O desenvolvimento de comércio intra-indústria de produtos semelhantes21, ou o comércio
horizontal intra-indústria, entre países com estruturas económicas e com dotação de factores de produção na origem comparáveis abriu novos campos de investigação em economia para além do enquadramento tradicional do comércio internacional. Este último permaneceu
ancorado nas teorias de Ricardo e nos modelos de Heckscher-Ohlin, nos quais as especializações dos países, e do seu comércio, eram dependentes das suas vantagens comparativas relativas. Deste modo, a distância económica entre países era entendida como o principal factor determinante da sua especialização nos vários ramos de actividade económica.
Tabela 3 – Determinantes dos Tipos de Comércio e Efeitos Potenciais da Integração
Teorias Tradicionais Novas Teorias do Comércio Internacional Economias de escala
Determinantes Dotação de factores na
origem Diferenças de produtividade
Externas Internas Comércio intra-indústria baseado em Padrões de comércio Comércio inter-indústria Diferenciação vertical Diferenciação horizontal Especialização Ao longo das vantagens comparativas Através de
economias de aglomeração Ao longo do espectro de qualidade Em variedades Custos de adaptação Importantes
(mudanças no preço dos factores entre indústrias no interior dos países)
Potencialmente importantes (divergência potencial de rendimentos
entre países)
Fracos
Fonte: adaptado de Fontagné e Freudenberg, 1997
A síntese contemporânea é baseada na visão de que a competição monopolística e os retornos crescentes internos conduzem ao comércio intra-indústria entre países semelhantes, enquanto que a anterior vantagem comparativa continua a explicar o que ocorre entre países separados por distâncias económicas importantes. As análises contemporâneas consideram os produtos diferenciados horizontalmente: os produtos estão disponíveis para os consumidores em diferentes variedades, e o comércio internacional, na medida em que aumenta a dimensão do mercado, conduz a uma maior variedade de bens e à obtenção de economias de escala. Pelo contrário, a distância económica aumenta o comércio inter-indústria e diminui o comércio intra-indústria.
Lancaster (1980) e Krugman (1979, 1980) mostraram que, dentro do enquadramento de mercados com competição monopolística, o desenvolvimento de comércio intra-indústria pode ser explicado à luz dos processos de diferenciação de produtos – que, neste caso, deixam de ser considerados homogéneos - e de economias de escala. A síntese ocorre a partir dos
Entre dois países com níveis de desenvolvimento semelhantes estabelecer-se-á um comércio intra-indústria horizontal, i.e., comércio de variedades; entre dois países economicamente mais distantes, poderá emergir, igualmente, um comércio intra-indústria principalmente vertical, correspondendo a uma diferenciação num intervalo, numa escala, de qualidade (Fontagné e Freudenberg, 1997).
Figura 4 – Estrutura de Mercado, Diferenciação de Produtos e Determinantes do Comércio
Deste modo, os produtos não são diferenciados somente pelos seus atributos secundários, mas diferem igualmente em qualidade e preço – situação em que existe uma diferenciação vertical. Esta distinção modifica o enquadramento teórico: a distância económica entre países já não é mais a base única que conduz à especialização entre indústrias ao longo do esquema das vantagens comparativas, mas, também, a plataforma que sustenta uma especialização ao longo de um intervalo de qualidade, no seio das indústrias.
A combinação destes dois tipos de diferenciação de produtos num único modelo de competição imperfeita – no qual os consumidores escolhem primeiro entre qualidades e, depois, entre as variedades existentes para esse nível de qualidade – permite aceder ao
Fonte: adaptado de Fontagné e Freudenberg, 1997 Vantagem Comparativa Dumping Recíproco Oligopólio Intra-Indústria Inter-Indústria Produtos Homogéneos Competição Perfeita Diferenciação Vertical Competição Perfeita Oligopólio Economias de Escala Externas Vantagem Comparativa Custos Fixos em I&D Competição Monopolística Produtos Homogéneos Diferenciação Horizontal Procura por Variedade Comércio Diversidade de Gostos Heckscher, Ohlin Helpman Krugman Falvey
Kierzkowski Thisse, GabszewiczMotta Shaked, Sutton
Dixit, Stiglitz Krugman
Lancaster Brander Krugman
seguinte resultado principal: os países diferentes envolver-se-ão em comércio intra-industrial de produtos verticalmente diferenciados, enquanto que os países semelhantes desenvolverão comércio intra-industrial de variedades de qualidades equivalentes. Deste modo, a distância económica (com diferenças entre países na alocação de recursos específicos ao longo de um espectro de qualidades) é compatível com produtos diferenciados verticalmente.
Tabela 4 – Interpretação dos Fluxos Comerciais
Níveis de análise Comércio Internacional
Indústria Produto Interpretação
Indústria têxtil
Indústria automóvel
Comércio inter- indústrias
Comércio em sentido único
Comércio em sentido único
Divisão internacional de trabalho
Indústria automóvel
Comércio intra- indústria
Comércio em sentido único
Comércio em sentido único
Repartição internacional do processo de produção
Indústria automóvel
Comércio intra- indústria
Comércio em dois sentidos
Comércio em dois sentidos
Comércio em ambos os sentidos de bens intermédios
Comércio em ambos os sentidos de bens finais
Indústria automóvel
Comércio em dois sentidos Comércio em ambos os sentidos de bens finais semelhantes Bens intermédios Bens finais M em T-shirts X em veículos M em motores X em veículos Bens intermédios Bens finais M em motores X em veículos
Valor unitário entre X e M ≤ 15%
Por outro lado, os custos de ajustamento, resultantes da liberalização do comércio, dependem do tipo de especialização e de diferenciação que ocorra. O desenvolvimento de comércio inter-indústria implica mudanças dos factores de produção entre sectores. Os custos associados são supostamente maiores do que no caso horizontal intra-indústria por causa “da portabilidade incompleta de activos entre indústrias. Quando sucede uma transferência de uma empresa para outra no mesmo sector, o capital humano, em particular, é menos depreciado” (Fontagné e Freudenberg, 2002).
No caso do comércio vertical intra-indústria, a liberalização do movimento dos factores de produção pode provocar, em países de rendimento superior, uma queda das remunerações e dos níveis de emprego em sectores onde as importações são fortes e a transferência para países de salários inferiores não é particularmente constrangida. As remunerações elevadas, contudo, persistirão naqueles sectores especializados em segmentos com produtividades ou valores acrescentados altos. Assim, a especialização ao longo do espectro de qualidade, comércio vertical intra-indústria, pode implicar perdas relativas, em remunerações e em emprego, para empregados com pequena ou nenhuma qualificação em países de rendimentos mais elevados, quando comparados com os trabalhadores qualificados, que não estarão sujeitos a esta erosão.
No entanto, o comércio internacional, nas diversas componentes descritas anteriormente, é o resultado de diversas configurações industriais, que se distribuem geograficamente, e que evoluem ao longo do tempo.