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Perspektiv på strategisk planlegging og mobilisering

Trouxemos esses autores e respectivos textos pela sua exemplaridade, apesar de ter- mos em relação a eles algumas divergências de natureza teórica. Devemos ter sempre a caute- la de evitar a psicologização do processo histórico, que leva à mera transposição de dados clínicos para a sociedade, como se esta fosse uma clínica ampliada. Para nós, o maior perigo nesse tipo de instrumentalização da Psicanálise está na produção do conhecimento idealista da sociedade, que pode passar a ser entendida como o resultado da somatória dos inconscientes individuais.

Essa concepção de Psicanálise coaduna com a de história de cunho positivista, bem ao gosto da ideologia liberal-burguesa, criticada por todos os autores acima citados. Não concor- damos com esse entendimento da história, tanto quanto o da Psicanálise, e veremos a seguir que as críticas a esses entendimentos liberais dessas ciências podem ser feitas a partir de uma determinada concepção da própria Psicanálise.

Contrariamente a determinadas conclusões de alguns desses autores, consideramos, como Jacques Lacan, que o sujeito é fruto de uma cadeia de significantes, em cuja origem está a estrutura simbólica da sociedade — o grande Outro da cultura. Por isso, nos é impossível pensar o sujeito, o seu inconsciente, senão a partir de uma perspectiva que leve em conta sua absoluta imersão no simbólico da cultura, ou seja, que considere o “inconsciente estruturado como uma linguagem”.

Linguagem, símbolos, cultura: estamos no âmbito do coletivo, do social, do histórico. Portanto, vemos, sim, algumas possíveis afinidades entre essas duas ciências. O homem, em todas as suas dimensões, inclusive naquela mais cara à Psicanálise, ou seja, a singularidade de sua subjetividade, é um ser histórico. Ainda que o inconsciente não seja historicizável, os tipos de laço social o são, assim como o são as formas socialmente difundidas de gozo. E se, conforme Theodor Adorno e Max Horkheimer, a “história do homem é a história da introver- são do sacrifício”, estamos nos referindo a modelos superegoicos socialmente disseminados e que objetivam administrar o gozo. É o “momento do perigo” apresentando-se ao “sujeito his- tórico, sem que ele tenha consciência disso” (BENJAMIN, 1985).

E mais, as duas ciências, Psicanálise e História, nas respectivas opções teóricas que ora utilizamos, constatam a ubiqüidade dialética entre o passado e o presente, bem como a fragilidade do “eu” onipresente, cartesiano, protótipo do indivíduo liberal burguês. E, em lu- gar do cogito ergo sum, procuram as obscuras permanências de um passado recalcado que insiste em retornar, mesmo que seja na forma de um culto ao sacrifício, como aquele típico dos militares, conforme veremos a seguir.

Ora, e como o social é introjetado no sujeito? Através da dialética das identificações, cuja origem está no “estádio do espelho”, proposto por Jacques Lacan. É o momento fundante do sujeito e, ao mesmo tempo, da sua alienação no discurso do Outro. A ele voltamos com mais vagar no quarto capítulo. E, mesmo Freud, por diversas vezes, mostrou a fragilidade da fronteira entre o social e o individual e, citando o “Psicologia das massas” (1921):

Cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos, acha-se liga- do por vínculos de identificação em muitos sentidos [...]. Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais [...]. (p. 163) Temos que

concluir que a psicologia dos grupos é a mais antiga psicologia humana [...] (p.156).

Todavia, isso não significa reduzir o sujeito ao social. Ao contrário, é necessário man- termos, nos lembra Slavoj Zizek (1992), a tensão entre o particular e o geral. Isso porque a Psicanálise é, necessariamente, a ciência do sujeito, mas do sujeito historicizado, socialmente contextualizado. E, portanto, a Psicanálise que pretendemos, reconhece a necessidade da sub- jetividade ser historicizada e, portanto, coletivizada, pois advoga que é no aparato psíquico que se dá o embate dialético entre o particular e o histórico (ROZITCHNER, 1989, p.27).

E uma das manifestações dessa referida tensão pode ser verificada no próprio culto ao sacrifício. Ou seja, paradoxalmente, esse pode ser compreendido como uma forma masoquista de reação à violência da opressão da sociedade administrada.

Feito isso, a questão que se coloca em seguida é determinar como os sujeitos da cultu- ra se conectam à ordem da cultura e aos outros sujeitos. E a resposta a essa indagação pode ser encontrada na teoria lacaniana dos “quatro discursos”, à qual nos remeteremos no quinto capítulo desta tese.

Portanto, ficam aqui algumas críticas ao que se convencionou chamar de “psico- história” ou psicanálise aplicada à história. Um historiador atento ao mero plano do enunciado dos documentos por ele escolhidos busca reconstruir a objetividade dos eventos na sua supos- ta relação causal, ou então, o imaginário de uma dada sociedade. O psicanalista, contraria- mente, subverte o sujeito autocentrado, desconstrói o imaginário e vislumbra uma ética do desejo como “motor” da história.

Essa pretensa objetividade do historiador prositivista é atravessada pela “alienação” estrutural do sujeito, decorrente do seu ingresso na ordem do discurso e da dialética das iden- tificações. Contudo, essa suposta objetividade não se aplica ao inconsciente nem tampouco às suas formações. E mais, a sucessão linear de acontecimentos vazios — a famosa “linha do tempo” da historiografia positivista — é esvaziada pela constatação da inexistência de conti- güidade, no inconsciente, entre o passado e o presente e de relações intersubjetivas: cada su- jeito se relaciona com o seu próprio grande Outro.

Por outro lado, cremos que cabe ao historiador, para além do meramente factual, des- cobrir nas batalhas cotidianas, os significantes mestres que circulam no âmbito da cultura de cada sociedade e levantar como eles interpelam os sujeitos dessa mesma cultura. Cabe tam- bém descobrir a fantasia social predominante e apurar como ela é assumida pelo coletivo. E, por fim, cremos que o historiador pode verificar o tipo de laço social mantido pelos sujeitos dentro das estruturas discursivas. E, ao fazer isso, ele pode mostrar que, a cada “momento de

um perigo”, seja na posição do Mestre, seja na posição do Universitário, ou ainda no discurso do capitalista, que o “perigo é sempre o mesmo”: entregar-se às classes dominantes como seu instrumento”, diríamos, “instrumento de gozo” e, o que é pior, ainda gozar com a sua própria instrumentalização.