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Problemstilling og avgrensing av tema

1. Innleiing

1.2 Problemstilling og avgrensing av tema

Um dos aspectos que marcou de forma considerável a greve dos têxteis da Finobrasa, em 1988, consistiu na violência contra os grevistas. A greve é rememorada como um momento de extrema truculência patronal e repressão policial. Pode-se perceber esse fato observando a bibliografia343 sobre a greve, as

340 Ver matérias dos jornais: Diário do Nordeste, quinta-feira, 26 de maio de 1988., p. 11.; e O

Povo, quinta-feira, 26 de maio de 1988., p. 11.

341 O Povo, quinta-feira, 26 de maio de 1988., p. 11.

342 Diário do Nordeste, quinta-feira, 26 de maio de 1988., p. 11.

343 CARNEIRO, Ana Joeline. op. cit.; COSTA, Marcos Antônio Bezerra. (2005a). op. cit.; SALES,

narrativas dos trabalhadores e os jornais de circulação diária na época: Diário do Nordeste, O Povo, O Estado e Tribuna do Ceará.

A greve da Finobrasa foi permeada por uma série de atos de violência dirigidos contra os trabalhadores e militantes das causas sociais que apoiavam o movimento. Conforme Marcos Antônio Costa, dentre os casos lastimáveis daquela greve,

[...] destaca-se o episódio com a ex-vereadora Rosa da Fonseca, símbolo do radicalismo de esquerda do Ceará. Ela foi uma das lideranças de uma das inúmeras passeatas organizadas a época em apoio aos grevistas. Ao chegarem nas imediações do grêmio recreativo dos funcionários daquela indústria, que fica localizado nos fundos, ocorreu um conflito entre os manifestantes e tropa de choque da força policial a serviço da burguesia – este confronto não foi o único, como também não foi o mais violento – e a líder esquerdista foi covardemente agredida pelo diretor administrativo da empresa. Deve-se esclarecer que esta foi apenas uma das várias cenas que se teve, lamentavelmente, o desprazer de vivenciar344.

A repressão não se restringiu a agressões físicas, outra forma de violência foi a violação do direito de ir e vir. De fato, os trabalhadores não podiam sair do local de concentração, sob pena de sofrer agressões. Além disso, eram proibidos de realizar piquetes e manifestações no entorno da fábrica. Segundo o sindicalista Antônio Ortins, houve:

Muitas atitudes repressoras da polícia na greve [...] botar cavalaria, cachorro, não é para impedir piquete, não. É para intimidar os trabalhadores para que, no pânico, cedam frente as ameaças de demissão. Houve confronto [...], a polícia proibiu a gente de fazer manifestação, proibiu a gente de fazer passeata, proibiu a gente de sair da Igreja, e a gente saiu assim mesmo, fomos pro cacete [...]345.

Logo que se iniciou a greve, contrataram-se seguranças recrutados nas academias de artes marciais de Fortaleza, no que se vê uma explícita intenção de intimidar os trabalhadores. Conforme matéria do Jornal Tribuna do Ceará:

[...] é constante a presença não só de policiais, mas de „leões de chácara‟, alguns deles contratados inclusive, junto as academias de caratê. Além disso há um grande aparato policial não só na frente das fábricas, mas inclusive nas diferentes ruas do bairro. „Tudo isso para amedontrar-nos visando o fim do nosso movimento‟, afirmaram eles346.

344 COSTA, Marcos Antônio Bezerra. (2005a). op. cit., p. 128-129.

345 Entrevista com Antônio Ortins. apud. CARNEIRO, Ana Joeline. op. cit., p. 40. 346 Tribuna do Ceará, sábado, 21 de maio de 1988., p. 03.

No intuito de intimidar ainda mais os trabalhadores em greve, os vigilantes da Finobrasa disparavam tiros de revólver para o alto, logo que o número de trabalhadores no entorno da fábrica aumentava.

Determinado dia da greve simboliza bem a severa repressão a que foram submetidos os trabalhadores. No dia 09 de maio de 1988, a despeito do policiamento ostensivo para impedir os manifestantes de circularem nas avenidas próximas à fábrica, foi organizada uma ação de mobilização em frente à Finobrasa, na Avenida Sargento Hermínio.

FIGURA 17 – Passeata rumo a Finobrasa no dia 09 de maio de 1988

Fonte: CARNEIRO, 2005, p. 40.

Quando se observa os relatos sobre o referido dia, bem como o que os jornais da imprensa comercial de Fortaleza noticiaram, torna-se possível identificar que a manifestação representou uma disputa pelo uso do espaço público, a frente da fábrica, na medida em que os operários pretendiam ocupar o local para intimidar os patrões e os “furões da greve” e, por conseguinte, evitar o retorno destes ao trabalho. Todavia, o aparato coercitivo do Estado acionado para salvaguardar os interesses dos patrões não admitia o uso deste espaço pelos trabalhadores. Nessa batalha, o Governo utilizou-se de seu tentáculo repressivo oficial, a Polícia Militar, para impedir as manifestações grevistas.

