CHAPTER 4: RESULTS AND DISCUSSION
4.1 C OLLABORATION
As atividades da OJU foram iniciadas no ano de 2005 contando com 44 alunos advindos da Escola Estadual Lourdes de Carvalho, situada no bairro Alvorada. Até o ano de 2007, o projeto voltou-se a jovens entre 12 e 18 anos de idade. Nos anos seguintes, além de ter seu número de vagas ampliado, passou a atender a crianças dos
111 Nomeadamente, Lucielle Farias Arantes, Graciano Farias Arantes, Shirley Cristina Gonçalves, Oziel Marcos Nogueira e Leonor Júnior.
primeiros anos do ensino fundamental113. De 2005 a 2007, as atividades ocorreram na sede da Associação de Moradores do Conjunto Alvorada (AMCA), também conhecida por “Centro Comunitário”.
Em 2008, o projeto sofreu algumas alterações consideráveis, como a mudança na forma de arregimentação dos recursos, passando a submeter-se à Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Estado de Minas Gerais. Devido à necessidade de espera pelo patrocínio, as atividades precisaram ser suspensas no primeiro semestre daquele ano, o que ocasionou a desistência de diversos alunos. Esse acontecimento (e suas consequências) foi abordado pela coordenadora Patrícia Melo em seu relatório anual e pelo aluno Éderson, respectivamente:
Tivemos depoimentos de alguns alunos que saíram do projeto, e percebemos que estes acabaram por se envolver com outras atividades, já que não teriam mais o compromisso com o projeto no primeiro semestre. Assim, alguns se comprometeram com trabalho para obtenção de renda, outros com demais projetos que aconteciam na região ou buscaram recurso no conservatório de música da cidade, e alguns, para a nossa infelicidade, se envolveram com atividades ilícitas (INSTITUTO ALGAR, 2008).
Ainda bem que o Fábio [proponente do projeto] gostou da gente e emprestou o violino [para levar para casa], mas foi difícil, minha mãe ficava insistindo para eu deixar o projeto e ir trabalhar... o projeto não voltava.... e quando voltava, o nível caía e a gente tinha que voltar... só depois subia todo mundo - junto de novo (15/10/09, DC 21a, p.116).
Em decorrência da evasão no ano de 2008, o projeto passou a atender a um “público diferenciado”, oferecendo vagas a crianças em correspondência à maior demanda da população do bairro (INSTITUTO ALGAR, 2008). Também nesse ano, por solicitação do presidente da AMCA, a OJU deixou de ocupar o espaço do Centro Comunitário, estabelecendo, então, “parcerias” com a ONG Terra Fértil114 e com a
Escola Municipal Professora Irene Jorge Monteiro, no bairro Morumbi. A extensão das atividades para a escola Irene possibilitou a ampliação das aulas de violino às crianças que cursavam a Educação básica no período vespertino e que não poderiam ser atendidas no Alvorada, dado o espaço físico restrito de sua nova sede – uma casa
113 Vale ressaltar que o foco deste trabalho está na relação dos jovens com as práticas musicais, mesmo quando abordado seu envolvimento com as crianças.
114 Margarida era quem presidia a AMCA na época em que o projeto se instalou no Centro Comunitário e foi ela a pessoa a intermediar o acolhimento da OJU na unidade II da ONG Terra Fértil, visto que era a responsável pelo local.
pequena (Unidade II da ONG Terra Fértil). Dessa forma, em 2008 o projeto atendeu na escola Irene dezesseis crianças e, no bairro Alvorada, vinte e quatro crianças e quarenta e dois jovens (INSTITUTO ALGAR, 2008).
