da meditação reconhecida como “o estágio mais elevado”. Ainda na mesma página, ela cita: “os iogues consideram o corpo humano como o templo do Espírito Vivo, merecendo, portanto, ser elevado ao mais alto grau de perfeição”. E aí nós perguntamos, de que adianta um templo bonito e perfeito com um espírito doente?
O culto ao corpo, sem duvida alguma, ela herdou do seu mestre, embora o seu estilo de trabalho tivesse pouca semelhança com o que ele deixou. Ela foi instruída, por certo, numa forma mais suave de prática, talvez já adaptada à sua condição “feminina”. Na época ela contava com 38 anos e talvez o seu guru tivesse preconceito com relação a sua idade..23 Ela usou do seu Mestre os princípios que dizem respeito a criação das seqüências,
começando com as posturas em pé, o asana principal no centro, as posturas complementares e ao final o relaxamento. Ela incluiu em suas aulas o aspecto devocional, com o uso do canto e preces, mas nada indica, em sua obra, que tenha se dedicado à prática da meditação.
Indra Devi viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos e, em 1985, com 86 anos, veio para a América do Sul, estabelecendo-se em Buenos Aires, Argentina, onde fundou seis escolas. Até os 90 anos ainda viajava dando palestras e ensinava o Hatha- Yoga. Oferecia também um curso de treinamento para professores de Yoga com quatro anos de duração. Ela faleceu em 2002, com 103 anos, em Buenos Aires.
Ao mesmo tempo que ensinava Indra Devi, outros dois alunos se tornaram discípulos de Krishnamacharya : Iyengar, que era seu cunhado e Pattabi Jois.
1-2-17 - Sri Krishna Pattabhi Jois (1915)
Sri Krishna Pattabhi Jois nasceu em Kowshika, em julho de 1915, um lugarejo próximo de Hassan, no estado de Karnataka, Índia. Seu pai era astrólogo e sacerdote brâmane, ou seja, era responsável na realização dos rituais (pujas) para as diversas famílias da localidade, logo, seu filho Jois, acostumou-se desde pequeno com a leitura dos Vedas e cantos dos rituais hindus. Quando tinha 12 anos, ele assistiu a uma demonstração de Hatha-Yoga na sua escola, em Hassan, e este homem era Krishnamacharya, com quem ele passou a praticar nos próximos dois anos. Quando Pattabhi Jois completou 14 anos, 23 Conforme Desikachar, filho de Krishnamacharya, “A renomada professora de yoga americana, Indra Devi, estudou yoga com meu pai, em 1937”. (DESIKACHAR,2007:25) Na verdade ela nasceu na Rússia.
recebeu o seu cordão numa cerimônia típica da casta brâmane. Neste período, o professor de Hatha-Yoga, Krishnamacharya, deixou a escola de Hassan e passou a viajar fazendo suas demonstrações com a finalidade de divulgar a prática e angariar alunos. Jois mudou- se para a cidade de Mysore, no sul da Índia, e lá os dois se reencontraram em 1930, quando pode então recomeçar as suas aulas. Ali, tudo funcionou bem até que o patrocínio do Maharaja Krishna Rajendra Wodeyar foi encerrado, pois um novo governo veio a substituir a família real, com a independência da Índia em 194724. Já não havia o interesse
em se manter um Yogashala. Jois é casado com Savitramma e tiveram três filhos, Manju, Ramesh e Saraswati. Esta última é a mãe de Sharath, nascido em 1971, pessoa que é atualmente o responsável pela maioria das aulas na escola de Mysore. Seu avô, Jois, já faz algum tempo que não ministra mais aulas e aparece esporadicamente na escola para realizar alguns “ajustes”. Seu filho, Manju, costuma fazer a divulgação no exterior.
