Chapter 8: Corruption
8.4. Do rules and regulations provide for transparency?
8.4.1. Governance related provisions
Os discursos dos personagens entrevistados também trouxeram a ideia de que as ações músico-educativas do Projeto UCCC contribuem na formação global dos alunos atendidos. Essa concepção surge quando os personagens trazem relatos sobre os objetivos do Projeto e a sua importância. A diretora da E.M.C1 enfatiza que, de maneira geral, o Projeto “colabora bastante com o desenvolvimento da criança” (Entrevista, D._E.M.C1, 09/04/2014) e as palavras da professora responsável da E.M.G2 apresentam detalhes sobre essa concepção, pois expõe o entendimento de que as aprendizagens ocorridas são transportadas para situações diversas da vida dos participantes, indicando a elaboração de conhecimentos significativos:
O objetivo maior [...] é a formação [...] global da criança enquanto cidadão. [...] São alguns aspectos que vêm favorecer a criança, acrescentar nessa formação [...]. Então algumas questões que ela aprende ali naquela aula, ali naquele momento, vai estar levando para a vida depois. [...] É um valor [...] inestimável (Entrevista, P.R._ E.M.G2, 06/06/2014).
Solicitei à professora responsável da E.M.G2 que fornecesse algum exemplo referente aos aspectos que o aluno aprende no contexto do Projeto UCCC, e que são levados para outras situações de sua vida. A professora acredita que esses aspectos relacionam-se “à questão do respeito” e da ampliação cultural tendo em vista que os alunos conhecem outras músicas (Entrevista, P.R._E.M.G2, 06/06/2014).
A elaboração de conhecimentos considerados significativos, que passam a compor a vida dos participantes em situações e espaços diversificados, aparece na fala dos entrevistados por meio das palavras “disciplina, concentração e atenção”. A monitora Carla explica que o Projeto tem por objetivo “estimular a criança no desenvolvimento mental [...] porque ela tem que estar muito concentrada, ela tem que estar ativa, não pode estar muito passiva, ativa no sentido de estar preparada, prontidão para responder aos nossos estímulos” (Entrevista, M. Carla, 10/04/2014). A monitora Élbia concorda com esse pensamento ao dizer que “além do conhecimento musical [...] trabalha disciplina, concentração, [...] desenvolve cognitivamente, desenvolve afetivamente. Trabalha coordenação. Eu acho que trabalha a criança como um todo” (Entrevista, M. Élbia, 07/04/2014).
A afirmação da monitora Élbia, “trabalha a criança como um todo”, permite-me considerar que a proposta músico-educativa do Projeto UCCC fundamenta-se em uma visão sistêmica como aponta Kleber (2006). Por tratar-se de uma proposição social, o Projeto UCCC busca o oferecimento de uma formação musical conectada ao contexto, o qual não há espaço para fragmentações no processo de construção de conhecimentos, resultando em uma proposição que vislumbra “o todo”. Essa proposição vem ao encontro da necessidade da sociedade atual em viabilizar o ensino de música no setor público, em prol da melhoria de vida, unindo-se ao espaço instituído socialmente à formação humana: a escola.
Contribuir na formação global da criança abrange também o pensamento de que, o contato com diferentes expressões musicais é essencial na formação humana por proporcionar a ampliação das vivências e experiências artísticas. A diretora da E.M.H2 afirma que “o objetivo do Projeto a princípio é trazer um novo” (Entrevista, D._E.M.H2, 08/04/2014), enquanto a professora responsável da E.M.N2 diz que, entre o objetivo de desenvolver a atenção, encontra-se o de “conhecer novas culturas” (Entrevista, P.R._E.M.N2p, 05/06/2014). A pesquisa de campo e a análise dos dados proporcionam o entendimento de que o conhecimento de novas culturas, citado entre os entrevistados, se dá enfaticamente por meio da aprendizagem das canções que compõem o repertório a ser desenvolvido. Das cinco canções escolhidas para serem trabalhadas nos primeiros ensaios do ano de 2014, ocorridos entre os dias 18 a 21 de março, três canções (“Funga Alafia”, “Zum Gali Gali” e “Tallis
Canon”) eram originárias de culturas diferentes da brasileira. Durante o planejamento desse ensaio os monitores, a coordenadora pedagógica e assessora artística conversaram sobre as possibilidades de ensino dessas canções e a ideia de incentivar os alunos a buscarem informações sobre a localização geográfica e curiosidades culturais. Na execução do planejamento na Escola E.M.B1, a coordenadora pedagógica e monitora regente, Oleide, estimulou os alunos a procurarem elementos culturais atrelados à origem da canção “Funga Alafia” e explicou aos alunos:
Nós vamos falar agora uma língua, sabe da onde? Lá da Libéria! [...] Eu vou dar uma tarefa para a próxima aula. [...] Quem tem computador em casa ergue o dedo. Quanta gente! [...] Quem tem computador vai pesquisar onde é a Libéria, que língua eles falam, como é o país, do que o país vive, se é da indústria, se é do comércio, se é da pesca, se é do turismo. Depois vai contar pra mim (Diário de campo, Ensaio na E.M.B1, 19/03/2014).
