2. THEORETICAL BACKGROUND
2.1 D EEP L EARNING
2.1.4 The 6 Cs in the Knowledge Promotion
De acordo com Yin (2001), o estudo de caso é uma investigação empírica, uma estratégia de pesquisa ampla, com distintas características, embora apresentando “grandes áreas de sobreposição” com outras estratégias77. Sua utilização é aconselhada
ao se lidar com questões contextuais tendo em mente a relevância destas ao fenômeno abordado. O autor entende também que o estudo de caso “permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real” tornando-se uma estratégia apropriada a responder questões do tipo “como” e “por que”, de caráter explicativo. Yin menciona ainda os demais aspectos pertinentes a essa estratégia de pesquisa, quais sejam, a contemporaneidade dos eventos investigados, sua inserção em algum contexto da vida real e o pouco controle do pesquisador sobre eles.
Tendo em vista a classificação dos estudos de caso, Stake (2005) propõe dividi- los em estudos intrínsecos, instrumentais e coletivos, associando o critério da quantidade de casos à sua finalidade. Para o autor, a opção pelo estudo de caso enquanto forma de pesquisa não é uma escolha metodológica, mas uma escolha em função do interesse pelo caso concreto, pelo que se pode aprender sobre o único caso, compreendendo suas complexidades.
O estudo de caso intrínseco, como pode ser considerado o desenvolvido no contexto da Orquestra Jovem de Uberlândia, é aquele em que não há o objetivo prévio de proporcionar comparações com outros casos ou elaborar teorias, e sim o de conhecer
76 Por objetividade, Gil entende (2009, p. 33) “um acordo entre especialistas acerca do que é observado”. 77 Uma dessas estratégias que apresentam pontos em comum com o estudo de caso é a etnografia. Esta conta com a observação participante como uma de suas principais técnicas, podendo, segundo Yin, ser ou não incluída nos procedimentos do estudo de caso.
melhor o caso em questão. Nesse sentido está a explicação de Stake (2005, p. 445, tradução nossa, destaque do autor) ao sustentar que esse tipo de estudo “não é tomado primeiramente porque o caso representa outros casos ou porque ele ilustra uma característica particular ou problema, mas sim porque, na sua particularidade e condição ordinária, este caso em si é de interesse”78.
No que tange à possibilidade de generalização em estudos de caso intrínseco, Stake entende que os pesquisadores não podem se furtar a ela, mas devem se ocupar da tarefa de registrar a complexidade do próprio caso de modo que os leitores possam tirar suas conclusões. Já nos estudos de caso instrumental, o principal objetivo do pesquisador está em auxiliar na ampliação do conhecimento ou favorecer a revisão de generalizações difundidas em relação a algum fenômeno, restando ao caso propriamente dito um interesse secundário. Segundo Stake (2005, p. 445), a categorização proposta tem a finalidade de orientar metodologicamente o desenvolvimento do caso, ressaltando ainda que não há uma linha divisória entre os tipos intrínseco e instrumental. Assim, um estudo de caso intrínseco pode resultar em um passo rumo à generalização. O autor chama ainda a atenção para a possibilidade de que pesquisadores, absolutamente empenhados na elaboração de teorias e generalizações quando do estudo de caso, tenham sua atenção desviada de aspectos importantes à compreensão do próprio caso.
Segundo Gil (2009), os estudos de caso podem servir a diversos propósitos de pesquisa. Por vezes, há o interesse em proporcionar uma “generalização analítica”, coincidindo com a visão de Yin (2001), para quem a importância da adoção de teorias está em auxiliar a condução da coleta de dados e propiciar uma análise de modo que seja possível generalizá-las e expandi-las. Mas a crença de que os resultados de estudos de caso do tipo qualitativo devem se prestar a generalizações, não é consensual entre os pesquisadores. Cientes dessa questão, Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (1998, p.174) admitem a possibilidade das generalizações, porém reconhecendo que não se dão nos “termos tradicionais”, sob os moldes das pesquisas de caráter quantitativo. Isso em razão dos dados qualitativos referirem-se a um tempo e contexto específicos. Daí, defenderem a “generalização naturalística”, assim como Stake (2005), em que o leitor, frente a uma “descrição densa” dos sujeitos e do contexto estudado pelo pesquisador,
78 “It is not undertaken primarily because the case represents other cases or because it illustrates a particular trait or problem, but instead because, in all its particularity and ordinariness, this case itself is of
tem a competência de decidir sobre a aplicação dos resultados apresentados a outro contexto.
Santos (2008, p. 77), por sua vez, considera que “sendo local, o conhecimento pós-moderno é também total porque reconstitui os projetos cognitivos locais, salientando-lhes a sua exemplaridade, e por essa via transforma-os em pensamento total ilustrado”. Ao discorrer sobre a ciência do “paradigma emergente”, a vê ainda como “assumidamente tradutora”, incentivando a utilização de conceitos e teorias desenvolvidos localmente em outros contextos, “em outros lugares cognitivos” que não os de sua origem. Nessa ótica, tal procedimento compõe uma forma de conhecimento que “concebe através da imaginação e generaliza através da qualidade e da exemplaridade”.
