An experiential design approach for making critique
4.4.3 Outlining design-making critique
Sair do ser: é este o tema privilegiado de De l´Évasion, escrito em 1935: este pequeno texto só ganhou devida atenção quando de sua reedição em 1982 por Jacques Rolland. O prefácio de Rolland, que se colocou como tarefa a de ler “num texto de
11 Marie Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas. Paris: Flammarion, 1994, p.211 12 Idem, p. 211/212
13 Silvano Petrosino. La Vérité nomade. Paris: La Découverte, 1984, p.13
14 Jacques Derrida L´Éciture et la Différence. Paris: Seuil, p. 124, note 1. Existe uma tradução em português
de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 2005, da qual está, infelizmente, ausente o artigo sobre Lévinas. No original: “(...) le développement des thèmes n´est, dans Totalité et Infini, ni purement descriptif ni purement déductif. Il se déroule avec l´insistance infinie des eaux contre une plage: retour et répétition, toujours de la même vague contre la même rive, où pourtant chaque fois se résumant, tout infiniment se renouvelle et s´enrichit.”
juventude, a inscrição, mesmo que no vazio, de uma escrita futura”15 , tem o mérito de ressaltar a potência de florescimento, a gravidez, por assim dizer, destes escritos iniciais.
Surpreende nesta pequena obra a forma ou o estilo, que não poderia estar mais distante dos futuros escritos de Lévinas: de uma clareza e transparência quase didática, lembra o comentário de Xavier Tilliette acerca do livro sobre Husserl: “Havia este livro sobre a intuição em Husserl, de uma escrita muito francesa, muito clara, muito diferente daquela adotada mais tarde e que, em Autrement qu´être, se tornará muito tarabiscotée” 16. Mas esta aparente simplicidade da escrita e da démarche, de cunho fenomenológico, não esconde a complexidade do projeto levinasiano, já, em germe, presente aí. Lévinas põe em questão o problema fundamental da filosofia, insistindo na necessidade de evadir-se do ser.
Segundo a interessante hipótese de Rolland, a pesquisa ulterior de Lévinas “conseguiu dar um sentido e uma direção a esta evasão” 17 que, neste texto de 1935 é apenas colocada como “pura exigência”: “De l´Évasion fala somente em ‘sair do ser por uma nova via’ (EV127) sem precisar de nenhum modo o que esta poderia ser”18. O que está em jogo neste texto é o problema filosófico do Ser, como muito claramente aponta Lévinas: “A necessidade de evasão (...) nos conduz ao coração da filosofia. Ela permite renovar o antigo problema do ser enquanto ser” (EV99).
Assim, a presença de Heidegger seria inegável neste ensaio, embora, como nota Rolland, o nome deste filósofo não seja aí citado nenhuma vez. Mas o problema do ser, que Lévinas descobre com Heidegger é igualmente inseparável do problema da diferença ontológica, que distingue entre ser e ente, ou, como prefere dizer Lévinas, entre existência e existente19, entre “o que é” e “o ser do que é”.20 Em Noms Propres, Lévinas diz: “E,
15 Jacques Rolland. “Sortir de l´être par une nouvelle voie”. Préface à De l´Évasion. Paris. Fata Morgana,
1982, p. 13
16 Xavier Tiliette em entrevista a Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p.161. A
palavra francesa tarabiscotée é de difícil tradução: poderia significar cheia de preciosismos, cheia de nós, complexa, ou até mesmo confusa.
17Jacques Rolland. Prefácio a EV14 18 Idem, p. 16
19Idem, p.76, nota 9: “Para evitar qualquer ambigüidade, lembremos que o par existência-existente vale para
Lévinas para o de ser-ente. O que ele precisará, aliás, mais tarde, do seguinte modo: ‘Voltemos ainda a Heidegger. Vocês não ignoram sua distinção (...) entre Sein e Seindes, ser e ente, mas que, por razões de eufonia, prefiro traduzir por existir e existente, sem emprestar a estes termos um sentido especificamente existencialista’ (TA24)”
20 Idem, p.76, nota 10: “quase todos os livros de Lévinas começam pela referência, sob formas diversas, desta
diferença ontológica. Ver assim De l´Existence à l´Existant, p.15, Totalité et Infini, p.13, Autrement qu´être
graças a Heidegger, nosso ouvido se educou a escutar o ser em sua ressonância verbal, sonoridade inédita e inesquecível.” (NP9) Ainda outra dívida para com Heidegger: a idéia de que “o ser que se revela ao Dasein não lhe aparece sob a forma de uma noção teórica que ele contempla” (EDE88). Mas as dívidas parecem parar por aí, pois Heidegger é justamente aquele que “aceita o ser” (EV127), enquanto Lévinas busca sair do ser, quer ir “para além do ser” (EV126), isto é, despregar-se da admiração que Ser e Tempo tinha lhe causado, e abandonar o clima desta filosofia. Por isto, afirma Rolland que a necessidade expressa em 1947 com De l´Existence à l´Existant de abandonar ou de “deixar o clima desta filosofia [sem] sair dela em favor de uma filosofia que se poderia classificar de pré- heideggeriana” (EE18), vale também para este ensaio doze anos mais jovem.