Aos poucos, conforme as canções eram ensinadas, os monitores explicavam a tradução, procurando deixar sempre uma novidade para o ensaio seguinte. Entendo que “o novo”, nesse contexto, implica não apenas na execução de uma melodia que não é executada na mídia, mas nas expectativas despertadas com relação à realização de pesquisas sobre um país distante, o conhecimento de outras culturas, o aprendizado de palavras em outro idioma e sua pronúncia, a vivência de sonoridades diversificadas e o compartilhar da novidade com a comunidade escolar e seu entorno. A novidade oferecida pelas ações educativas do Projeto não fica restringida apenas aos alunos participantes, mas é partilhada com as pessoas que assistem as apresentações nas Escolas e os concertos gerais, no processo de aprendizagem das canções que pode ser escutado pelos corredores das Escolas e ainda, no ambiente familiar quando a criança mostra para os seus familiares as melodias que têm aprendido.
O relato da monitora Gilcene ilustra a ideia de ampliação da vivência musical mencionada por diretores e professores responsáveis. O “novo” que se faz presente nas aulas do Projeto por meio das canções desenvolvidas é estendido à família, despertando o interesse por novos gêneros e sonoridades:
Eles tem um repertório bem limitado que é o que a mídia oferece e através do Projeto a gente vê crianças que começam a se abrir para outros gêneros. Por exemplo, o ano passado mesmo uma mãe veio falar, que a gente foi ensinar uma canção italiana, e aí o menino pediu para a mãe “mãe vamos procurar músicas italianas” e aí ele começou a ouvir música italiana em casa [...]. Então assim, a família toda se abriu para um novo gênero. Daqui a pouco eles já estavam ouvindo até ópera, tudo em casa. Então é essa questão musical de levar mesmo, de oportunizar conhecer novos gêneros (Entrevista, M. Gilcene, 11/04/2014).
As falas dos entrevistados demonstram que as habilidades desenvolvidas por meio do conhecimento musical aparecem presentes em situações que transcendem as atividades do Projeto propriamente ditas como ensaios e performances. A professora responsável da E.M.N2 relata que os alunos participantes adquirem comportamentos diferenciados e que refletem nas demais atividades escolares (Entrevista, P.R._E.M.N2, 10/04/2014). Tal afirmação coloca a proposta educativa do Projeto UCCC em uma posição de singularidade, tendo em vista que compartilha da responsabilidade de formação global dos sujeitos.
Observo que os educadores que conduzem os ensaios no Projeto UCCC preocupam- se em oferecer um ensino significativo, que por sua vez, seja praticado em diferentes espaços e situações sociais. O desenvolvimento da concentração para a escuta de uma melodia pode ser transferido para a sala de aula quando o aluno compreende que precisa escutar, com a mesma atenção, as orientações da professora. A disciplina requerida durante as atividades corais, como por exemplo, organizar-se em fila do menor para o maior, permanecer sentado em uma postura adequada ou executar uma sequência rítmica em um determinado momento, pode refletir no cotidiano, contribuindo na melhora das relações interpessoais e no desenvolvimento global do ser humano.
A concepção de que os conhecimentos adquiridos por meio das atividades do Projeto UCCC podem ser transferidos para outros espaços e situações conferem importância à proposta músico-educativa. Observar o cotidiano do Projeto UCCC, conversar com os seus personagens e ter contato com documentos que expõem detalhes sobre a prática musical e os sujeitos envolvidos, revelaram aspectos que, desenvolvidos nos ensaios, são praticados nas demais situações e espaços sociais. Dessa maneira, as falas dos entrevistados salientam que o Projeto UCCC é importante por proporcionar interações sociais fundamentadas no respeito e na sensibilidade com o próximo, além do desenvolvimento da responsabilidade, disciplina, atenção e concentração.
A monitora Carla explica que o Projeto UCCC oferece um “trabalho musical de educação em geral, não só musical” enfatizando “educação geral, em todos os aspectos” (Entrevista, M. Carla, 10/04/2014). O pensamento de educação geral é visto também na fala da monitora Elaine ao afirmar que a habilidade desenvolvida por meio da experiência musical, “[...] não é só para cantar, muitas crianças nunca serão músicos, mas aquilo que ela está aprendendo, as propriedades do som, os parâmetros, as qualidades que ela vai ter ali, ela vai levar para a vida toda” (Entrevista, M. Elaine, 07/04/2014). Esses depoimentos evidenciam o pensamento de formação global, tendo em vista os imbricamentos entre as características estruturais e aquelas não propriamente sonoras.
As falas das diretoras e professoras responsáveis demonstram esses imbricamentos por meio da utilização das palavras respeito, canto, sensibilidade, responsabilidade, voz, disciplina, atenção, música e concentração.
Trabalha muito a questão disciplinar, as crianças aprendem [...] disciplina e também [...] como usar melhor a voz [...]. Também a questão da interação, do respeito, tudo isso que é trabalhado, porque não trabalha só com música, trabalha valores, então isso é bem importante (Entrevista, D._E.M.J2, 07/04/2014).
