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Summary of findings

Entre 1962 e 1972, a RAS conheceu um período de alguma acalmia social, a qual permitiu um crescimento económico. Durante esse período, as condições de vida das populações negras melhoraram, com o fosso entre brancos e negros a diminuir190. A partir de 1973, o país

começou a entrar num período de recessão, com o preço do ouro a cair nos mercados mundiais, ao mesmo tempo que a crise petrolífera fez disparar os preços do petróleo. Esta recessão foi acompanhada por uma vaga de greves em todo o país, particularmente graves em Durban e em East London. As independências de Angola e Moçambique vieram animar os opositores do regime, começando-se a sentir uma revitalização da contestação política.

Em 1974, o novo Ministro da Educação Bantu, Michaal C. Botha, e o seu Vice-Ministro, Andries Treurnicht, decidiram fazer aplicar uma determinação do Bantu Education Act que determinava a utilização no ensino do afrikaans em pé de igualdade com o inglês. Ao longo dos anos, a falta de professores de afrikaans, associada à ausência de livros escolares nesta língua, fizeram com que o inglês e as línguas nativas fossem as mais usadas na educação. Devido ao facto do afrikaans ser conotado com a língua do opressor, a decisão de utilizar esta língua no ensino, levantou, desde logo, uma onda de contestação. Ao longo de 1975 e 1976 a contestação foi subindo de tom.

O descontentamento também foi motivado pela crescente falta da habitação para a população negra. A razão desta escassez, prendeu-se com a decisão do governo de abrandar a construção de habitações para negros na África do Sul branca, preferindo promover a criação de habitação nos vários Bantustões, como forma a incentivar à deslocação das populações.

A 16 de Junho de 1976, centenas de estudantes do ensino secundário do Soweto, realizaram uma manifestação, protestando contra a utilização do afrikaans. A polícia respondeu a tiro às provocações, causando 3 mortos e vários feridos. A notícia da morte destes estudantes, levou à erupção de vários focos de violência nas zonas à volta de Joanesburgo, as quais acabaram por provocar a morte de centenas de manifestantes191.

190 Esta diminuição ficou a dever-se ao aumento dos salários dos mineiros. Este aumento foi feito com vista a cativar trabalhadores nacionais para as minas, de modo a não se ter que recorrer tanto à mão-de-obra estrangeira.

191 A violência manteve-se por vários meses. Até 1977, segundo os números oficiais, a onda de violência provocou a morte de 575 pessoas e feriu 2.389.

Estes incidentes acabaram por ter um enorme efeito no desenvolvimento dos acontecimentos na África do Sul. Embora as manifestações de estudantes não tivessem sido organizadas pelos movimentos de libertação, a verdade é que eles acabaram por ser os grandes beneficiados destes acontecimentos. Milhares de jovens192 abandonaram o país

nesta altura, com o intuito de se juntarem à luta armada sob o slogan Liberation Before Education. O governo sul-africano tentou acalmar os ânimos, mostrando a sua disponibilidade para rever a decisão da utilização obrigatória do afrikaans no ensino, decisão que veio, no entanto, tarde demais.

Os acontecimentos do Soweto tiveram duas consequências importantes. Em primeiro lugar, trouxeram, pelos piores motivos, a situação da África do Sul de volta à ribalta internacional, e, por outro, a população negra consciencializou-se de que a resistência podia alcançar resultados, uma vez que o ensino do afrikaans foi abandonado nas escolas do Soweto. Devido à crescente má imagem do país, os custos do apartheid aumentaram. Tudo isto obrigou o governo a ponderar a aplicação do apartheid noutros moldes, ou seja, tentar encontrar maneira de implementar as suas ideias com o apoio da população negra. Esta necessidade sul-africana, surgiu ao mesmo tempo que a economia começou a sofrer as consequências da crise petrolífera.

