A escola reflexológica de Betchrev com suas noções de gestos dominantes forma a base para fundamentar as estruturas antropológicas do imaginário (DURAND, G. 1989, p. 34). Betcherev (apud DURAND, G. 989) descobre, primeiramente, duas dominantes no recém-nascido humano. A primeira dominante é a de posição que coordena ou inibe todos os outros reflexos, ligada à verticalização do corpo; a segunda dominante é de nutrição que nos recém-nascidosse representa pelo movimento de sucção labial e de orientação correspondente da cabeça; e a terceira dominante, estudada mais tarde por Oufland, reflexo copulativo, de movimento de vai e vem observado em rãs adultas (DURAND, G., 1989). Do estudo destas três dominantes resulta o princípio fundamental da identificação das estruturas antropológicas, distribuídas nos dois regimes (diurno e noturno) (LOUREIRO, 2004, p.17). As estruturas do imaginário são: heróica ou esquizomorfa; mística ou antifrásica; e a estrutura sintética ou disseminatória. Pode ainda acontecer de a estrutura não se formar, acontecer a não-estrutura considerada como desestrutura do imaginário, em que as imagens não se aglutinam em torno de um ou de outro nó aglutinador. Elas aparecem sem a coerência mítica buscada.
Como esta dissertação tem como um de suas bases os estudos de Yves Durand (1988), serão descritos a seguir as particularidades encontradas pelo autor em cada universo mítico descrito por G. Durand (1989). Estas são resultados de observações feitas por Y. Durand (1988) após a aplicação do Arquétipo Teste de Nove Elementos-AT9. Segundo Chaves (2000, p.19) “é o AT-9 instrumento de sociodiagnóstico criado por Yves Durand, a partir da estruturas do imaginário propostas por Gilberto Durand".
O teste criado sobre a teoria do imaginário de G. Durand (1989) caracteriza por ser um instrumento capaz de conhecer o imaginário dos indivíduos ou dos grupos. É composto de uma parte desenhada, uma escrita, de um quadro síntese e de um pequeno questionário. Estes dois giram em torno de 9 (nove) elementos (estímulos arquetípicos): queda; espada; refúgio; monstro; devorador; algo cíclico; personagem; água; e fogo. Cada elemento representa um significado próprio (Loureiro, 2004).
Yves Durand (1988) considera que as estruturas descritas por Gilbert Durand (heróica, mística ou sintética) não são rígidas e, portanto, propõe subdivisões para elas. Estare-classificação é utilizada nesta pesquisa no momento das análises das histórias de vida.
Segundo Y. Durand (1988), o universo heróico se caracteriza pela ação heróica do personagem. De acordo com o autor a estrutura temática gira em torno de três elementos: personagem – espada – monstro. O monstro é geralmente valorizado, ameaçando a personagem (obstáculos, perigos na vida e na habitação). Há sempre um combate para se defender ou atacar o perigo; a espada será utilizada. O modo como a espada será utilizada e como termina o combate é que irá mostrar se a solução para esse universo mítico ocorreu de forma positiva ou negativa (Ibid., 1988).
O universo heróico na “forma positiva” caracteriza-se por combate com vitória do herói sobre o monstro. Já no heróico em sua “forma negativa” o combate é fatal para o personagem, a espada pode trair o personagem, o herói morre ou foge (DURAND, Y, 1988). Ainda segundo o criador do teste, o microuniverso heróico pode ser: heróico integrado, heróico impuro, super heróico, ou heróico distendido.
No super-heróico o combate é realizado por todos os elementos; no heróico integrado o monstro aparece hiperbolizado, o combate está presente, mas pode-se vislumbrar o refúgio; no heróico impuro o tema heróico é predominante, mas existe falta de lógica na colocação de alguns elementos. O regime noturno, em alguma forma, também é considerado; no heróico descontraído ou distendido falta a coerência simbólica, pois símbolos místicos agregam-se aos heróicos e à tensão diminui (LOUREIRO, 2004, p. 27).
