3. DEN NORSKE REGIONALE MOBILISERINGEN
3.3 N ORSKE REGIONALE REPRESENTASJONSKONTORER I B RÜSSEL
Pelos princípios da educação inclusiva espera-se que as necessidades educacionais de todos os estudantes, com e sem deficiências, sejam atendidas. Neste sentido, é imprescindível que os professores sejam capacitados para atuarem para além dos papéis tradicionais – ensinar a disciplina na qual se licenciou – conferidos pelas titulações e certificados profissionais (KARAGIANNIS; STAINBACK; STAINBACK, 1999).
Atendendo a essa premissa, pela legislação nacional, na Educação Especial, seja na sala comum inclusiva ou no AEE e Sala de Recursos, é requerido dos professores a formação especializada, ao mesmo tempo em que o Estado se compromete em oferecer formação contínua ao corpo docente, com vistas, inclusive, à oferta da educação bilíngue aos estudantes surdos ou com deficiência auditiva (BRASIL, 1996, 2011). Entende-se que a formação especializada a que os textos legais mencionam é generalista, ou seja, os professores necessitam conhecer e atender a uma gama de necessidades educacionais especiais, o que abarcaria assim o AEE para a dupla condição, conforme pesquisas recentes vêm revelando a coexistência de duas condições no mesmo estudante.
Diante desse cenário, neste capítulo, os resultados da presente pesquisa serão analisados e discutidos em quatro seções, correspondendo às quatro questões de pesquisa que nortearam o estudo.
Existe prevalência de estudantes superdotados entre os estudantes surdos matriculados em escolas públicas e no Atendimento Educacional
Especializado no Distrito Federal?
Os resultados da pesquisa apontaram uma prevalência de 33% estudantes Surdos com características de superdotação na Rede Pública de Ensino do Distrito Federal.
Segundo o apontamento de Virgolim (2010), se considerada apenas a variável capacidade intelectual como habilidade superior, de 1 a 3% da população
será considerada superdotada. Em concordância com as teorias modernas de inteligência, de que essa habilidade não possa ser medida apenas por testes psicométricos e ao se considerar outras variáveis na avaliação da superdotação como, por exemplo, liderança, criatividade, competências psicomotoras e artísticas, as estatísticas aumentam, significativamente, para uma porcentagem de 15 a 30% da população geral, conforme estima Renzulli (2004, apud VIRGOLIM, 2010).
Dessa forma, se fosse considerada a população de 1.172 estudantes Surdos matriculados na Rede Pública de Ensino do Distrito Federal, segundo dados do Censo Escolar 2014(DISTRITO FEDERAL, 2014), 351 estudantes Surdos teriam a possibilidade de apresentar comportamentos de superdotação se considerado o percentual de 30% prospectado pelos especialistas da área.
Restringindo essa projeção à amostra de conveniência das cinco escolas participantes da pesquisa, dos 205 estudantes Surdos matriculados, 61 poderiam ter sido indicados pelos professores, por apresentarem características de superdotação, ou seja, 30% da população de referência. Contudo, houve a indicação de 16 estudantes entre os 205, correspondendo a 9,8%, um percentual acima do que aponta a OMS (1 a 3%), porém muito abaixo das porcentagens sugeridas por Renzulli (15 a 30%) e de acordo com a prospecção apontada pelos especialistas.
Por outro lado, ao se considerar o recorte metodológico dessa pesquisa, utilizando a seleção dentro do grupo, ou seja, a estratificação da amostra inicial de Surdos e a seleção da amostra final de conveniência a partir do grupo primário (grupo dentro do grupo), a prevalência estaticamente superior encontrada (33%) à prevista, também foi um fato evidenciado por Negrini (2009). A pesquisadora que, semelhantemente, pesquisou a superdotação em estudantes Surdos, mas adotou a estimativa proposta por Gagné, o qual considera que 10% da população seja superdotada ou talentosa, encontrou a prevalência de 25% de crianças com a dupla condição AH/SD-S, ratificando a prevalência superior à referência adotada. Por razões de delimitação da pesquisa, Negrini solicitou aos professores que indicassem até dois estudantes conforme a observação e avaliação realizadas por eles. Dessa forma, é possível inferir que se a indicação fosse livre de reservas, o percentual alcançado pudesse ser equivalente ao encontrado neste estudo.