A crise económica do país fez com que as manifestações anti-apartheid ganhassem maior importância. A degradação económica era mais visível no seio da população negra, mas, necessariamente, acabou também por atingir a população branca. A ideia de se criar uma sociedade separada era impossível em termos económicos, uma vez que as várias realidades sociais acabavam por ser indissociáveis. O Ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano, Pik Botha, reconheceu esta realidade num discurso proferido no Conselho de Segurança da ONU193:

An African Bishop, a wise man, once compared the blacks and whites in South Africa with a zebra. If the zebra were shot, it would not matter whether the bullet penetrated a white stripe or a black stripe – the whole animal would die.

Os brancos e negros estavam tão economicamente interdependentes, que não podiam viver separados tal como propunha o apartheid. A ideia de se criar Bantustões Independentes, com economias independentes que se relacionassem com a RAS na base de estados soberanos, era impraticável. Os Bantustões eram economicamente inviáveis, levando as suas populações a

Gwyneth Williams & Brian Hackland: The Dictionary of Contemporany Politics of Southern Africa, pp. 256-257.

192 Calcula-se que tenham sido 14 mil os jovens que decidiram juntar-se à luta armada.

Patti Waldmeir: Anatomy of a Miracle. The End of Apartheid and the Birth of a New South Africa, p. 23. 193 Idem, p. 24.

procurarem emprego na RAS, ao mesmo tempo que obrigava a uma transferência de apoios financeiros do orçamento sul-africano.

Os acontecimentos do Soweto apanharam desprevenidos os movimentos de libertação. A adesão de milhares de jovens sul-africanos à luta armada, levantou sérios problemas logísticos ao ANC e PAC, uma vez que nenhum deles estava preparado para receber de repente tão elevado número de novos recrutas.

Apesar dos problemas logísticos provocados pela chegada repentina de tantos novos candidatos a guerrilheiros, o ANC viu nesta situação a possibilidade de conseguir envolver uma maior percentagem da população sul-africana na luta contra o apartheid. Militarmente, os objectivos continuaram a ser económicos.

O PAC, nas suas acções militares continuou a privilegiar as zonas rurais, seguindo a estratégia, claramente influenciada pela experiência chinesa, delineada por Potlako Leballo, a qual previa o seguinte194:

The Azanian Revolution can develop from a guerrilla type of war in the countryside, extending its authority and then surrounding and taking over the cities. It would be from the ranks of the peasants in the reserves that the guerrilla forces would find their most eager support.

Porém, na segunda metade da década de 70, o PAC atravessou uma crise interna que minou a sua capacidade de operação. A morte, em 1978, do seu líder histórico, Robert Sobukwe, abriu a luta pela sua sucessão. Esta disputa radicalizou-se, provocando a interrupção das operações militares. A tentativa de Leballo assumir a liderança do movimento oficialmente, embora na prática já fosse ele a dirigir o movimento devido à detenção de Sobukwe, contou com a oposição de um dos comandantes do APLA, Templeton Ntantala. Esta luta pelo poder culminou com a expulsão de Ntantala195 e dos seus apoiantes do PAC. Porém, toda esta luta

interna enfraqueceu o movimento, o qual não levou a cabo nenhuma operação militar significativa até meados dos anos 80.

4. 2. Divisões no Seio dos Apoiantes do Apartheid

Para além da tradicional divisão entre anglófonos e africânderes, a população branca tinha outras clivagens. Após um período inicial de contenção, Vorster teve que começar a lidar com as exigências das várias sensibilidades existentes dentro da população branca. Logo em 1968 os desentendimentos dentro do governo fizeram-se sentir. As tentativas de Vorster em modificar alguns aspectos196 marginais do apartheid, que não punham em causa a essência do

194 Tom Lodge: Soldiers of the Storm: A Profile of the Azanian People’s Liberation Army, p. 106.

195 Templeton Ntantala e os seus apoiantes, criaram o Azanian People’s Revolutionary Party, movimento que acabou por despertar pouco interesse, não tendo conseguir mobilizar nenhum apoio, interno ou externo. A maioria dos membros deste movimento acabaram por ser presos.