Logo na primeira página, pode-se ler:
“Esta concepção do eu como se bastando a si próprio é uma das marcas essenciais do espírito burguês e de sua filosofia.(...) O ser é: não há nada a acrescentar a esta afirmação enquanto considerarmos em um ser apenas sua existência. Esta referência a si próprio, é precisamente o que dizemos quando falamos da identidade do ser. A identidade (...) é a expressão da suficiência do fato de ser do qual ninguém, ao que parece, poderia colocar em dúvida o caráter absoluto e definitivo.” (EV91/92/93)21.
Esta “inamovibilidade mesma de nossa presença” (EV95) este peso de sermos nós mesmos, este fato irrefutável de estarmos atracados, fixos, unidos, imobilizados, aderidos a nós mesmos, como a minha própria sombra que me segue e persegue sem cessar, é uma prisão, encadeamento a si próprio, cadeia. Sair disto, sair desta cadeia:
“Na evasão, aspiramos apenas a sair. (...) Busca de uma saída, mas não nostalgia da morte, pois a morte não é saída tampouco solução. O fundo deste tema é constituído (...) por uma necessidade de excendência. (...) Assim, a evasão é a necessidade de sair de si próprio, quer dizer, de quebrar o encadeamento o mais radical, o mais irremissível, o fato de que o eu é si próprio.” (EV97/98)22
21 “Cette conception du moi comme se suffisant à soi est l´une des marques essentielles de l´esprit bourgeois
et de sa philosophie. (...) L´être est: il n´y a rien à ajouter à cette affirmation tant que l´on envisage dans un être que son existence. Cette référence à soi-même, c´est précisément ce que l´on dit quand on parle de l´identité de l´être. L´identité (...) est l´expression de la suffisance du fait d´être dont personne, semble-t-il, ne saurait mettre en doute le caractère absolu et définitif.”
22 “(...) dans l´évasion, nous n´aspirons qu´à sortir. (...) Recherche d´une sortie, mais non point nostalgie de la
mort, car la mort n´est pas une issue comme elle n´est pas une solution. Le fond de ce thème est constitué (...) par un besoin d´excendance. (...) Aussi l´évasion est-elle le besoin de sortir de soi-même, c´est-á-dire
É esta a questão fundamental que perpassa toda a história da filosofia. Diz Lévinas:
“O acontecimento fundamental de nosso ser: a necessidade de evasão.” (EV106). E já então aí, neste seu primeiro escrito, se põe em questão o problema filosófico por excelência, desde Parmênides, passando por Platão e Aristóteles, para desembocar em Heidegger: o problema do ser. Não mais o ser, mas a saída ou evasão do ser. Convenhamos: não se trata de pouca coisa! Apenas e tão somente de pensar a filosofia de outro modo, deslocando seu “coração”: do ser à evasão (grifo meu)23
“A necessidade da evasão (...) nos conduz ao coração da filosofia. Ele permite renovar o antigo problema do ser enquanto ser. Qual é a estrutura deste ser puro? Teria a universalidade que Aristóteles lhe confere? Seria o fundo e o limite de nossas preocupações como pretendem alguns filósofos modernos? Não seria ele ao contrário apenas a marca de uma civilização, instalada no fato consumado do ser e incapaz daí sair? E, nestas condições, a excendência seria possível e como se realizaria? Qual é o ideal de felicidade e de dignidade humana que ela promete?” (EV99)24
A partir desta questão central: como sair do ser? que, como já se disse, não será resolvida, Lévinas lança mão de análises fenomenológicas do besoin (necessidade), do prazer, da vergonha e da náusea.
