Dedicou-se à Educação Física entre 1907 e 1910 e apenas em 1919 iniciou-se no Hatha Yoga. Quando percebeu o valor da prática para a saúde, fundou, em 1924, com o apoio dos ministérios da saúde e educação da Índia, em Kaivalyadama, Lonavla, o primeiro laboratório dedicado a pesquisa científica do Yoga. Além da Escola de Yoga, onde não era permitida a admissão de alunos do sexo feminino, a Instituição inclui o
Centro de Práticas Yóguicas de Bombaim e o Ashram em Rajkot. Gharote relata:
De 1925 a 1950, Kaivalyadhama foi um dos poucos institutos onde a pesquisa científica se manteve, continuando até os dias de hoje. Até agora cerca de 1500 trabalhos científicos foram publicados e vem crescendo o número de pesquisadores interessados. Desde 1950 várias universidades e fundações privadas de pesquisas vêm adotando este como uma resposta à crescente popularidade da yoga no mundo. Os experimentos mais divulgados envolviam yoguis enterrados vivos, mas na verdade isto pouco tem a ver com o yoga. Se compreendermos os princípios envolvidos, qualquer um é capaz disso. É aqui que a pesquisa sobre yoga se torna necessária para desfazer os conceitos equivocados e demonstrar o princípio básico adequado das várias técnicas. (GHAROTE,1996:145). (O grifo é meu).
As pesquisas científicas do instituto sempre foram mais dirigidas para o yoga-físico e pouca atenção foi dada ao yoga-meditação, mas não há dúvida de que foram eles os grandes empreendedores ao elevar o Yoga no patamar científico em que hoje se encontra. Afirma o professor Gharote: “Mas até que os cientistas possam ter certeza da validade do Yoga através de sua abordagem racionalista, vai levar algum tempo para que alcancem as chamadas áreas ditas “místicas”, como a intuição e outras técnicas que fazem do Yoga uma “super-ciência”. (Ibid,153).
Gharote está certo em sua afirmação porque o Yoga é, na sua essência, uma experiência, e quando se avança para o seu lado místico, se torna quase impossível entender os textos se não houver uma certa vivência, daí as interpretações deturpadas
sobre a técnica.
Neste sentido, é interessante lembrar as palavras do Bhagavad-Gita:
42- Muitos há que, saciando-se com as letras (ou com o sentido exterior, superficial) das Sagradas Escrituras e doutrinas, e não podendo perceber o seu verdadeiro sentido interior, acham grande deleite em controvérsias técnicas a respeito do texto, em definições monstruosas e abstrusas interpretações. (BHAGAVAD GITA, Cap. II: 42,2006:35).
Swami Kuvalayananda indica, no prefácio do seu livro Asanas, a prática de Cultura Física Yóguica, e é interessante destacar a divisão que o mesmo faz com relação aos asanas ou posturas. Diz ele:
As Asanas estão divididas em dois grupos principais: Culturais e Meditativas. Sirsha, Sarvanga, Bhujanga, Dhamus, Salabha, etc, são culturais, enquanto Padma, Siddha, Svatiska e Sama são meditativas. As pessoas que adotam a prática das Asanas também são de dois tipos: os que só buscam vantagens fisiológicas e os que estão ansiosos por conseguir também vantagens espirituais. As pessoas do primeiro tipo podem ser chamadas de cultores do físico, as do segundo tipo são os cultores do espírito. (KUVALAYANANDA,1976:44). O grifo é meu.
A partir desta observação, pode-se entender a separação que foi se acentuando entre os praticantes do Yoga, isto é, aqueles que buscam mais o aspecto físico com seus resultados “fisiológicos” usando de posturas desafiadoras, e aqueles que buscam aprimorar a sua parte espiritual e usam mais das posturas “meditativas” que, no sistema clássico, ficou conhecido como Raja Yoga. O autor, embora seja mais propenso a valorizar o Hatha-Yoga, os “exercícios físicos”, esclarece que:
Enquanto reconhece a interdependência do corpo e da mente, a Yoga-Sastra sustenta que a influência da mente sobre o corpo é mais poderosa que a do corpo sobre a mente. ... As asanas são exercícios físicos. (Ibid:43). (O grifo é meu).
Esta afirmação nos mostra que, ficar preso apenas a prática de posturas (asanas) ou exercícios físicos, como defende o autor, não vai levar a mudanças de ordem espiritual, pois, o corpo é de uma natureza mais grosseira e a mente é de natureza mais sutil e tem influência mais poderosa sobre o corpo.
Ele relata ainda que “ O aspecto da mente que mais afeta o corpo, em especial os sistemas nervoso e endócrino, é seu lado emocional”.(Ibid:45). Esta afirmação é extremamente importante, pois, conforme a teoria do Mestre Bohdan, o sistema límbico é
exatamente o ponto chave de influência do Yoga-Meditação. A sede das emoções, que afeta de forma profunda a nossa vida, pois estamos dia e noite sob a influência das mesmas. Sejam elas moderadas ou violentas, podem ser modificadas com a prática meditativa? Veremos no capítulo terceiro.
O autor reconhece a importância de se trabalhar, de forma conjunta, o físico e a mente, sendo a Hatha-Yoga para uma boa saúde e os “yamas e niyamas” (princípios de conduta) para a saúde mental. Afirma ele que:
as Yamas e Niyamas, tomadas em conjunto, constituem dez princípios de conduta que, se seguidos fielmente, darão suprema paz mental para o praticante da Yoga. Ele se libertará de todas as emoções violentas (Ibid:49).
Afirmar que seguir “princípios de conduta” possam trazer “suprema paz mental” é ilusório, assim como não poderão resolver as questões ligadas às emoções violentas. São apenas condicionamentos que não provocam mudanças profundas no ser humano. Se aceitar ou praticar princípios de ordem moral resolvesse, os dez mandamentos já teriam solucionado os problemas da humanidade. A mudança a ser feita é de dentro para fora e não o contrário. Isto não significa que regras e preceitos sejam inúteis, mesmo porque, sem eles, sem a ajuda das religiões, talvez a humanidade estivesse em condições ainda piores. O homem é um animal social e viver em sociedade exige respeito à regras, mas, seguir “princípios de conduta” não irá proporcionar a “suprema paz mental” ou libertar o ser humano “de todas as emoções violentas”. Talvez alguém venha a perguntar: mas, e a meditação já resolveu? A resposta seria “não”, porque a maioria das pessoas não conhece ou não usa técnica correta, voltada para o silêncio. A meditação onde o intelecto continua ativo não funciona como meio de purificação, reestruturação e não leva a cosmo- consciência.