Como os trabalhadores não se intimidaram e continuaram a manifestação em frente à fábrica, foram agredidos com severa violência, como se vê nesta fotografia existente no arquivo do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de Fortaleza:

FIGURA 18 – Trabalhadores com pernas e braços quebrados por policiais no dia 09 de maio de 1988

Fonte: Arquivo do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis.

Nas narrativas dos trabalhadores há destaque a brutalidade com que foram agredidos pela Polícia Militar. Tarcísio Araújo foi um dos trabalhadores que testemunhou a preparação, a prática e os momentos de tensão no referido dia da greve. Indagado a respeito da dinâmica do movimento eis o que relata:

A gente pra fazer manifestação, passava em frente à empresa, a polícia tentava impedir, começava aquele confronto e a peia comia [...]. Teve um dia que até um deputado chegou a apanhar da polícia, o Deputado João Alfredo. Eu tava no dia, só que na hora eu tinha [...], mas o João Alfredo apanhou, inclusive, no outro dia saiu uma manchete no jornal [...]. Teve colegas meus, que eu vi, eles apanharam mesmo, inclusive chegavam com hematomas [...] teve um colega nosso que apanhou, que chegou até a ir para o hospital [...] não faltava polícia lá, eram vinte e quatro horas, policia em frente à empresa347.

No mesmo dia nove, o operário José Maria ajudou a socorrer vários trabalhadores espancados por policiais:

[...] ajudei a socorrer vários companheiros com pernas quebradas, braços quebrados, teve um dos colegas que desmaiou, foi numa hora de emergência, foi preciso nós pegarmos ele, quase

arrastamos, porque tínhamos que ser rápidos, por que se a polícia chegasse, até talvez terminasse por matar o rapaz, não podia deixar o rapaz desmaiado, e nós conseguimos escondê-lo numa casa que ficava próxima a fábrica [...], e ao final, a polícia viu que o rapaz estava escondido nesta casa e queria invadir a casa do cidadão [...]348.

Os acontecimentos daquele dia, também estão vivos na memória de João Batista. Ele não participou da manifestação em frente à fábrica, naquele fatídico dia, mas viu chegar ao local de concentração os operários que apanharam da polícia:

[...] a única greve que eu participei foi dessa, nesse sentido, de não ir trabalhar [...] de ir para Igreja, mas nunca acompanhei passeatas, graças a Deus. Passar pela frente da fábrica, eu nunca gostei também [...]. Um dia eu ia chegando lá na Igreja, com pouco tempo, lá vem gente com perna quebrada. Bateram nos trabalhadores, num movimento que eles passaram em frente da fábrica [...], tomaram até o crachá do João Alfredo que era deputado349.

A violência com que os manifestantes foram reprimidos também fica evidente no depoimento a seguir, que indica ainda novos elementos ao estudo das formas de repressão acionadas desde o Estado:

Na época da greve, o superintendente da Finobrasa se chamava Nahmi Jereissati, primo do Tasso Jereissati [governador do Estado do Ceará, à época], eles fecharam a Sargento Hermínio [...], o Tasso Jereissati mandou um enorme contingente de soldados para frente da fábrica, eram três batalhões: um bem no portão da fábrica, outro na Avenida Dr. Thenberge e outro na Avenida Olavo Bilac, de modo que a Avenida Sargento Hermínio ficou interditada, por ela não passava ninguém, isso durante 23 dias. Além do estado de sítio a violência era sem precedentes. Um dia nós tiramos a resolução de passar, mas não conseguimos, de um lado tínhamos dois mil trabalhadores desarmados e do outro um grande contingente de soldados armados, houve muitos tiros, resultando em várias pessoas feridas, entre os quais alguns foram hospitalizados [...] tivemos cerca de nove a doze pessoas feridas, foi perna quebrada, etc. e tal. De modos que teve esse combate e teve toda a violência, toda truculência [...]. Foi uma greve muito forte e terrivelmente violenta350. Tal associação entre Tasso Jereissati e a direção da Finobrasa, frisada por Antônio Ibiapino, inclusive apontando o grau de parentesco entre o governador do Ceará e um superintendente da Finobrasa, também aparece na imprensa sindical e comercial do período. No informativo do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis a associação e relatada da seguinte maneira: “„[...] o governo do Estado [sob a figura de] Tasso Jereissati [está junto aos] patrões, que tratam uma greve legítima, num

348 Entrevista com José Maria. apud. CARNEIRO, Ana Joeline. Op. Cit., pp. 45-46. 349 Entrevista com João Batista, concedida em 02/08/2008.

período de Campanha Salarial, como caso de política‟”. (FIO DA MEADA. apud. ARAÚJO, 2010, p. 21). E no jornal O Povo: “Operários da indústria Finobrasa entre dois fogos: fome e polícia. Não é de se estranhar, portanto, a amizade estreita dos donos com o Cambeba”. (O POVO, 22/05/1988, p. 06).

Portanto, as arbitrariedades do dia nove de maio ficaram enraizadas na memória coletiva351 dos participantes da greve. A presença da polícia no entorno da fábrica e o grau de violência é marcante para trabalhadores e sindicalistas entrevistados. Violência que também foi registrada, ou silenciada, de formas diferentes no noticiário dos jornais.