Chapter 6. Community forestry and REDD+ pilot project
6.2. REED+ as a resource regime in the community forestry
6.2.3. REDD+ evaluation
Até aqui, temos apontado a necessidade de considerar as conexões entre música, cultura e sociedade para a compreensão do fenômeno musical, típico da produção humana. A apropriação dos conceitos de cultura, enculturação e o entendimento de música como cultura,
presentes em nossa discussão, proporciona uma visão ampliada que considera as construções sociais, os significados do fazer musical e os conhecimentos transmitidos ao longo das gerações. Nesse contexto, podemos analisar as ações do Projeto UCCC como resultado de uma sociedade cujos mecanismos políticos e de interesses públicos subsidiam as proposições educacionais de um determinado grupo. Esse grupo, por sua vez, executa suas ações por meio de uma rede de diálogos.
Durante treze anos de atividades contínuas, o Projeto UCCC contribui na elaboração de novas teias, construídas mediante as suas interações. A prática coral passa a ser significativa como expressão da cultura local a partir do momento em que: a sociedade entende a importância da música na formação humana, quando a continuidade da proposta é requerida ano após ano (edital do PROMIC), bem como na disponibilidade das escolas municipais ao chamado da Secretaria Municipal de Educação para o recebimento em seus espaços de uma proposta músico-educativa (inclusive fornecendo a estrutura necessária para sua execução); no momento em que os pais e os responsáveis comparecem em reuniões e em performances; e, quando os alunos frequentam os ensaios com envolvimento e assiduidade.
Compreender o Projeto UCCC como um universo de formação em música, no contexto das proposições do Terceiro Setor, implica no entendimento de que este foi a princípio elaborado com o anseio de proporcionar uma educação musical sistematizada e de continuidade, que até então estava aparentemente ausente do contexto escolar. O Projeto UCCC nasce da tentativa de alavancar o ensino de música nas escolas públicas, espaço institucional e formal. Entretanto, as atividades realizadas em escolas pertencentes a diferentes contextos sociais proporcionaram uma ampliação da leitura da realidade, resultando na concepção de projeto social. Assim, os diálogos estabelecidos, demonstram as articulações entre os três setores da sociedade, que juntos agregam significados para a manutenção e continuidade do trabalho desenvolvido.
A escola, por sua vez, representa a construção de um ambiente que, instituído socialmente, volta-se para a transmissão de conhecimentos e comportamentos considerados essenciais. Os espaços formais de ensino e aprendizagem configuram-se no contexto contemporâneo como responsáveis pelo processo de formação básica, onde os indivíduos são preparados para vida. A escola é o local onde intencionalmente educamos e ensinamos tudo aquilo que valorizamos enquanto sociedade. É, ainda, um recurso de definição e manutenção da própria cultura.
A concepção, portanto, de que é preciso lugares na sociedade com a finalidade específica de transmitir os conhecimentos e comportamentos
estabelecidos como fundamentais, é uma definição cultural, que nos foi passada ao longo do tempo e que nos leva a crer e a conceber a escola como um contexto essencial para a formação humana, consequentemente para a cultura. Cultura entendida como o conjunto de saberes, conceitos, comportamentos e habilidades adquiridos pelos sujeitos nas interações com a sociedade. A escola seleciona esse conjunto de conhecimentos e ações humanas com base nos valores da cultura e define suas estratégias para que eles sejam transmitidos aos indivíduos também a partir de aspectos e valores culturais (QUEIROZ, 2013, p. 99).
Se a Escola configura-se como espaço instituído para a aprendizagem e transmissão de conhecimentos, a inserção das atividades musicais por meio de projetos sociais (via Secretarias de Cultura e Educação) vem reforçar o ensino de música como componente importante da cultura, que agrega conhecimentos essenciais para a formação humana. As características estruturais e as não propriamente sonoras, bem como as metodologias empregadas no processo de ensino e aprendizagem da música instituída pelo Projeto UCCC, acrescentam então, elementos importantes da formação humana e que deveriam reverberar em toda sociedade. Nesse sentido, algumas questões desenvolvidas por meio da música que dizem respeito aos aspectos não propriamente sonoros, como por exemplo, a disciplina, a concentração e as interações promovidas, apresentam-se extremamente importantes por incidirem diretamente no comportamento dos sujeitos na sociedade.
O Projeto UCCC compreendido por meio de seu movimento dinâmico entre a instituição escolar e o Terceiro Setor e imbuído dos mesmos objetivos e anseios dessas duas organizações sociais, pode contribuir na melhoria de vida por meio de ações que gerem
transformação social, além de colaborar no processo de implementação da Lei no 11.769/08,
no qual a sociedade institui oficialmente a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de educação básica. Na ausência de uma proposição efetiva em educação musical, as ações do Projeto UCCC adquirem significância ao proporcionar um ensino articulado com as pretensões da sociedade e da cultura local.