Além da alteração do endereço, da expansão das atividades à escola do bairro Morumbi e da diversificação do público atendido, Patrícia Melo aponta o segundo semestre do ano de 2008 e primeiro semestre de 2009 como um período em que o projeto sofreu transformações e adaptações também em decorrência da mudança de seu diretor artístico e maestro, gerando “traços diferentes no trabalho em grupo”
(INSTITUTO ALGAR, 2008). De fato, muitos “traços” foram por mim notados quando
me atentei para o repertório inscrito nos programas de apresentações da orquestra em diferentes temporadas e quando ouvi os testemunhos dos diversos atores do cenário, principalmente dos alunos mais antigos, de professores e do próprio diretor artístico e maestro Idelfonso, atuante no projeto no período em que realizei o trabalho de observação in loco. Como exemplo desses “traços” que serão discutidos na quarta seção, é possível mencionar a adoção de uma abordagem metodológica que prioriza a transmissão musical na orquestra por meio da oralidade e da imitação; a inclusão (em proporção significativa) de músicas tecnicamente mais simples no repertório coletivo; o relacionamento mais frequente e intenso entre os alunos iniciantes e avançados; a dinâmica do trabalho orquestral envolvendo o canto, além da especificidade dos relacionamentos entre o maestro e integrantes da orquestra e entre os executantes e o público presente nas apresentações. Algumas das características do trabalho desenvolvido na orquestra por Idelfonso são apontadas pela professora Cecília:
“Antes o repertório que era escolhido era já mais voltado para o erudito... não o erudito em si, tinha músicas mais fáceis, mais simples, mas, por exemplo menos cantadas – que eles não cantavam enquanto tocavam... né... você via que a formação da orquestra era uma coisa mais... pra chegar no erudito, sabe? E agora a gente vê que não... a formação é mais livre e que assim... de uma forma, eu acho que contribuiu pras crianças se sentirem mais à vontade, se sentirem mais parte [...]. Agora, como tem a questão da música, eles cantam, eles podem participar, que tem essa questão da interação com o público também... hoje tem mais... [...] Eu acho muito positivo. Tanto pra quem assiste - por que a gente sabe que o público, principalmente aqui da comunidade se agrada mais dessa coisa mais animada, mais movimentada - quanto pras crianças que estão participando. Eu acho que eles se sentem fazendo mais parte, que é mais deles, ta mais próximo do que eles conhecem. E você, assim... que não faz só esse repertório, né... os grandes [alunos mais velhos, antigos] também tão chegando, o repertório mais difícil... então é como se fosse um
caminho, né... pega da onde eles estão pra levar para um caminho mais... que depois eles podem ter escolha. Não precisa tocar o erudito, eles podem tocar, né... o que for do desejo deles” (05/12/09, DC 45, p. 308).
No ano de 2009, assim como no de 2008, o projeto foi afetado pela evasão de jovens que frequentavam a casa no bairro Alvorada, sobretudo no segundo semestre quando eu mesma pude acompanhar tal processo. A esse respeito, tanto alunos quanto professores diziam ser uma dinâmica comum na OJU, como expresso pelo professor Isaac (21/11/09, DC 37, p. 219): “esse é o problema do projeto, foi assim a vida inteira - começa o semestre cheio, depois vai esvaziando, depois fica só quem quer mesmo...”. Em virtude da evasão no período mencionado, algumas pessoas levantaram a hipótese de que o espaço físico da casa, simples e pequena, poderia ter sido o seu mote. Mas, alguns dos atores consideraram também outras questões, como as expressas pelo professor Petterson pontuando aspectos da condição juvenil dos alunos (16/11/09, DC 34, p. 201):
“A questão mesmo são os compromissos deles [os jovens] - fazem cursos, escola, conservatório, trabalham, têm que limpar casa, cuidar de alguém, a mãe não deixa tão à vontade mais, o pai quer que trabalhe... enquanto projeto social a gente tem que entender e passar por cima disso... já pensei em falar com mãe, mas não cabe a mim, cada pai sabe de sua condição, intenção...”.
Para a coordenadora Patrícia Melo (23/11/09, DC 38, p. 221), além da estrutura da casa em que o projeto funciona ter contribuído para a desistência de alunos, o bairro Alvorada não tem mais “demanda”, por já ser “muito nutrido de projeto social”. De qualquer maneira, considera a longa pausa nas atividades no ano de 2008 como outro motivo: “quando [o projeto] começou era cheio – meio de 2005, 2006, 2007 – depois ficou [interrompido] de dezembro de 2007 a setembro de 2008. Quando voltou, ficaram poucos alunos, que estão até hoje”.
Tendo em vista a possibilidade de expansão do projeto a outras localidades frente à “demanda” supostamente limitada do bairro Alvorada, foi firmada, então, uma nova parceria para o ano de 2010 com a unidade do NAICA do bairro Morumbi, mantendo-se o atendimento aos alunos na escola Irene e as atividades na mesma casa no
Alvorada, não mais vinculada à ONG Terra Fértil desde o segundo semestre do ano de 2009115.