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the problem of jealousy directed at people who happen to succeed financially in a society where most people have very little. Swantz has

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Ao tratar da psique, o suíço Carl Gustav Jung aponta seus três níveis: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. A consciência é aquele nível que o indivíduo domina e ao qual tem acesso quando quer. Compõe-se de elementos biológicos e aprendidos culturalmente. O inconsciente pessoal é formado de dados ainda incapazes de chegar ao nível da consciência, embora possam vir a fazê-lo. Esses dados são adquiridos no curso da vida do indivíduo e ainda não apresentam maturidade para atingir o nível consciente. São algumas lembranças perdidas, idéias propositadamente esquecidas, percepções sensoriais. Inconsciente coletivo é algo que independe da experiência pessoal e não é adquirido, mas está no indivíduo desde o início de sua existência. Seus conteúdos nunca estiveram no nível da consciência e são, isso sim, imagens primordiais comuns a

toda a humanidade. 38

Para a formação desse nível da psique agem as experiências imemoriais da espécie humana, acumuladas ao longo dos tempos e de algum modo gravadas na mente sem que a pessoa tenha passado por qualquer delas. É uma espécie de herança cultural, produzida num passado remoto, que expressa um testemunho da ancestralidade do indivíduo. Manifesta-se na repetição constante de universais e antigas imagens da humanidade.

Pode-se falar numa descoberta desse nível mental a partir do momento em que Jung começa a perceber em sonhos e em certas manifestações neuróticas de pacientes a definição de imagens que remetem a mitos ou simplesmente a outras imagens, mais antigas e encontráveis em locais e tempos remotos, absolutamente distanciados da realidade da pessoa concretamente observada. Nota ele então um paralelismo praticamente universal

entre algumas dessas imagens, identificáveis em manifestações de sujeitos que nunca na vida tinham experimentado as situações que as ensejavam. A respeito disso escreve que

O psicólogo deve aceitar essa visão sem qualificações. As falagogias dionisíacas, os mistérios ctônicos da Atenas clássica, desapareceram da nossa civilização, tendo as representações teriomórficas dos deuses sido transformadas em meros vestígios, como a Pomba, o Cordeiro e o Galo que adorna as torres das nossas igrejas. Isso tudo não altera, no entanto, o fato de que, na infância, passamos por uma fase em que o pensamento e o sentimento arcaicos mais uma vez se fazem presentes em nós, e de que, ao longo de toda a nossa vida, possuímos, lado a lado com o nosso recém-adquirido pensamento dirigido e adaptado, um pensamento em termos de fantasia que corresponde ao antigo estado da mente. Da mesma maneira como o nosso corpo ainda mantém vestígios, em muitos dos seus órgãos, de funções e condições obsoletas, assim também a nossa mente, que ao que parece superou esses impulsos arcaicos, ainda traz as marcas dos estágios evolutivos pelos quais passamos, reapresentando, em sonhos e fantasias, ecos do passado coberto pelas sombras. 39

Mas como imaginar a transmissão desse material inconsciente de geração a geração?

Há, por certo, uma tentação de explicar esse mecanismo segundo a teoria lamarckiana da herança das características adquiridas e mesmo Jung, que mais tarde vai negar veementemente sua vinculação a ela, chega, em determinado momento, a afirmar que as experiências que produzem o inconsciente coletivo são gravadas em nossa psiquê através de uma repetição interminável.

O biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) dedicou-se ao estudo da botânica e da zoologia e, admitindo a evolução das espécies, propôs, para explicá-la, que: 1) nos animais, o emprego freqüente de um órgão pouco a pouco o fortalece e desenvolve, ao passo que a falta de uso, ao contrário, provoca o seu enfraquecimento gradativo, acabando por fazê-lo desaparecer; e 2) qualquer dessas modificações, se comum a ambos os sexos, ao longo de um período considerável, termina por se transmitir às gerações futuras. Conquanto o primeiro postulado seja considerado verdadeiro, o segundo sofre hoje séria contestação. Nada obstante, a chamada escola neolamarkista, embora aceitando a seleção natural como fator da evolução das espécies, também admite a hereditariedade de certos caracteres adquiridos, capazes de modificar, em milhões de anos, o genótipo do

animal 40. A propósito, é oportuno mencionar a teoria das mutações genéticas, que hoje se sabe poderem ser determinadas pelo ambiente, desenvolvida pelo botânico holandês Hugo de Vries, em 1901, que aparentemente desprezava o caráter adaptativo dessas modificações, entendendo que eram, na maior parte, espontâneas, reconhecendo, de outro lado, o mecanismo da seleção natural.