O Projeto UCCC configura-se então, como um mecanismo de formação humana quando contribuiu no estabelecimento da experiência musical por meio da modalidade coral. As canções ensinadas, a sonoridade vocal construída, a maneira como os concertos são estruturados e uma série de outros elementos, compõe um universo de construções sociais que vem caracterizar uma identidade cultural. Ao longo do tempo em que o Projeto UCCC desenvolve suas atividades, a música coral, caracterizada como um elemento cultural é compartilhada, corroborando para a manutenção de fios que expressam referenciais estéticos
associados àquela prática, tecendo modos de ensinar e aprender música através da voz e criando oportunidades para que novas interações sociais sejam estabelecidas.
CAPÍTULO 3
A proposta músico-educativa do Projeto UCCC
Considerando os referenciais teóricos e metodológicos adotados na pesquisa, esse capítulo apresenta e discute a proposta músico-educativa do Projeto UCCC a partir do seu contexto, dos mecanismos instituídos socialmente para a sua viabilização e das concepções dos sujeitos envolvidos. De maneira detalhada são evidenciados o planejamento dos ensaios, o processo de seleção das escolas atendidas e os principais pensamentos dos personagens imbricados à ação pedagógica sobre os objetivos do Projeto, a sua importância e as bases pedagógicas da proposta de ensino.
3.1 O público atendido
De acordo com os documentos elaborados e apresentados ao PROMIC, o público- alvo da proposta músico-educativa do Projeto UCCC corresponde aos alunos de escolas da Rede Municipal, matriculados do 2º ao 5º anos do ensino fundamental. Para participação nas atividades do Projeto, que incluem basicamente ensaios e performances, os alunos devem obter a autorização dos pais ou responsáveis e preencher uma ficha de inscrição. No mês de março, o Projeto realiza reuniões com os familiares em cada uma das Escolas. Nessas reuniões, os educadores explicam os objetivos da proposta, a importância da assiduidade e pontualidade dos alunos e o envolvimento dos pais no incentivo e na permanência das crianças nas atividades do Projeto, frequentando os ensaios e participanto das apresentações e concertos gerais. O Projeto não realiza seleção de alunos e a quantidade de participantes é definida de acordo com a estrutura física da Escola.
Em 2002, primeiro ano de atividades, os ensaios foram propostos para acontecerem
no período do contra turno escolar, com a participação de alunos matriculados nos 4o e 5o anos
(3a e 4a séries) (UMCANTOEMCADACANTO, 2002). No ano de 2003, o atendimento foi
ampliado para alunos matriculados no 3o ano (2a série). Com o passar dos anos, algumas
Escolas incluíram as atividades do Projeto no período normal de aula e não mais no contra turno escolar. Essa modificação aumentou o número de alunos atendidos e gerou a necessidade de algumas adaptações organizacionais.
A partir do momento em que a atividade musical, proposta inicialmente como atividade de contra turno, passa a realizar-se no período normal de aula, algumas Escolas
optaram em selecionar turmas inteiras de alunos enquanto que outras decidiram permitir a participação de todos os alunos interessados, de acordo com o tamanho da sala e quantidade de cadeiras disponíveis. Assim, os alunos interessados eram liberados durante uma hora e meia, enquanto os demais permaneciam na sala de aula com a professora realizando atividades de revisão. Por meio da pesquisa de campo foi possível constatar a organização e os anos (séries) dos alunos atendidos:
TABELA 7
Organização dos alunos
Escola Anos (séries) atendidos em 2014
Organização dos alunos
E.M.B1 3º, 4º e 5º anos . Participaram os alunos interessados, os demais permaneciam na sala de aula com a professora.
E.M.C1 3º e 4º anos E.M.H2 3º, 4º, 5º anos E.M.N2 4º e 5º anos E.M.Q2 3º, 4º e 5º anos
E.M.D1 3º, 4º e 5º anos . Participaram os alunos interessados, os demais permaneciam na sala de aula com a professora;
. Participaram alguns alunos do contraturno; E.M.F2 3º, 4º e 5º anos
E.M.J2 3º, 4º e 5º anos
E.M.L1 3º, 4º e 5º anos . Participaram turmas inteiras de alunos (3º e 4º anos); . Participaram alguns alunos do contraturno;
E.M.G2 4º e 5º anos . Participaram duas turmas inteiras de alunos;
. Participaram os alunos interessados, os demais permaneciam na sala de aula com a professora.
E.M.P2 4º ano . Participaram três turmas inteiras de alunos.
Fonte: diário de campo.
