo, um estranho advérbio: Outramente (Autrement), do qual se queixava Silvano Petrosino a
161 A palavra Autrui, usualmente traduzida por ‘Outrem’, recebeu por parte de Felix Duque, novo tratamento,
que prefere dizer: Outro-aí. Cf. Felix Duque.“Introdução à tradução espanhola de Le temps et l´autre”. El
Tiempo y el outro, Ediciones Paidós. ICE de la Universidad Autónoma de Barcelona. Barcelona, 1993. A este respeito, comenta. Ilana Viana do Amaral, em seu artigo: “Do Eros à Ética: caminhos do Desejo nos ditos e no dizer de E. Lévinas”. In: Kalagatos, op.cit., p.68: “A proposta de traduzir o Autrui de Lévinas por ‘Otro-ahi’ é justificada por Felix Duque, pela ênfase no polêmico que este termo guardaria com o
Dasein heideggeriano, como ‘Ser-aí’”. Interessante e pertinente tradução, que não se adota aqui, por prudência, isto é, para não complicar mais as já suficientemente difíceis traduções das obras de Lévinas.
162 “Reconnaître dans la subjectivité une ex-ception déréglant la conjonction de l´essence, de l´étant et de la
‘différence’; apercevoir dans la susbstancialité du sujet, dans le dur noyau de l´ ‘unique’ en moi, dans mon identité dépareillée, la substitution à autrui; penser cette abnégation, d´avant le vouloir, comme une exposition, sans merci, au traumatisme de la transcendance selon une susception plus – et autrement – passive que la réceptivité, la passion et la finitude; faire dériver de cette susceptibilité inassumable la praxis et le savoir intérieurs au monde – voilà les propositions de ce livre qui nomme l´au-delà de l´essence. Notion qui ne saurait, certes, se prétendre original, mais dont l´accès na rien perdu de son antique escarpement. Les difficultés de l´ascension – et ses échecs et ses reprises – s´inscrivent dans une écriture qui, sans doute aussi, atteste l´essoufflement du chercheur. Mais entendre un Dieu non contaminé par
l´être, est une possibilité humaine non moins importante et non moins précaire que tirer l´être de l´oubli où il serait tombé dans la métaphysique et dans l´ontothéologie.”
163 Xavier Tiliette em entrevista a Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p.161 164 Cf. Jacques Rolland. “Un chemin de pensée”, op.cit., p. 41. A mesma frase encontra-se também em
“L’Ambiguité comme façon de l´Autrement”, op.cit., p.429: “os dois títulos se mostram ao mesmo tempo idênticos e diferentes: idênticos pois dizem a mesma coisa; diferentes pois não a dizem do mesmo modo.”
Jacques Rolland, “Altrimente que essere não podendo se dizer em bom italiano”165 E nem em português! Advérbio portanto inexistente – ao menos em algumas línguas (não em francês!) – que vem substituir a ‘exterioridade’ apontada no primeiro título e “por esta substituição, com efeito, o próprio título do livro-tempestade anuncia a de-substantificação e a de-substancialização que vai aí se arriscar”166 Advérbio de modo que vem significar o “para além da essência”, e que o próprio Lévinas qualificou de “expressão bárbara” (AE273)
O que faz Guy Petitdemange comentar que Lévinas reconhece, em seu próprio discurso filosófico, sua estranheza: “o estranho discurso aqui empreendido” (AE281) e assume este como fruto de um rompimento com a linguagem do ser e do saber (isto é, do dito). “A busca de ‘uma linguagem que rompe com o saber’ (AE120, nota) se opera no interior da ordem filosófica (‘o próprio discurso que fazemos neste momento .... discurso que se quer filosófico... [AE242]’)”167.
A este respeito, Ricoeur parece ter visto muito claro: “As páginas consagradas à tríade proximidade, responsabilidade e substituição são pronunciadas num tom que se pode dizer declarativo, para não dizer querigmático, sustentado por um uso insistente, para não dizer obsedante, do tropo da hipérbole” (OUT36). Tom declarativo e querigmático, ou, em termos menos elegantes, discurso arrogante e autoritário – Autrement qu´être é freqüentemente lido nesta chave: a de um discurso praticamente incompreensível, violento e chocante, que causa certo mal estar, devido precisamente ao que Ricoeur denominou linguagem hiperbólica, linguagem do excesso, ou mesmo “terrorismo verbal” (OUT42). Terrorismo e violência que paradoxalmente visam a ética, o bem, ou a santidade168.