A tendência de aumento do percentual de prevalência se confirma ao observar que mais estudos vêm revelando a superdotação em subpopulações, ou
seja, tem-se confirmado o fenômeno em populações com deficiência ou síndromes, evidenciando a dupla condição, em que as Altas Habilidades/Superdotação estão associadas a uma diversidade de condições, revelando o grande potencial do ser humano.
A falta de identificação da superdotação ou talento em estudantes com condição paradoxalmente divergente da superdotação talvez advenha da desconfiança ou descrédito do potencial desses estudantes, em virtude da condição de deficiência ou outra qualquer incompatível com AH/SD. Essa problemática é o que Guenther (2011) alerta. Para ela, sem o devido olhar ao potencial dos estudantes com deficiência, a capacidade pode passar despercebida pela preocupação elevada à condição de diferença, deixando, o indivíduo de receber a devida ajuda para o desenvolvimento de seu potencial.
Corroborando essa perspectiva, Ourofino (2005) argumenta que diante de uma dificuldade de aprendizagem, transtorno, deficiência ou diferenças comportamentais, os professores que ensinam a crianças superdotadas têm dificuldades de reconhecerem aspectos positivos e de potencial de seus estudantes. Tal argumento é convergente à perspectiva de Rangni (2012). A pesquisa revelou que um dos professores, informalmente, lhe indagou a respeito da existência de inteligência elevada nos estudantes Surdos. Situação semelhante foi vivenciada durante a realização desta pesquisa. Ao entregar os instrumentos preenchidos à pesquisadora, alguns professores apresentaram a mesma indagação, como se duvidando do potencial intelectual dos estudantes, pelo fato de serem Surdos. Uma clara sinalização de que, para esses professores a Surdez é uma deficiência limitadora, não a concebendo por uma diferença, principalmente, linguística.
Essa análise é fortemente reforçada ao comparar o número de indicações por professores ouvintes e Surdos. Apesar de a maioria dos professores terem declarado ter estudantes Surdos que se destacavam em relação aos demais, esse grupo não indicou nominalmente nenhum estudante. Aqueles que indicaram, o fizeram identificando um ou dois estudantes. Quem mais obteve destaque pelo número de indicações foram os professores Surdos, os quais identificaram de quatro a cinco estudantes, sendo deste grupo de indicados, os três confirmados como superdotados pelos critérios desta pesquisa.
É importante ressaltar que o maior número de indicações adveio de uma escola específica para Surdos. Acredita-se que em virtude do corpo discente apresentar características semelhantes, viabilizou aos professores melhores condições para detectar os comportamentos que se destacavam em relação à média. Outra hipótese é de que, tendo suas necessidades educacionais atendidas em relação às estratégias pedagógicas inclusivas, o potencial se evidencie com maior destaque à pessoa Surda.
Nessa perspectiva, Ourofino (2005), investigando a dupla condição Superdotação e Hiperatividade, concluiu que à medida em que as dificuldades e ou necessidades associadas à condição de transtorno, deficiência ou diferenças que colocam o indivíduo diante de barreiras no processo educativo são superadas, as altas habilidades ou comportamentos de superdotação também passam a emergir.
Situação empírica semelhante à vivenciada por Negrini (2009). Na escola em que se realizou sua pesquisa, também era específica para educação de Surdos, e alcançou como resultado a prevalência da dupla condição superior à estatística utilizada. Contudo, ao contrário deste presente estudo, na pesquisa de Negrini, a observação e avaliação das características de superdotação foram realizadas pelos professores ouvintes, mesmo que solicitada, pela pesquisadora, a participação dos educadores Surdos nesse processo. Ainda assim, o resultado alcançado por Negrini (2009) a possibilitou concluir que na escola específica de educação de Surdos, a manifestação das habilidades e expressão da cultura e da língua são estimuladas a serem expostas de diferentes maneiras. Rangni (2012) complementa essa análise ponderando que a escola regular é um ambiente difícil para os estudantes Surdos, e este fato somado à falta de conhecimento sobre a AH/SD ou desvalorização das capacidades desses estudantes, tais aspectos podem inibir o reconhecimento do potencial e consequentemente a falta de identificação. Talvez esse conjunto de fatores tenha afetado o resultado de sua pesquisa. Essa pesquisadora não encontrou o resultado de prevalência próximo aos 10% estimados pelo modelo desenvolvido por Gagné, seu referencial teórico.