Gostaria de ressaltar a importância destas duas últimas: a vergonha, por me parecer extremamente promissora, quase que - ousaria dizer - profética em relação aos depoimentos dos sobreviventes dos campos de extermínio nazistas25, e a náusea por ser, justamente, a experiência mesma do ser puro, isto é, da impossibilidade de evasão.
23 Este texto de Lévinas – e talvez também seus textos posteriores - me sugere uma imagem: a de alguém
que diz a si próprio diante do espelho: “Vê se me esquece”, ou numa tradução mais filosófica: “Esquece-se de ti mesmo”, isto é, o oposto da famosa recomendação socrática: “Conhece-te a ti mesmo”. É preciso no entanto salientar – para evitar mal entendidos, como observou Ilana Viana do Amaral - que este esquecimento do eu seria estéril se pensado fora da relação com outrem: ele só se sustenta em proveito do outro, isto é, na medida em que outrem ocupa o lugar do eu. Não se trata portanto, como se verá a seguir, de uma crítica à subjetividade, mas, no mesmo diapasão de Ricoeur, de uma crítica ao sujeito soberano e dono de si, no esquecimento do outro.
24 “Le besoin de l´évasion (...) nous conduit au coeur de la philosophie. Il permet de renouveler l´antique
problème de l´être en tant qu´être. Quelle est la structure de cet être pur? A-t-il l´universalité qu´Aristote lui confère? Est-il le fond et la limite de nos préoccupations comme le prétendent certains philosophes modernes? N´est-il pas au contraire rien que la marque d´une certaine civilisation, installée dans le fait accompli de l´être et incapable d´en sortir? Et, dans ces conditions, l´excendance est-elle possible et comment s´accomplit-elle? Quel est l´idéal de bonheur et de dignité humaine qu´elle promet?”
“A vergonha não depende, como se poderia acreditar, da limitação de nosso ser, enquanto ele é suscetível de pecado, mas do ser mesmo de nosso ser, de sua incapacidade de romper consigo próprio. (...) A vergonha aparece a cada vez que não conseguimos fazer esquecer nossa nudez. Ela tem relação com tudo o que gostaríamos de esconder e que não podemos esconder. (...) que queremos esconder aos outros, mas também a si próprio. (...) O que aparece na vergonha é, pois, precisamente o fato de estar preso a si próprio, a impossibilidade radical de fugir de si para se esconder de si próprio, a presença irremissível do eu a si mesmo. A nudez é vergonhosa quando ela é a patência de nosso ser, de sua intimidade última. (...) A nudez de nosso ser total em toda sua plenitude e solidez. (...) é a necessidade de se desculpar por sua existência. (...) O que a vergonha descobre é o ser que se descobre. (...) O ser é, em seu fundo, um peso para si próprio.” (EV111 a 114)26.
Mas é a análise da náusea que permitirá a Lévinas descrever esta experiência do ser puro. Como diz ironicamente Lescourret: “Ele teve esta intuição da náusea, que fará a fortuna de outro” 27. No instante em que é vivida, a náusea “adere a nós” (EV115/116). Nela estamos, inteiros, queremos sair e não podemos.
“Há, na náusea uma recusa em nela permanecer, um esforço de dela sair. (...) Na náusea, que é uma impossibilidade de ser o que se é, se é, ao mesmo tempo, preso a si próprio, encerrados num círculo estreito que sufoca. (...) é a experiência mesma do ser puro. (...) A náusea como tal apenas descobre a nudez do ser em sua plenitude e sua irremissível presença. Eis porque a náusea é vergonhosa sob uma forma particularmente significativa (...) quase no fato mesmo de ter um corpo, de estar aí. (...) O fenômeno da vergonha de si diante de si, do qual falávamos acima, faz um com a náusea. (...) É a afirmação mesma do ser. Ela só se refere a si própria, está fechada para todo o resto, sem janela para outra coisa. (...) É a impotência do ser puro em sua nudez.” (EV116 a118)28
26 “La honte ne dépend pas, comme on serait porté à le croire, de la limitation de notre être, en tant qu´il est
susceptible de péché, mais de l´être même de notre être, de son incapacité de rompre avec soi-même. (...) La honte apparaît chaque fois que nous n´arrivons pas à faire oublier notre nudité. Elle a rapport à tout ce que l´on voudrait cacher et que l´on ne peut pas enfouir. (…) que l´on veut cacher aux autres, mais aussi à soi-même. (...) Ce qui apparaît dans la honte c´est donc précisément le fait d´être rivé à soi-même, l´impossibilité radicale de se fuir pour se cacher à soi-même, la présence irrémissible du moi à soi-même. La nudité est honteuse quand elle est la patence de notre être, de son intimité dernière. (...) La nudité de notre être total dans toute sa plénitude et solidité (...) est le besoin d´excuser son existence. (...) Ce que la honte découvre c´est l´être qui se découvre. (...) L´être est, dans son fonds un poids pour lui-même.”
