Chapter 6. Community forestry and REDD+ pilot project
6.2. REED+ as a resource regime in the community forestry
6.2.1. REDD+ implementation
Os registros históricos e estudos acadêmicos demonstram que a prática do canto coral faz-se presente no contexto brasileiro desde o período de nossa colonização. A chegada dos primeiros colonizadores europeus trouxe o canto coletivo, principalmente aquele ligado aos serviços eclesiásticos, como elemento cultural a ser propagado. Posteriormente, no início do século XX, as iniciativas fundamentadas no nacionalismo e na construção do civismo, colocaram o canto coral no centro de propostas educativas que são protagonizadas de maneira efervescente em alguns Estados brasileiros, como por exemplo, no Rio de Janeiro (ANDRADE, 1939), em São Paulo (FUCKS, 1991) e na Paraíba (SILVA, 2013).
O ensino de música, por meio do canto coral, mantém-se associado às construções sociais, atendendo às demandas e necessidades de uma população que vê nessa prática a possibilidade de transformação social. O Terceiro Setor, oriundo de mecanismos contemporâneos, agrega uma variedade de projetos que incluem o canto coletivo como modalidade educativa. Entre as mais variadas iniciativas, alguns Projetos, ONGs e Institutos localizados em diferentes regiões do país, são destacados na mídia por meio de suas propostas, resultados e abrangência. O Projeto Guri, o Instituto Baccarelli, a ONG Meninos do Morumbi, o Projeto Arrastão e Instituto Ciranda – Música e Cidadania são algumas
iniciativas9 que incluem em suas propostas de educação musical a modalidade de canto coletivo, destinada a crianças e adolescentes.
Várias são as razões pelas quais cremos que a formação de grupos corais e a utilização da voz como instrumento central de musicalização, sejam efetivadas em projetos sociais: o pré-requisito para participar de um coral está, em geral, associado ao prazer de cantar e da realização de uma prática coletiva; é uma atividade com custos iniciais relativamente menores, se comparada às outras formações musicais como uma orquestra ou uma banda, por exemplo, que necessitam da aquisição de instrumentos; as atividades corais podem ser desenvolvidas em espaços flexíveis (uma sala com cadeiras pode ser o suficiente para iniciar as atividades) além da possibilidade de atendimento de uma grande quantidade de participantes.
Acreditamos que a elaboração de projetos que tem por finalidade a formação de grupos corais deve atender as características relacionadas à didática musical, como as metodologias, conteúdos, repertório e ambiente (SOUZA, 2014), e as peculiaridades essenciais na formação do educador musical (OLIVEIRA, 2003), com vistas à formação integral da criança e do adolescente. Além dos conhecimentos da pedagogia musical, o profissional que atua nessa modalidade deve possuir os conhecimentos relativos à técnica de regência, fisiologia do aparelho fonador e as possibilidades do desenvolvimento vocal infantil.
O canto coletivo apresenta-se como a mola propulsora de ações que buscam a transformação social paralelamente ao desenvolvimento vocal e nesse sentido, os apontamentos sobre o público-alvo das proposições vêm abranger algumas especificidades físicas e sonoras. A afirmação “criança é criança em qualquer lugar” pode parecer óbvia, porém, no contexto das proposições educacionais relacionadas ao desenvolvimento vocal, faz toda a diferença, permitindo a ampliação para “voz de criança é voz de criança em qualquer lugar”.
Uma proposta de coro infantil, de cunho social pode propor ações que visam o crescimento vocal dos envolvidos, a vivência de sonoridades possíveis por meio da voz, a ampliação da experiência musical pautada em referências vocais saudáveis e o desenvolvimento da percepção auditiva. Pode envolver, ainda, a construção de elementos sociais imbricados aos musicais, como por exemplo, o respeito aos membros do grupo e suas identidades, a busca por uma homogeneidade sonora e de convivência (respeito mútuo),
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Sites das iniciativas citadas: http://www.projetoguri.org.br; www.institutobaccarelli.blogspot.com.br e
www.baccarelli.com.br; www.meninosdomorumbi.org.br; http://www.arrastao.org.br/br/;
execução de exercícios vocais e corporais apropriados à faixa etária e o desenvolvimento cognitivo e sensório motor, visando a ampliação das capacidades vocais e o aprendizado de um repertório significativo e que respeite a extensão vocal da criança.
Leck (2009, p. 6) reforça que um dos objetivos do trabalho coral é o de realizar uma conexão entre os cantores e o prazer ocasionado pelo envolvimento com a música. Esta conexão pode ocorrer por meio de uma experiência estética e social onde os participantes desfrutam do processo de construção sonora e dos resultados obtidos, cultivando uma paixão pela música que os acompanhará durante toda a sua vida. Nesse sentido, a experiência coral deve fornecer uma oportunidade singular de aprendizado, de qualidade em desempenho, de crescimento pessoal e social independente da origem e idade dos participantes.