A indicação em maior número de estudantes Surdos com características de AH/SD por professores também Surdos, talvez se explique pelo fato de que eles ultrapassaram a visão clínica e patológica da Surdez, concebendo-a por uma diferença, como uma experiência visual que lhe confere uma identidade
multifacetada (SKLIAR, 2010). E por essa forma de se analisar, identificam, em sua comunidade de pares, potenciais que para os outros podem ser sobrepostos pela condição de deficiência.
Por outro lado, o instrumento da SEDF, que serve para o professor indicar um estudante com comportamento e características sugestivos de superdotação, não cogita a existência da dupla condição. Entre o texto de esclarecimento acerca da superdotação e as questões orientadoras à observação, não se menciona a existência de subpopulações com superdotação, e dessa forma o observador (aquele que preenche o formulário) não desperta sua atenção para observar tais características em estudantes que já possuem outra condição de diferença.
No item 8 do referido formulário é indagado quanto à existência de outro diagnóstico e em caso afirmativo solicita-se o laudo ou relatório. Observa-se nessa análise documental que esse questionamento aparece no final das solicitações da observação/avaliação e de modo desarticulado do restante dos itens, não possibilitando ao professor refletir sobre uma possível dupla condição vivenciada pelo estudante. O fato de o item estar posicionado no final do instrumento não estaria representando uma estratégia de desligamento do AEE AH/SD, caso o estudante indicado apresente uma condição paradoxal à superdotação, conforme apontou Tentes (2011) ao investigar superdotados e superdotados underachievers? A redação do item não favorece a compreensão quanto à existência da dupla condição, além de direcionar a observação para o aspecto da detecção de uma situação de desfavorecimento do que conceber o potencial em mais uma condição de diferença.
Quais as características do estudante superdotado surdo falante da Língua Brasileira de Sinais?
De acordo com os resultados alcançados, a partir da visão dos professores, os estudantes demonstram suas habilidades gerais ao apresentar facilidade no processamento de informações e emitir respostas apropriadas e contextualizadas. Consideraram ainda, de uma maneira geral, que esses estudantes não apresentam, significativamente, habilidades de raciocínio lógico-matemático; característica essa apontada somente a dois estudantes. Os estudantes, segundo os professores, são
criativos por apresentarem independência e autonomia de pensamento e; motivados por ocuparem seu tempo de forma produtiva sem estimulação externa. De forma geral, pelo número de características declaradas, para os professores os estudantes são mais criativos do que habilidosos intelectualmente. A percepção dos professores foi confirmada pelos resultados apresentados nos testes dos estudantes. Os resultados “acima da média” no conjunto de três traços foram semelhantes para criatividade e motivação e menor para capacidade intelectual.
Esse dado remete à preocupação de Sacks (2010) em relação à não percepção da capacidade intelectual do Surdo, pela ausência da língua e consequente impedimento à demonstração de seu pensamento. Todavia, nesse caso, aos estudantes já foi proporcionado o contato com a língua de sinais e eles se comunicam por ela; então não existem barreiras para que eles exponham suas ideias, conhecimentos e capacidades. O que nos permite levantar questionamentos acerca do conhecimento linguístico de Libras dos professores. Será que a comunicação estabelecida entre professores e estudantes Surdos proporciona o alcance, em profundidade, da mensagem transmitida por aqueles que têm a língua de sinais como primeira língua? A partir desse dado, também se pode estabelecer a relação com o número de estudantes surdos indicado por professores ouvintes e Surdos. Os professores pares dos estudantes – Surdos – identificaram um número maior de potenciais.
