Face às alterações regionais, Vorster privilegiou, inicialmente, a via diplomática, apostando numa política de Détente, nas relações com os estados da região. A ideia básica de Vorster era a de quebrar o isolamento do país, fazendo passar a ideia de que era necessário dar tempo ao governo para iniciar as reformas, embora não fosse claro se as mesmas iriam pôr fim ao regime de segregação racial. Alguns países, como a Libéria e Costa do Marfim mostraram-se receptivos a esta aproximação, começando a defender a ideia, junto de outros estados africanos, de que era necessário dar uma oportunidade ao regime de Pretória. Os sul-africanos tentaram reforçar a sua posição, afirmando que a sua participação era essencial para resolver as questões da Rodésia e da Namíbia.
A hipótese de se enveredar pela via do diálogo no relacionamento do continente com a RAS, representava um grave perigo para os movimentos de libertação sul-africanos, que viam nesta estratégia de Pretória a possibilidade do regime se perpetuar no poder. Assim sendo,
202 Num desses ataques, o Vice-Presidente do ANC e Comandante do MK, John Dube, Adolfus Muembe, foi morto.
juntamente com os estados africanos aliados, iniciou-se uma campanha internacional a favor do isolamento sul-africano.
Entretanto, na África Austral os acontecimentos relativos às independências de Angola e Moçambique levaram a RAS a actuar. No caso moçambicano a corrente moderada ainda conseguiu impor as suas opiniões a Vorster. Quando a 7 de Setembro de 1974 estalou uma revolta203 em Lourenço Marques, sectores no seio do aparelho militar sul-africano mostraram-
se dispostos a apoiar os revoltosos. Esta iniciativa acabou por ser cancelada por ordens de Vorster, o qual pretendia promover um bom relacionamento com os novos dirigentes moçambicanos.
Já em relação a Angola, Vorster teve uma opinião diferente. Face à escalada de conflito entre os três movimentos angolanos, MPLA, FNLA e UNITA, as autoridades sul-africanas temiam que a instabilidade tivesse consequências para a questão namibiana. Vorster confrontou-se com a existência de três posições relativas à atitude a adoptar face ao conflito angolano. Uma, encabeçada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Hilgard Muller, defendia a não ingerência nos assuntos internos angolanos, semelhante à posição adoptada relativamente a Moçambique. Uma segunda posição, defendida pelo Ministro da Defesa, P.W. Botha, defendia uma intervenção militar em Angola com vista a evitar que o MPLA tomasse o poder. Esta posição argumentava, a seu favor, com as consequências negativas de uma eventual vitória do MPLA, apoiado por forças do bloco soviético. A terceira posição, era apresentada pelo chefe do Bureau of State Security (BOSS)204, o General van den Bergh, o qual defendia uma
intervenção, mas não levada a cabo pelas SADF, mas sim com agentes do BOSS numa operação semelhante às da CIA.
Perante o crescente apoio soviético e cubano ao MPLA, Vorster decidiu-se pela intervenção militar directa em Angola. Os primeiros contactos entre Cuba e o MPLA tinham-se dado em 1965, quando Che Guevara tentou espalhar a revolução cubana ao continente africano205. Mais
tarde, em 1966, Agostinho Neto visitou Cuba a convite de Fidel Castro. Os contactos só voltaram a ser importantes em princípios de 1975, quando o Comandante Flávio Bravo se encontrou com Neto em Brazzaville. Nessa altura, foram discutidas várias modalidades de apoio de Cuba ao MPLA. Em Outubro de 1975, com o aproximar da data de independência de Angola e com o agravamento da guerra civil, Cuba decidiu iniciar a Operação Carlota, a qual se traduziu no envio de um forte contigente militar em apoio do MPLA206. Esta decisão
203 Os revoltosos contestavam a Assinatura do Acordo de Lusaka, entre Portugal e a FRELIMO, que concedeu a independência de Moçambique sob a liderança da FRELIMO.
