Research Summary
5.4 Paper III
As profundas transformações vivenciadas no mundo do trabalho, promovidas em parte pelo avanço tecnológico, automação, robótica, microeletrônica, entre outros fatores, atingiram não apenas a sua materialidade como sua subjetividade.
A flexibilização da produção, a desconcentração industrial e a adoção do toyotismo, tornaram-se novas referências que passam a conviver com os paradigmas instituídos pelo fordismo e taylorismo, os quais consolidaram a indústria e o processo de trabalho ao longo
deste século, seja pela adoção da produção em série, das linhas de montagem, dos controles de tempos e movimentos, ou pela separação entre a elaboração e a execução do trabalho (ANTUNES, 1997).
Gounet (apud ANTUNES, 1997, p. 29) entende que o “toyotismo passou a substituir o trabalho repetitivo, simples, embrutecedor e desmotivante, por tarefas mais enriquecidas, tornando o trabalhador polivalente”. A adoção do toyotismo em lugar do fordismo, não pode ser entendida como um novo modo de organização societária: “[...] é mais consensual, mais envolvente, mais participativa, em verdade mais manipulatória” (GOUNET apud ANTUNES, 1997, p. 34).
Sabel e Piore entendem que estas transformações seriam responsáveis pela crise capitalista: “O elemento causal da crise capitalista seria encontrado nos excessos do fordismo e da produção em massa, prejudiciais ao trabalho, e supressores da sua dimensão criativa” (ANTUNES, 1997, p. 18).
Num artigo escrito em 1983, Fergus Murray (apud ANTUNES, 1997) observa que este processo de desconcentração atingiu um conjunto de grandes empresas na Itália, as quais reduziram o tamanho das suas plantas fabris, incentivando o putting-out do trabalho. Segundo o autor, a fragmentação do trabalho possibilita uma maior exploração por parte do capital, visto que os sindicatos têm dificuldade em assimilar essa classe trabalhadora mais segmentada e fracionada.
A desestruturação do sindicato combativo permitiu que as empresas, embaladas pelo modelo japonês da era toyotista, constituíssem os chamados sindicatos de empresa. “Combinando repressão com cooptação, o sindicalismo de empresa teve como contrapartida à sua subordinação patronal, a obtenção do emprego vitalício para uma parcela dos trabalhadores das grandes empresas” (ANTUNES, 1997, p. 25).
O sindicalismo dos movimentos sociais das décadas de 60 e 70, que defendiam o controle social da produção passou a aderir ao sindicalismo de participação, da negociação e da convivência pacífica com o capital e mercado: “Abandonam as perspectivas que se inseriam em ações mais globais que visavam à emancipação do trabalho e a luta pelo socialismo” (ANTUNES, 1997, p. 34).
Antunes (1997) entende ainda que o salto para além do capital, a redução da jornada de trabalho e a busca pelo tempo livre, devem estar articuladas ao fim da sociedade do trabalho abstrato e a conversão para uma sociedade criadora de coisas úteis. “É por isso que quando o movimento de classe dos trabalhadores se restringe e se atém exclusivamente à luta pela redução da jornada de trabalho, configura-se uma ação extremamente defensiva e
insuficiente” (ANTUNES, 1997, p. 81). Trata-se de uma empreitada, que depende da ação conjunta de todos os segmentos que engloba a classe que vive do trabalho.
No Brasil, os movimentos sociais, reagindo ao desemprego em massa do início da década de 80 e agravado com a abertura de mercado promovida pelo governo Collor a partir de 1990, dão origem à economia solidária. Com o objetivo de salvar os empregos, os trabalhadores se apossam de empresas a beira da falência e instituem assim a autogestão e o modelo de produção solidário.
O modo solidário de produção e distribuição parece à primeira vista um híbrido entre o capitalismo e a pequena produção de mercadorias. Mas na realidade, ele constitui uma síntese que supera ambos. A unidade típica da economia solidária é a cooperativa de produção, cujos princípios organizativos são: posse coletiva dos meios de produção pelas pessoas que as utilizam para produzir; gestão democrática da empresa ou por participação direta (quando o número de cooperados não é demasiado) ou por representação; repartição da receita líquida entre os cooperadores por critérios aprovados após discussões e negociações entre todos (SINGER; SOUZA, 2003, p.13).
Tais empresas geralmente são compostas por trabalhadores que dominam o processo produtivo, no entanto, com baixa escolaridade e quase nenhuma experiência na gestão de negócios.
Segundo Singer e Souza (2003), o capital somente será substituído ou eliminado quando os trabalhadores estiverem preparados para a autogestão, fato que depende também do aprendizado pela prática. “A economia solidária é uma criação em processo contínuo de trabalhadores em luta contra o capitalismo. Como tal, ela não poderia preceder o capitalismo industrial, mas o acompanha como uma sombra, em toda sua evolução” (SINGER; SOUZA, 2003, p. 18). Salienta sobre a importância da transparência nas informações e demais indicadores da gestão, para que assim, todos possam participar do processo decisório. “A economia solidária surge como modo de produção e distribuição alternativo ao capitalismo, criado e recriado periodicamente pelos que se encontram (ou temem ficar) marginalizados do mercado de trabalho” (SINGER; SOUZA, 2003, p. 13).
A necessidade de organização dos trabalhadores em empresas autogeridas, entre elas a calçadista Markely (Franca/SP), recebeu o apoio da CUT, que em 1991 elaborou trabalho pioneiro visando consolidar o empreendimento autogestionário e assim, instituir um modelo de gestão alternativo ao capitalista (SINGER; SOUZA, 2003).
Desse processo surgiu a Associação Nacional dos Trabalhadores de Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG), com a responsabilidade de organizar e capacitar os trabalhadores. “[...] a origem das empresas autogestionárias e da própria Anteag é
explicada a partir da capacidade dos trabalhadores de reagirem aos processos de exclusão engendrados pelo próprio desenvolvimento do capitalismo” (HOLZMANN apud SINGER; SOUZA, 2003, p. 66).
Ainda segundo HOLZMANN (apud SINGER; SOUZA, 2003, p. 74), os conceitos que irão nortear estes empreendimentos autogestionários, sob a tutela da ANTEAG são:
• Socialização do conhecimento e a democratização das atividades mais complexas;
• Motivação dos trabalhadores em relação ao projeto que envolve inteligência coletiva;
• Viabilidade econômica do projeto e seus resultados em forma de dividendos ou lucros;
• O inter-relacionamento dos empreendimentos autogestionários; • Adoção de uma gestão moderna, transparente e democrática;
• Parceria com os sindicatos dos trabalhadores, desde que, tenham apoiado o projeto autogestionário.
Segundo Faria & Nakano (1997), as políticas para a manutenção destes empreendimentos devem ir além da manutenção dos empregos. Implica em definir uma política de formação e capacitação dos trabalhadores, para que possam tornar viável a empresa pela qual se responsabilizam.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS