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5. Analysis

5.2. Attestation by John Wycliffe of Wycliffe, esquire (1446)

Procuramos saber dos professores de Sociologia a respeito da construção do programa de conteúdos que eles aplicam ao longo do ano letivo. Fizemos um levantamento das fontes de orientação que adotam e dos princípios que norteiam a divisão dos conteúdos pelas três séries do Ensino Médio. Nesse sentido, faremos apontamentos sobre o livro didático e apresentaremos a relação destes professores com as orientações curriculares oficiais do Ministério da Educação (MEC) e da Secretaria de Educação do governo do Distrito Federal (SE/DF).

Encontramos entre os professores de Sociologia pesquisados que 85% elaboram um programa anual de conteúdos de Sociologia, dos métodos e dos recursos didáticos. Entretanto, 83% repassam essa programação para a equipe de direção e coordenação pedagógica da escola, mas apenas 26% afirmaram que entrega a programação impressa para os estudantes.

Observamos também que 74% elaboram um programa bimestral mais específico sobre os conteúdos e método de avaliação que irá desenvolver no período. Esse programa é entregue por 35% dos professores à equipe de coordenação pedagógica e 50% afirmaram que informam a programação do bimestre aos alunos escrevendo no quadro da sala de aula no início do período.

Os professores constroem seu programa de conteúdos de Sociologia a partir de um conjunto principal de fontes de orientação curricular: as Orientações Curriculares da

SE/DF; as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM/MEC); e o livro didático. Secundariamente os professores se orientam a partir dos conteúdos solicitados pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília e pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM); além dessas fontes, observam alguns atributos dos alunos, das turmas e das séries para trabalhar conteúdos que correspondam a certo estágio de comportamentos e cognição que apresentam; consideram certos atributos da comunidade escolar com a preocupação de contextualizar o conhecimento sociológico; e, levam em conta fatos e acontecimentos que mobilizam a opinião pública, construindo um programa que permita abarcá-los quando são suscitados. Um conjunto menor de professores afirmaram ter como orientação o trabalho pedagógico coletivo da escola que estabelece um calendário para ser trabalhado com diferentes temas por datas; bem como, levar em conta os acordos de conteúdos para trabalhos interdisciplinares; e realizar pesquisas em livros, revistas e informações eletrônicas sobre técnicas didáticas.

As orientações curriculares oficiais do MEC e da SE/DF são adotadas de forma flexível e crítica. Os professores mesclam os conteúdos orientados com outros de sua preferência e adaptam ao contexto escolar e condições materiais e de trabalho com o qual lidam. Afirmam que existem deficiências como a quantidade de conteúdos que ora é vista como extensa, ora deixa de abarcar temas considerados importantes. O fato de 81% dos professores afirmarem que a falta de tempo para cumprir com o conteúdo previsto atrapalha de alguma forma sua prática pedagógica ilustra a relação entre a quantidade de conteúdos orientados anualmente e as condições de trabalho que compõem o cotidiano escolar.

Nas escolas de Ensino Médio, o ano de 2012 foi o primeiro em que a Sociologia foi contemplada com livros didáticos para distribuição entre os estudantes. Dois livros selecionados pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC (PNLD/MEC) participaram no ano anterior de uma avaliação pelos professores da matéria de cada escola para escolher um entre as duas opções. O livro Sociologia para o Ensino Médio de autoria de Nelson Dacio Tomazi18, bastante conhecido entre os professores da área desde sua versão inicial como Iniciação à Sociologia19 e pela atuação do autor nos debates sobre currículo e ensino de Sociologia na educação básica. O outro livro Tempos modernos,

18 TOMAZI, Nelson Dácio. Sociologia para o Ensino Médio. São Paulo: Atual, 2007. 19 TOMAZI, Nelson Dácio (coord). Iniciação à Sociologia. São Paulo: Atual, 2000.

tempos de Sociologia escrito por Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros20 que é mais recente no mercado editorial dos livros didáticos.

Observamos que 93% de professores de Sociologia adotam o livro didático com as turmas com as quais trabalham. Os outros 7% ou não tiveram o livro distribuído em sua escola ou apesar de ter sido distribuído para os alunos o professor não o adota como recurso didático. Entre os que adotam o livro didático, 56% trabalham com o livro do Tomazi (2007) e 40% com o da Bomeny e Freire-Medeiros (2010) e apenas um professor da EJA trabalha com livro exclusivo para o público, não mais distribuído nas escolas.

O livro Sociologia para o Ensino Médio é dividido em unidades temáticas sobre os processos econômicos, políticos e culturais que definem e moldam as relações entre indivíduo e sociedade. As atividades propostas são compostas de perguntas para respostas dissertativas a partir da interpretação de textos e aplicação de conceitos relativos ao capítulo estudado. O livro Tempos modernos, tempos de Sociologia inova no sentido de apresentar o conhecimento sociológico a partir das cenas do filme Tempos Modernos do diretor Charles Chaplin de 1936. Assim como traz exercícios que solicitam a interpretação iconográfica, a interpretação de letras de músicas e reúne questões de provas anteriores do ENEM.