Considerar o “todo” em uma proposta educativa por meio do canto coral abarca, além dos aspectos sociais, culturais e estruturais da música, as especificidades físicas e cognitivas do ser humano. A regente Elza Lakschevitz (2006, p. 58) destaca que sempre procurou desenvolver uma qualidade vocal própria da criança afirmando que “se for trabalhada em sua naturalidade e vigor, soará como nenhuma outra pessoa consegue”:
Sempre procurei o som da criança. A minha preocupação não era alargar sua tessitura, volume, ou mesmo modificar seu timbre natural. Pedia que ela cantasse normalmente. O que eu não queria, por exemplo, é que ela repetisse certos exemplos, como as vozes de seus pais ou de professores da escola. [...] Buscava sempre o som mais leve possível. Volume e consistência vêm com o tempo e o treino. [...] o grande diferencial da voz infantil é uma certa suavidade, um “adocicado”. [...] Coro infantil é pra crianças, e não para “pequenos adultos” (LAKSCHEVITZ, 2006, p. 70).
Lakschevitz (2006, p. 89) ressalta não haver sentido algum em “almejar um tipo de sonoridade que não seja aquela natural da criança”. A voz da criança possui uma clareza e uma leveza muito peculiar, produzida por uma estrutura muscular que ainda está em formação. A naturalidade, a projeção e o relaxamento muscular são fatores elementares que podem ser alcançados dentro de um planejamento que procure manter a naturalidade da voz infantil. Bartle (1993, p. 8) afirma que as crianças de 6 a 8 anos, em geral, possuem uma sonoridade natural, doce e soprosa (com um pouco de ar). Os exercícios técnicos na atividade coral devem ensinar a boa postura, o controle de entrada e saída de ar (suporte apropriado de respiração) e o desenvolvimento de uma sonoridade pura das vogais. O trabalho da técnica vocal, contextualizado ao universo infantil constitui-se o alicerce e/ou o fundamento onde a sonoridade coral será construída ao longo do tempo.
A leveza e a clareza características da voz infantil podem ser percebidas a partir do trabalho técnico e da execução de canções que respeitem a extensão vocal da criança, isto é, a região de maior brilho e projeção vocal. Assim, a definição das canções que serão ensinadas envolve, além de textos apropriados ao universo infantil, a utilização de melodias que respeitem os limites entre o grave e o agudo, o volume e o timbre da criança.
Partindo-se da conceituação de que a tessitura é o âmbito da escala dentro da extensão vocal onde a entonação dos sons resulta mais fácil e cômoda, [...] estabeleceram-se padrões de tessitura para fins de análise de partituras do repertório vocal e convencionou-se chamar ‘tessitura padrão’ àquela que exerceria, inicialmente, a voz média, evitando a dureza da voz de peito e os inconvenientes de uma prática prematura da tessitura aguda (MÁRSICO, 1979, p. 27).
De acordo com Bartle (1993), nunca devemos forçar ou “puxar” a voz infantil para além dos seus limites. A ampliação da extensão e das qualidades vocais será desenvolvida gradualmente se os adequados embasamentos forem colocados através de um bom treinamento. Os apontamentos sobre as características da voz infantil corroboram para o reconhecimento da seriedade com que as atividades vocais devem ser executadas, especialmente no contexto aqui abordado, com vistas a efetivar procedimentos que devem originar experiências significativas aos educadores, ao público atendido e à sociedade de maneira geral.
As atividades corais planejadas de forma dinâmica e lúdica podem transitar entre o imaginário infantil e a responsabilidade de construir conhecimentos contextuais que poderão servir de referência para a vida em sociedade. Podemos citar, como exemplo, a percepção auditiva que, desenvolvida a partir de experiências musicais pode transcender para as situações de interação social quando um sujeito desenvolve a capacidade de escutar e entender o discurso do próximo. O processo de construção de um repertório pode incidir na compreensão de que assim como na música, existem elementos essenciais que compõem uma sociedade justa e equilibrada.
A partir dessas perspectivas, as aprendizagens inerentes ao desenvolvimento vocal, por meio do canto coletivo, devem objetivar a construção social, a compreensão cultural e o entendimento de que, na maioria das vezes, não são as características estruturais das canções aprendidas que promovem a permanência de crianças e adolescentes em projetos sociais, mas os significados dessa prática em suas vidas. Tais significados podem resumir-se ao fazer coletivo, ao desenvolvimento vocal de uma sonoridade admirada pela sociedade, às interações
proporcionadas, o acesso a espaços e lugares que antes não eram possíveis como teatros e auditórios, e a inserção na sociedade agregando sentido ao “todo”.