196 Basicamente, eram alterações de pormenor, como aceitar as credenciais de Embaixadores negros ou dar garantias aos anglófonos sobre a possibilidade de poderem manter a sua identidade se aderissem ao NP. T.R.H. Davenport: South Africa. A Modern History, p. 424.

conceito de segregação racial, provocaram um enorme mal-estar dentro do NP. Para a ala mais conservadora, liderado pelo Ministro da Saúde, Albert Hertzog197, qualquer alteração às

orientações de Verwoerd era considerado uma traição. Este choque provocou a saída do governo dos membros mais conservadores198.

A contestação a esta flexibilização do regime foi liderada pela Africânder Broederbond199, liga

africânder de irmãos, movimento conservador com enorme influência dentro do NP. A influência da Broederbond foi determinante no fortalecimento do sentimento nacional africânder. Criada em 1918, a primeira missão da Broederbond foi a de reanimar os ânimos dos africânderes, debilitados pela derrota na Guerra Anglo-Boer. O fortalecimento da Broederbond começou a ser feito através de um sentimento anti-anglófono que foi sendo alimentado no seio da população africânder.

O espírito de grupo africânder também foi fortalecido, utilizando-se uma série de símbolos e imagens, como o Great Trek e o sentimento de cerco permanente. Os princípios defendidos pela Broederbond, influenciaram em muito as decisões do NP a partir de 1948. Num documento publicado em 1944, a Africânder Broederbond defendeu uma série de princípios que terão uma enorme influência na implementação do apartheid. Entre os principais destacam-se a missão divina da nação africânder; a separação dos brancos dos não-brancos e a prioridade à língua e à cultura africânder dentro do estado sul-africano. Embora se considere que a influência da Broederbond dentro do NP tenha sido, ao longo dos tempos, muito grande200, é dificil quantificá-la devido ao seu carácter secreto, tanto mais que por vezes

chega a ser impossível separar o NP da Africânder Broederbond.

O conflito entre moderados e radicais, terminou com a saída de vários membros da ala mais conservadora do NP, os quais, liderados por Albert Hertzog, criaram o Herstigte Nasionale Party (Partido Nacional Reconstituído) HNP. Este novo partido defendia a dureza e intransigência na aplicação do apartheid, criticando a moderação do governo de Vorster. Esta secessão não resolveu as clivagens dentro do NP, tendo mesmo provocado uma divisão dentro dos apoiantes do apartheid, entre os moderados ou liberais, verligtes e os radicais ou conservadores, verkrampts. A distinção entre estes dois grupos, que será uma constante dentro do NP, foi feita, pela primeira vez, pela Professor Willem De Klerk, irmão de Frederik De Klerk, durante uma conferência realizada na Universidade de Potchefstroom em 1966201. Para

197 Filho de J.B.M. Hertzog.

198 Para além de Hertzog, saíram do governo o Ministro dos Assuntos Indianos, A.E.G. Trollip, e o Ministro do Interior, P.M.K. Le Roux.

199 A Afrikander Broederbond foi criada como organização exclusivamente masculina e protestante. Organização elitista, seleccionou os seus membros no seio da classe política, funcionários públicos e membros da Igreja Reformada Holandesa. Grande parte dos líderes sul-africanos desde 1948, foram membros da Broederbond. Esta organização tinha também uma estrutura juvenil, a Ruiterwing, que incluia membros dos 18 aos 33 anos.

Cfr. Brian Bunting: The Rise of the South African Reich, pp. 43-56.

200 Stephen Chan: Exporting Apartheid. Foreign Policies in Southern Africa 1978-1988, pp. 10-13. 201 F.W.De Klerk: The Last Trek. A New Beginning, p. 79.

além destes dois grupos, o Professor De Klerk apontou um terceiro, instalado entre conservadores e liberais, intitulado os positivos, os quais defendiam a mudança, mas de uma forma ordeira e gradual. Esta divisão da sociedade branca em três grupos, teve uma enorme repercussão nos meios de comunicação social, a qual marginalizou o último grupo, passando a apresentar a comunidade branca dividida apenas entre verligtes e verkrampts.