“A convivência intercultural representa um certo grau de perda ou aculturação para todos. É inevitável. Mas ao mesmo tempo e sobretudo representa a obtenção de uma nova cultura comum, que coexiste com as particulares: a cultura dos direitos humanos, o respeito pela lei, a participação cidadã, a solidariedade económica, o civismo, as expectativas de promoção pessoal, o respeito pela diversidade, a experiência enriquecedora do intercâmbio cultural”.
(Norbert Bilbeny, Prólogo de Gitanidad, in Rodriguez, 2011, p.13)
É na confluência destes cruzamentos – ser eu, cigano(a) e português(a) - que se edifica a unidade da pessoa enquanto pessoa individual e enquanto membro de uma comunidade e de uma sociedade. É na gestão destas tensões, destas fronteiras, umas vezes internas, outras externas, que se estabelecem equilíbrios dinâmicos e, por vezes, instáveis, ancorados num trabalho reflexivo interior de autoconstrução dialógica, entre as diversas facetas pessoais e colectivas, qual mosaico e caleidoscópio.
Ao longo destes dois capítulos – 4º e 5º - optou-se por escolher longos testemunhos, evitando retalhá-los em demasia pela seguinte razão. Dar, efectivamente, voz às pessoas ciganas, mostrando ao máximo o seu itinerário discursivo, para poder entender melhor os meandros das lógicas de acção e de sentires que os próprios imprimem, isto é, respeitar a complexidade do pensamento estratégico e discursivo das pessoas ciganas, dando-a a conhecer num registo mais digno do que o da desqualificação e desprezo de que o povo cigano é constantemente alvo. Isto, reconhecer competências explicativas a pessoas ciganas, geralmente encaradas, pela sociedade maioritária, como se fossem destituídas de trabalho reflexivo e pensamento estratégico, analítico e simbólico.
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O que mais me identifica como membro da comunidade é o sentimento de pertença a um povo com uma estrutura social com mecanismos de representação próprios e, acima de tudo, o respeito pelas normas e códigos da comunidade. (Bento)
Sou cigano, trabalho. Tenho boa fama. Mantenho as minhas tradições, sei respeitar, sei ouvir, sei compreender mas continuo a ser a mesma pessoa que sempre fui. O que me marca é as pessoas saberem que sou cigano e não fazerem distinção, não fazerem discriminação por aquilo que sou. Eu, quando saio à noite com os meus amigos, deixo a minha capa de cigano em casa. (Bernardo)
Acho que é ser eu. Acho que ser um bocado diferente deles [dos outros ciganos] também marca a diferença. Se é bom ou mau, não sei. Uns dizem que é mau, outros dizem que é bom. Uns condenam, outros não. Mas sinto-me 100% cigano, nem um bocadinho senhor. (Cláudio)
Ser pastor é um trabalho em que trabalhamos 100% para Deus. É um trabalho pastoral. A minha vida é dedicada a Deus e onde ele quiser que eu esteja e que eu vá, estou para fazer a sua obra enquanto cá estiver. Isto é a minha vida. [Se tivesses quer optar pela Lei cigana ou pela Lei da Igreja?]. Pela Lei da Igreja. Sem pensar duas vezes. (Jaime)
Identifico-me plenamente com os princípios que regem a sociedade, tendo sempre tentado conciliar a minha cultura, de que muito me orgulho, com os meus direitos e deveres enquanto cidadão português, adequando as minhas atitudes e comportamentos às duas culturas de que faço parte e que não são, de todo, antagónicas. Tenho orgulho em ser português cigano, completamente integrado, sem que para isso tenha, de alguma forma, abandonado os meus valores culturais, a minha tradição e os meus costumes, conseguindo viver e conviver com ciganos e não ciganos, em plena noção de cidadania. (Joaquim. Fonte 4)
