O grande número de ciências nasce da multiplicidade de problemas aos quais o homem deve responder: cada teoria procura dar uma solução. A Psicologia, como ciência, nasce da análise do homem, da sua psique, e deveria dar a solução para o homem na sua integralidade. O homem deveria ser visto como um ser em um horizonte aberto direcionado a uma realidade transcendente.
O nascimento formal da psicologia como ciência autônoma é ligado ao nome de W. Wundt (1832-1920) e ao primeiro Instituto de Pesquisa Psicológica fundado por ele, em Leipzig, no ano de 1879 (MENEGHETTI, 2004, p. 86).
Dentro da psicologia, gradualmente formaram-se diversas escolas: o Estruturalismo, o Funcionalismo, o Comportamentalismo, a Gestalt, a Psicanálise, a Psicologia Analítica de Jung, o Cognitivismo, o Existencialismo, etc. Estas correntes sintetizaram uma particular tipologia de abordagem do humano. A Ontopsicologia nasce depois de todas estas correntes, as quais, todavia, não conseguem explicar o homem na sua vasta complexidade (MENEGHETTI, 2004, p. 87).
Foi o filósofo Edmund Husserl (1859-1938), o primeiro a denunciar, em uma conferência em Praga, a crise de todas as ciências européias. Apesar de todo o desenvolvimento da ciência moderna, segundo Husserl, estava claramente delineada uma crise da mesma, que representava uma crise para a própria humanidade. A crise de todas as ciências podia ser reconduzida, essencialmente à crise da psicologia, que tem como próprio objeto de indagação aquele que é o sujeito de toda outra possível pesquisa: o homem. Portanto, para resolver a crise das ciências, segundo Husserl, era preciso antes de tudo, re-fundar a psicologia. Husserl sustentava que a única psicologia capaz de reencontrar o critério de exatidão, de verdade, de realidade, seria aquela ciência capaz de atravessar todas as opiniões e tradições para acessar diretamente o fazer-se das coisas segundo as leis eternas do universo. Uma psicologia capaz de encontrar uma estrada que levasse ao interior do mundo da vida (MENEGHETTI, 2004, p. 89).
Segundo o filósofo, a subjetividade pura colhe por evidência, por experiência direta das coisas e do mundo antes de toda explicação e teoria. Husserl teorizava uma psicologia capaz de transcender os múltiplos modos do constituir-se histórico do homem para chegar ao princípio, ao momento ôntico, portanto ontopsicologia (MENEGHETTI, 2004, p. 89).
Husserl considerava necessária uma operação muito especial que ele denominou epochê. É a operação pela qual a existência efetiva do mundo exterior é “posta entre parênteses”, para que a investigação se ocupe apenas com as operações realizadas pela consciência, sem que se pergunte se as coisas visadas por ele existem ou não realmente. “A atitude natural” é acreditar espontaneamente que as coisas exteriores existem tais como se vê (HUSSERL, 1988: XII). Trata-se de abster-se de qualquer preconceito ou juízo, até a própria existência, para aproximar- se em pureza centrando aquilo que se dá na consciência. Chega-se assim à intuição transcendental, à psiquicidade pura, ao ego originário (MENEGHETTI, 2004, p. 89).
“Com a epochê temos uma liberdade consistente para dirigir nossos olhos exclusivamente para o mundo da vida, ou seja, para o a priori essencial das formas” (HUSSERL, 1970, p. 174).
Em primeiro lugar, menciono a tarefa geral que tenho de resolver para mim mesmo, se é que pretendo chamar-me filósofo. Os tormentos da obscuridade, da dúvida que vacila de um para outro lado, já bastante os provei. Tenho que chegar a uma íntima firmeza. Sei que se trata de algo grande e imenso; sei que grandes gênios aí fracassaram [...] (HUSSERL, 1989, p. 12).
Husserl afirmava que o sentido da Ontologia como ciência apriórica contrasta com as tradições. “Não podemos ignorar que a moderna filosofia é guiada por protocolos estruturados mais em moldes matemáticos do que relativos à natureza” (HUSSERL, 1970, p. 173). “Concretamente, cada “Eu” não é apenas um ego-pólo, mas um “Eu” com todas as realizações e aquisições incluindo as palavras: existir e ser” (HUSSERL, 1970, p. 183).
Karl Jasper sustentava a necessidade, para compreender a vivência de outro, de entrar nela e, contemporaneamente, tomar distância, porque, caso se deixe investir, não se pode reconhecer, identificar e sucessivamente descrever como operador de sanidade. Entrando na vivência, Jasper pára um instante interessado, tomado também ele, enquanto homem, pelos comunicados internos da doença. Todavia, não se deixa envolver, mas dá o primeiro lugar ao verbalizado do paciente,
esquecendo tudo aquilo que a ciência, o saber precedente de qualquer gênero ou lugar possam já ter dito acerca do argumento (MENEGHETTI, 2005, p. 150).
