O propósito deste trabalho assenta na representação das mudanças sucessivas do objecto, identificado pelos seus projectos, ou finalidades, que, em certas circunstâncias, podem igualmente ser objecto de um contínuo ajustamento. A Tabela 2 estabelece, de acordo com Le Moigne (1990), uma matriz de análise dos possíveis modos de adaptação do sistema.
Tabela 2 – Modos de Adaptação do Sistema
Projectos (finalidades) Relação do Sistema com:
Permanente Em mudança Permanente Regulação
(Homeostasia14) Adaptação estrutural (Trans-formação)
Ambiente
Em mudança Adaptação por programa 1. Homeorhése15
2. Homogénese16
Evolução estrutural (Morfogénese17) Fonte: Le Moigne, 1990
Na medida em que o objectivo deste texto não é avaliar o paradigma sistémico, produzindo uma crítica aprofundada, mas realizar uma apropriação operacional de alguns conceitos18, apresentam-se, de forma simplificada, algumas noções pertinentes para estes propósitos, que constam da tabela e que serão explanadas de acordo com Le Moigne (ibid.):
1. Regulação
Neste modo, o sistema afirma a sua identidade através de um projecto permanente, que se consolida a partir do reconhecimento do ambiente que permanece constante, tendo sido
14 Homeostasia: propriedade auto-reguladora de um sistema que lhe permite manter o seu estado de equilíbrio. 15 Homeorhése: descreve a propriedade dos sistemas dinâmicos que retornam à sua trajectória, e não ao seu
estado, como na definição de homeostasia.
16 Homogénese: reprodução de semelhança em novas gerações. 17 Morfogénese: diferenciação e crescimento; formação de estrutura.
18 Roldão (1994, p. 129) estabelece um quadro de definições com algum paralelismo na concepção dos processos
que enformam o Modelo Neurológico de Empresa:
- autónomos: realizados ao nível NV3 (sistema autónomo e automático), de regulação em torno de pontos de equilíbrio;
- automáticos com resposta programada: estabelecidos sob a forma de procedimentos específicos para enfrentar situações específicas (normalmente rotinas);
- automáticos com resposta não-programada: de resposta a estímulos identificados, sem programas específicos pré-determinados (normalmente respostas baseadas em heurísticas);
- não automáticos: não susceptíveis de pré-programação, que normalmente têm de ser tratados com suporte consciente, perspectivando o passado, o presente e o futuro.
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encontrados modos de regulação que permitem a satisfação dos projectos do sistema. A manutenção desta regularidade não afecta a organização do objecto: a sua estrutura e os seus programas são tidos como invariantes no horizonte considerado, pelo que só são modificados os parâmetros da estrutura sobre os quais o sistema interno de direcção intervém. A regulação assenta no primado da retroacção, que pode surgir ao modelador em três formatos:
a) A eliminação de perturbações: neste caso, a introdução de um processador desacoplado, que gere a relação com a fonte de perturbação, permite isolar o restante sistema das consequências dessa perturbação;
b) A equalização de desvios: é o caso dos sistemas com atributos estocásticos que tendem, probabilisticamente, para um limite que é independente das condições iniciais;
c) A compensação das perturbações: nesta situação, é introduzido um processador decisional capaz de determinar uma decisão de compensação pelo tratamento das informações – representações.
Como forma de o diferenciar do modo seguinte – adaptação por programa – Le Moigne (ibid.), citando Berrien (1968), sugere que a regulação é uma adaptação sem memória, sem traço.
2. Adaptação por programa
Neste modo, o Sistema Geral, embora mantendo a integridade dos seus projectos, é confrontado, na relação com o seu ambiente, com inputs não programados. Uma vez que estes são relevantes para os projectos do sistema, é necessário dotá-lo de novos programas. Este propósito é realizado sem afectar a estrutura, pela selecção de novos pontos de parametrização. Através da criação de novas ligações entre processadores pré-existentes é possível provocar uma nova estabilidade, compatível com os projectos do sistema.