A questão é portanto: a que vem este paradoxo de uma linguagem da violência para falar precisamente da não violência? No que este excesso e exagero poderiam se justificar? Ou, em outras palavras, qual seria a função de uma tal linguagem hiperbólica? Não seria um modo possível de construir uma linguagem fora do ser? Como pensar uma linguagem que busca sair do ser, senão pelo excesso ou exagero? O próprio pensamento do para além
165 Jacques Rolland.“L’Ambiguité comme façon de l´Autrement”, op.cit., p.429 166 Idem, p.429
167 Guy Petitdemange. “Éthique e transcendance. Sur les chemins d´Emmanuel Lévinas” In: Lévinas. Édition
et présentation de Danielle Cohen-Lévinas. Paris: Bayard, 2006, p. 111.
168 Agradeço a Alexandre Leone ter me chamado a atenção para o fato de que Lévinas, em seus últimos textos
ou entrevistas, se refere cada vez mais à ética em termos de santidade, como por exemplo na entrevista concedida a Michael de Saint-Cheron. Entretiens avec Emmanuel Levinas. 1992-1994.
do ser e da essência não seria excessivo? É de certa forma o próprio Lévinas que responde, ao dizer: “É o superlativo, mais do que a categoria da negação que rompe o sistema” (AE19, nota 1). A negação não é suficiente para quebrar, por assim dizer, a linguagem: a própria negação deve se fazer superlativa. Já Derrida tinha notado em relação a Totalité et
Infini, numa clara referência a Kierkegaard, que “a escritura de Lévinas se move sempre (...), progredindo com maestria por negações e negações contra negação. Sua via própria não é a de um ‘ou.... ou...’, mas de um ‘nem... tampouco’”169.
Nem afirmação pura, nem dialética, a linguagem de Lévinas é a da interrogação: “(...) Interrogar-se sem cessar e apesar de tudo afirmar. A obra de Lévinas é escrita sob este duplo movimento. Ele é, por um lado, o livro da questão; ‘este estudo se pergunta se todo sentido procede da essência’(AE271)”170. Não se trata de uma destruição do discurso mas de uma “defecção do discurso”, pois: “Lévinas critica a forma tradicional deste discurso, mas sua admirável proeza não é ruptura. Esta forma é modificada, mas é retomada e justificada”171.
Lévinas, aliás, ao menos em seu argumento, não faz economia dos pontos de interrogação e, este modo interrogativo é freqüentemente associado ao modo negativo, o que torna o texto um pouco ‘pesado’, eu diria, talvez tão ‘pesado’ quanto a carga de responsabilidade imputada ao sujeito na sua relação com o outro até o paroxismo da doação, da expiação, da substituição.
Por tudo isto, pode-se falar, como o faz Marie Anne Lescourret, de uma “virada lingüística”172, na qual Lévinas consegue ir além de “nossas línguas tecidas em torno do verbo ser” (AE14), driblá-lo, por assim dizer. Silvana Rabinovich observa que, na língua hebraica, o verbo ser não pode ser conjugado no presente: “Para o verbo hayah, que de forma imprecisa se traduziria pelo verbo ‘ser’, não há conjugação possível no presente”173. Como se o ser só pudesse ser dito no passado e no futuro, ser portanto em movimento, que
169 Jacques Derrida. L´Écriture et la Différence, op.cit., p.134/135.
170 Guy Petitdemange. “Éthique e transcendance. Sur les chemins d´Emmanuel Lévinas”, op.cit., p. 111 171 Idem, p. 112
172 Marie Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas, op.cit., p. 357
173 Silvana Rabinovich. “Emmanuel Lévinas: a ética como filosofia primeira. Jerusalém interpela Atenas.”
Apresentação do livro de Marcio Luis Costa. Lévinas. Uma introdução., op.cit., p. 16. A partir desta ausência primordial, a autora questiona a tradução do nome de Deus, ou do Tetragrama: Eheyé asher eheyé - nome pelo qual Deus se apresenta a Moisés (Êxodo 3,14) - por “Sou o que Sou”. Acerca desta questão e, em geral, da concepção de tempo do homem bíblico, ver o interessante livro de Walter I. Rehfeld. Tempo e
não pode ser fixado no presente, que não pode se substancializar, de-substancialização e de-substantificação que Jacques Rolland via no advérbio “outramente”. Lacuna hebraica, mas também russa, lembra Silvana Rabinovich!