27 Marie Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas, op.cit., p.118
28 “Il y a dans la nausée un refus d´y demeurer, un effort d´en sortir. (...) Dans la nausée, qui est une
impossibilité d´être ce qu´on est, on est en même temps rivé à soi-même, enserré dans un cercle étroit qui étouffe. (...) c´est l´expérience même de l´être pur. (...) La nausée comme telle ne découvre que la nudité de l´être dans sa plénitude et son irrémissible présence. C´est pourquoi la nausée est honteuse sous une forme particulièrement significative (...) presque dans le fait même d´avoir un corps, d´être là. (...) Le phénomène de la honte de soi devant soi, dont nous parlions plus haut, ne fait qu´un avec la nausée. (...) C´est l´affirmation même de l´être. Elle ne se réfère qu´à soi-même, est fermée sur tout le reste, sans fenêtre sur autre chose. (...) C´est l´impuissance de l´être pur dans toute sa nudité.”
Se me demorei neste texto, e transcrevi longamente as próprias palavras de Lévinas, é para chamar a atenção do leitor para o léxico aqui empregado: sair do ser, ir para além do ser, nudez, excendência, léxico que não será jamais abandonado pelo autor, embora tome formas ou coloridos diferentes nas obras futuras. Mas, já nesta, o ser sufoca, o ser é náusea, o ser cola a pele, a sombra do ser não descola do sujeito, como na história de João, o bobo, evocada em De l´Existence à l´Existant: neste conto popular russo, João “para escapar de sua sombra, lançhe como o almoço que ele foi encarregado de levar ao pai nos campos” (EE29) e assim, nada sobra para João, nem mesmo o almoço, apenas sua sombra.
Se aqui o ser é náusea, mais tarde o ser é mal, o que assusta alguns dos críticos de Lévinas, como por exemplo Didier Franck, para quem: “Dizer que o Ser é o mal, dizer que se é culpado de ser, é enorme. Não é alias nem mesmo bíblico, pois a criação é boa. Não vejo como se pode afirmar uma tal proposição. E ao mesmo tempo, vejo bem que ela sustenta o conjunto de sua obra.” 29
Didier Franck tem razão: o Ser é mal, nas pegadas de Pascal, nesta frase que Lévinas gostava de recordar e que consta na epigrafe de Autrement qu´être : “‘... É aqui meu lugar ao sol.’ Eis o começo e a imagem da usurpação de toda a terra”. Longe estamos de Heidegger: a questão, como sublinha Saint-Cheron, já não é o esquecimento do ser, mas o esquecimento do bem. “A filosofia teria esquecido o ser e perdido o sentido da ontologia, como pensava Heidegger, ou, ao invés disso, o Bem, como pensava Lévinas?”30 A pergunta que Lévinas se faz em De l´Évasion: “Qual é o ideal de felicidade e de dignidade humana que ela [excendência] promete?” é de certa forma respondida em De l´Existence à
l´Existant: “O que pode haver a mais do que a questão do ser, não é uma verdade, mas o bem.” (EE23). A questão do esquecimento do ser é segunda em relação à do Bem.