Pattabhi Jois desenvolveu seu próprio método, o “ashtanga vinyasa yoga”, que se tornou bastante popular nos Estados Unidos graças à pop-star Madonna.25 Este método é
composto de seis séries, organizado de tal forma que vai exigindo cada vez mais do praticante. Pattabhi Jois tem sua escola, o Ashtanga Yoga Research Institute, em Mysore, sul da Índia, onde administra cursos para estrangeiros que chegam de toda parte do mundo. O primeiro ocidental a estudar com o Guruji, como Jois ficou conhecido, foi André Van Lysebeth26, que praticou com ele durante dois meses na Índia, e ajudou a
divulgar o seu estilo na Europa. Na década de setenta os primeiros americanos começaram a se interessar pelo ashtanga yoga. Em 1974 Jois realizou o seu primeiro curso no exterior e, em 1975, ele e seu filho Manju viajaram pela primeira vez para a Califórnia, onde o seu estilo foi ensinado para apenas vinte ou trinta alunos. A partir daí o método foi divulgado na França, Alemanha, Rússia, Japão, Chile, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Atualmente, a presença de Guruji, na aula que acontece as 05:00 horas da manhã, é rara, sendo sempre considerada especial para seus alunos, mas, é Sharates, o seu neto, 24 -Politicamente este foi um período bastante difícil para o país pois, após a independência, com todas as manifestações que tanto marcaram a pessoa de Mahatma Gandhi, iniciou-se uma luta sangrenta com os muçulmanos, que veio a terminar com a separação do atual Paquistão, ele próprio dividido em dois, com a atual Bangladesh. A troca de populações de uma região para outra, batalhas horríveis entre hindus e muçulmanos, provocaram milhões de mortes e a enorme miséria que veio logo em seguida. 25 -John Scott estudou com Pattabhi Jois e está qualificado para ensinar Ashtanga Yoga. Ele já ministrou
aulas em Oregon, USA, em Nova Zelândia, seu país de nascimento e, em 1997, abriu o Ashtanga London, em Londres. Recentemente abriu o Ashtanga Vinyasa Yoga Retreat Centre, em Cornwall, na Inglaterra. Já ensinou celebridades como Madonna e Sting. (SCOTT, John, Ashtanga Yoga, Gaia BookLtd., London, 2000).
26 -Conheço dois livros de Van Lysbeth, que muito ajudaram a divulgar o Hatha-Yoga e também a filosofia. Um deles, Tantra, o culto da Feminilidade, traduzido para o português pela Summus Editorial, 1994 e o outro , em alemão, Yoga, für Menshen von heute, da Mosaik Verlag, 1982.
conhecido por seus eficientes “ajustes na postura”, quem dirige o “shala” e as aulas. Jois viajava com freqüência para o exterior, para férias ou cursos, mas nos últimos tempos tem permanecido mais em Mysore, pois, em 2009 ele completa 94 anos.
A taxa cobrada para os cursos de formação é, para a maioria dos estrangeiros, dispendiosa, por volta de 30.000 mil rúpias (mais ou menos 750 US$) e muitos acabam buscando professores de nomes não tão famosos de Mysore para aprender o método. Aqueles que pretendem ter a formação completa assumem o compromisso de voltar à Índia a cada dezoito meses, ou seja, deverão ser feitas quatro visitas ao yogashala (escola). É preciso uma freqüência ao curso, com a duração mínima de três meses, em quatro anos diferentes, para se obter a autorização do Guruji de estar divulgando o seu método no exterior. Alguns conseguem a esperada autorização praticando apenas a primeira e a segunda série e, para outros, exige-se que se vá um pouco mais adiante. O critério parece ser bem pessoal.
Alunos de Pattabhi Jois comentam que, quando perguntaram ao Guruji (Jois) porque ele fez a primeira série, ele respondeu: “Para me iluminar”. E a segunda série? “Para me iluminar”, teria respondido. E a terceira, a quarta, a quinta e a sexta? “Para me iluminar”. Perguntaram então: “Se tudo é para a iluminação, porque precisa tantas séries?” Ele teria respondido: “Para aqueles que não conseguem se iluminar na primeira série é necessário todas as outras!”. Particularmente, não sabemos até que ponto este relato é verdadeiro mas, existem muitas brincadeiras que são levadas a sério por pessoas que não têm muito discernimento. Verdade ou não, é lamentável que se induza alguém a acreditar que realizando posturas físicas possa se chegar à iluminação espiritual.
Tive oportunidade de conversar com alguns de seus alunos e eles me informaram que, em seus cursos, Pattabhi Jois não incentiva a prática da meditação e o foco principal é trabalhar o corpo, com as posturas, sendo que, ao final da aula, que é bastante forte, os alunos são orientados para deitar e relaxar.
Outro discípulo de Krishnamacharya, bastante conhecido no mundo ocidental na divulgação do Hatha-Yoga, é Iyengar. Na verdade, é difícil entender esta relação mestre- discípulo, pois, em seus livros, percebe-se que Iyengar tinha, e demonstra ainda ter, uma grande mágoa com relação a pessoa do cunhado, embora tantos anos já tenham se passado.