5. Analysis
6.3. Narrative
Afirmamos que as habilidades informáticas divergem ligeiramente das habilidades informacionais, pois estas envolvem processos cognitivos que perpassam o sentido de operar as tecnologias e executar ações mecânicas. Quando nos familiarizamos com a interface de um sistema lógico e desenvolvemos nossas diversas atividades a partir das funções que sabemos operar dentro do pacote tecnológico oferecido por ele, acionamos nossas habilidades informáticas. Quando realizamos atividades mediadas por recursos tecnológicos necessitamos lançar mão de saberes adquiridos em nossos processos educacionais e formativos que se referem a conhecimentos de como lidar com o dado, o conteúdo, então, acionamos nossas habilidades informacionais (MARTINS; LUCAS, 2009).
As habilidades informacionais variam conforme os processos instrucionais dos indivíduos, onde vão apresentar saberes condizentes com sua área especializada do saber, bem como com as atividades específicas que desenvolvem dentro dessa área. Assim como Freitas (2004) ao discutir o capital tecnológico-informacional de uma rede de produtores de tecnologias informacionais no campo acadêmico afirma que existem graus variados de
acesso e conhecimento às informações no ciberespaço dependentes da história de vida dos indivíduos e que informam diferentes níveis de inclusão social e digital. Portanto, iremos realizar a classificação dos estudantes quanto às suas habilidades informacionais.
Procuramos saber sobre as habilidades informacionais de estudantes em condições determinadas como as investigadas em nossa pesquisa que dizem respeito a indivíduos em situação de conclusão do Ensino Médio na escola pública. Os estudantes apresentam uma condição juvenil, sem uma posição permanente na estrutura produtiva (Dayrell, 2007) o que faz deles indivíduos que não são portadores de conhecimentos especialistas. Mas, nos informam o comportamento do indivíduo comum, alcançado pela educação básica e que realiza diversas atividades mediadas pelo computador e pela Internet.
Para compor o índice de habilidades informacionais, utilizamos questões a respeito das dificuldades, habilidades e procedimentos de uso da Internet em relação às informações, assim como a percepção dos estudantes sobre seu desempenho com leitura, interpretação e redação de textos, gráficos e tabelas.
Os estudantes nos informaram suas dificuldades em realizar determinados procedimentos a partir da Internet. Vimos que 40% dos estudantes possuem dificuldade em encontrar a informação desejada no site indicado pela plataforma de buscas; 27% dos estudantes têm dificuldade em ler um texto longo na Internet; 5% dos estudantes registraram dificuldade em localizar um site utilizando um buscador. Não podemos afirmar em que precisamente consiste a primeira dificuldade, mas o fato de 42% dos estudantes que a marcaram também ter registrado dificuldade em ler um texto longo na Internet, nos apresentou como indício interessante para ser considerado em nova pesquisa.
Compuseram nosso índice quatro questões relativas à percepção dos estudantes sobre o domínio de habilidades de uso da Internet. Vimos que 36% dos estudantes afirmaram muito ou domínio completo ao utilizar a Internet para realizar atividades de treinamento e educação, como cursos à distância, utilizar programas educacionais, acessar bibliotecas digitais etc. Assim como 22% apresentaram domínio regular e 19% pouco ou nenhum domínio. Mas, 64% afirmaram muito ou domínio completo para realizar pesquisas a temas e conteúdos solicitados como atividades escolares, bem como 18% informaram domínio regular e apenas 3% pouco ou nenhum domínio.
Perguntamos sobre o domínio de habilidades de uso da Internet para consultar sites que apresentam resultados de pesquisas sobre indicadores econômicos, sociais,
políticos e educacionais. Obtivemos que 34% dos estudantes afirmam ter muito ou completo domínio sobre a atividade, 28% domínio regular e 16% pouco ou nenhum domínio. Também perguntamos acerca do domínio para consultar e navegar em mapas de satélite como Google Maps ou Google Earth. Registramos 50% dos estudantes afirmando muito ou completo domínio, 25% domínio regular e 8% pouco ou nenhum domínio da atividade.
