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Den politiske representasjonen

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5. Alle utlendinger har lukka gardiner. Å være kvinne i mellomforskapet

5.2 Representasjon

5.2.2 Den politiske representasjonen

Até que um dia Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza

Vera Mantero e convidados,

Estreia: 9 de Novembro de 2006, le Quartz, Brest (França)

And it is necessary if you are to be really and truly alive it is necessary to be at once talking and listening, doing both things, not as if there were one thing, not as if they were two things, but doing them, well if you like, like the motor going inside and the car moving, they are part of the same thing. (STEIN 1988, 170)

Fazer passar os afectos: é isso que parece gerar brilho. (ROLNIK 2006, 47)

1.1. Abrindo crateras

Ao fundo, a solidez esférica de um meteorito repousa. Imóvel na penumbra, ocupa com a sua materialidade concreta a direita do palco vazio. Recupera do embate na superfície da Terra (ou na de outro planeta?). Quando o público entra na sala, os seis performers já estão em cena, iluminados. Sentados numa linha de cadeiras à boca de cena, encaram de frente a plateia, com uma atitude alegre e sorridente que se manterá até ao final do espectáculo. Observam o espaço em torno, os espectadores que chegam, por vezes, olhando-os directamente. Estão prontos para a acção. Embora

descontraídos, numa postura próxima da que se tem no quotidiano, os corpos tonificados contrastam com os figurinos excêntricos e insólitos, que os individualizam: as plantas verdes que irrompem do fato branco de Pascal Quéneau, a capa de zorro de Loup Abramovici, o chapéu de bruxa de Marcela Levi, o colete de caracóis castanhos que se confunde com os caracóis verdadeiros de Vera Mantero, o chapéu e o casaco de plumas de Antonia Livingstone, o kilt e as sandálias romanas de Brynjar Bandlien. Depois de um longo silêncio, os performers inclinam-se ligeiramente em direcção à plateia e perguntam em uníssono: aaaaaare weeeeeee readyyyyyy?, demorando-se excessivamente numa sílaba de cada palavra. Longa pausa.

Originados pelo embate entre corpos celestes, os meteoritos são combinações de planetas e asteroides que atingem a Terra vindos do cosmos, atravessando a atmosfera a altíssima velocidade. Por isso, o seu impacto causa destruição em várias escalas: desde uma pequena cratera ao extermínio de espécies animais, como advogam as teorias sobre a extinção dos dinossauros. Há dois aspectos a destacar neste raro fenómeno. A queda de um meteorito é um acontecimento que os humanos não podem testemunhar e o seu impacto provoca destruição. Podemos encontrar um meteorito, pedra lisa e escura devido à combustão a temperaturas escaldantes, mas não vê-lo cair, vê-lo em acção. Como os dinossauros, estamos à mercê do seu potencial destrutivo. Somos eventuais danos colaterais da sua queda, que sulca a superfície da Terra desmedidamente. Pano de fundo de um universo de ficção apenas invocado, a materialidade do meteorito no palco gera uma tensão produtiva com os corpos dos performers, que permanecem sentados até ao fim do espectáculo. Dificilmente, porém, poderemos reconhecer quem são, de onde vêm ou para onde vão.

Em Até que um dia Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza (AQD), não assistimos à queda do meteorito, mas encontramo-lo, tal como aos performers, no espaço cénico. O impacto da queda abre uma cratera, um espaço para a representação. A cena é delimitada pela moldura de luz desenhada no chão, uma profundidade iluminada. À pergunta retórica inicial dos performers, sucedem-se outras de evidente banalidade – comentários prosaicos, afirmações enigmáticas e disparates sem sentido evidente – numa cadência repetitiva, enfatizada por uma gestualidade, por vezes, histriónica. “Somos um grupo”, definem-se, que gosta de máquinas e mecanismos, e encetam uma aparente conversa com o público, durante cerca de uma hora. Esta

conversa, porém, apresenta algumas particularidades: os performers não interagem entre si e, embora dirigindo-se aos espectadores, não esperam a sua resposta. Mais ainda, falam em uníssono, embora com ligeiras modulações de tom e tempo. Este modo de enunciação demorado fabrica um tom artificial, distinto da melopeia de qualquer língua, e instala um ritmo repetitivo, uma cadência arrastada. Sobre a repetição das mesmas palavras surge a diferença da enunciação individual, criando uma textura rítmica de timbres.