[...] pode acontecer, por acaso, que uma delas [as mutações] venha a ser útil a seu portador, num determinado ambiente. Nesse caso, tal indivíduo leva vantagem na competição com os demais e tem maior probabilidade de deixar prole numerosa, a qual herdará o gene mutado. O novo caráter vai, aos poucos, predominando, podendo mesmo vir a substituir o antigo numa população, dando início a uma variedade que pode, por um mecanismo semelhante, transformar-se numa espécie nova. 41

Quanto a Jung, embora não seja isso que ele postula na questão da transmissão dos elementos componentes do inconsciente coletivo, é interessante considerar a possibilidade, no mínimo intrigante, de indivíduos se recordarem de experiências de seus ancestrais.

Mas para ele as imagens do inconsciente coletivo constituem, isto sim, resultado de um padrão de funcionamento psíquico, desenvolvido por meio de mutações fortuitas no decorrer de um sem-número de gerações, padrão este que funciona como produtor de um genótipo da espécie. A esse padrão, ou modalidade, herdados, de funcionamento psíquico dá o nome de arquétipo. Dele decorrem predisposições para o indivíduo responder ao mundo da mesma forma como o fizeram seus antepassados.

Jung foi contemporâneo de Sigmund Freud, com quem trocou idéias e de quem se aproximou até o momento de uma ruptura intelectual. Um dos pontos centrais dessa ruptura foi a posição do psicanalista vienense em explicar a religião como uma neurose, em que o crente procura pacificar seu sentimento de culpa decorrente da atração pelo pai (aí está o complexo de Édipo). Jung, embora considerando a possibilidade de certas manifestações religiosas neuróticas, não vê uma relação necessária entre a religião e a neurose.

O suíço desmistifica o conceito freudiano de libido como algo de conteúdo exclusivamente sexual. Para ele a mente humana é um sistema carregado de energia

40 Nova Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro-São Paulo: Enciclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda., 1997, 8 v., p. 441-2.

resultante de estímulos externos. Assim, todo estímulo que o indivíduo recebe por meio de seus órgãos dos sentidos é processado pela mente e transformado em energia psíquica. Essa energia, que ele vai chamar de libido, transita entre os diversos componentes da psique (consciente, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo) e se manifesta em desejos, lembranças, aptidões, ou ainda, no caso de uma desarmonia desse movimento, que produza uma ruptura entre os elementos da psique, explica as patologias. Essa energia é constante, nunca se perde. Se é consumida em determinada condição, aparecerá em outra, sob forma diversa. Assim, se por algum motivo diminui o apego de uma criança em relação a seus pais, essa energia migra para outra condição e a criança desenvolve apego a outras figuras paternais, como um professor ou um amigo mais velho, no exemplo de PALMER 42.

Pois bem. O fluxo de energia libidinal vai do consciente ao inconsciente, em movimentos definidos respectivamente como progressão e regressão. A progressão é um movimento para fora, que ocorre visando à adaptação do indivíduo a necessidades novas da vida; a regressão, ao contrário, é uma atividade para dentro, um mergulho nas profundezas do inconsciente; se for muito intensa, inunda a consciência de elementos do inconsciente, o que, se não for um processo controlado, pode ser causa de uma psicose.

Mas esse movimento de regressão não é necessariamente ruim, danoso ou negativo, constituindo muitas vezes o mecanismo de enfrentamento de uma patologia. Pode se tratar de um elemento importante no desenvolvimento psíquico precisamente por revelar um nível profundo e criativo da mente. Nas palavras de PALMER, “[...] a regressão da energia psíquica reativa os conteúdos do inconsciente e, assim, revela as possibilidades de renovação e de regeneração que residem no interior desses conteúdos.” 43

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