Uma das características sobre o público atendido diz respeito à diversidade social, da estruturação familiar dos alunos atendidos, o que pode ser observado por meio dos depoimentos dos personagens entrevistados. Das onze diretoras entrevistadas, cinco explicaram que o os alunos atendidos correspondem a uma população de baixa renda e que sofrem com diversos tipos de carência. A diretora da E.M.P2 comenta que atende um “público bem [...] carente [...]. Eles são carentes de afeto da família. [...] É aquele público [...] que a gente percebe que [...] não tem nada além daqui, da Escola” (Entrevista, D._E.M.P2, 03/04/2014). A diretora da E.M.B1 relata que seus alunos encontram-se em “situação de risco em todos os sentidos, emocional, físico” envolvendo “a questão do abuso” e “inúmeras situações de espancamento” (Entrevista, D._E.M.B1, 09/04/2014).
Outras quatro diretoras explicaram que atendem alunos pertencentes a famílias estruturadas e com um poder aquisitivo suficiente para a manutenção das necessidades
básicas. A diretora da E.M.Q2 afirma que as “famílias são bem estruturadas [...], o poder aquisitivo não é tão baixo” (Entrevista, D._E.M.Q2, 03/04/2014), enquanto que a diretora da E.M.N2 salienta que “a grande maioria” das famílias atendidas “tem poder aquisitivo um pouco melhor e quase todos, pai e mãe, trabalham. Eles são cuidados por avós [...] ou alguém é pago para isso” (Entrevista, D._E.M.N2, 10/04/2014).
Apenas duas diretoras apresentaram a concepção de que o público atendido é diversificado. A diretora da E.M.J2 explica que o atendimento a famílias de diferentes bairros reflete no perfil dos alunos destacando que recebe alunos que sofrem com privações e outros que vivem em uma situação financeira mais confortável (Entrevista, D._E.M.J2, 07/04/2014). A diretora da E.M.F2 traz um relato interessante. A Escola E.M.F2 participa das atividades corais desde o primeiro ano de atividades do Projeto UCCC e a diretora argumenta que ao longo dos treze anos, foi possível observar modificações relacionadas à situação sociocultural das famílias atendidas:
Era um público de [...] assentamento, que morava em barraco, analfabeto e o filho estudava aqui. Hoje o público é outro. Hoje [...] eu já tenho pais com nível superior, já tenho pais alfabetizados [...]. Então [...], hoje o bairro não é de assentamento, hoje é um bairro normal, como vou dizer, é um bairro que tem pessoas simples [...] mas não é aquele bairro “[...] vem aqui que vai levar um tiro”. Não é, essa visão é estereotipada que não existe mais. São pessoas [...] simples, pobres, ganham pouco, mas conhecem as coisas. Tem televisão, celular, tablet, [...] são informados, [...] são bem politizados, [...] sabem o que é bom (Entrevista, D._E.M.F2, 04/04/2014).
De maneira geral, os monitores do Projeto UCCC estão conscientes das características sociais dos alunos atendidos e a fala da assessora artística, Lucy, resume a concepção dos educadores:
São crianças de todas as regiões da cidade. Algumas regiões bem mais carentes [...] de recursos financeiros de toda ordem, que eu acho que é a maioria, e algumas de uma realidade um pouquinho mais tranquila em termos de estrutura familiar, do básico [...] para a sobrevivência. Mas, há muitos contextos das Escolas em que as crianças realmente não têm amparo [...] familiar nenhum. Então eles comem na Escola e se tiver que encaminhar alguma coisa, [...] é através da Escola. Porque desde assistência a posto de saúde, a Escola encaminha. [...] Se deixar para os pais, tem criança que nem encontra com os pais [...]. Então eu acho que a maioria é assim. Não sei se a gente pode por uma porcentagem, mas [...] eu acredito que mais ou menos 70% das crianças sejam carentes em todos os sentidos, quase que sem contar muito com a estrutura familiar. [...] Até acho que as crianças conseguem se motivar a ponto de conseguir ir aos ensaios, às vezes no contra turno, porque eles não tem um pai ou uma avó, uma mãe às vezes para falar “olha agora é o horário de você ir ao ensaio”. [...] Crianças que tem todo tipo de carência,
carência afetiva, carência alimentar, carência emocional e carência de recursos de toda ordem (Entrevista, Ass.Art. Lucy, 01/04/2014).
Observa-se que as falas dos entrevistados revelam as concepções sobre o público atendido, apontando para o aluno matriculado na rede pública de ensino, além dos discursos de alguns diretores que revelam a concepção de que a família também corresponde ao público atendido em suas Escolas, e consequentemente nas atividades do Projeto UCCC. A concepção de que a família do aluno também constitui o público do Projeto, traz para a discussão a participação de outros personagens da rede de diálogos. O envolvimento da família amplia a visão dos beneficiários da proposta músico-educativa e a partir dessa perspectiva poderíamos incluir também os demais sujeitos ligados ao contexto das escolas municipais, tendo em vista que na organização dos espaços para os ensaios e na realização de performances, a experiência musical é compartilhada com colegas de sala, professores e funcionários da secretaria e serviços gerais, indicando a notoriedade adquirida pelo Projeto UCCC no contexto social e cultural local.