E assim levo as minhas vidas da parte senhor e da parte cigana, intermédio. Estar em cima da corda… É um bocado complicado. Se me perguntasse, se, há 2 anos, eu era a mesma pessoa, eu dizia que não. Eu, hoje em dia, sou outra pessoa. Tenho mais confiança em mim, sei mais das vossas leis, já sei o terreno que piso, sinto-me uma pessoa mais bem informada. E depois fui convidado para abrir a associação cigana e
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fiquei como presidente e agora, como costumo dizer: sou um activista! Luto pelos direitos. (Leandro)
É um jovem que se apresenta como “um moço simpático, sociável e amigo do seu amigo”. Afirma-se “machista”, característica que atribui à sua ciganidade. Sente-se completamente integrado, tanto como cigano na comunidade cigana a que se sente ligado, como na comunidade não cigana. Sentindo-se confortável nesse espaço fronteiriço, ainda que penda para a defesa do povo cigano sobretudo quando ouve críticas sobre ele. (Lourenço. Nota de Campo 14)
Eu, hoje, posso pensar assim e o dia de amanhã não sei. Nós diferenciamo-nos muito dos não ciganos. E é desde pequeninos que lidamos com essa diferenciação. É só por dizer que sigo as tradições ciganas, de resto é igual à vida dos não ciganos. Mas eu gosto muito da nossa tradição, de casarmos com rigor. (Manuela)
É aquela batalha que eu sinto cá dentro como sendo duas vozes, uma diz “faz isto” e a outra diz “não faças isso”. É uma batalha. É difícil, não é nada fácil! Mas eu acho que qualquer ser humano vive estas batalhas. Mas como sou uma pessoa ponderada, calma, tranquila, tenho-me com bom senso, sou capaz de dizer: “Epá, sossega aí o facho, já não tens idade para correr atrás de brincadeiras”. Mas tenho outras alturas que digo: “Mas o que é isto, a idade é aquela que ponho na minha cabeça. Vá lá, levante-te lá daí e vai fazer o que tens a fazer.” Ser cigano não é fácil. E ser paíto também não. Eu tenho cá dentro um vulcão sempre em erupção no modo como me sinto cigana. Às vezes digo, “Uf, que farta estou de ser cigana!”. Outras vezes digo: “Eu não era capaz de ser senhora!”. “Que nervos me faz a forma de viverem estes senhores!” Aquela calma, aquela frieza. “Aqui está o preto, aqui está o branco”. Da minha parte é tudo cinzento. (Olívia)
Sou de etnia cigana. Sou solteiro e bom rapaz. Sou estudante do ensino superior, licenciado em Engenharia Física. Neste momento estou a tirar o mestrado. Sou um gajo porreiro. Faço parte de uma comunidade híbrida. Tenho a minha tradição cigana e também tenho a minha parte não cigana. Nomeadamente a parte da escola. Estou integrado num grupo de amigos que não são ciganos. Mas até tenho mais amigos não ciganos do que ciganos. Dou-me bem com as duas partes. E não gosto de pertencer só a um lado ou a um outro. Porque só com um, não basta. Não me identifico sozinho em
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nenhuma delas. Identifico-me maioritariamente com a identidade cigana, que é a minha identidade original, primitiva, diria. Mas gosto também da outra porque já estou habituado há muito anos. E seria como mudar de terra, mudar de país, se tivesse que cortar com uma delas. Uma vez que eu conheço os dois mundos – cigano e não cigano, aprendi a pensar com uma cabeça mais ampla. Portanto, não pensar só com uma cabeça. Poder estar no mundo com uma cabeça que conhece os dois. Cada passo que dou num deles tenho em atenção a sombra, a consequência que há no outro e qual a melhor maneira de estar com os dois. Porque na escola, onde aprendi a estar a maior parte do ano, não tenho lá companheiros ciganos. Estou imerso num mar de gente que não é cigana. Portanto tive de aprender a conviver com uma comunidade não cigana também. Foi isso que me ensinou o que é estar num mundo diferente. Quando estou na escola estou num mundo completamente à parte do mundo no meio dos ciganos. Quando estou cá em casa, ou nalguma festa ou reunião familiar, é completamente diferente de quando eu estou na escola. Tive que aprender a viver num mundo à parte. (Paulo)
