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CHAPTER  4:   RESULTS  AND  DISCUSSION

4.5 C HARACTER EDUCATION

Tomando as categorizações propostas por Magnani (2002, 2007a, 2007b) em vista do “circuito de jovens”, o espaço do projeto no bairro Alvorada pode ser entendido como um “pedaço”, ou seja,

aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla do que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade (MAGNANI, 2007a, p. 20).

De acordo com o autor (Ibid.), a noção de pedaço tem a ver com a “dinâmica do grupo que com ela se identifica” evocando, portanto, “laços de pertencimento e estabelecimento de fronteiras” (MAGNANI, 2002, p. 25). As pessoas que se situam em determinado pedaço (sendo também identificadas pelos outros integrantes), têm parte “numa peculiar rede de relações” que pode combinar “laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas etc”. Nesse sentido, são dois os elementos a definirem a noção de pedaço:

156 Esse espaço não recebe qualquer denominação por Viviane em seu desenho.

157 As estantes com os livros eram de propriedade da ONG Terra Fértil, tendo sido deixados no local quando de sua mudança. Segundo Margarida, sempre havia um ou outro aluno do projeto que pegava algum livro para ler, folhear ali mesmo.

158 O espaço é mantido mediante o pagamento de aluguel, a princípio à ONG Terra Fértil e, em momento posterior, diretamente ao proprietário da casa, devido à desistência da ONG de atuar no local.

um deles de ordem espacial, relativo a “um território claramente demarcado ou constituído por certos equipamentos” e, o outro, de caráter social, “na forma de uma rede de relações” a se estender sobre o referido território (MAGNANI, 2002, p. 21).

Embora a definição territorial seja um elemento importante por consistir no ponto de referência do grupo – seu lugar de encontro – não significa que seja imutável, podendo ser trocado sem, contudo, por em xeque a rede de relações estabelecida entre seus membros. Exemplo disso está na própria história do projeto, que tinha no Centro Comunitário do bairro Alvorada o seu espaço de atividades até ser substituído pela casa na mesma localidade. Segundo o ponto de vista de alguns de seus atores, a mudança de endereço implicou na evasão dos alunos devido ao desconforto acarretado pela redução do espaço físico. É, pois esse o pensamento da coordenadora Patrícia Melo: “no Centro [comunitário] era melhor – diminuiu aluno desde que saiu de lá. Aqui [na casa] é apertado. Estamos pensando em fazer uma área maior na frente” (23/11/09, DC 38, p. 221).

No entanto, a apreciação dos relatos em que diversos atores mencionavam o espaço anteriormente ocupado pela OJU, bem como as atividades e relacionamentos nele estabelecidos frente aos dados por mim coletados (já na fase do projeto sediado na casa), permitiu-me inferir que, se a alteração do espaço físico comprometeu o bem-estar dos alunos, pareceu não ter afetado a qualidade dos relacionamentos. Ao contrário, percebi que o espaço restrito, onde todos se ouvem e se veem, favoreceu a proximidade entre as pessoas. Além disso, tampouco vejo afetada a identificação dos jovens com o pedaço e o seu compromisso com o projeto. Um indício pode ser encontrado nas palavras de Charly, que frequentou os dois ambientes: “Não deixo o projeto nunca! Aprendi muito... a realidade... é como um filho... se eu chegar a sair é porque fui buscar experiência e, tudo o que for buscar, eu vou trazer prá cá!” (20/11/09, DC 36, p. 214).

É certo que muitos dos jovens demonstram preferência pela estrutura do Centro Comunitário, como externado pelo próprio Charly: “Noooosa! Lá era bom demais! Tinha mais alunos... na associação [Centro Comunitário] era melhor... tinha mais espaço... cada um pegava um cantinho, ficava estudando... lá todo mundo estudava!” (20/11/09, DC 36, p. 216) ”. Entretanto, ao tomarem a casa como seu novo “ponto de referência” e encontro (MAGNANI, 2002, 2007a), os jovens parecem ter submetido essa estrutura física à sua própria dinâmica, como pude observar em suas ações e apreender pelas palavras do professor Kleber, de violoncelo:

“no Centro Comunitário era bem melhor... eles tinham mais liberdade, era como se estivessem na casa deles... na casa ficaram com aquela coisa, como se fossem visita – estavam na casa da dona Margarida159 o projeto ajudava no aluguel, na limpeza, mas... foram se acostumando, agora já está diferente” (19/11/09, DC 35, p. 212). Também ao encontro de minhas observações está a ponderação da professora Cecília, no sentido de que, embora o espaço físico da casa impusesse limitações, propiciava o relacionamento mais próximo entre as pessoas:

“oh, aqui [na casa] tem um ponto positivo e negativo: pro dia a dia, só pras aulas e para o estudo individual, fica mais concentrado - é que lá [no Centro Comunitário] tem um espaço muito grande, que é bom para o ensaio, aqui é ruim pro ensaio – lá é bom – mas, no dia a dia, lá ficava muito separado. As crianças iam lá para a calçada... tinha o portãozão muito largo... e aí acabava que ficava assim... eu sentia que lá eles ficavam muito livres, assim, e menos chegados um no outro. Pra aula mesmo, os professores se comunicarem era mais, como é que eu falo... disperso. Aqui fica mais concentradinho. Acho que essa parte é mais fácil, mas pra ensaio em grupo é difícil” (05/12/09, DC 45, p.308).

De fato, a casa não fora planejada vislumbrando a prática musical, mas, com sua ocupação pelos integrantes da OJU, teve seu espaço adaptado ao musicking do grupo – de alguma maneira submetido ao seu ideal de relacionamentos - haja vista o portão e a portas sempre abertos ao público favorecendo, inclusive, a aproximação de um “desconhecido” (05/05/09, DC 04, p. 18).