No caso dos objectos sociais, March e Simon (1958), citados pelo autor, denominaram estes procedimentos de processos de inovação e as condições de execução de programas de inovação: “... explicar as ocasiões para inovar, é explicar porque um esquema de acção considerado até ao momento como satisfazendo certos critérios cessa, de repente, de o fazer” (tradução livre).
subsistema. Neste caso, este subsistema passará a deter a autonomia suficiente para conduzir esta aprendizagem. Em linha directa com a nossa análise, podem ser incluídas nesta dimensão as unidades de MNC com autonomia suficiente para conduzir programas de adaptação (de ajustamento) locais.
b) Adaptação por aprendizagem
A aprendizagem constitui uma das modalidades mais ricas de desenvolvimento de adaptações por programa. A sua representação implica a existência de um sistema de memorização. Neste caso, o sistema guarda um traço, na sua biblioteca, dos programas que inventou para desenvolver a produção de novos comportamentos (novos outputs associados a inputs de acontecimentos percebidos como novos e avaliáveis em relação aos projectos do sistema); é possível considerar que o sistema se coloca em posição de aprender programas que estará em condições de exibir de novo quando solicitado pelo sistema de direcção.
A aprendizagem pode ser interpretada como um ciclo de programa, e não de estrutura: a programação de um output futuro com base num ciclo aberto de retroacção entre a situação presente do sujeito e a memória actual da relação passada.
3. Adaptação estrutural
Neste modo, a partir da análise das estabilidades sucessivas do objecto modelado, o sistema gera a iniciativa sobre (e nos) processos sobre os quais ele intervém, modificando os seus projectos. Esta alteração das regras do jogo não implica necessariamente o desaparecimento do objecto e a emergência de um novo, desde que seja assegurada a possibilidade de esta alteração ser decidida pelo sistema de finalização que lhe está associado. Esta hipótese impõe, explicitamente, que se reconheça a natureza aberta do sistema que representa o objecto. Os sistemas abertos à informação são aqueles que são capazes de construir, sob certos constrangimentos, o seu próprio projecto de intervenção sobre o ambiente de inserção.
A direcção desta mudança de projectos vai exigir uma nova forma de mobilização e de intervenção dos processadores do sistema, mesmo num ambiente percebido como estável em relação ao sistema, existindo, neste caso, programas de regulação que respondem às eventuais flutuações dos inputs. É necessária a existência de novos processadores, uma vez que a adaptação às novas finalidades não se faz por programa mas através de uma adaptação estrutural. Por conseguinte, é necessário realizar algumas transformações estruturais no seio do sistema para poder ter em conta os novos tipos de estabilidade que são antecipados ou que se observam no comportamento do sistema.
Na modelação dos inputs e dos outputs que em cada instante caracterizam o comportamento do sistema é possível encontrar duas famílias de fluxos: os de actividade e os de estrutura. Os segundos são caracterizados por variáveis associadas a processos mais lentos e de longa duração, enquanto os primeiros estão relacionados com variáveis de processos rápidos e de curta duração (Forrester, 1961). Neste caso, a inovação adaptativa não faz uso das reservas das estruturas estabelecidas para satisfação dos projectos anteriores, nem dos programas que a sua aptidão para aprender lhe sujeita à disposição. É necessário importar novos recursos, fazendo-os gerar novos programas, pelo que se poderão diferenciar nos inputs – outputs do sistema uma família particular: recursos ou variáveis de estrutura.
4. Morfogénese
Neste modo, abandonando os domínios das construções sincrónicas em que a estrutura é suficiente para definir o objecto, entramos, agora, nos domínios onde é necessário fazer intervir a noção de Sistema Geral: a imagem do objecto estruturado evoluindo no tempo. No âmbito do contexto que tem estado a ser definido, o equilíbrio deve ser determinado em relação aos projectos e às finalidades do sistema. É em relação aos projectos que têm de ser interpretados os comportamentos do objecto, por mais aleatórios que possam parecer na sua aparência, esta intervenção sobre os comportamentos constitui precisamente a forma de equilíbrio do sistema.