Muito se fala do que há de judeu em Lévinas, e poucos lembram do que há nele de russo, embora ele mesmo sempre tenha feito questão de dizer que suas interrogações acerca do sentido do humano ou do sentido da vida começaram com a leitura dos romances russos: Puchkine, Lermontov, Gogol, Dostoïevsky e Tolstoi. (Cf.EI15). Nesse sentido, Ricoeur talvez tenha sido uma exceção: para ele o uso da hipérbole, seria mais russo do que judaico, como diz na entrevista concedida a Salomon Malka:
“Penso hoje que é o lado russo de Lévinas. Quando ele diz ‘Sou mais culpado que os outros’, na minha opinião, não é judeu, é Dostoïevski, é Os Irmãos Karamazov. O Sr. sabe que ele podia recitar de cor Pouchkine, que ele se nutria dos grandes autores russos. A meu ver, não se dá importância suficiente a esta influência. Isto faz parte de meu pequeno debate com ele acerca do uso da hipérbole. Dizer mais para dizer menos, é isso a hipérbole levinasiana, mas é uma hipérbole dostoïevskiana”174.
Linguagem russa ou judaica - exagero, excesso, hipérbole, superlativo, interrogação: modos de dizer e de pensar o outramente, o para além do ser e da essência. Ao contrário de Totalité et Infini, aqui, diz Jacques Rolland, “o pensamento e a prosa na qual ele se faz estão extraordinariamente unidos”175. E, em outro artigo, o mesmo comentador cita Lévinas para reiterar tal feliz união:
“Foi possível apresentar, desde Totalité et Infini, esta relação com o Infinito como irredutível à ‘tematização’ (...) A linguagem ontológica, usada ainda em Totalité et Infini para excluir a significação puramente psicológica das análises propostas, é doravante evitada. E as análises elas mesmas, remetem, não à experiência na qual sempre um sujeito tematiza o que o iguala, mas à transcendência na qual ele responde por aquilo que suas intenções não mediram.” (Signatures, DL 411/412)176
174 Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p. 202: “Je crois aujourd´hui que c´est le
côté russe de Lévinas. Quand il dit: ‘Je suis plus coupable que les autres’, à mon avis, ce n´est pas juif, c´est Dostoïevski, c´est Les Frères Karamazov. Vous savez qu´il pouvait réciter par coeur du Pouchkine, qu´il était nourri des grands auteurs russes. On ne relève pas suffisamment à mon sens cette influence. Cela fait partie de mon petit débat avec lui sur l´usage de l´hyperbole. Dire plus pour dire moins, c´est cela l´hyperbole lévinassienne, mais c´est une hyperbole dostoïevskienne.”
175 Jacques Rolland. “Un chemin de pensée”, op.cit., p. 53.
176 “Il a été possible de présenter, depuis Totalité et Infini, cette relation avec l´Infini comme irréductible à `la
‘thématisation’ (...) Le langage ontologique dont use encore Totalité et Infini pour exclure la signification purement psychologique des analyses proposées – est désormais évité. Et les analyses, elles-mêmes,
Por isso, diz Rolland: “é somente graças ao abandono da linguagem ontológica que as análises puderam passar da experiência à transcendência. De modo que o tour de pensamento que se inventou em Autrement qu´être é indissociável do tour de escritura no qual ele se expressa”177.
A fratura ou rachadura do conceito que Michael Lévinas vê na obra do pai178, foi assumida no próprio interior do discurso de Autrement qu´être, resultando naquilo que Guy Petitdemange chamou de “defecção do discurso”, defecção que não é destruição, nem ruptura: discurso que inclui em si próprio o dito e o dizer, o discurso de Lévinas é um dito que se desdiz continuamente, como fica claro desde as primeiras palavras do Prólogo de
Humanismo do Outro Homem: o Prólogo, diz Lévinas, não significa repetição, mas “pode
exprimir o primeiro - e urgente – comentário, o primeiro ‘quer dizer’ – que é também o primeiro desdito – das proposições em que, atual e reunida, se absorve e se expõe, no Dito, a inconjugável proximidade do um-pelo-outro, a significar como Dizer.” (HOH 11).
O dito do discurso é da ordem do saber e da consciência, da tematização e da compreensão, universo da ontologia e do mesmo, na qual se toma outrem como tema. Mas o discurso - o dito, enquanto frases com palavras - não dá conta do que se passa no discurso, que não se esgota no efetivamente dito. Para além do dito, na relação do face a face, o discurso também é dizer, isto é falar a Outrem, dizer do qual Lévinas, em Ética e
Infinito, fala de modo muito simples, até mesmo trivial:
“O dizer é o facto de, diante do rosto, eu não ficar simplesmente a contemplá-lo, respondo-lhe. O dizer é uma maneira de saudar outrem, mas saudar outrem já é responder por ele. É difícil calarmo-nos diante de alguém: esta dificuldade tem seu último fundamento na significação própria do dizer, seja qual for o dito. É necessário falar de qualquer coisa, da chuva e do bom tempo pouco importa, mas falar, responder-lhe e já responder por ele.” (EI80).
