• No results found

Como já foi dito anteriormente, a literatura acerca da questão do tabagismo em pessoas idosas é escassa, parece que ainda não existe grande preocupação por parte da sociedade acadêmica em aprofundar e debater essa questão, mesmo sendo um tema de relevância. Existem poucos estudos sobre a prevalência do tabagismo na terceira idade no Brasil e no mundo. Apesar da “suposta” falta de interesse por esses tabagistas, acredita-se que 10 a 11% da população geral de fumantes sejam de idosos (SILVA FILHO, 2007).

O tabaco surgiu aproximadamente no ano 1000 a.C nas sociedades indígenas da America Central e a partir do século XVI seu uso foi introduzido na Europa. No início do sec. XVIII inicia-se o uso do charuto na Europa, hábito que se expandiu para todos os continentes. Somente no século XIX surge o cigarro, sua expansão ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, sendo difundido primeiramente entre homens. Em meados de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, cresce o consumo entre as mulheres, não sendo ainda foco de interesse dos pesquisadores. Os primeiros estudos epidemiológicos surgiram em 1950 (HISTÓRIA DO TABACO, 2007).

O cigarro já foi símbolo de rebeldia, de aventura com a “geração James Dean” e, para os poetas e escritores, de liberdade. Nos anos 70 simbolizou contestação política e foi neste período também que os médicos começaram a associá-lo a doenças clínicas, como o enfisema pulmonare alguns tipos de câncer. Nos anos 80 começaram as primeiras campanhas contra sua comercialização. Em 1987, a Organização Mundial de Saúde lança o Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio), data que surge como marco no combate ao tabagismo. Esta data veio para fortalecer as campanhas iniciais, apoiadas em políticas públicas e campanhas voltadas para a prevenção e o combate ao fumo. Seus objetivos principais são conscientizar a população quanto aos graves problemas de saúde causados pelo tabaco e estimular

a reflexão em torno das leis de regulamentação da produção, da propaganda e do consumo do cigarro (BRASIL, 2007c).

O grande avanço dos anos 90 em diante é o surgimento de fármacos e psicoterapias no tratamento do tabagismo. De acordo com a comunidade médica internacional, fumar já não é visto como um hábito diferenciado e singular, não é mais associado à imagem de liberdade e independência. Pelo contrário, cada vez mais é identificado como um problema de saúde pública e, por isso, combatido como uma doença social.

“O Brasil juntamente com a Índia e os Estados Unidos produz cerca de 30% de todo o tabaco consumido no mundo” (KÜMPEL, 2005, p. 15). “Dentre estes países o Brasil se destaca como sendo o primeiro exportador global de fumo” (Ibid., 2005). Estes dados mostram a importância do tabaco para a economia brasileira, situação econômica que terá conseqüências sociais, pois por ser de valor acessível o cigarro é mais consumido pela parcela da população mais carente e por jovens.

O tabagismo pode ser ativo ou passivo. A situação passiva vem ocorrendo no asilo pesquisado, constatada in loco pela pesquisadora e confirmada pelos idosos em seus relatos. Seu Léo nos diz: “eu fumo em qualquer lugar, eu durmo com dois amigos [...] fumo no quarto”.

Para a Organização Mundial de Saúde (OPAS/OMS, 2007) o tabagismo passivo é a terceira maior causa de morte evitável no mundo, subseqüente ao tabagismo ativo e ao álcool (IARC, 1987). De acordo com a OMS, o tabagismo passivo é a inalação de fumaça do tabaco por indivíduos não-fumantes, que convivem com fumantes em ambientes fechados. Na instituição visitada, os idosos fumantes dormem e convivem nos mesmos aposentos e locais comuns com os não- fumantes. Nem todos os fumantes respeitam a proibição declarada da instituição de não fumar nos quartos.

De acordo com PACHÁ, (1980, p. 29.), “fumar é um hábito aceito em nossa sociedade, repassado de geração em geração, incentivado pela publicidade”. A influência social é um dos maiores fatores para difusão do vício. Segundo Garcia (1991, p. 38), “o cigarro é um tóxico atraente, perfeito e que se adquire em qualquer esquina”. Até mesmo no asilo encontramos o tráfico de cigarros e mesmo a disponibilização deste aos idosos quando por estes solicitados, fato comprovado nos

depoimentos do seu Léo, que denuncia: “No asilo eu ganho cigarro, aqui tem também pessoas que vendem para gente” e na fala de Seu Val: “Aqui tem vendedor de cigarro”.

A questão econômica é de importância também quando se debate tabagismo e dependência química, pois o cigarro brasileiro é um dos mais baratos do mundo e de fácil acesso físico, chegando a todos os lugares com bastante facilidade (CAVALCANTE, 2005), levando a um problema social, já que, de acordo com dados de 2004 do Instituto Nacional de Câncer − INCA −, os tabagistas brasileiros são, em sua maioria, pessoas de classe social menos favorecida e de baixa escolaridade.