Negrini (2009) chegou a resultados similares, pois notando que o ambiente de pesquisa voltava-se à valorização da cultura Surda, da experiência visual dos estudantes e das diferentes maneiras desses exporem suas habilidades, concluiu que algumas habilidades poderiam ser mais estimuladas e desenvolvidas como, por exemplo, as relacionadas à expressão em língua de sinais e linguagem corporal, do que outras como a lógico-matemática.
Analisando as três características mais indicadas pelos professores, todas se relacionam com a questão linguística: processamento e emissão de respostas, pensamento autônomo e uso proveitoso do tempo, sem estimulação externa. As três características convergem para o uso da língua, que no caso dos Surdos, é privilegiada no processo educativo. Tanto o pensamento e a resposta como o estímulo externo perpassam pela linguagem, necessitando para as três ações a mediação da língua de sinais.
Assim, as características apontadas pelos professores não poderiam ser diferentes, uma vez que o instrumento utilizado é o mesmo aplicado no processo de indicação de estudantes ouvintes. Não se propôs a adaptação do instrumento, justamente para se oportunizar a identificação das semelhanças ou diferenças entre as características de grupo específico. Dessa forma, mesmo utilizando um instrumento elaborado a partir da perspectiva de estudantes ouvintes, foi possível notar a forma como os estudantes Surdos são percebidos por seus professores.
A análise que se faz aqui é bastante semelhante à realizada no trabalho de Negrini (2009) a qual também concluiu que o processo de identificação dos indicadores de AH/SD em estudantes Surdos é similar ao processo com os ouvintes, pois as características são pessoais e individuais, contudo essa pesquisadora ressaltou a necessidade de se atentar para o contexto em que os estudantes Surdos vivem. Dessa forma, Negrini adaptou o instrumento que serviu à observação e avaliação dos professores para indicação dos respectivos estudantes, os quais consideraram apresentar características de superdotação. Assim, foram adaptados somente os itens relacionados à observação do talento verbal, com o objetivo de dar maior atenção à questão linguística e cultural dos Surdos, requerendo para isso, acrescentar um item para a observação da expressão corporal, como forma de comunicação.
Contudo, diante da escassez de literatura especializada, Rangni e Costa (2011 apud RANGNI, 2012, p. 37) apresentaram as seguintes características para a pessoa com a dupla condição AH/SD-S:
capacidade para ajustar à escola regular; capacidade na fala e leitura sem instrução; rapidez no domínio das ideias; capacidade de raciocinar; alta performance na escola; muitos interesses; maneira não tradicional de absorver problemas; capacidade de resolver problemas do dia a dia, possivelmente em alto nível; atraso em conhecimento de conceitos; autoiniciativa; senso de humor; intuição; engenhosidade em resolver problemas; capacidade em linguagem de símbolos.
O processo de elaboração dessa lista de características não foi esclarecido pelas autoras. Ainda assim, esse conjunto de características foi utilizada para comparar essas características com as apresentadas pelos estudantes Surdos indicados na presente pesquisa. As características listadas (humor, raciocínio rápido, solução de problemas, interesses múltiplos, rapidez no domínio de ideias,
autoiniciativa, fala e escrita, escrita sem instrução e capacidade de raciocinar) demonstraram compatibilidade às declaradas pelos professores em relação aos estudantes indicados, que por sua vez reforçam as características delineadas aos superdotados em geral.
Em relação às áreas de habilidades específicas, conforme apontado na literatura, a superdotação acadêmica, por ser mais fácil de ser identificada, (RENZULLI, 2004; ALENCAR, 2001) foi a que mais recebeu indicações, quando comparada às áreas de talento ou psicomotoras.
Existem diferenças entre as características dos superdotados surdos e as características dos superdotados apontadas pela literatura?
As características de superdotação identificadas nos estudantes Surdos são semelhantes às identificadas em ouvintes superdotados. No entanto, essas características, muitas vezes despercebidas pela falta de conhecimento e atenção à pessoa Surda. Por esse motivo, foram utilizados os instrumentos da SEDF e testes psicométricos que possibilitaram a avaliação dos estudantes com vistas à indicação de AH/SD.
