Arkeologien og de skrevne kildene
4.2.1 Hvordan påvise og tolke middelaldersentra gjennom arkeologiske metoder
Tradicionalmente, em especial no ensino médio, aprende-se que o Estado é uma organização social e política – social porque envolve a união de pessoas e política porque pressupõe a existência de pessoas que estão no poder, governando outras pessoas em um determinado território. Essa definição é muito abstrata, convenientemente talhada para apresentar e representar um fim idealista de coesão, e compõe o discurso do próprio Estado. Bourdieu afirma que esse objeto chamado “Estado” é praticamente impensável (BOURDIEU, 2012 [1989-192]). Isso resulta também do fato de que tomamos como natural nossa concepção sobre o Estado. Tomamos como dada a própria conceitualização do Estado e esse tipo de naturalização permite o fortalecimento do poder do Estado, porque pressupõe um tipo de senso comum.
Segundo Fairclough, o senso comum é quase inteiramente ideológico e normalmente tem origem no bloco dominante – o senso comum é complemento significativo para o poder político e econômico (FAIRCLOUGH, 2001, p. 27). E o senso comum basicamente é discursivo, é construído com os recursos semióticos da linguagem e de outros sistemas semióticos. Ele pode ser construído com a linguagem verbal, com imagens, com participantes carismáticos, com expressões faciais, com disposições espaciais, que, de forma integrada, insidiosa e ideologicamente constroem e
reafirmam nossa identidade estereotipada de brasileiro como a parte de um grande todo chamado Brasil, por exemplo.
Em minha pesquisa, faz-se necessário aderir a duas concepções de Estado de Bourdieu. A primeira, baseada no poder, diz que o Estado se define como o lugar da possessão de violência simbólica legitimada, o que segue Weber quando este afirma que ao Estado cabe o monopólio do uso da força; e a segunda afirma que o Estado é uma ficção de pertencimento, uma comunidade ilusória da qual as pessoas conjuntamente reconhecem e acreditam nos mesmos princípios universais, em um ideal de pertencimento, mas com efeitos reais (BOURDIEU, 2012 [1990]). Isso mostra como o Estado participa em grande parte da identidade de cada cidadão, de forma muito profunda e sugere um poder de persuasão e de inculcação de estilos e de transmissão de ideologias em qualquer comunicação estatal.
A noção clássica de que o Estado procura o bem comum é rechaçada por Bourdieu e este afirma que esta ideologia de bem público comum faz parte do discurso que os agentes do Estado produzem a respeito do Estado. Além disso, se seguirmos a noção de Weber de que o Estado tem o monopólio da violência, penso que podemos dizer também que o Estado brasileiro possui o oligopólio do uso de recursos semióticos para produção de artefatos ideológicos e sua transmissão para milhares de pessoas – esse oligopólio o Estado divide com a mídia, que às vezes é estatal. Esse poder de controle da comunicação de massa é estrategicamente pulverizado nas propagandas institucionais ministeriais e nas propagandas de empresas públicas, como a Caixa, e na publicidade das empresas de economia mista, como o Banco do Brasil e a Petrobras, cujos comerciais não servem apenas para informar, mas principalmente para modelar ideologicamente os telespectadores.
Max Weber diz que, para que o poder se mantenha (quer dizer, para que o Estado se mantenha) é preciso haver a dominação legítima, que, no caso das democracias modernas, é alcançada por meio de bases racionais, por meio de um dos três tipos puros de dominação. Weber afirma:
Há três tipos puros de dominação legítima. A validade das reivindicações de legitimidade pode estar baseada em:
1. bases racionais – repousa em uma crença na legalidade de normas editadas e no direito daqueles elevados à autoridade sob essas regras para expedir comandos.
2. bases da tradição – repousa sobre uma crença estabelecida na santidade de tradições imemoriais e na legitimidade daqueles que exercem autoridade sob essa tradição (autoridade tradicional); ou finalmente
3. bases carismáticas – repousa na devoção a uma santidade excepcional, a um excepcional heroísmo ou a um caráter exemplar de uma pessoa individual e de padrões normativos ou ordem revelada ou ordenada por ela. (autoridade carismática). (WEBER, 1978, V. I, p. 215)
É interessante que em ambas as definições, tanto a de Bourdieu como a de Weber, há a palavra “crença”: é necessário que as pessoas acreditem na existência e na legitimidade do Estado, para que este possa se manter. No caso da minha pesquisa, que versa sobre os comerciais de estatais brasileiras, posso afirmar que a legitimidade do poder do Chefe do Executivo, no caso do Brasil, é baseada na racionalidade e especialmente no carisma do líder. Isso pode apontar para uma relação entre a construção da identidade do brasileiro por meio da identificação com o líder político, representante máximo da ‘brasilidade’ (alegria, sorriso, samba, futebol). Para que a coesão se mantenha na instituição social denominada de Estado – e na medida em que, no Brasil, Estado se confunde com Governo – é essencial que as pessoas se reconheçam como ‘iguais’ e essa igualdade é alcançada pela adesão e pelo envolvimento emocional com um ideário de felicidade, dado pelo líder (Estado ou quem o representa) e reforçado pela valoração (construção discursiva de valores) de certas características.
Esse ‘ideário de bonança’ é construído também com uma série de imagens (um ‘imageário’) propagandísticas que mostram um “anelado futuro desenvolvimentista”: pessoas sorrindo, trabalhando, estudando, construindo e plantando (sãos os personagens típicos da propaganda institucional governamental: estudantes, trabalhadores, agricultores, construtores, etc).
A seguir, em um comercial do Governo brasileiro de 2011 (Fig. 10), temos a imagem dos trabalhadores da construção civil, construindo linguística e semioticamente o discurso do Estado gerador de benesses para a população e de responsável pelo crescimento e pelo futuro do País, ‘otimisticamente’ construído, como mostram as estatísticas (2,2 milhões de novos empregos). Sem fazer uma análise mais profunda, podemos dizer que, nesta imagem, temos, convergindo para a formação de um sentido claro, vários recursos semióticos: a expressão facial do sorriso dos participantes, a cinestesia (movimento corporal) expressando a dança, o fundo (background) ‘desenvolvimentista’, com a semantização de instrumentos de trabalho das práticas
sociais relativas à construção civil – o trator e a escavadeira significando o desenvolvimento do País. Dessa forma, o Estado/Governo se mostra como gerador de felicidade e como criador de um futuro de modernização e de desenvolvimento em todos os setores da economia. Vejam a frase quase divinatória, que encerra uma previsão em forma de assertiva, com a generalização inclusiva do agente (universalização do particular), em forma do uso da primeira pessoa do plural (‘Em 2012 vamos manter o ritmo’). Na verdade, trata-se de um convite/comando em forma de uma frase afirmativa (a famosa metáfora gramatical interpessoal de modo, de Halliday).
Figura 10 – O Governo gerador de empregos (trabalhadores da construção civil sorrindo e dançando)
Fonte: SECOM: Disponível em http://www.secom.gov.br/sobre-a-secom/acoes-e-programas/publicidade/campanhas- de-publicidade-institucional/brasil-em-boas-maos Acesso em 05.01.2014.
Cabe ainda lembrar que o poder de influência de um texto não se deve apenas às suas construções linguístico-semióticas, mas se deve à origem de produção social desse texto, de onde emana esse texto. O Estado tem um grande poder simbólico não só porque tem acesso aos recursos semióticos, mas também porque ele é, por definição aceita implicitamente, a fonte “oficial” de assertivas discursivas a respeito da realidade social. Portanto, a sua influência em forma de textos produzidos é eficaz.