Novamente, talvez Didier Franck tenha razão: é de fato enorme dizer que o ser é o mal, e talvez também isto não seja de modo algum bíblico. Mas talvez seja judaico. E vale aqui evocar a experiência judaica nos campos de extermínio nazista. Embora tal tragédia não houvesse então ainda ocorrido – pareceria que é em De l´Existence à l´Existant que o impacto de tal tragédia se faz sentir de modo mais contundente31 – a ascensão de Hitler ao poder foi suficiente para transtornar Lévinas. “Minha vida ter-se-ia ela passado entre o
29 Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p. 281
30 Michaël de Saint-Cheron. Entretiens avec Emmanuel Lévinas (1992-1994), op.cit., p. 62 , cf nota 2. 31 Ver as análises sobre o esforço e a fadiga em De l´Existence à l´Existant, p. 31 a 38
hitlerismo incessantemente pressentido e o hitlerismo se recusando a todo esquecimento?” se pergunta Lévinas numa entrevista concedida a François Poirié32. E, muito a propósito, Jacques Rolland lembra um ensaio de 1934, intitulado “Algumas reflexões sobre a filosofia do hitlerismo”: que seria, de acordo com o comentador, “em muitos aspectos, anunciador de De l´Évasion” 33. Lévinas fala aí de uma aderência do corpo ao eu, aderência da qual não se escapa, aderência a partir da qual o espírito está submetido ao corpo:
“O biológico com tudo o que ele comporta de fatalidade torna-se mais do que um objeto da vida espiritual, torna-se seu coração (...) Uma sociedade a base consangüínea decorre imediatamente desta concretização do espírito. E então, se a raça não existe, é preciso inventá-la!” (QRPH 18-20)34
O hitlerismo funda uma sociedade na qual se “reivindica o corpo como lugar de aderência”35. A conseqüência de tal perspectiva? Já em 1934, respondia Lévinas: a expansão, a guerra, a conquista.36
Não menos surpreendente é esta idéia, que ganhará cada vez mais força nos escritos de Lévinas da “vergonha de estar aí”, vergonha que aliás, é freqüentemente neste ensaio, ligada a fenômenos físicos e corporais37, mas que é sobretudo, vergonha simplesmente, de ser: “O que a vergonha descobre é o ser que se descobre.” (EV114). A vergonha de estar aí ou de ser aí, a vergonha do sobrevivente: não se pode deixar de evocar os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração: a vergonha de ter sobrevivido, de estar vivendo, talvez, fortuitamente, no lugar de outro, talvez, por sua própria culpa... Giorgio Agamben, entre outros, em O que resta de Auschwitz38, fala longamente desta experiência de estar a mais, de ser um homem a mais, da vergonha de ser. Por que eu estou aqui e não ele? Questão crucial que, me parece, perpassa grande parte da filosofia de Lévinas, e que se inicia neste texto de 1935, antes do horror impensável/indizível. E que, após o horror,
32 François Poirié. Emmanuel Lévinas: Ensaio e Entrevistas, op.cit., p.73. 33 Jacques Rolland. Prefácio a EV48
34 “Le biologique avec tout ce qu´il comporte de fatalité devient plus qu´un objet de la vie spirituelle, il en
devient le coeur. (...) Une société à base consanguine découle immédiatement de cette concrétisation de l´esprit. Et alors, si la race n´existe pas, il faut l´inventer!”
35 Jacques Rolland. Prefácio a EV51 36 Cf. Idem, p.51 e QRPH, p.22/23. 37 Cf. Idem, p.48
38 Cf. Giorgio Agamben. O que resta de Auschwitz. O Arquivo e a Testemunha. Homo Sacer III, op.cit.,
ganhará firmeza e concretude real, “eu me interrogo já se meu ser é justificado, se o Da de meu Dasein não seria já a usurpação do lugar de alguém.” (EPP 105).
Mas talvez se deva recorrer novamente aqui a Agamben e sua interessante distinção entre as palavras gregas bios e zoé: ambas se referem à palavra vida. Os gregos se reportavam a “zoé, que exprimia o simples fato de viver comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses) e bios, que indicava a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou de um grupo”39 : enquanto a primeira se refere apenas à vida física, orgânica, biológica, ou vida natural, a segunda diz respeito à vida em um contexto humano e cultural. Poder-se-ia ler a vergonha de ser da qual fala Lévinas nesta chave: não se trataria assim somente da vergonha de ser no lugar do outro (o que, por si só, seria suficiente!), mas também da vergonha de ser reduzido e confrontado com a zoé, com a “vida nua”, vida nua que, sob a pluma de Lévinas, é precisamente a aderência do espírito ao corpo.
Maurice Blanchot, ao meditar acerca do livro de Robert Antelme, L´Espèce
Humaine, se refere nestes mesmos termos à experiência do homem nos campos de concentração: um agarramento à vida nua, à existência pura e simples.
“E, sem dúvida trata-se ainda de um certo tipo de egoísmo, e mesmo do mais