Mesmo sendo o tabaco uma droga considerada “leve”, estudo publicado por Nutt (2007), na revista The Lancet, mostra que a partir de nova classificação o tabaco deve ser considerado mais perigoso que a maconha. O tabaco foi considerado a 9.ª droga mais perigosa, ficando a maconha na 11.ª posição. Esta nova classificação baseou-se nos danos físicos causados ao usuário, na dependência e nos seus efeitos nas relações sociais (família e amigos).

Estudos realizados na Inglaterra mostraram que “adultos de 30 a 60 anos que fumam mais de 15 cigarros por dia, em cada dois apresentam sintomas respiratórios” (PACHÁ, 1980, p. 50). Esses dados vieram confirmar a importância do combate ao tabagismo em pessoas com mais de 60 anos, importância esta antes questionada em alguns estudos iniciais.

Em idade avançada, o fumo está associado a doenças como enfisema, bronquite crônica, câncer de pulmão e laringe (TARANTINO, 1976). Tabagismo e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica −  DPOC − são fatores predisponentes para o desenvolvimento de pneumonia adquirida na comunidade, por alterarem as defesas locais pulmonares, tais como a eliminação mucociliar (GOMES; PEREIRA, 2006). A DPOC afeta cerca de 10% da população mundial e, de acordo com a OMS, entre 15 a 20% dos fumantes, os que vão desenvolver DPOC, serão aqueles que consomem mais tabaco, são mais dependentes da nicotina e que nunca tentaram deixar de fumar.  

Além das incapacidades citadas aqui pela DPOC, outro mal que causa morte de homens e mulheres é o câncer de pulmão, primeira causa de morte entre homens, principalmente pelas causas tardias do tabagismo (CAVALCANTE, 2005).

De acordo com Kümpel (2005), uma pessoa que tenha fumado um maço cigarro/dia por 20 (vinte) anos tem expectativa de vida 20% (vinte por cento) menor que o não- fumante. A conseqüência na análise do tabagismo em idosos diz respeito à qualidade de vida, almejada por todos.

Silva Filho (2007) coloca-nos que para se chegar a uma velhice “saudável”, em boas condições físicas e psicológicas, é preciso ter algumas metas: promoção da saúde, manter-se ativo e a abstenção do tabaco. Ainda de acordo com o autor, para se tentar controlar o tabagismo e montar estratégias para ajudar os idosos que querem parar de fumar, é necessário conhecer os motivos pelos quais eles fumam. Deve-se pesquisar a questão ambiental, o fator familiar, socioeconômico e cultural, fatores que se relacionarão à qualidade de vida do indivíduo. Esta dissertação procurou explicitar os fatores da motivação para fumar, localizando nas histórias de vida o imaginário dos idosos tabagistas asilados, pois dele emergiram os mitos que os levaram a começar, a continuar ou a tentar deixar de fumar.

Os idosos tabagistas da atualidade são discriminados e “malvistos” socialmente por fumarem, mas não deve ser esquecido que a maioria desses começou a fumar em uma época em que se tolerava o fumo. Hoje são discriminados e recriminados pela sociedade e por familiares como se estivessem cometendo um crime. Sendo assim, quando se fala de tabagismo e dos fatores que envolvem o uso do tabaco em idosos, é preciso pensar que este é um tema complexo que vai além da questão saúde, engloba fatores socioculturais, a individualidade e a afetividade do sujeito.

As pesquisas estão começando a ir além da questão do vício do tabaco e da sua nocividade. Este é um tema de importância para saúde pública, mas precisamos pensar no indivíduo fumante e suas vontades, desejos e as influências sociais e culturais do meio em que vive; entender fatores outros que vão além do comprometimento biológico na vida do sujeito fumante. Existe por trás da “atitude” de acender um cigarro a necessidade de obter prazer, satisfação pessoal, de aliviar a angústia de existir. Enfim, esta é uma questão subjetiva a ser tratada de forma qualitativa, daí ter-se procurado identificar a repercussão imagética ou mítica do grupo de idosos asilados objeto desta pesquisa.

Para a empreitada da cessação do vício, a pesquisa IATO, já informada, à qual esta dissertação se vincula, composta por equipe multiprofissional, avalia funções cognitivas por meio do teste do minimental e a capacidade respiratória dos fumantes por meio da espirometria. Também está sendo verificada a taxa de gás carbônico no ambiente, com especial interesse pelo tabagismo passivo, e os tratamentos terão seqüência com o uso de medicamentos – adesivos de nicotina, bupropiona – e com terapia comportamental dos idosos tabagistas selecionados.

Assim sendo, esta dissertação vale-se das informações disponibilizadas no referido projeto, na constituição/seleção dos sujeitos e também nas suas considerações finais.