A diretora da E.M.L1 destaca a importância do Projeto no desenvolvimento da sensibilidade, salientando que as modificações comportamentais ocorridas e que refletem no cotidiano escolar, são estimuladas pelas atividades corais:
Eles desenvolvem a sensibilidade, que eu acho tão importante [...]. Eles ficam [...] mais dóceis, entendeu? Você não imagina como que é a diferença. [...] Tanto que a gente, de uns três anos para cá, [...] não tem problema de indisciplina aqui na Escola, não temos, temos aqui o corriqueiro só [...]. Então, uma coisa que eu nunca vou deixar acabar aqui na Escola é o coral, porque ele ajuda muito nesse aspecto (Entrevista, D._E.M.L1, 11/04/2014).
A professora responsável da E.M.N2 também utiliza a palavra “dócil” para referir-se ao desenvolvimento da sensibilidade e da tranquilidade nas situações escolares. Em sua concepção, essa é a importância do Projeto, pois “[...] as crianças ficam mais dóceis, as crianças se comportam, até mesmo aquelas mais agitadas, ficam mais calmas [...]” (Entrevista, P.R._E.M.N2, 10/04/2014). Compreende-se que dócil e cordial são palavras que direcionam o entendimento para o desenvolvimento da interação social entre os participantes do Projeto. A professora da E.M.Q2 diz que:
As crianças se tornam mais atentas na sala de aula. Elas se tornam mais cordiais com os colegas, até mesmo no trato com os professores. Elas se tornam mais responsáveis. Nós tivemos exemplos de alunos [...] que tinham comportamento negativo em sala de aula, não faziam tarefas, eram desrespeitosos com o colega, com o professor. E participando do coral houve uma mudança no comportamento. [...] Houve uma mudança na vida dessa criança, [...] mudou o comportamento, mudou até o modo de se vestir, o cuidado com a higiene pessoal. Ela teve uma mudança [...] fantástica (Entrevista, P.R._E.M.Q2, 03/04/2014).
De acordo com a professora responsável da E.M.H2, além da interação social, o contato com a música vem proporcionar experiências que motivam o senso crítico. Por meio da pesquisa de campo, pude compreender que senso crítico, no contexto do Projeto, resulta de uma metodologia que estimula o pensamento reflexivo a partir da aprendizagem do repertório.
Os alunos são estimulados a observarem detalhes estruturais do som por meio dos modelos demonstrados por monitores. Por intermédio desses modelos, diversos questionamentos são realizados. Aparentemente, o conceito de senso crítico parte da vivência estética e de acordo com a professora responsável da E.M.H2 é transferido para as demais situações escolares pois a criança “[...] fica mais questionadora, passa questionar mais o contexto, a situação” (Entrevista, P.R._E.M.H2, 08/04/2014).
Nessa perspectiva, senso crítico diz respeito à busca por compreender determinados fenômenos artísticos ou sociais e no estímulo da curiosidade no universo infantil. Nos ensaios observados, os monitores apresentavam pelo menos duas possibilidades de execução para uma melodia ou sequência rítmica, por exemplo. Após a execução perguntava-se “qual foi a melhor, a primeira ou a segunda?” A partir das respostas, elementos relativos à execução eram aprofundados, como por exemplo, “por que a primeira execução não foi boa?” e os alunos mencionavam as razões “porque você respirou no lugar inadequado”, “porque você cantou muito forte” ou “porque a sua postura não estava boa”.
A apreciação de peças corais executadas por coros infantis de diferentes partes de mundo é outro procedimento que ilustra a utilização de atividades que favorecem o desenvolvimento do senso crítico a partir da experiência estética. A coordenadora pedagógica, Oleide, em uma conversa informal após um ensaio, relatou-me a experiência de levar a gravação da canção “Tallis’s Canon”. Como a canção estava sendo trabalhada com os alunos,
uma das monitoras providenciou cópias do vídeo22 encontrado na internet e executada pelo
coro infantil Libera, formado apenas por meninos. A apreciação musical foi realizada em todas as Escolas, porém na E.M.B1, de acordo com o relato da Oleide, a reação dos alunos foi diferenciada. Ela contou que os alunos que participavam dessa aula (aproximadamente noventa alunos) permaneceram em total silêncio, observando com atenção os detalhes visuais e sonoros da execução musical. O vídeo foi assistido mais duas vezes e os alunos continuavam atentos e impressionados com a performance do coro. Oleide relatou que após a exibição do vídeo, começou a questionar “existe alguma diferença entre vocês e essas crianças?” demonstrando a busca por reflexões acerca das oportunidades oferecidas. Posteriormente, Oleide contou que perguntou “vocês podem [...] cantar desse jeito?” evidenciando a construção de padrões estéticos imbricados ao senso crítico desenvolvido no contexto do Projeto UCCC. A concepção dos personagens entrevistados demonstra que, na medida do possível, o traçado de parâmetros estéticos serve de referência para a elaboração do
22
Video da canção “Tallis’s Canon” que foi apreciado pelos alunos do Projeto UCCC:
senso crítico, mesmo que ainda de maneira esporádica e com pouco tempo para ser aprofundada.