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you and make you die or get very sick. This is what happens in The

In document .¡ Performanee in Tanzania (sider 145-152)

Voltando ao tema da religião, Jung, como se viu, rejeita a tese freudiana de sua necessária natureza neurótica e, mais ainda, de neurose sexual, além de igualmente rejeitar o caráter necessariamente negativo das neuroses – que, segundo visto, às vezes podem representar uma viagem indispensável às profundezas da psique.

42 Op. cit., p. 137. 43 Op. cit.

Assim é que, seguindo essa linha de raciocínio, as imagens de cunho religioso, verificáveis ao longo da história da humanidade, com formas que se repetem em tempos e lugares inteiramente desvinculados entre si, constituem símbolos de coisas que somente são encontráveis num nível extremamente profundo da psique. Em outras palavras, representam um movimento da energia libidinal em direção àquela parte da mente onde se situam as imagens primordiais e universais, componentes do inconsciente coletivo.

Para PALMER,

[...] os símbolos religiosos são revelados como expressões de uma forma de

experiência regressiva, ou, para dizer de outra maneira, como manifestações de

conteúdos coletivos. E, nessa medida, esses símbolos dão acesso a um nível psíquico que se furta por completo à definição racional, que é primordial e independente da experiência pessoal, mas que é mesmo assim de supremo valor

para o desenvolvimento presente e futuro da psique humana. 44

Assim é que o movimento da energia libidinal para essas regiões da mente, em busca de um aspecto mais universal e atemporal do inconsciente, do qual a religião é uma das manifestações, parece constituir uma espécie de necessidade. Ganha a religião status de uma legítima atividade psíquica.

Mas não só isso. A atitude religiosa, enquanto manifestação da psique tendente à busca de uma dimensão de integralidade da mente, como adiante se verá, unindo opostos e fazendo do dualismo (bem/mal é um deles) uma unidade, é uma verdadeira função psíquica, ou um processo psíquico absolutamente necessário. Necessário a tal ponto que, para Jung, a sua negação pode ter conseqüências indesejáveis, como o surgimento de distúrbios psicológicos.

Considerando que esse espaço da psique é repleto de formas ancestrais e de certo modo universais e que Jung as chama de arquétipos, importa ter presente que as imagens religiosas constituem conteúdos de alguns desses arquétipos. Um deles é o arquétipo de Deus, ou, dito de outra maneira, é Deus como arquétipo.

Deus é forma arquetípica, independentemente de seus variados conteúdos, no curso da história, desde as divindades do mundo animal à sofisticação do pensamento que elabora a Trindade. Se arquétipos são componentes estruturais da psique, existentes a

priori, quase se confundem com instintos. Pode-se falar, assim, numa espécie de “instinto de Deus”, como sugere PALMER. É de novo ele, a propósito desse tema, a sublinhar que

[...] a atitude religiosa, por mais pessoal ou socialmente realizada e sem variações de tempo ou de lugar, advém do fato de que, no nível mais profundo de nosso ser, há uma forma arquetípica de Deus profunda e indelevelmente gravada em nossa psique. Essa disposição religiosa funciona, se se preferir, como uma atividade interna da psique, gera uma energia que lhe é peculiar, emana do inconsciente coletivo e manifesta-se nos fenômenos visíveis e multifários da religião. 45

Nada tem a ver essa abordagem, exclusivamente empírica da ciência psicológica, com a questão da existência objetiva de uma divindade, o que, para Jung, se situa em campo que não se relaciona com o objeto de sua pesquisa. O que ele acentua é que, em todo tempo e lugar, desde os primórdios da espécie humana, sempre esteve no inconsciente coletivo a idéia de uma forma representativa de organização de todo o material da consciência e, assim, definidora de todos os demais arquétipos. Em suma, a ordem, o oposto ao caos.

E por que conceber Deus como pai? Desde que descartada a explicação freudiana evocadora do complexo de Édipo, a resposta é que essa identificação é também uma disposição inata e inseparável da forma arquetípica “Deus”. O amor da criança ao pai biológico poderia então ser considerado decorrência do seu amor primeiro a Deus.

Também não pode passar despercebido que faz parte dessa forma arquetípica a sua característica de distribuidor de justiça.

Os conteúdos que preenchem a forma Deus relacionam-se a símbolos. A idéia da Trindade é arquetípica e apresenta um símbolo de uma imagem inconsciente e primordial.

Deus aparece no contexto de um processo a que Jung dá o nome de individuação. Significa a integração das partes consciente e inconsciente de sua psique. É que, segundo frisado por PALMER, “a individuação pode ser definida como religiosa por ser um processo arquetípico e porque toda orientação para os arquétipos tem cunho religioso.” 46 Ela é motivada por um arquétipo que é o desejo de integralidade. Essa busca contém um olhar religioso da vida, pois supõe a compreensão de que a consciência está

45 Op. cit.,p. 161. 46 Op. cit.,p. 191.

ligada a algo mais profundo e anterior ao indivíduo. Deus, assim, constitui a meta do processo de individuação. Nas palavras de PALMER,

[...] esses conteúdos (da forma Deus arquetípica) sempre vão exprimir, em algum sentido, a busca inconsciente da integralidade. Dito de outra forma, como é arquetípica, uma característica a priori e essencial de toda personalidade, a exigência de unidade psíquica é parte intrínseca de toda imagem de Deus criada pelo indivíduo. A individuação é portanto parte integrante da atitude religiosa: o Deus que é apresentado ao indivíduo como arquétipo no interior de seu ser psíquico – o “Deus interior” – é apreendido pela mente religiosa como o Deus da integralidade ou totalidade. 47

Deus é, pois, categoria que expressa a idéia de totalidade, início e fim de tudo e que dá ao indivíduo a sensação de que há ordem ao invés de caos e de que todas as coisas existem em equilíbrio, ou melhor, que deviam coexistir em equilíbrio.

O desequilíbrio é produto do mal. Este, como o bem, é outra face de Deus, que é totalidade.

É interessante observar passagem da obra de Jung denominada Resposta a Jó, em que o autor relata um encontro entre Deus (Javeh) e o personagem bíblico Jó. Este, ao receber um Javeh que se apresentava como a suprema bondade mas no qual percebeu uma personalidade violenta e enciumada, mostrou a este a realidade, revelando o lado mau de Javeh e apelando para a sua compaixão e sua justiça. Com isso Jó se torna de certo modo superior a Javeh, pois conhece melhor que este as suas qualidades. Daí a necessidade de Javeh se fazer homem para alcançar a grandeza de Jó e expiar seu crime contra ele. Na interpretação dessa proposta de Jung, feita por PALMER,

Assim, Deus se faz homem não por causa daquilo que o homem fez a Deus, mas porque Deus tem de pagar pelo seu crime contra Jó. 48

Mas o mal precisa ser evitado ou, senão, anulado. A anulação do mal significa o restabelecimento do equilíbrio, numa sucessão de ocorrências que devem guardar lógica entre si e terminar, todas, numa solução de harmonia.

47 Ibidem, p. 195. 48 Ibidem, p. 197.

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