Verificamos como os estudantes usam as informações pesquisadas quando utilizam a Internet para fazer trabalhos escolares. Então, 35% afirmaram como a forma mais usual ler o conteúdo de vários sites, selecionar os textos mais coerentes com o que foi solicitado e resumi-los para entregar ao professor. A segunda forma mais usual encontrada em 26% dos casos de discentes que lêem o conteúdo do site, verifica a correspondência com o que foi solicitado, imprime o texto e entrega. A terceira forma mais usual foi a apontada por 19% dos estudantes que afirmaram reunir o conteúdo de vários sites, ler e recortar parte dos textos que correspondem ao que foi solicitado e montar o trabalho a partir desses recortes para entrega.
Perguntamos sobre os procedimentos mais usuais que os estudantes adotam para buscar informações na Internet para os trabalhos escolares. A maior parte dos estudantes, 68% deles, indicaram utilizar plataformas de busca a informações gerais como Google. Apenas 7% indicou fazer pesquisas em sites específicos de conteúdos escolares e educacionais. Somente 3% indicaram o uso de plataformas de pesquisa a trabalhos acadêmicos, como Google Scholar ou Scielo. Outros 3% informaram pesquisar apenas os sites indicados pelo professor e 1% combina os sites indicados pelo professor e buscas em plataformas de informações gerais.
Por fim, compôs nosso indicador de habilidades informacionais questões que mediam a percepção do desempenho em atividades de leitura e compreensão de textos, gráficos, tabelas e composição de redação. Foram 42% que apontaram como muito ou completamente satisfatório o seu desempenho de leitura e compreensão de textos; 34% como desempenho razoável e apenas 7% como pouco ou insatisfatório o seu desempenho. Reduz um pouco o otimismo em relação à redação de textos, pois 34% afirmaram satisfação positiva ao desempenhar a atividade, 36% regular e 14% pouca ou insatisfatória. Sobre a leitura e compreensão de gráficos manteve-se que 34% apontaram desempenhar a atividade de forma muito ou completamente satisfatória, 36% de forma
regular e 14% afirmaram satisfação negativa. Assim como 32% tem desempenho muito ou completamente satisfatório para ler e compreender tabelas, 34% razoável e 18% pouco ou desempenho insatisfatório.
Nesse sentido, procedemos com a classificação dos estudantes por suas habilidades informacionais. Aplicamos as medidas de tendência central e obtivemos uma média de 7,4 pontos de habilidades informacionais por estudante em um percurso que apresentou valor mínimo de 0,5 ponto e valor máximo de 12,25. O desvio padrão em relação à média foi de 2,3 pontos que nos permitiu distribuir os estudantes em seis níveis de habilidades informacionais.
Na Tabela 6.15 adiante reunimos as duas dimensões de condição de uso do computador e da Internet para demonstrarmos o percentual de estudantes que ocuparam cada nível da escala correspondente às habilidades informática e às habilidades informacionais que demonstraram possuir.
Tabela 6.15 - Percentual de estudantes por níveis de habilidades informáticas e de habilidades informacionais
Percentual de estudantes distribuídos conforme nível alcançado pelas pontuações obtidas nas variáveis de condições de uso do computador e da Internet Níveis da escala -3 -2 -1 +1 +2 +3 Ausentes* % total
Habilidades
informáticas 2 10 26 39 17 5 99
Habilidades
informacionais 4 10 29 34 15 1 6 99
Fonte: Pesquisa de campo realizada entre Agosto e Dezembro de 2012
* % de estudantes que não responderam a nenhuma das questões e foram retirados da classificação
Podemos observar que 50% dos estudantes têm nível positivo de habilidades informacionais enquanto 43% têm nível negativo. A distribuição por nível nos permite perceber que 63% dos estudantes ocupam o nível positivo e negativo mais próximo à média, isto é, a maioria apresenta habilidades informacionais boas ou regulares. Assim como 14% dos estudantes têm habilidades informacionais ruins e péssimas e 16% ótimas e excelentes.