204 Face à existência dos movimentos de libertação, o governo de Vorster decidiu criar em 1969 o BOSS, o qual veio substitur o pequeno aparelho do Republican Intelligence que fazia parte do Security Police. O BOSS, liderado pelo General van den Bergh, assumiu a liderança no combate aos movimentos de libertação, nomeadamente infiltrando agentes.
205 A experiência africana de Che Guevara foi bem descrita no livro O Ano em que Estivemos em Parte Nenhuma. A Guerrilha Africana de Ernesto Che Guevara, da autoria de Paco Ignacio Taibo & Froilán Escobar & Félix Guerra. Neste livro, os autores recorreram ao testemunho de vários companheiros de Guevara que o acompanharam na aventura africana, assim como a documentos na posse do estado cubano. 206 Cfr. Gabriel García Márquez: Operation Carlota, pp. 123-127.
cubana coincidiu com a radicalização da posição sul-africana que se traduziu num envolvimento directo no conflito angolano.
Esta decisão fez fracassar quaisquer hipóteses de sucesso das iniciativas dos estados africanos moderados. O choque entre favoráveis ao diálogo com a RAS e defensores do isolamento do país deu-se numa reunião do Conselho de Ministros da OUA, realizada em Dar-es-Salaam em Abril de 1975. A posição do ANC e do PAC foi defendida pelo Presidente do país anfitrião, Julius Nyerere. A OUA acabou por rejeitar o diálogo com Pretória e continuar o apoio aos movimentos de libertação sul-africanos. Esta vitória diplomática reforçou o ANC, o qual esperava muito em breve poder vir a utilizar os territórios de Angola e Moçambique, como bases para as suas operações militares.
No caso de Moçambique, o novo poder confrontava-se com um dilema. Por um lado, a solidariedade levava-o a querer apoiar a luta do ANC, mas a realidade, nomeadamente económica, obrigava-o a ser mais moderado devido à dependência económica existente207 em
relação à RAS. Após a subida ao poder, em Setembro de 1974, do Governo de Transição, liderado por Joaquim Chissano, as novas autoridades moçambicanas declararam não ser sua intenção iniciar uma nova guerra, nem pretender ser os reformadores da África do Sul. Aparentemente, a visão realista tinha ganho.
Apesar destas declarações, a independência de Moçambique foi muito festejada na África do Sul, não só como acto de solidariedade para com a FRELIMO, mas também, e talvez sobretudo, pelo facto da Moçambique ter ascendido à independência através de uma luta armada. Esta situação motivou os sul-africanos para a necessidade de apoiarem, na clandestinidade, a luta armada.
Nas cerimónias de independência de Moçambique, a 25 de Junho de 1975, o ANC esteve representado por uma importante delegação, liderada por Oliver Tambo. Num discurso proferido nessa altura, Samora Machel deixou clara a posição do novo país em relação ao conflito sul-africano208:
O povo moçambicano e a República Popular de Moçambique sob a liderança da FRELIMO assumirá sempre o seu dever de solidariedade com os interesses do povo sul-africano, independentemente das dificuldades que isso possa acarretar.
O idealismo político tinha ganho ao realismo económico. Moçambique pagará bem caro este acto de solidariedade para com o ANC. Porém, a proximidade geográfica da capital moçambicana do território sul-africano, tornava os membros do ANC muito vulneráveis a eventuais ataques sul-africanos, o que limitou as possibilidades de actuação, nomeadamente do MK.
207 A dependência explica-se pelas opções adoptadas durante a época colonial, com o desenvolvimento de Moçambique a ser feito em íntima relação com a África do Sul. O Porto de Lourenço Marques devia grande parte dos seus rendimentos ao tráfego sul-africano; no capítulo das relações comerciais e investimento a presença sul-africana era considerável; finalmente, as remessas dos trabalhadores moçambicanos a trabalharem nas minas sul-africanas, eram uma importante fonte de rendimento para Moçambique.