5. Analysis
5.4. Attestation by Laurence Chirk, servant to John Meverell, esquire (1450)
Como os professores de Sociologia das escolas públicas de Ensino Médio do Distrito Federal aplicam os conteúdos da matéria e trabalham suas aulas e se utilizam recursos tecnológicos baseados nas TIC's são as duas perguntas norteadoras deste tópico. Para podermos respondê-las, questionamos os professores sobre procedimentos adotados em seu cotidiano de trabalho e a maneira como encaminham o processo de ensino e aprendizagem na escola pesquisada.
Observamos entre os relatos dos professores que usam o livro didático que 88% trabalham com leitura, sendo que 72% a solicitam em sala de aula e apenas 44% a recomendam para casa. As leituras em sala de aula são feitas antes ou concomitante às
explicações, para suscitar e orientar debates ou para os alunos expor sua própria compreensão do texto. São realizadas individualmente em silêncio ou em voz alta de uma ou mais pessoas para toda a turma ou para um grupo, dependendo da atividade com a qual se relaciona. Os professores reconhecem que poucos alunos fazem as leituras recomendadas e muitos resistem ao método de leitura em sala, conforme apresentado nas condições de trabalho relativas aos atributos comportamentais e cognitivos dos estudantes.
Além da leitura, 76% dos professores afirmaram trabalhar com exercícios do livro e 16% com elaboração pessoal de exercícios a partir dos textos do livro. As atividades são desenvolvidas principalmente em sala nas aulas de 75% destes professores ou tanto em sala como solicitadas para casa por 55% deles. A proporção menor de professores que pedem atividade para casa deve-se ao fato semelhantemente relacionado ao que acontece com a leitura, onde poucos alunos fazem os exercícios. Mas também, há turmas de terceiros anos que não têm o livro e usam bancos de livros retirados e depositados diariamente na biblioteca da escola ou os professores confeccionam apostilas de textos para os alunos xerocarem.
A partir do relato de 56% dos professores de Sociologia que trabalham com o livro didático pudemos descrever a forma como expõem os conteúdos e os ensinam em sala de aula. Apesar das aulas expositivas dos professores não serem de uma única forma sempre, as mais comuns deles fazerem são: 36% afirmaram elaborar resumos ou esquemas explicativos dos textos e passar no quadro para orientar as exposições; também 36% afirmaram realizar as exposições com auxílio de recursos didáticos como a partir do computador com projetor Data Show, passar vídeos e trabalhar com revistas de notícias e atualidades; 29% trabalham com a exposição a partir do estímulo ao debate entre os estudantes. Em todas elas as exposições explicativas partem de leituras aos textos do livro ou dos exercícios anteriormente solicitados.
Então, o livro didático apresenta-se como um recurso importante de apoio às aulas de Sociologia ao possibilitar aos professores um conjunto de textos e exercícios elaborados. Com ele, o trabalho torna-se o de selecionar os capítulos de acordo com o programa curricular e procurar material complementar ou elaborar exercícios, caso o docente julgue necessário. Nesse sentido, queremos demonstrar que o principal método de trabalho dos professores de Sociologia a partir da forma como adotam o livro didático ou as apostilas é através da leitura de textos, exposição explicativa de conteúdos a partir de
textos e atividades realizadas. Enfocaremos mais de perto o método de ensino a partir das atividades que os professores que adotam ou não um livro didático solicitam aos seus alunos.
As atividades mais comuns e mais frequentemente solicitadas aos alunos são a prática de leitura semanal, 67% ou mensal, 33%, em primeiro lugar. Em seguida vem as pesquisas a informações em livros, revistas e na Internet que são realizadas semanalmente a pedido de 44% dos professores, mensalmente por 22% ou pelo menos uma vez ao bimestre por 30% deles.
A terceira atividade mais comum é a solicitação de produção de textos, como resumos, redações, resenhas e fichamentos de leitura. A produção de textos é mais pedida mensalmente por 41% dos professores, semanalmente por 26% ou bimestralmente por 18% deles. Em seguida vêm a prática de solicitação de trabalhos formais que envolvem principalmente a pesquisa bibliográfica e a redação, realizada pelo menos uma vez por mês ou por bimestre pela maioria, isto é, 74% de professores. Já a quinta atividade mais comum solicitada por professores de Sociologia é a apresentação bimestral de seminários, sendo que 11% dos professores não adotam a prática em seu rol de procedimentos de ensino.
Nas pesquisas a informações a diferentes fontes como livros, revistas e Internet foram incluídas aquelas que os professores solicitam para serem realizadas em sala de aula. Contudo, levantamos que 89% dos professores pedem atividades de pesquisa fora da sala de aula e elas são pesquisas bibliográficas ou pesquisas de campo. Notamos que os professores que não solicitam a atividade de pesquisa fora da sala de aula são do sexo masculino, na faixa etária de 46 a 55 anos e da carreira efetiva no quadro de funcionários da SE/DF.
