Para além das razões históricas, o relacionamento entre a GB e a África do Sul resultava da cooperação estabelecida nos anos 30 durante a fase em que se discutiu o envolvimento sul- africano na II Guerra Mundial em apoio da GB. A contribuição sul-africana foi essencial para garantir a segurança e controlo das rotas marítimas no Atlântico Sul.
O início dos processos de descolonização das colónias britânicas, baseados no princípio da aplicação da regra da maioria, fez com que o relacionamento começasse a esfriar. Para os dirigentes sul-africanos, muito influenciados pelas ideias do nacionalismo africânder, era necessário começar a cortar amarras. Assim, em 1957 a bandeira e o hino nacional britânicos187
foram abolidos das cerimónias oficiais sul-africanas. Em 1960, uma nova moeda, o rand, substituiu a libra esterlina. A decisão sul-africana de se converter numa República e a posterior saída da Commonwealth, vieram contribuir ainda mais para o afastamento.
185 Julius Nyerere: America and Southern Africa, pp. 671-672 & 677-682. 186 Armando Campos, op. cit., p.526.
187 O hino nacional britânico, God Save the Queen, foi substituído pelo novo hino nacional sul-africano,
Este crescente afastamento sul-africano provocou alguma irritação nos britânicos que decidiram reagir da mesma maneira. A primeira prova do afastamento britânico deu-se com a decisão de não integrar os três protectorados britânicos na África do Sul, contrariando assim o que tinha ficado previsto no Acordo de 1910.
Esta decisão foi muito mal recebida pelos sul-africanos que consideravam a incorporação um facto consumado. Desde que subiu ao poder em 1948, o NP tinha insistido com o governo britânico para que este procedesse à incorporação. Várias vezes os dirigentes sul-africanos se referiram à necessidade de se proceder a tal incorporação, essencial para o esforço de defesa do território sul-africano. Pretória temia que estes territórios, caso alcançassem a independência, se convertessem em santuários para os movimentos de oposição sul-africanos. Assim, a anexação era mais motivada por razões de segurança do que por razões expansionistas. Mas não eram apenas as questões ligadas à segurança que justificam tal desejo. No caso da Basutolândia, futuro Lesoto, as reservas de água existentes neste território eram essenciais para abastecer as zonas urbanas de Joanesburgo e Pretória.
Se inicialmente a ideia britânica era de facto integrar os protectorados na África do Sul, as alterações mundiais verificadas com o fim da II Guerra Mundial, mas sobretudo a progressiva aplicação da doutrina do apartheid, obrigaram a uma revisão da ideia inicial.
Respeitando os princípios defendidos em relação ao processo de descolonização já posto em prática, a GB decidiu conceder a independência aos três protectorados em meados dos anos 60188.
Os três novos estados, Botswana, Lesoto e Suazilândia, alcançaram a independência política, porém, mantiveram-se muito dependentes economicamente da África do Sul, realidade que lhes condicionou as opções políticas, nomeadamente ao nível do apoio aos movimentos de libertação sul-africanos.
O relacionamento sul-africano e britânico também foi seriamente afectado devido ao problema rodesiano. A Rodésia do Sul, onde residia uma importante comunidade branca, reagiu negativamente ao processo descolonizar patrocinado pela GB. Ente 1953 e 1963, o território da Rodésia do Sul esteve unido ao da Rodésia do Norte e ao da Niassalândia, através da existência da Federação da África Central. Esta Federação, um velho sonho da população branca destas três colónias britânicas, era vista como um primeiro passo para uma independência branca destes territórios. Apercebendo-se disto, a GB dissolveu a Federação em 1963. Em 1964, a Niasssalândia e a Rodésia do Norte alcançaram a independência, adoptando respectivamente as designações oficiais de Malawi e Zâmbia. Temendo que a GB se preparasse para aplicar a regra da maioria ao território da Rodésia do Sul, o partido da minoria branca, a Frente Rodesiana, liderada por Ian Douglas Smith, declarou a independência unilateral da Rodésia do Sul a 11 de Novembro de 1965.
Antes de tomar esta atitude, os brancos rodesianos garantiram quer o apoio sul-africano, quer o apoio português, essenciais para garantir a sobrevivência do regime rebelde. O governo britânico, liderado por Harold Macmillan, reagiu duramente a esta declaração de independência. De imediato, Londres, juntamente com a ONU, declarou um conjunto de sanções contra o
188 O Botswana ascendeu à independência a 30 de Setembro de 1966 sob o comando de Seretse Khama; o Lesoto alcançou a independência a 4 de Outubro de 1966 com o rei Motlotlehi Moshoeshoe II no poder; a Suazilândia tornou-se independente a 6 de Setembro de 1968 sob a liderança do rei Shobuza II.
regime de Salisbúria, com o objectivo de o fazer cair numa questão de semanas. Porém, o regime não só não caiu, como conseguiu reforçar-se política e economicamente, contribuindo para tal o apoio precioso da África do Sul e de Portugal.
A ligação entre a África do Sul, Rodésia e Portugal, era vista com uma aliança que permitia a continuidade e a viabilidade dos regimes brancos na África Austral. As componentes económicas e militar sul-africanas eram completadas pela mão-de-obra e vias de comunicação moçambicanas. O Porto e Caminho-de-ferro da Beira eram vitais para a sobrevivência económica rodesiana, que utilizava esta via como principal via de escoamento e abastecimento189. Este conjunto de territórios, aos quais se aliavam, na costa atlântica, Angola e o
Sudoeste Africano, davam à África do Sul uma sensação de segurança e de distanciamento face aos movimentos descolonizadores que se estavam a verificar no resto do continente africano. A importância da intervenção sul-africana na região assumirá cada vez maior relevância no contexto da formulação da sua política externa, ao ponto de ser vital para a sobrevivência do próprio regime do apartheid. As alterações verificadas nos anos 70, trouxeram o início dos grandes desafios à manutenção do regime sul-africano.
189 A continuação da utilização deste Porto pelos rodesianos, agravou o relacionamento entre a GB e Portugal. Em 1966, a GB chegou a levar a cabo um bloqueio marítimo ao Porto da Beira, o que obrigou a desviar o tráfico comercial com destino à Rodésia para Lourenço Marques e para a África do Sul.