Sou conhecido por J., não pelo facto de estar ligado à Igreja, mas é uma alcunha desde miúdo. O meu avô, que Deus tem, sempre quis ter um neto com o nome de J. e quando eu nasci ele pediu ao meu pai para que fosse J. Não me sinto, de forma nenhuma, excluído da sociedade maioritária. Até me sinto muito integrado mas nem por isso deixo de ser cigano. Sou uma pessoa respeitada na comunidade cigana, não só pelo facto de ser mediador e trabalhar em função de ajudar a minha comunidade mas também pelo facto de estar inserido na Igreja Evangélica. Daí eu ser muito respeitado não só pela comunidade cigana de S. mas por todas as comunidades ciganas em redor. Sou uma pessoa muito próxima dos não ciganos, dou-me muito bem com todas as pessoas, consigo perceber tudo o que me dizem, mas nem por um só momento, quando me dizem: “Tu deixavas de ter as práticas culturais dos ciganos?” Eu digo logo que não. A questão das meninas ciganas saírem da escola ou irem para a escola. Isso para mim, na minha cabeça, é uma coisa que, com o tempo, tem vir a ser muito bem trabalhado. Eu próprio trabalhar comigo próprio. (Rafael)
De início andei muito perdida. Muito desorientada. Não sabia qual era a minha identidade: quem sou, onde estou? Mas agora isso já me passou. Sou a Soraia, serei sempre a Soraia, cigana, que está casada com uma pessoa que não é cigana. Não deixei de ser quem sou. Ele sempre me conheceu assim, cigana. Relativamente à minha
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família, não senti diferença, sempre me dei bem com eles e continuo a dar todos os dias. O meu trabalho é ao lado da casa da minha mãe. Estou lá sempre. Mas pronto, os meus pais sempre conviveram com não ciganos. Talvez foi por causa disso que eu sou assim meio diferente. Na altura, evidentemente, fui falada. Na comunidade cigana foi “Aí que pena!”, porque perdem um membro. Mas como eu já tinha uma certa idade – tinha 30 anos - e não havia nada nem ninguém que me pudessem apontar – porque eu não era uma pessoa que andasse por aqui e por ali de que pudessem falar – e quando o fiz, foi com aquele e foi para casar. (Soraia)
O que me identifica como pessoa creio que é o meu carácter. Sou uma pessoa de personalidade forte, determinada, e creio, também, que envolvente, pois todos acabam por fazer o mesmo que eu, após eu ter tomado a iniciativa em alguma coisa. O que me identifica como membro da minha comunidade, é o facto de ser mulher, e, apesar de estudar, trabalhar e tirar a carta, consigo ser uma esposa a tempo inteiro, pensar em filhos, e não deixar de ser cigana, pois continuo convivendo com os membros da comunidade e frequentando festas e outros eventos sociais. Mesmo que isso me roube horas de sono. (Tatiana)
Ao escolher estes testemunhos, pretendeu-se realçar os caminhos, as sendas e desvios que o trabalho autoreflexivo de consciencialização requereu nestas pessoas. Manifestam capacidade de se olharem ao espelho enquanto pessoas individuais e ao mesmo tempo enquanto membros de uma colectividade de pertença – a família que constrói a ciganidade, mas também de outros grupos, nomeadamente de vizinhança, de pessoas não ciganas. Enfim, mostra a capacidade dinâmica de manejo das suas várias facetas sociais e o trabalho autoformativo mobilizado para se construírem de modo fluido e poroso, cujas fronteiras se mostram flexíveis. Na construção dessas fronteiras porosas também contribuíram outro modo formativo que designei de ecoformação, o qual assenta nos contextos sociais e físicos, dos quais fazem parte as pessoas e acontecimentos e vivências significativas que se retiraram das entrevistas e que serão apresentados de seguida.
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