Os professores apresentaram como uma preocupação escolher o livro que correspondesse às condições cognitivas dos estudantes com os quais trabalhavam. Procuraram escolher um livro em que a leitura dos textos fossem mais fáceis para a compreensão dos alunos. Os professores que adotam o livro do Tomazi (2007) 50% consideram-no satisfatório, 43% acham-no razoável e 7% pouco satisfatório. Os que adotam o livro da Bomeny e Freire Medeiros (2010) 10% consideram-no muito satisfatório e 40% satisfatório, outros 40% acham-no razoável e 10% insatisfatório. Nesse sentido, a maioria dos professores considera o conteúdo do livro que adota satisfatório ou razoável, atribuindo uma avaliação positiva em maior proporção ao livro didático.

A maioria das escolas haviam recebido o livro didático, porém foram distribuídos principalmente para os primeiros anos. Para as outras séries a alternativa encontrada para solucionar o problema foi trabalhar com um banco de livros retirados e devolvidos diariamente da biblioteca ou então continuar com a prática de elaboração de apostilas que era comum antes da distribuição do livro didático a partir do PNLD/MEC.

20 BOMENY, Helena. FREIRE-MEDEIROS, Bianca. Tempos Modernos, tempo de Sociologia. Ed. do Brasil

Os professores que adotam o livro didático e não fazem o programa anual dos conteúdos de Sociologia, afirmam usar seus capítulos sequencialmente, dividindo-os pelas três séries. Os professores que adotam o livro e fazem o programa de conteúdos, se embasam nas orientações curriculares oficiais e nas avaliações do PAS e do ENEM não usando o livro didático de forma sequencial, mas adequando seus conteúdos à essas orientações.

Alguns professores afirmam que o livro possui muitas lacunas como ausência de determinados temas de sua preferência ou que não atendem aos conteúdos orientados pelos currículos oficiais. A estratégia utilizada nesses casos é a confecção de apostilas para complementar o livro didático.

Entretanto, apesar da predominância dos livros didáticos, a maioria dos professores seguem as orientações curriculares da SE/DF. Mesmo os que não fizeram referência aos currículos oficiais indicaram uma direção de trabalho semelhante a ele. Os professores que dão aulas para os primeiros anos trabalham com os estudantes conteúdos de introdução ao conhecimento sociológico. Sobretudo, aparecem os conteúdos da história e surgimento da Sociologia como ciência e a apresentação dos clássicos. Émile Durkheim é o sociólogo clássico mais enfatizado no trabalho dos professores com os primeiros anos, assim como é o caso as teorias da socialização e cultura.

Os professores que dão aula para segundos anos afirmaram seguir as orientações da SE/DF, dos capítulos do livro ou uma perspectiva linear e cronológica dos conteúdos. Karl Marx é o clássico mais trabalhado, seguido de Durkheim. Os temas mais citados são desigualdades sociais, estratificação, mudanças e movimentos sociais. São frequentes as afirmações de que trabalham com os segundos anos no sentido de um aprofundamento nas teorias clássicas.

Com os terceiros anos há convergência em trabalhar com as Ciências Políticas e principalmente com o clássico Max Weber. Os professores consideram esses alunos com uma bagagem boa de conhecimento sociológico que permite a realização de reflexões mais críticas a temas considerados mais complexos.

[...] Já no terceiro eu posso pegar uma teoria sociológica mais complexa. Eu posso pegar, temas mais complexos como a questão de sexualidade, a questão dos movimentos sociais, dos movimentos políticos. A lógica política e social. Também a questão da tecnologia mesmo, de como a sociedade se relaciona com a tecnologia. E se possível também fazer o entendimento da sociedade brasileira. Dos processos sociais que

formaram a sociedade brasileira e como a sociedade está se movimentando atualmente. Agora no quarto bimestre eu estou pegando alguns trechos de obras clássicas da Sociologia brasileira. Já é uma tentativa de aprofundamento para alunos que estão à beira de uma universidade. Já estão se encaminhando para universidade ou seja, conceitos acadêmicos mesmo. Texto acadêmico, essas coisas todas que no primeiro e no segundo eu não me sinto na liberdade de fazer. Já com os terceiros eu sinto essa liberdade maior. Por isso eu gosto de trabalhar mais com o terceiro. (C. A. B. - Planaltina)

A divisão de conteúdos por série do Ensino Médio é realizada sobretudo a partir das orientações elaboradas no currículo oficial da SE/DF. Mas o fato dos professores pesquisados indicarem um caminho semelhante para trabalhar com os conteúdos sociológicos, parece contrariar a afirmação de Oliveira e Costa (2009) de que o descontínuo processo de institucionalização da Sociologia conduz à falta de tradição pedagógica da Sociologia na escola.

Observamos também que os conteúdos curriculares passam por uma seleção baseada em elementos subjetivos dos professores a respeito de temas, conceitos e teorias que gostam, preferem e dão conta de realizar diante das condições com as quais trabalham. Tais condições referem-se neste caso, às condições de tempo das aulas e carga horária, mas sobretudo, às condições comportamentais e sociocognitivas dos estudantes. Nesse sentido, os saberes curriculares dos professores de Sociologia apresentam-se permeados por saberes a respeito de como ensinar a matéria e, por isso, apresentaremos mais elementos de como trabalham os professores os conteúdos sociológicos, as aulas cotidianas e atuam no conjunto de possibilidades pedagógicas da escola.