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5.2 Chapter summary

6.1.1 Brokerage

Embora oficialmente a URSS se tenha limitado a apoiar uma decisão dos movimentos sul- africanos, não é de excluir que os soviéticos tenham feito sentir a sua influência na hora de se decidir ou não pela luta armada. Segundo as autoridades sul-africanas, cuja posição também deve ser considerada subjectiva, os soviéticos influenciaram o SACP a enveredar pela luta armada, e estes, por via do peso que já tinham adquirido dentro da Congress Alliance em geral, e no ANC em particular, conseguiram convencer os seus parceiros a seguir este caminho. Provavelmente, a verdade estará a meio caminho, ou seja, os soviéticos terão apoiado aqueles que, à partida, dentro da Congress Alliance se mostraram dispostos a seguir a via das armas.

A propósito da influência soviética no início da luta armada, vários dirigentes do ANC e do MK mostraram ter posições algo diferentes. Durante o seu julgamento em 1964, Mandela a propósito desta questão afirmou o seguinte130:

It is a fact that for a long time the people had been talking of violence, of the day they would fight the white man and win back their country, and we, the leaders of the ANC, had nevertheless always prevailed upon them to avoid violence and pursue peaceful methods.When some of us discussed this in May and June 1961, it could not be denied that ourpolicy to achieve a non racial state by non-violence had achieved nothing and that our followers were beginning to lose confidence in this policy and were developing disturbing ideas of terrorism.

No fundo, Mandela dá a entender que a decisão foi interna e visava não só alcançar, por outros meios, os objectivos propostos pelo ANC, como também enquadrar os seus militantes numa luta armada organizada evitando assim actos solitários e desesperados que só serviriam para aumentar a repressão estatal. Porém esta posição de Mandela foi criticada com o argumento que o próprio Presidente do ANC, Albert Luthuli ter afirmado não ter tido conhecimento da decisão de se avançar para a luta armada. Para além das explicações já avançadas anteriormente para justificar o desconhecimento de Luthuli, no seu livro Long Walk to Freedom, Mandela apresentou uma outra versão algo diferente sobre os acontecimentos, afirmando que Luthuli teria sido informado. Segundo Mandela, o

130 Nelson Mandela: I am Prepared to Die, p. 12.

desconhecimento mais tarde revelado por Luthuli terá ficado a dever-se a problemas de saúde do Presidente do ANC131:

The Chief was not well and his memory was not what it had been once. He chastised me for not consulting him about the formation of the MK. I attempted to remind him of the discussions we had in Durban about taking up violence, but he did not recall them. This is in large part why the story has gained currency that the Chief Luthuli was not informed about the creation of MK and was deeply opposed to the ANC taking up violence.

Porém esta ideia defendida por Mandela difere um pouco da apresentada por uma outra corrente que defende que a decisão foi tomada em conjunto pelo ANC e o SACP, deixando perceber que os outros movimentos do Congress Alliance ficaram à margem. Esta tese foi apoiada por Joe Slovo132 do SACP, o qual afirmou a este respeito, durante uma reunião

realizada em 1969 entre o ANC e o SACP, o seguinte133:

This is the first formal meeting ever to take place between two organisations which walked with hands clasp together for many years… the simultaneous decision by both leaderships to chart the new way – the way of armed struggle.

Uma outra posição, que contraria a ideia de que a decisão de enveredar pela luta armada foi tomada à revelia da Congress Alliance, foi apresentada por um destacado elemento do MK, Joe Modise134, o qual ao recordar em 1986 a criação do MK afirmou135:

131 Nelson Mandela: Long Walk to Freedom.

132 Joe Slovo era membro do SACP e do ANC, tendo sido um dos mais importantes comandantes do MK. Branco, de origem lituana, foi um dos fundadores do Congress of Democrats. Preso várias vezes, abandonou a África do Sul em 1963, continuando a trabalhar no exílio para o SACP e para o ANC. Após a independência de Moçambique, em 1975, foi viver para esse país. Em 1982 uma bomba, colocada pelos serviços secretos sul-africanos, matou-lhe a mulher, a activista anti-apartheid Ruth First. Em 1984, na sequência da assinatura do Acordo de Nkomati entre a África do Sul e Moçambique, foi obrigado a abandonar o país. Após as eleições de 1994 na África do Sul, foi nomeado Ministro da Habitação, cargo que ocupou até à sua morte em 1995.

Biographie of Joe Slovo, 2 pp.

http://www.sacp.org.za//biographies/slovo.html

133 Vladimir Schubin: ANC. A View from Moscow, p. 24.

134 Membro do ANC, foi um dos principais comandantes do MK. Recebeu treino militar na Checoslováquia e na URSS. Em 1963, e na sequência da prisão de vários líderes do MK, como Nelson Mandela, Raymond Mhlaba e Wilton Mkwayi, assumiu a liderança da luta armada. Durante o período de transição que se seguiu à libertação de Mandela e à legalização do ANC, Modise fez parte da delegação do ANC que negociou com o governo sul-africano. Shelagh Gastrow: Who’s Who in South African Politics, pp. 190- 192. Após a vitória eleitoral do ANC em 1994, foi nomeado Ministro da Defesa, cargo que ocupou até 1999, altura em que se retirou da vida política. Joe Modise faleceu vítima de cancro a 26 de Novembro de 2001.

Biographie of Joe Modise, 2 pp.

http://www.anc.org.za/ancdocs/history/people/modise/index.html

When the ANC, SACP, CPC, SAIC and CD met to discuss this new method of struggle. After two days of consultation, it was agreed that the ANC and SACP were going to undertake this new form of struggle whilst the other movements that were still legal should continue working legally. It was then decided that the MK was going to be launched.

Independentemente de quais foram os movimentos dentro da Congress Alliance que tomaram esta decisão, todas as versões defendem que foi uma decisão interna, e não uma decisão imposta pelo exterior. Devido à sua maior capacidade de actuação e melhor organização, o ANC e o SACP apresentaram-se como os líderes desta decisão, tanto mais que a sua ilegalização os obrigou a explorar novos modos de actuação.