Vinte anos após a conferência de Husserl, no ano de 1956, em Paris, reuniram-se grandes nomes da psicologia contemporânea (Skinner, Rogers, May, Maslow, Sutich), com recursos próprios, movidos por uma profunda crise científica e individual. Todos haviam compreendido que a psicologia sempre teve como objeto de estudo somente o homem doente, jamais havia levado em consideração a realidade do auxílio psicológico ao homem sadio no processo de compreensão e atuação do próprio potencial, portanto de que não havia tratado o problema da realização existencial (MENEGHETTI, 2004, p. 91). Os grandes psicólogos daquele tempo conscientizaram-se também de que todas as correntes psicológicas, haviam centrado seu estudo sobre a análise dos efeitos, dos sintomas, que, porém, permaneciam sem solução.
Maslow afirmava que a Psicologia Humanista, Terceira Força, era somente um momento de transição, uma preparação para uma Quarta Força, uma psicologia com termos puramente ontológicos. Concluía sustentando que Sutich já havia definido tudo isso com uma única palavra: Ontopsicologia (MENEGHETTI, 2004, p. 105). A psicologia da chamada Primeira Força é constituída pelas correntes psicanalíticas, da Segunda Força pelas correntes comportamentalistas, da Terceira Força é constituída pelas correntes humanistas. A Terceira Força é prólogo à Quarta Força (Anexo A), ou Ontopsicologia (MENEGHETTI, 2004a, p. 93).
A Escola de Ontopsicologia foi fundada oficialmente em 1970 e em 1972 foi aberto o Centro de Terapia Ontopsicológica, localizado em Roma, onde se organizaram os primeiros cursos de formação em psicoterapia ontopsicológica (MENEGHETTI, 2004a, p. 94).
Antonio Meneghetti, sintetizando a obra de Edmund Husserl, afirma que era preciso encontrar uma estrada que nos levasse para dentro do mundo da vida, aquele mundo do qual ele fala como Em Si, ou ser. “É preciso encontrar a mediação ontológica, de outro modo estamos falidos, sofremos o fracasso existencial” (MENEGHETTI, 2004a, p. 104). “É necessário encontrar a passagem crítico- racional, o momento de correspondência. Momento de correspondência significa que a idéia formalizada pelo falante ou pensante é coincidência com o fato existencial da coisa: mente e sangue, mente e coração, mente e sexo fazem circularidade no uno” (MENEGHETTI, 2004a, p. 104).
A causa precisa, exata, que determina aquele efeito no comportamento humano. Por exemplo, qual é o fato intrínseco da angústia, do câncer, da insatisfação, da realização dos escopos últimos de si mesmo? Todo o vasto campo da psicossomática que maravilha e desafia grande parte da pesquisa médica e psicológica, para a Ontopsicologia, ao contrário, é normal compreender a sua fenomenologia e resolvê-la.
Ontopsicologia: do grego genitivo particípio presente do verbo ser, alma, estudo: significa estudo dos comportamentos psíquicos em primeira atualidade, não excluída a compreensão do ser; estudar psicologia segundo coordenadas do real, ou intencionalidade da ação vida, ou ação ser. Trata- se de partir do real fato antropológico e não da cultura ou das suas reflexões (MENEGHETTI, 2003, p. 11).
“Intencionalidade entendida como vetor ou direção ou forma no interior da ação” (MENEGHETTI, 2001, p. 109). A Ontopsicologia é uma ciência que justifica a própria diversidade das outras ciências em base a algumas inovações prioritárias e exclusivas. Descobriu três realidades cardinais para compreender a existência humana, em base às quais funda toda a sua teoria e prática: 1) Em si ôntico (essência virtual e formal), 2) campo semântico (transferência) e 3) monitor de deflexão (distorção), Anexo B. (MENEGHETTI, 2006, p. 47).
O Em si ôntico é a radicalidade da atividade psíquica, o projeto da natureza constituinte do ser humano. O critério para identificar o Em si ôntico é a identidade funcional do sujeito (MENEGHETTI, 2006, p. 57).
O campo semântico é a comunicação base dos comportamentos energéticos das individuações. Este permite conhecer em primeira atualidade a dinâmica que uma realidade psicológica está operando (MENEGHETTI, 2006, p. 97).
O monitor de deflexão é o mecanismo que interfere na exatidão dos processos de conhecimento e vontade, determinando toda a fenomenologia regressiva conhecida do homem como doença, dor, angústia, falência, etc. (MENEGHETTI, 2006, p. 57).
A prática ontopsicológica consiste em identificação, isolamento e aplicação do Em si ôntico, com isso restituindo ao homem a capacidade de autenticidade e de evolução criativa na própria existência (MENEGHETTI, 2006, p. 47).