Em resultado das fases anteriores do trabalho, é possível estabelecer a macroregião automóvel europeia como um sistema socioeconómico de produção e de mercado, de características singulares, integrado, aberto e em expansão.
A singularidade do sistema resulta de várias dimensões que se prendem com: 1) a estrutura de clientes e a especificidade da oferta; 2) a estrutura da indústria e o posicionamento dos actores; 3) as condições institucionais, políticas e regulamentares e 4) as particularidades da geografia, das estruturas urbanísticas e dos sistemas de transporte, questão que, dada a natureza da abordagem, não será detalhada41.
O sistema é integrado quer porque as estratégias e os modos de operação são concebidos e implementados sobretudo numa óptica macroregional, quer porque, numa análise agregada no
41 A este propósito, cf. e.g. Ingram, G. e Z. Liu, 1999, Determinants of Motorization and Road Provision, Policy
Research Working Paper, Research Advisory Staff e Transport, Water, and Urban Development Department para World Bank e restantes trabalhos citados.
espaço “coordenação – diferenciação”, emergem lógicas, de mercado e de produção, confinadas à macroregião. Estas características são igualmente identificadas naqueles actores da indústria que, embora não tenham a sede e a origem no espaço Europeu, desenvolvem as suas actividades com uma coerência que releva essencialmente de um elevado grau de especificidade.
A abertura do sistema é o resultado de um processo de globalização e pode ser assinalada em várias dimensões: recursos, produtos, actores, relações, informação e conhecimento. Os aspectos deste processo, que são mais específicos da dinâmica actual da indústria automóvel, estão caracterizados nos pontos 5 a 8. No entanto, esta abertura não está delimitada à actualidade deste processo, mas integra a história da indústria e o intercâmbio de conhecimento que se desenvolveu no último século, sobretudo nos domínios da tecnologia e dos modelos produtivos.
No período em consideração, o sistema encontra-se em expansão. Numa primeira fase, esta expansão é o resultado da adesão ao Mercado Comum dos países da Península Ibérica. Uma segunda fase tem lugar com a entrada dos restantes países da UE25, e em particular no que respeita a indústria automóvel, com a sua expansão a Leste. As duas fases de expansão tornaram-se efectivas, antes da integração estar concluída, através da implementação de acordos42 de pré-adesão e da adopção de políticas industriais, por parte destes Estados, que anteciparam este movimento.
A adopção da modelação em torno de um sistema macroregional europeu com estas características permite integrar a dimensão meso – indústria – num espaço macroregional e dispensa a sua especificação autónoma, tornando este expediente operacional desnecessário, no nosso caso. Da mesma forma, também não serão explicitamente consideradas as características dos domínios institucionais próprios de sub-regiões europeias – tal como contempladas, por exemplo, nos modelos SSIP (Sistemas Sociais de Inovação e Produção) (Lung, 2005, p. 23 ou Amable, Barre e Boyer, 1997, cit. in Lung).
A dinâmica do sistema é suportada em três questões / modelos principais:
economias de escala internas e externas, evidencia o desenvolvimento do comércio intra- indústria , em variedade e em qualidade, de bens finais e intermédios (pontos 3.2 e 3.3); 2. O papel da história industrial (ponto 3.2.2) na medida em que os processos de abertura ao comércio internacional tomam lugar sobre condições industriais prévias e seguem um percurso de dinâmica evolucionária;
3. O projecto de convergência socioeconómica da União Europeia, no âmbito do qual a adesão dos países a Ocidente e a Leste, com a queda de barreiras ao comércio na macroregião, é, igualmente, acompanhada pelo acelerar de processos de convergência e a aceitação de um enquadramento institucional que, embora comporte diferenças, estabelece traços obrigatórios comuns que delimitam os ambientes institucionais possíveis.
Adicionalmente, este cenário é o palco de uma dinâmica de inovação endógena e específica da indústria automóvel (ponto 6.2.2.2). Na relação procura – oferta existe uma dinâmica incontornável. Os preços reais dos veículos, ajustados à qualidade, diminuíram (ponto 6.2.2.1) e constituem uma questão irreversível nas expectativas dos consumidores sobre “o próximo modelo”. Consumidores e construtores estão ligados por convenções (Storper, 1999) acerca da qualidade, do preço dos veículos e da coerência das marcas. Assim, os primeiros não estão disponíveis para perder nada, não existindo, portanto, trade-off possível. Desta forma, podemos associar o regime de inovação permanente, como referido por Lung (2003), às características de irreversibilidade da mudança da convenção de qualidade e de preços que teve lugar entre produtores e consumidores.