Vimos, então, que 75% dos professores de Sociologia solicitam pesquisas bibliográficas a temas em diversas e diferentes fontes para apresentação em seminários, para a construção de trabalhos manuscritos ou digitados ou para orientar debates. Constatamos também que os professores mais recomendam e solicitam procedimentos do que ensinam na prática como realizar a pesquisa em si e como fazer os procedimentos que são solicitados.
O maior problema apontado pelos professores nos trabalhos de pesquisa bibliográfica que os alunos realizam é o plágio. Este aparece nos relatos tanto a partir da prática de recortar e colar textos ou parte dos textos encontrados nas pesquisas eletrônicas
quanto na prática de copiar o trabalho do colega. Também, os professores afirmam como comum nos procedimentos adotados pelos alunos para as pesquisas na Internet a falta de filtrar as informações apresentadas pelo buscador e apontam que os estudantes acessam as primeiras indicações apontadas pelo site de busca. Nesse sentido, apontam que os alunos utilizam sites que não são "confiáveis" ou não sabem sobre o site em que a informação retirada para pesquisa está hospedada. Tais fatos, indicam ao professor que os alunos não sabem fazer pesquisa com qualidade a partir da Internet seguindo orientações deontológicas e metodológicas.
Nesse sentido, constatamos que 61% dos professores que pedem a atividade de pesquisa bibliográfica recomendam cuidados com as fontes de pesquisa. Alguns exortam os estudantes sobre a questão da segurança e confiança da informação na Internet, indicando fatores que atribuem ou desqualificam uma página eletrônica como fonte de pesquisa legítima para trabalhos escolares. O discurso comum recai sobre a qualidade da informação contida na Wikipédia21 ou na versão dela em língua portuguesa:
O aluno vai no primeiro site que acha. Então, geralmente é a Wikipédia que não é um site assim, muito confiável. [...] A Wikipédia é uma enciclopédia aberta, tem muita coisa boa, interessante, mas como qualquer pessoa pode contribuir, então nem sempre o conteúdo é correto. (J. M. M. - Brazlândia)
Então se você pensar na Wikipédia... A em espanhol, por exemplo, ela é bem mais interessante que a feita em português. Tem várias coisas que, assim se você perguntar 'o que é Marxismo?' e você comparar o conteúdo que é feito aqui em português como o que é feito em espanhol, em espanhol é mais interessante. Parece que eles têm uma proposta mais séria, vamos dizer assim, levaram mais a sério, mais pessoas levaram mais a sério e fizeram o conteúdo em espanhol mais interessante que o conteúdo em português. Aí eu vou dando essas orientadas assim pra, não é qualquer coisas que dá pra utilizar na Internet. (F. F. I. - Taguatinga) Mas muitas recomendações são vagas, tais como:
A orientação que eu tento passar pra eles é que esse material que eles tão pesquisando é uma manifestação da opinião publica ou de senso comum desse tema. E que a partir dessa manifestação eles têm que tirar uma conclusão. [...] A ideia pra mim é que eles saibam filtrar essas fontes. Eu dou as sugestões às vezes, 'essa fonte aqui é boa, vocês podem aproveitar bem, não usem tal coisa, não usem isso” assim. [E quais são os critérios
21 A mais famosa enciclopédia eletrônica que se tornou popular por adotar a produção colaborativa, cujo
pra classificar a fonte como boa e a fonte como não boa?] É mais a questão de linguagem que essa fonte utiliza. (C. A. B. - Planaltina) "Que eles coloquem a referência bibliográfica, que muitas vezes eles não colocam, e que sejam sites de confiança. [o que é um site de confiança?] Eles gostam muito de site de curiosidades, de bizarrices. Daí, eu já falo pra eles não pesquisarem nesses sites, mas é meio difícil fazer essa seleção do que é confiável do que não é. Eu acabo verificando sim, mas não é uma coisa muito fácil de ser feita não. Acaba que fica meio solto..." (J. A. - Paranoá)
Entretanto, orientações práticas para a execução de pesquisas bibliográficas, principalmente tendo a Internet como fonte de busca são dadas por 39% de professores. Alguns dependendo do tema sugerem ou passam uma lista de sites para realizar as pesquisas, sempre ou quase sempre. Apenas dois professores recomendam pesquisas em plataformas eletrônicas de produção acadêmicas como a Scientific Eletronic Library Online - Scielo22, bibliotecas universitárias e revistas eletrônicas. A maioria orienta que os alunos pesquisem em diferentes fontes e realizem uma seleção do material, fazendo leitura e síntese como forma de evitar o plágio.
Mas a forma que 22% de professores evitam o plágio é não solicitar trabalho digitado, solicitar apenas manuscrito ou não solicitar trabalhos em forma de texto, mas de apresentação oral. Entre os demais que solicitam trabalhos digitados, 15% não fazem qualquer exigência de apresentação formal dos trabalhos com formatação ou elementos textuais como introdução, desenvolvimento e conclusão. A maioria dos professores, 63%, exige dos alunos alguns elementos de formatação: espaçamento entre linhas, tamanho e tipo da fonte, alinhamento do texto, quantidade de linhas ou páginas e padronização da capa, além dos elementos textuais.