Esta variação constrói-se sobre a repetição de figuras de estilo recorrentes na poesia, como a anáfora e a aliteração. Sensivelmente a partir de um terço do espectáculo, emergem as primeiras irrupções cacofónicas (a repetição sincopada da primeira sílaba da palavra vibration traça um arco sonoro até chegar ao verbo português “vai” na frase que estala como um ponto de exclamação: “vai ver se eu estou na esquina”, proferida por Marcela Levi), as derivas musicais (um pequeno excerto da canção you do something to me, de Cole Porter que deriva numa improvisação da melodia e da letra a várias vozes), e as onomatopeias (produtoras de nonsense, como o miado delirante que surge da repetição martelada da palavra now). Estas variações dinâmicas decorrem de um permanente e consequente jogo com as semelhanças e os contrastes sonoros e semânticos das palavras. Desvelando, fragmento após fragmento, a partitura, o espectáculo precipita-se para o final com mais uma pergunta: What do you think about death?. Significativamente, este é o único momento em que cada performer fala na sua língua nativa, assinalando a relação intraduzível e singular com a morte, que apenas pode tentar expressar na sua língua-mãe. Por fim, depois de mais uma secção de repetição e cacofonia do “mecanismo”, os performers anunciam: we will wait/faint/fake/fade. Uma música instrumental toma conta do palco. Os performers esperam, de semblante fechado e encostam-se às cadeiras, cruzando as pernas. A música termina. Longa pausa. Tal como no início, observam demoradamente o público. Descruzam as pernas, colocam as mãos nos joelhos, sorriem de novo e perguntam, reiniciando o ciclo: aaaaaare weeeeeee readyyyyyy?

Fabricando uma máquina falante-ouvinte, os performers transformam a situação de frontalidade com o público num diálogo de aparente proximidade. Característica do teatro pós-dramático (cfr. Cap. 2), a comunicação direcionada para o público consiste numa forma de repensar a dinâmica da relação cena-público, testando modos de “estar com” o público. AQD propõe um movimento de comoção

potenciador de afectos e de um fazer conjunto que releva da imponderabilidade e imprevisibilidade do encontro, tornando a circulação de afectos aberta ao que pode (ou não acontecer), sem determinar, todavia, quais os afectos intensificados. Na base das estratégias fundamentais utilizadas em AQD para estabelecer este movimento está uma tensão produzida entre a materialidade do meteorito, a teatralidade dos figurinos, o gesto de alegria dos performers e o ritmo lento e pausado em que as palavras são ditas, quebrando os ritmos convencionais da enunciação idiomática. São essas estratégias, de produção de estranheza e encantamento, que procurarei aqui examinar, mostrando como elas manifestam uma política de afectos aberta ao que pode emergir da obra, influenciando a sua qualidade sensível.

1.2 Práticas radicais: a Beleza

Tratando-se de um verso do poema “Lugar II”, de Herberto Helder (HELDER 1990), Até que um dia Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza intitula o espectáculo tematizando a questão filosófica da morte de Deus, mote inicial do processo criativo45. Nesse verso, atribui-se à beleza a causa da destruição de Deus. Mas, para o poeta, a beleza não é ocasional ou um acontecimento evanescente, mas um “extremo exercício”, uma prática radical. Essa prática é o fazer artístico, o doloroso mas paciente ofício do poeta, que envolve uma relação agónica com Deus (MOLDER 2012). Do combate, a beleza sai vencedora; Deus destruído. Mas o poeta paga caro o preço da conquista da imanência, exaurido pelo trabalho com as palavras para “apurar um dialecto” que é o seu extremo exercício da beleza (MOLDER 2012, 72). A associação da beleza à destruição, não apenas do poeta mas da ordem do mundo ou da linguagem, é relevante para pensar qual a destruição em causa no espectáculo de Vera Mantero. O seu fazer artístico consiste numa potenciação de afectos criadores de mundo que exige, tal como em Herberto Helder, uma combustão, uma perturbação devastadora.

                                                                                                               

45  Curiosamente, este verso foi retomado pelo poeta, em 2009, para abrir o novo livro de originais, A

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