Um percurso de análise desta natureza permite identificar modelos e tipologias de interdependência e distribuição espacial de actividades orientadoras para a investigação: 1) caracterização do espaço de coordenação e inovação (ponto 7.4.1); 2) dinâmicas de proximidade na configuração modular (ponto 7.4.2); e 3) reforço das redes de serviços, design e engenharia (ponto 7.3.2).
A Tabela 12 apresenta os conceitos, as dimensões e os componentes principais que suportam a recolha de dados empíricos que permitem construir uma visão da dinâmica do sistema automóvel macroeuropeu. Esta visão é desenvolvida pela combinação dos elementos referentes à “reconfiguração da indústria” com os vectores resultantes dos “novos formatos de implantação em espaços de produção e mercado”. A “divisão internacional de trabalho e os novos espaços de especialização” emergem, deste modo, como uma imagem da actual dinâmica.
Tabela 12 – Dinâmica do Sistema Macroregional Europeu, Organização dos Assuntos
Conceitos Dimensões Componentes
Designação Designação Pontos Principais Designação
Evolução de rendimentos
Estrutura macroregional de consumidores 6.2.1
Caracterização da procura Dimensão do mercado
Evolução e segmentação da oferta
Regime de inovação permanente e convenção entre clientes e construtores Posição relativa de construtores
Dinâmica de mercado 6.2.2
Formatos da motorização
Factores históricos (1) 10.1, 9.1, 11 Papel da história industrial nos formatos de acesso e de implantação
Políticas industriais, macro regionais e regionais /
locais 6.3 e 8.1 Papel das políticas públicas, quer na integração efectiva de mercado, quer na captação e formato dos investimentos industriais
Novos formatos de implantação em espaços de produção e mercado
Novos formatos de interdependência 7.4 Dinâmicas de coordenação e de proximidade
Reforço das estratégias modulares Racionalização da estrutura de produto e dos sistemas
produtivos 7.2 Aprofundamento da integração organizacional e da especialização produtiva
Expansão dos sistemas produtivos dos fornecedores Reconfiguração da
indústria
Externalização de actividades 7.3
Reforço das redes de serviços, design e engenharia Diferentes regimes de regulação do trabalho e
produtividades 8.1 e 8.2
Evolução dos padrões de comércio internacional 8.1 e 8.3
Fluxos de IDE 8.3 Divisão internacional de trabalho e novos espaços de especialização Localização de actividades 7.4, 8.1 e 8.3
Fonte: elaboração própria
Alemanha Espanha França NMS5 Outros Outros Outros
Fonte: elaboração própria
As dimensões e os componentes dos conceitos referidos anteriormente são escolhidos de acordo com os objectivos do trabalho e, nalgumas situações, como nos casos dos factores históricos (10.1 e 11), das políticas industriais (11.6) e dos fluxos de IDE (10.1 e 11) são tratados, no fundamental, embora de forma não exclusiva, no âmbito espanhol e do cluster. Tendo em conta as variáveis apresentadas nos parágrafos anteriores, é possível resumir e caracterizar a expansão da macroregião como o alargamento aos espaços geográficos referidos, de acordo com dois vectores principais: mercado e produção, de produtos finais e intermédios. Esta análise inclui:
− a evolução industrial, prévia e posterior à adesão; − o lugar de Espanha no comércio intra-comunitário; − os fluxos de IDE e o investimento;
− a dinâmica do mercado doméstico;
− a evolução da especialização produtiva e da produtividade; − os traços essenciais do regime de regulação do trabalho; − os actores-chave e a sua especialização.
Estes elementos, no que respeita ao subsistema espanhol, estão detalhados nos capítulos 8, de cariz mais abrangente e com uma acentuação macro, e 10, específico do subsistema.
O conhecimento dos principais parceiros de Espanha no comércio intra-industrial, a França e a Alemanha, viabiliza a modelização de um subsistema no âmbito das relações intra-UE25, composto por estes países e pelas ligações a terceiros, para estudar a sua evolução.
A emergência e a integração nas redes empresariais dos NMS43, em especial da Rep. Checa, da Hungria, da Polónia, da Eslovénia e da Eslováquia, torna imprescindível a sua modelização autónoma neste subsistema44. Adicionalmente, é investigada a relação de cada um destes cinco países com os restantes pólos do subsistema. Neste modelo, o espaço de relações comerciais exterior ao subsistema é caracterizado quer através de instrumentos complementares, de que a análise em 8.3.2.1 é um exemplo, quer pela contabilização do seu peso no comércio intra-industrial, complementado pela análise da Figura 73, ponto 10.2.1, que assegura a integração macroregional e as reduzidas trocas comerciais extra UE25.