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4.3 Chapter summary

5.1.2 Indoctrination

O MK foi criado oficialmente como uma organização distinta do ANC, embora na prática estivesse subordinada à sua liderança política. O objectivo desta separação era o de evitar que o regime pudesse acusar os membros do ANC de envolvimento na luta armada, o que poderia, em última instância, permitir revogar a ilegalização do ANC. Porém, existe uma outra explicação mais plausível para compreender esta separação. Uma vez que a decisão de iniciar a luta armada foi tomada no Congress Alliance, estrutura política composta por várias organizações, também a estrutura militar a criar deveria ser composta por estas mesmas organizações. Se, pelo contrário, se criasse uma estrutura militar apenas ligada a uma das organizações, mesmo que fosse a mais forte, como era o caso do ANC, podia ser mal interpretado pelas outras e provocar um mal-estar no seio da Congress Alliance.

O desejo de iniciar a luta armada era um velho sonho dos círculos mais radicais do ANC, nomeadamente conotados com a Youth League. Esta opção era de facto, segundo Andrew Masondo118, uma opção muito popular nos círculos mais jovens do ANC119:

The ideia of the movement moving away from its non violence stance was discussed within youth circles even earlier than 1960. I remember that a group of us at Fort Hare actually formed a group to prepare for the eventuality of an armed struggle taking place.

Para além da pressão interna, também o ambiente internacional influenciou a decisão de enveredar pela luta armada. Durante muito tempo, o exemplo indiano da não-violência serviu de modo de actuação aos sul-africanos. Esta influência indiana ficou a dever-se, sem dúvida, à

117 A. Lerumo, op.cit., pp. 46-47.

118 Andrew Masondo foi um dos membros do MK. Mais tarde, foi nomeado Comissário Nacional do ANC e, após a vitória eleitoral do ANC nas eleições de 1994, assumiu o cargo de Major-General nas novas forças armadas sul-africanas, a South African National Defence Force (SANDF).

passagem de Gandhi pelo país. No entanto, as lutas de libertação iniciadas por alguns movimentos de libertação africanos, serviram de inspiração a muitos membros da oposição sul- africana. Também a mudança de atitude da Índia, demonstrada com a invasão de Goa, Damão e Diu em Dezembro de 1961, mostrou que nem sempre a não-violência permite alcançar os objectivos pretendidos.

No contexto africano o grande exemplo inspirador foi a Argélia. Face à eminente retirada francesa, os apologistas sul-africanos da luta armada exultaram de alegria e de optimismo, uma vez que ao compararem a França à África do Sul, este último país era claramente inferior a todos os níveis, prevendo-se assim o sucesso de uma eventual luta armada. Os principais defensores deste raciocínio eram os membros do SACP, os quais afirmavam que120:

Military, strategically, the South African government starts off weaker than the French in Algeria. Its armed forces are smaller, the exclusively white pool from which it can draw futher recruits is minute by comparison with the french reserves of population; its armements are inferior; its industrial base is infinitely smaller.

Todavia, esta visão pecava por excesso de optimismo. O governo sul-africano, para além de conseguir atrair um número considerável de brancos e de membros de outras raças para a SADF, contava com o apoio tácito de várias importantes potências ocidentais.

Esta posição muito positiva em relação às hipóteses de sucesso de uma luta armada dentro da África do Sul, foi principalmente promovida pelo SACP. Os comunistas sul-africanos defendiam esta ideia, não por serem irrealistas, mas com a intenção de convencer aqueles que, dentro da Congress Alliance, se mostravam mais renitentes em seguir este caminho. O facto de estar ilegalizado há quase uma década, fez com que o SACP estivesse bem mais preparado psicologicamente para seguir a opção militar.

Internamente, o SACP tinha vindo a debater a questão de outras formas de luta contra o regime. A questão da luta armada foi considerada como inevitável, visão que ficou expressa num panfleto intitulado South Africa – What Next? que circulou clandestinamente em Agosto de 1960. Um passo em frente surgiu com a apresentação da resolução interna On Forms of Struggle, onde se falou concretamente de meios violentos de reacção contra as acções do governo.

A opção pela luta armada foi finalmente adoptada pelo ANC, argumentando os seus líderes que se tinham esgotado o potencial dos protestos e as acções não violentas. Simultaneamente, essas acções eram cada vez menos eficazes face ao um estado considerado ilegítimo que respondia a essas acções com actos de violência121.

Os principais fundadores do MK foram Nelson Mandela, seu primeiro comandante, Walter Sisulu, Wilton Mkwayi, Joe Slovo e Raymond Mhalaba. A primeira prioridade foi a de encontrar apoios para o treino dos guerrilheiros no exterior. As primeiras ofertas chegaram da Argélia e da Etiópia122. O Alto Comando do MK foi composto por 6 pessoas: Nelson

120 Idem, p. 20.

121 William Beinart: Twentieth – Century South Africa, pp. 160-161.

Mandela, Walter Sisulu e Andrew Mlangeni do ANC e Joe Slovo, Govan Mbeli e Raymond Mhlaba por parte do SACP.

Os primeiros ataques do MK deram-se a 16 de Dezembro de 1961. Esta era uma data com um enorme simbolismo para a nação africânder, sendo inclusive feriado no país, pois comemora- se a vitória dos africânderes na Batalha de Blood River em 1938. Numa série de ataques concertados, vários alvos económicos foram atingidos em diversas partes do país. Coincidindo com estas acções, a liderança do MK distribuiu clandestinamente um panfleto no qual afirmava os grandes objectivos da sua luta123:

Umkhonto we Sizwe will be at the front line of the people’s defence. It will be the figthing arm of the people against the government and its policies of race oppression. It will be the striking force of the people for liberty, for rights and for their final liberation…. In this actions, we are working in the best interests of all the people of this country – black, brown and white, those future happiness and well being cannot be attained without the overthrow of the Nationalist Government, the abolition of white supremacy and the winning of liberty, democracy and full national rights and equally off all people of this country.

Nesse mesmo panfleto, o MK assumiu a sua ligação ao ANC, ao mesmo tempo que aceitou a liderança deste na elaboração da estratégia de acção124:

Umkhonto we Sizwe will carry on the struggle for freedom and democracy by new methods, which are necessary to complement the actions of the established national liberation organisations. Umkhonto we Sizwe fully supports the national liberation movement and our members jointly and individually, place themselves under the overall political guidance of the movement.

Com a divulgação deste panfleto, o MK pretendeu justificar a decisão de iniciar a luta armada, culpando o governo pela sua intransigência. Igualmente importante foi a afirmação de que a luta era feita em nome de todas as raças, não excluindo de uma futura África do Sul, a população branca.

Como já foi referido, a estratégia do MK não era a de matar pessoas, mas sim a de causar danos à economia do apartheid, ao mesmo tempo que se pretendia afastar eventuais investidores estrangeiros. Segundo Mandela os objectivos da luta armada eram muito claros125:

Sabotage did not involve loss of life, and it offered the best hope for future race relations. We believed South Africa depended to a large extent on foreign capital and foreign trade. We felt that planned destruction of power plants and interference with rail and telephone

123 Unity in Action. A Short History of The African National Congress 1912-1982, p. 24.

http://www.anc.org.za/ancdocs/history/unity.html

124 Ibidem.

125 Nelson Mandela: I am Prepared to Die, pp. 16-17.

comunications would tend to scare away capital from the country, make it more difficult for goods from the industrial areas to reach the seaports on schedule and would in the long run be a heavy drain on the economic life of the country, thus compelling the voters of the country to reconsider their position.