Observamos, então, o processo de construção das habilidades informacionais dos estudantes a partir das contribuições que possam ter tido ao longo de seu processo educacional na escola pública, mas principalmente pela matéria de Sociologia através de como os professores conduziam as atividades solicitadas e que envolviam as TIC's.
Quando os estudantes foram perguntados se algum professor de qualquer matéria já havia solicitado um trabalho digitado alguma vez, 84% disseram que sim. Também, 87% dos estudantes afirmaram que algum de seus professores já haviam solicitado pesquisa a temas e conteúdos na Internet. Então, 40% dos estudantes afirmaram que todos os professores sempre que solicitavam alguma dessas atividades, exigiam regras de formatação para apresentação do conteúdo e orientavam como realizar os procedimentos. Mas, 18% informaram que só alguns professores procediam assim, outros 18% disseram que eram poucos professores e 5% não se lembraram de nenhum que tenha exigido regras para os trabalhos com as TIC's e orientado sobre elas.
Quisemos saber se algum dos professores de Sociologia que o estudante possa ter tido ao longo do Ensino Médio já lhe havia solicitado trabalho digitado e 47% afirmou que sim. Então, 21% dos estudantes afirmaram que todas as vezes que algum trabalho digitado era solicitado, os professores de Sociologia exigiam regras para desenvolvê-los e orientavam como proceder. Também, 8% informaram que isso acontecia na maioria das vezes, 6% em poucos trabalhos solicitados e 9% não se lembra se algum professor fez exigências em termos formais para os trabalhos e/ou se realizou orientações sobre os trabalhos.
Bem como 60% dos estudantes afirmaram já ter realizado trabalhos de Sociologia de pesquisa à Internet. Então, 16% informaram que todas as vezes e 14% informaram que na maioria das vezes os professores de Sociologia orientavam sobre quais sites pesquisar e como proceder com a pesquisa aos temas. Mas também, 7% disseram que foram algumas vezes e 4% poucas vezes que os professores fizeram as orientações. Entretanto, 16% informaram que nenhuma vez foram orientados completamente ou sobre o site a que pesquisar ou sobre como proceder com a pesquisa a tema.
Em todas essas questões tivemos uma média de 14% de estudantes que deixaram em branco e não responderam a questão além de uma média de 33% de estudantes que no caso das questões sobre a solicitação e orientação de trabalhos de Sociologia são considerados casos não aplicados porque informaram que o professor nunca solicitou trabalho digitado ou de pesquisa à Internet.
Essas informações nos remetem a pensar no quadro apresentado no capítulo 5 sobre a percepção dos professores quando os alunos desenvolvem trabalhos a partir do computador e da Internet e o quanto a reclamação geral redundou no fenômeno do plágio.
Assim, como quando vimos logo acima que 45% dos estudantes apontaram formas de plágio ao desenvolver trabalhos escolares a partir da Internet. Alguns professores afirmaram realizar orientações no sentido de evitar a prática, alguns alunos confirmaram que já receberam aulas de procedimentos para realizar trabalhos com as TIC's. Entretanto, esses alguns nos dois casos se configuram como a menor parcela dos atores sociais.
Finalizamos a classificação e análise dos estudantes nas duas dimensões que indicam suas habilidades de acesso e uso do computador e da Internet. Essas informações descritivas sobre a escola e a matéria de Sociologia e a forma como contribuem para as habilidades informacionais dos estudantes nos serão relevantes para refletirmos sobre as correlações que serão testadas em nossas hipóteses de pesquisa. Antes, realizaremos a definição do capital tecnológico-informacional dos estudantes.