O universo místico “se caracteriza pela história do personagem que gira ao redor de uma atmosfera de repouso, equilíbrio e harmonia” (DURAND, Y., 1988, p. 77). O personagem não é herói. Como no universo heróico, ele integra-se à paisagem e sua ação, normalmente, é “contemplativa” no interior de seu refúgio. O refúgio consiste no elemento de base, assim como a natureza. O universo místico pode-se apresentar como: místico integrado, super-místico, místico impuro, místico lúdico (DURAND, Y., 1988).
Na estrutura mística integrada, todos os elementos integram-se sobre o tema místico, realizando constelação simbólica perfeitamente isomórfica (DURAND, Y., 1988). Os elementos giram em torno de uma vida calma.
Na estrutura super-mística a síntese é incompleta: falta o elemento monstro. Na estrutura mística impura, mesmo que o monstro e a espada estejam presentes estes não servem para nada, não são úteis para o personagem. Na estrutura mística lúdica como no heróico distendido há uma diminuição da intensidade funcional do tema místico de base (DURAND, Y., 1988, p. 92-94).
No Universo Sintético, o personagem participa de um universo duplo: heróico e sintético. Podendo esta situação ocorrer de forma sincrônica ou diacrônica. Segundo Loureiro (2004, p. 27):
A estrutura disseminatória ou sintética pode-se expressar de maneiras diferentes: bipolar (os temas anteriores se atualizam, ao mesmo tempo, numa sincronia), e polimorfa (a ação acontece no correr do tempo, historicamente, diacronicamente, numa trama histórica).
Vale registrar que em alguns casos serão encontrados universos míticos que irão fugir das categorias arquetipológicas expostas anteriormente. Existe o imaginário que se apresenta de forma desestruturada (elementos sem ligação alguma). Os subgrupos não estruturados (os elementos não estão ligados entre si, mas podem ser estruturados como subgrupo) e os pseudo-desestruturados (os elementos não se agrupam, mas cada elemento tem um valor simbólico) (PITTA apud, LOUREIRO, 2004, p. 29).
O Teste AT-9 não foi aplicado nesta pesquisa, mas seus fundamentos serviram no momento da análise das informações semânticas contidas nas histórias de vida.
CAPÍTULO 4 − Histórias de Vida
Os primeiros estudos científicos utilizando a metodologia “história de vida” começaram logo após a Primeira Guerra Mundial. Surge, então, o interesse pelos relatos singulares com o objetivo de se entender o ser humano (FONTES, 2006). Entretanto, a primeira contribuição realmente importante para firmar os relatos orais como método científico vem da Escola de Chicago, explicitada na proposta de Mead4 (In: FONTES, 2006). Esta proposta passa a ser conhecida como “interacionismo simbólico”, em que as relações/interações simbólicas dos seres humanos são propostas pelo autor para explicar o comportamento deles. A partir destas contribuições as ciências sociais começaram a ver “o sujeito” como um ser complexo, formado por suas relações com os outros e pelo significado que elas terão para modificar sua vida; o indivíduo terá comportamento influenciado pelo meio em que vive, suas ações estão inseridas em um processo comunicativo (Ibidem, 2006).
As histórias de vida englobam esta nova visão tanto nas ciências sociais, como de outras disciplinas. As histórias de vida tem mostrado ser um método de preferência no estudo do comportamento dos grupos, já que, de acordo com Ferrarotti (1983), ao compreender as representações do indivíduo compreendemos as representações sociais do grupo em que ele está inserido. Elimina-se, assim, a separação entre o individual e o coletivo. “As histórias de vida devem-se preocupar com a ponte entre o individual e o coletivo, sem perder de vista nem um nem outro” (TANUS, 2002, p. 23). Aqui novamente deve ser lembrada a intenção da importância do trajeto antropológico nesta pesquisa.
Bertaux (1997) diferencia relatos orais dos relatos biográficos e das histórias de vida, considerando os relatos orais como um método objetivo e, portanto, podendo ser utilizados como um método complementar a outro método empregado nas pesquisas sociais, principalmente quando estas se referem a certas relações sociais específicas, como, por exemplo, as relações trabalhistas. Já as “histórias de vida” e as biografias devem ser utilizadas sempre como método principal, método
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