Entretanto, constatamos que apenas 29% dos professores que solicitam trabalhos com regras de formatação e elementos textuais orientam como os alunos devem proceder. Além de outros 18% apontarem que existe na escola uma matéria como Parte Diversificada (PD) que ensina questões metodológicas e de procedimentos formais de apresentação de trabalhos escritos. Todos os demais professores, 53% que solicitam tais formalizações nos trabalhos partem do princípio que os alunos sabem como proceder em cada caso.
Além desses trabalhos de pesquisa bibliográficas, encontramos 58% dos professores que pedem atividades de pesquisa extra classe desenvolvendo com os alunos algum tipo de pesquisa de campo. Destes, 57% solicitam pesquisas com aplicação de questionários, entre os quais alguns conseguem trabalhar tabulação e análise estatística junto com os alunos, outros não. Alguns professores, 36%, solicitam pesquisas sobre a opinião a temas de atores sociais de acesso fácil aos estudantes, cujas respostas são coletadas sem a necessidade de gravadores ou até mesmo de um roteiro previamente elaborado.
Mas, 29% solicitam pesquisa com entrevista gravada a partir de visitas a instituições e organizações relacionadas ao tema de interesse. A mesma proporção de professores também solicita trabalhos de pesquisa somente de observação ou de observação com registro visual através de fotografias. Verificamos então que do grupo de professores de Sociologia que solicita atividade de pesquisa de campo 43% pedem pesquisas só qualitativas, 21% pedem só quantitativas e 36% pedem tanto pesquisas quantitativas quanto qualitativas.
Nesse sentido, perguntamos a todos os professores de Sociologia se eles reservam algum momento no programa de conteúdos para ensinar métodos e técnicas de pesquisa e 70% afirmaram que sim, dos quais 42% são do sexo feminino e 58% do sexo masculino e 74% são professores efetivos do quadro de funcionários da SE/DF. Como o ano de 2012 foi atípico por causa de um longo período de greve dos professores, confirmamos entre estes que afirmaram reservar um momento do programa para ensinar conteúdos metodológicos que 68% conseguiram desenvolver o ensino desses conteúdos no ano letivo de 2012 até a data da pesquisa.
As aulas de métodos e técnicas de pesquisa são realizadas sobretudo entre os professores que realizam as pesquisas de campo. Um grupo de 32% dos professores que ensinam métodos realizam aulas teóricas sobre metodologias de pesquisa, apresentam técnicas e procedimentos de objetividade e distanciamento do objeto de estudo para validação dos instrumentos. Outro grupo composto pela mesma quantidade de professores ensina e orienta sobre a dinâmica do trabalho de campo, as abordagens e procedimentos necessários. Os demais afirmaram abordar conteúdos de aspectos metodológicos quando trabalham as teorias clássicas e então discutem as questões epistemológicas sobre objetividade e subjetividade científica.
Além do método de leitura, aula expositiva e exercícios, a adoção da exposição audiovisual é um método utilizado por 78% dos professores e o tipo de filme mais exibido é o longa metragem ficcional. Os outros recursos didáticos também comuns são os meios eletrônicos e revistas semanais de conteúdo jornalístico usados por 74% dos professores respectivamente; os filmes documentários são comuns à prática de 70% dos professores; a utilização de jornais impressos diários usados por 59% dos professores; a Internet é utilizada por 56% dos professores e 41% usam músicas.
Não encontramos informações relevantes quando cruzamos o uso de recursos didáticos com o perfil dos professores relativos à idade e à área de graduação. Entretanto, notamos a respeito do sexo dos pesquisados. As mulheres diversificam mais os recursos didáticos que os homens. Todas as mulheres usam filmes e documentários, apenas uma não usa recurso eletrônico e revistas, assim como apenas duas não usam jornal e a Internet. Em todos esses itens a proporção de homens que deixam de usar é bastante superior à das mulheres, somente com o uso de música que foi mais equilibrado. Apesar da questão de gênero não ser foco em nossa pesquisa, tal constatação constitui um elemento importante para subsidiar novas pesquisas sobre o uso didático das TIC's e gênero.
Apesar dos equipamentos eletrônicos ocuparem o terceiro lugar como recursos didáticos em sala de aula, os computadores são utilizados pela grande maioria dos professores para apresentar visualmente conteúdos na forma de slides ou, então, para tocar mídia de arquivos audiovisuais. A Internet que aparece em quarto lugar é usada nas aulas em sala para mostrar algum conteúdo de um site e no laboratório de informática para que os alunos realizem pesquisas bibliográficas. Constatamos que o computador e a Internet são superficialmente adotados como recursos pedagógicos, mas bem integrados ao conjunto das práticas docentes, como mostraremos adiante.