À medida que o ANC se assumia cada vez mais como o movimento líder na oposição ao regime de apartheid, internamente começou-se a sentir a existência de alguns desentendimentos, sobretudo no modo como essa oposição era conduzida. As divergências faziam-se sentir entre uma facção conotada com a presidência de Albert Luthuli e defensora da Freedom Charter e uma outra crítica e mais radical, defensora do Africanismo e crítica da Freedom Charter.
O grupo Africanista encontrava o seu apoio nos membros da Youth League, nomeadamente na zona de Orlando92. Os membros deste grupo criticaram a Freedom Charter por esta se afastar da
ideia de Anton Lembede de que apenas os africanos eram donos da África do Sul. Após a morte de Lembede em 1947, os seus ideais passaram a ser defendidos por Potlako Leballo, líder da secção de Orlando da Youth League.
Este grupo tinha duas grandes divergências com a linha presidencialista de Luthuli. A primeira tinha a ver com o papel dos brancos dentro do ANC. Para os Africanistas, os brancos simpatizantes do ANC tinham influenciado a seu favor o ANC, influência bem visível na Freedom Charter. Para eles a adopção do multirracialismo pelo ANC só servia para perpetuar a subserviência e dependência psicológica da população negra em relação aos brancos. Assim sendo, a luta do ANC deveria ser levada a cabo e conduzida apenas por africanos, rejeitando a associação com outros movimentos anti-apartheid não negros. Esta posição chocava com a posição oficial do ANC que defendeu a colaboração com outras organizações anti-apartheid como o COD, o SACP e o Liberal Party, todos eles maioritariamente compostos por brancos.
91 The Demand of the Women of South Africa for the Withdrawal of Passes for Women and the Repeal of African Passes, 9/08/56, 2 pp.
http://www.anc.org.za7ancdoc/history/women7petition560809.html.
92 Orlando era uma das Townships de Joanesburgo. Mais tarde foi incluída no South-Western Townships (SOWETO).
A segunda divergência andava à volta da espontaneidade. Para a direcção do ANC, os movimentos espontâneos que iam surgindo na sociedade contra o apartheid, deveriam ser devidamente enquadrados e direccionados de acordo com o previsto quer no Programa de Acção, quer na Freedom Charter, uma vez que era essencial a coordenação da luta de modo a torná-la mais eficaz. Os Africanistas argumentavam que esses movimentos deveriam seguir, com um mínimo de orientação, o seu carácter espontâneo na sua acção.
Este choque entre estas duas posições tornou o seu relacionamento irreconciliável, culminando na secessão do grupo Africanista. Os secessionistas formaram um novo partido, em Abril de 1959, o Pan Africanist Congress (PAC) of Azania.
A presidência do novo movimento foi entregue a um antigo dirigente da Youth League, Robert Sobukwe93, cabendo o cargo de Secretário Nacional a Potalke Leballo. Este novo Movimento
defendeu a ideia de que os africanos deveriam tomar nas suas mãos o seu destino e não deveriam contar com o apoio de outros grupos raciais na resolução dos seus problemas. Para o PAC, o ANC tinha-se mostrado muito moderado e comprometido com os outros grupos raciais, nomeadamente com os brancos, posição essa que para além de retardar a vitória da maioria negra, podia, inclusive, comprometê-la.
No seu discurso inaugural como Presidente do PAC, Robert Sobukwe defendeu um governo de africanos para africanos. Para ele, Africano era todo aquele que era leal a África. Esta definição ambígua deixava aberta a hipótese dos brancos serem considerados africanos e, consequentemente, poderem aderir ao PAC. Porém, na prática o PAC excluía qualquer hipótese de adesão de brancos. A posição do PAC em relação aos brancos era de clara hostilidade, a qual, como veremos, se irá agravar com o tempo. Para Sobukwe a adesão dos brancos ao seu movimento era difícil pelo seguinte94:
Whites benefit materially from the present set-up, and cannot completely identify themselves with the cause.
O PAC, ao contrário do ANC, rejeitou o multirracialismo na sociedade sul-africana, uma vez que tal hipótese implicaria insuperable differences between various national groups and tried to safeguard minority interests 95.
O Manifesto do PAC96 visou promover o conceito e a ideologia Pan-Africanista, promovendo a
unidade de todos os povos de África. Este objectivo aproximava-se muito dos ideais de Pan- Africanismo defendidas pelo Presidente do Gana, Kwame Nkrumah. Aliás, as Conferências de
93 Robert Mangaliso Sobukwe foi um dos membros mais destacados da Youth League, chegando a ser Secretário Nacional desta organização. Identificado com o grupo Africanista foi editor do jornal do ANC The Africanist. Robert Sobukwe morreu em 1978 em Kimberley.
94 Robert Sobukwe citando em Tom Lodge: Black Politics in South Africa since 1945, p. 84. 95 Idem, p. 85.
96 The Pan Africanist Congress of Azania.
Accra97, a dos Estados Independentes de África e a dos Povos de África, ambas realizadas em
1958, tiveram muita influência na formação do PAC.
97 A Conferência dos Estados Independentes de África, realizada em Abril de 1958, e a Conferência dos Povos de África, realizada em Dezembro de 1958, foram ambas realizadas em Accra, no Gana, sob o patrocínio de Kwame Nrumah. Em ambas as Conferências, Nkrumah quis conseguir apoios para as suas teses de Pan-Africanismo que visavam a Unidade Africana e a consequente criação dos “Estados Unidos de África”. As reacções foram diferentes. Os participantes na Conferência dos Estados Independentes, mostraram-se mais renitentes a aceitar essa unidade, que implicaria que cedessem as suas soberanias recentemente adquiridas. Nesta Conferência reinou uma visão mais realista que favorecia uma unidade gradual e a longo prazo. Na Conferência dos Povos de África, os participantes eram representantes de Movimentos de Libertação que necessitavam de apoio para as suas lutas, sendo natural a sua maior disponibilidade em aceitar a ideia de Nkrumah. Nesta segunda Conferência reinou uma visão mais idealista, que não excluía a Unidade Africana.
CAPÍTULO III
A CONSOLIDAÇÃO DO APARTHEID