Para o desenvolvimento dos estudos de caso, Stake (2005) prevê como forma de estruturação conceitual sua organização em torno de um pequeno número de questões complexas de pesquisa, elaboradas segundo a finalidade da investigação e o perfil do pesquisador. A definição pelas principais questões é considerada de crucial importância, respeitados os limites do que se pode aprender do estudo.
Considerando o objetivo da presente pesquisa, foram destacadas as seguintes questões: quais as circunstâncias do envolvimento dos jovens com as práticas musicais? Como os jovens constroem o conhecimento sobre as práticas musicais? Quais os significados (SMALL, 1989, 1998, 1999; DENORA, 2000, 2003) que esses atores atribuem às práticas musicais frente a sua condição juvenil (ABAD, 2002; ABRAMO, 2008; DAYRELL, 2007; SINGER, 2008; SPOSITO, 2008)?
Tendo em vista o desenvolvimento do caso, Stake (2005) destaca a relevância do pesquisador estar atento à sua conjuntura. Para o autor (STAKE, 2005, p. 449, tradução nossa), “o caso a ser estudado é uma entidade complexa localizada em um meio ou situação permeada por um número de contextos ou acontecimentos de fundo”79, quais
sejam: histórico, cultural e físico e ou ainda social, econômico, político, ético e estético. Embora o caso seja singular, Stake considera a possibilidade de subseções - assim como Yin (2001) ao falar em “subunidades” de caso - cada qual com seus próprios contextos que, por vezes precisam ser percorridos para que se compreenda as relações estabelecidas. Por esse motivo, o autor (STAKE, 2005) vê na observação feita de maneira “crítica”, “reflexiva”, a principal técnica de coleta de dados, sem ser
79 “The case to be studied is a complex entity located in a milieu or situation embedded in a number of contexts or backgrounds”.
necessariamente guiada por conceituações de teóricos, mas ocupando-se em apreender “significados locais” e relacioná-los aos contextos e práticas. Assim, o autor aponta como característica do estudo de caso qualitativo a permanência de seus pesquisadores por um tempo prolongado no local, “pessoalmente em contato com as atividades e operações do caso, refletindo e revisando descrições e significados do que está ocorrendo”80 (STAKE, p. 450, tradução nossa). Para responder àqueles aspectos que o
pesquisador não consegue apreender a partir das observações, Stake, fundamentado em Blumer81, sugere a realização de entrevistas e a obtenção das informações por meio de documentos.
Levando-se em conta o planejamento, a inserção em campo, a coleta, a análise e a interpretação dos dados, bem como a textualização do estudo de caso, Stake (2005) admite que em muitas circunstâncias não há a clara definição de fases. O autor acredita que a análise dos dados, por exemplo, ocorre em diversos momentos da pesquisa. Ainda que tenham passado por uma pré-codificação, os dados são passíveis de reinterpretações no decorrer do processo de pesquisa na medida em que os eventos são observados e as relações sociais percebidas em circunstâncias diferenciadas, como ocorrido durante o desenvolvimento da investigação sobre os jovens da OJU e as práticas musicais. Da mesma forma, Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (1998, p.170) lembram que, em pesquisas qualitativas, a análise “é um processo complexo, não-linear, que implica um trabalho de redução, organização e interpretação dos dados que se inicia já na fase exploratória e acompanha toda a investigação”.
Para que os dados do estudo não sejam tratados de forma equivocada ou, ao menos, para que haja a redução dessa probabilidade, um procedimento comum nesse tipo de estudo qualitativo é a triangulação. Gil (2009, p. 114) refere-se à triangulação como “a mais importante estratégia adotada na análise e interpretação dos resultados do estudo de caso”, considerando-a parte essencial desses estudos. O autor esclarece que essa estratégia, da qual a presente pesquisa lança mão, consiste em “confrontar a informação obtida por meio de uma fonte com outras”. Em decorrência da utilização de diversas “fontes de evidência”, Yin (2001, p. 120) também indica o procedimento de triangulação considerando que, a partir dele são desenvolvidas linhas convergentes de investigação, permitindo abordar um mesmo fato ou fenômeno por diferentes meios e
80“personally in contact with activities and operations of the case, reflecting, and revising descriptions and meanings of what is going on”.
daí fazer conclusões mais confiáveis. Flick (2004, p. 238) vê a grande importância da triangulação, inicialmente adotada como “estratégia para a validação de resultados obtidos com métodos individuais”, na possibilidade de “enriquecer e completar ainda mais o conhecimento e de transpor os potenciais epistemológicos (sempre limitados) do método individual”. Coadunando esse pensamento, Denzin e Lincoln (2006, p.19) acreditam que “o uso de muitos métodos ou da triangulação reflete uma tentativa de assegurar uma compreensão em profundidade do fenômeno em questão”. Isso por entenderem que o conhecimento sobre algo pode ser obtido apenas por meio de suas representações, não sendo possível alcançar sua realidade objetiva.
Tomando pressupostos sobre pesquisa qualitativa e estudos de caso e após uma revisão da literatura envolvendo outros tópicos de interesse da investigação, bem como o levantamento de questões e a elaboração de um roteiro de observação, fiz minha inserção no campo empírico - a Orquestra Jovem de Uberlândia. Assim, os dados foram levantados e pré-analisados de forma a considerar o contexto (ou os contextos) do caso, conforme Stake (2005).