E que, de modo menos trivial, significa linguagem pré-original, que ao mesmo tempo antecede e excede a nossa linguagem tecida em torno do verbo ser, linguagem do dito. O dito é linguagem do ser, ontologia, essência, enquanto o dizer aponta para além
renvoient non pas à l´expérience où toujours un sujet thématise ce qu´il égale, mais à la transcendance où il répond de ce que ses intentions n´ont pas mesuré.”
177 Jacques Rolland. Prefácio a EV87/88, nota 69.
dela, não se traduz em palavras. O dito domina o dizer: “O destino sem saída onde o ser imediatamente encerra o enunciado do outro do ser não se deveria à dominação que o dito exerce sobre o dizer, ao oráculo onde o dito se imobiliza?” (AE16).
Num certo sentido, dizer e dito são correlativos, isto é, o dizer deve se submeter ao dito, não pode prescindir de ser dito, mesmo que ao preço de uma traição: “A correlação do dizer e do dito, isto é, a subordinação do dizer ao dito, ao sistema lingüístico e à ontologia é o preço que a manifestação exige. Na linguagem como dito, tudo se traduz diante de nós – ainda que ao preço de uma traição.”(AE17/18). Manifestação é traição: eis porque permanecer nesta correlação significa precisamente reduzir o dizer ao dito, isto é passar ao largo da significância do dizer que não pode ser englobado pelo dito e que nele não se esgota: o dizer excede o dito, é excedência; é, no limite, Deus: “Este primeiro dizer é certamente apenas uma palavra. Mas é Deus” (EDE330)179.
O dito é, claro, indispensável, pois é pelo dito que o ‘outramente que ser’ pode se dizer: “Linguagem que permite dizer – ainda que traindo-o – este fora do ser, esta ex-
ceção ao ser, como se o outro do ser fosse acontecimento de ser.” (AE18). Mas o outro do ser não é acontecimento de ser, e por isso, o dizer ultrapassa o dito.
“Anterior aos signos verbais que ele conjuga, anterior aos sistemas lingüísticos e às cintilações semânticas – prólogo das línguas – ele é proximidade de um ao outro, compromisso da aproximação, um para o outro, a significância mesma da significação. (...) O dizer original ou pré-original – o tema do pré-temático – tece uma intriga de responsabilidade. Ordem mais grave que o ser e anterior ao ser.” (AE17)180
Sem a proximidade, sem a aproximação, sem a intriga de responsabilidade que se dá no face a face, face ao rosto, a significação do dito perde sua significância: sem o dizer o dito nada significa. A linguagem do dito, do ser e da ontologia, só significa num dizer que a ultrapassa: esta excedência, que anuncia uma “ordem mais grave que o ser e anterior ao ser” é, precisamente, a ética. Dizer e dito entretêm assim uma relação paradoxal: são, ao mesmo tempo em que independentes, interdependentes: o dito domina o dizer, mas o dizer
179 A questão da concepção de Deus em Lévinas será retomada adiante.
180 “Antérieur aux signes verbaux qu´il conjuge, antérieur aux systèmes linguistiques et aux châtoiements
sémantiques – avant-propos des langues – il est proximité de l´un à l´autre, engagement de l´approche, l´um pour l´autre, la signifiance même de la signification. (...) Le dire originel ou pré-originel – le propos de l´avant-propos – noue une intrigue de responsabilité. Ordre plus grave que l´être et antérieur à l´être.”
escapa ao dito, este, por sua vez, parece auto-suficiente mas se torna vazio sem o dizer : é dizer que enuncia o dito: “O ser, seu conhecimento e o dito em que ele se mostra significam em um dizer que, em relação ao ser, faz exceção; mas é no dito que se mostram e esta exceção e o nascimento do conhecimento.” (AE19).
Se o dito está no plano da consciência e do presente, o dizer é de antes da linguagem e de antes do tempo, remonta a um passado mais passado que o passado, a um tempo pré-original, anárquico, irrecuperável “pela retenção, memória, pela história” (AE22). Passado que não pode ser tornado presente, que fica passado. “Imemoriável, irrepresentável, invisível” (AE25): não faz mais sentido aqui falar de um tempo sincrônico, em que os instantes se sucedem; aqui, “assinala-se um lapso de tempo sem retorno, uma diacronia refratária a toda sincronização, uma diacronia transcendente.”(AE23). A temporalização do tempo não deve mais ser pensada “como essência, mas como Dizer” (AE23).
Mas o discurso sobre o outramente que ser não correria o risco de ser englobado pelo dito que domina o dizer que o enuncia? “Um problema metodológico se coloca aqui. Ele consiste em se perguntar se o pré-original do Dizer (se o anárquico, o não original,