3. METHODS AND MATERIALS
3.2 R ESEARCH CONTEXT
O projeto Orquestra Jovem de Uberlândia está sediado no Setor leste de Uberlândia105 (MG), atendendo ao público do bairro Alvorada e a crianças e jovens dos bairros próximos - Morumbi, D. Almir e adjacências106.
104 Viviane, Juliana, Érica, Jhony e Charly.
105 Situada na região do Triângulo mineiro, no oeste do Estado de Minas Gerais, Uberlândia teve sua condição de município oficializada em 31 de agosto de 1888, aglutinando as freguesias de São Pedro de Uberabinha e de Santa Maria, sob a denominação “município de Uberabinha”. Com sua população superior a 600.000 habitantes e uma área de 4.115, 822 km², é apontada pelo censo IBGE/2009 como um dos dez municípios mais populosos do país, exceto as capitais (Disponível em: <http://www. ibge.gov.br>. Acesso em: 23 abr. 2010.). A cidade tem sua posição geográfica considerada estratégica por localizar-se próxima de grandes centros brasileiros. Economicamente, suas atividades destacam-se nos setores agropecuário, industrial e de serviços (disponível em: <http://www.uberlandia.mg.gov.br>. Acesso em: 23 abr. 2010). Difundida como “Terra gentil que seduz” e “O portal do Cerrado”, Uberlândia é também vista como uma cidade que ostenta um “ethos progressista” (ARROYO, 1999; REIS, 2000). 106 A circunvizinhança do Alvorada (Morumbi, Dom Almir, Joana Darc, São Francisco, Prosperidade, Celebridade, Jardim Sucupira, Zaire Rezende, Uberlândia Viva e Da Paz) abarca bairros e algumas ocupações ilegais, cuja precarização das condições de vida de seus moradores, bem como os altos índices de criminalidade registrados, tornou-a conhecida pelo chamado processo de “favelização do Setor leste”. De acordo com o Jornal Correio de Uberlândia, de 04 de outubro de 2009, em seu estudo sobre a exclusão social em cidades brasileiras de médio porte, Alexandre Pergamin Vieira (2009) aponta o Alvorada
Segundo Reis (2000), o Alvorada foi fundado no início dos anos de 1980 como um conjunto habitacional em meio ao “boom periférico” gerador de bairros destinados à população de baixa renda. Distante 12 km do centro comercial da cidade, localizando-se entre extensas áreas ociosas107 e contando com uma mínima infra-estrutura, o conjunto foi, ainda em seus primórdios, palco de mobilização e “enfrentamentos” com a união de seus moradores em busca por melhorias, o que marcou as trajetórias dos indivíduos e a história do próprio bairro.
Ao longo de seus trinta anos de existência, o Alvorada, conhecido justamente pela capacidade de mobilização coletiva de seus moradores108, tanto em caráter reivindicatório quanto em função de seu envolvimento com a conjuntura política em um contexto mais amplo109, foi também palco de práticas musicais diversas, inclusive daquelas de tradição europeia, a chamada música de concerto. Essas práticas estiveram presentes em diversos momentos, desde os mais remotos, como em encontros de um grupo de amigos formado no âmago dos referidos “enfrentamentos”, conforme lembrado por Reis (Ibid., p. 106): “recordamos ainda [...] dos recitais de violão erudito que o William110 fazia para nós, valendo ressaltar que muitas conversas, a partir daí, fluíram sobre música erudita e popular”. As práticas musicais sistematizadas tiveram ainda seu espaço no bairro Alvorada em decorrência da atuação da professora Selma, que ministrou, por muitos anos em sua residência, aulas de piano, teclado e órgão. Outra conhecida professora de teclado e teoria musical era Regina, tendo sua formação profissional no curso “Técnico Instrumental” do Conservatório Estadual de Música
(aglutinando o Morumbi) como uma das áreas de maior exclusão social. Para o “mapeamento da exclusão social em Uberlândia” o autor considerou indicadores que evidenciaram “a renda e a escolaridade do chefe da família, as condições de moradia, o acesso ao saneamento básico e o número de pessoas por domicílio” (SILVA, 2009).
107 O bairro permaneceu isolado de outras populações habitacionais até a ocupação de uma região próxima, que originou o bairro Dom Almir nos anos 1990-1991 (PETUBA, 2001).
108 Mobilização que encontrou seu limite ao final do ano de 1995, conforme o entendimento de Reis (2000, p. 10).
109Como exemplo, o “Movimento de Consciência e Prática Política” (MCPP) foi fundado na primeira metade da década de 1990 por um grupo de moradores que guardavam proximidade com a AMCA e entendia que era necessário envolver-se, juntamente com as demais pessoas da comunidade, em discussões acerca de questões políticas, visto que nelas estavam as causas dos problemas sociais. Assim, contavam sempre com a presença de autoridades, como o então deputado estadual Gilmar Machado e o procurador geral da união, para que travassem o debate em torno de determinados assuntos. Em decorrência das discussões no âmbito do MCPP, criou-se, pouco tempo depois, o SOS Saúde, movimento que ganhou destaque na cidade, responsabilizando-se, de certa maneira, pela realização da “Conferência Municipal de Saúde” que levou seus delegados à “Conferência Estadual” e, finalmente, à “IX Conferência Nacional de Saúde” em 1990, representando os usuários do serviço público de saúde de Uberlândia.
110 William Farias Arantes, violonista, professor de música no Conservatório Estadual de Música “Cora Pavan Capparelli” por 26 anos e luthier de instrumentos de cordas dedilhadas.
“Cora Pavan Capparelli”. Além disso, um dado curioso é a existência de cinco jovens moradores do bairro que graduaram-se em Música na Universidade Federal de Uberlândia111. Ademais, o bairro conta com uma numerosa quantidade de templos religiosos, espaços onde são notórias as práticas musicais, inclusive com a predominância de instrumentos orquestrais, como no templo da Congregação Cristã no Brasil.
Embora a maioria dos atores citados não mais resida no bairro, suas “militâncias musicais” garantiram, de alguma maneira, a presença das práticas musicais sistematizadas e o estabelecimento de uma determinada tradição naquela localidade, indo de encontro com a fala do professor Petterson de que “no bairro nunca foi incentivado música erudita” (16/11/09, DC 34, p. 200).
Após cerca de duas décadas da realização dos “recitais” do professor William, rememorados por Reis (2000), o bairro Alvorada não tem mais as demandas por infra- estrutura observadas naquela época, nem está mais sozinho no isolamento ainda observável no mapa da cidade112. No entanto, aglutinando diversas características de um bairro periférico, tem hoje à sua volta outros bairros e ocupações que, carecendo ou não de elementos estruturais, inserem-se em uma diferente conjuntura, com seus jovens vivenciando a “nova condição juvenil”. Nesse contexto está situado o projeto social Orquestra Jovem de Uberlândia, favorecendo o envolvimento desses jovens com práticas musicais de modo a contribuir para a própria constituição de sua condição juvenil e, de certa maneira, concretizando uma “nova forma do pensar coletivo” (REIS, 2000, p. 112) no bairro Alvorada – não necessariamente no âmbito dos “enfrentamentos” analisados por Reis (2000), mas no das práticas musicais.