O processo de identificação das características e os instrumentos utilizados foram os mesmos que os comumente aplicados aos ouvintes, e, por isso, as características mencionadas como sendo específicas à dupla condição AH/SD-S foram equiparadas às elencadas da superdotação, haja vista não terem sido verificadas distinções significativas entre as duas condições AH/SD-S e AH/SD.
Contudo, da mesma forma como os ouvintes podem ser reconhecidos nas áreas de linguagem (ALENCAR, 2001), os estudantes Surdos também o foram, com uma pequena diferença. Os ouvintes são referenciados pelo vocabulário avançado pela idade ou série em sua primeira língua (L1) ou em língua estrangeira (L2) e dessa forma o instrumento utilizado está preparado para ser respondido. Para os estudantes Surdos as referências são outras.
Conforme mencionado no Capítulo de Revisão da Literatura, a L1 do estudante Surdo brasileiro é a Libras, a L2 a Língua Portuguesa e L3 a língua
estrangeira aprendida. Essa possibilidade de análise não é favorecida, o que demonstra a necessidade de adaptação, visando privilegiar sua aplicação em futuros processos de identificação a estudantes Surdos, quanto ao potencial dirigido a códigos de linguagem.
A habilidade acadêmica em Língua Portuguesa foi destacada nas indicações dos professores. Todavia, para o contexto social e educacional do estudante Surdo, essa habilidade abarca mais um diferencial, pois é destacada do ponto de vista da modalidade escrita e como segunda língua. Para evidenciar a habilidade em linguagem, de proficiência linguística em sua L1 (Libras) não há qualquer menção no instrumento, ratificando o entendimento de que ele não foi elaborado para ser aplicado em um grupo tão diverso. A falta dessa referência no instrumento também implicará, futuramente, a expansão do ensino de Libras à sociedade, de forma a que ouvintes sejam identificados como habilidosos em língua sinais.
Nessa direção, entre as opções de indicações na área acadêmica, a habilidade linguística, em L1, foi indicada pelos professores de diferentes formas, como, por exemplo, ao declarem que dois estudantes apresentavam vocabulário avançado e fluente para a idade e ainda pela palavra “expressão” referenciada inúmeras vezes como sendo uma característica de destaque, todas associadas ao ato de comunicar-se, apresentar-se em público ou de expressar ideias.
Uma característica da área de talentos também pode estabelecer a diferença entre as tipicamente de Superdotados ouvintes e Superdotados Surdos: a habilidade musical. Alencar (2001) menciona que, segundo alguns estudiosos, a habilidade musical deveria ser identificada a partir de cinco aspectos: percepção, memória, reprodução, gosto e aptidão artística. Todos esses aspectos requerem percepção acústica para assimilação do som, reprodução e colocação da emoção de forma criativa. Mas como Skliar (2010) aponta, essa é uma habilidade que não faz parte da experiência visual, que o Surdo vivencia, haja vista requerer a percepção acústica. Dessa forma é compreensível que não tenha sido indicada tal habilidade para os participantes desta pesquisa.
Contudo, Marques (2008) considera a possibilidade de os Surdos perceberem a música, não pelos aspectos audíveis, mas pelo tato. Segundo esse pesquisador – que é Surdo – ressalta, a música, pela perspectiva sonora, revela o antagonismo do contexto surdo e não-surdo, silêncio e som. Por isso, Marques propõe que a música
seja trabalhada a partir das possibilidades que o próprio corpo permite: a percepção da vibração do som. A música pode ser sentida ao invés de ouvida. A partir dessa concepção, não seriam os Surdos os que têm um impedimento, mas seria a música a ter mais um canal para se revelar, manifestar.
Assim as duas características que demonstram existir diferença entre Superdotados Surdos aqui estudados e os superdotados descritos na literatura dizem respeito à singularidade da pessoa Surda, quais sejam a ausência da percepção sonora e habilidade linguística de modalidade gesto-viso-espacial.
Qual a perspectiva educacional para o atendimento educacional do estudante com dupla condição (AH/SD-S) com base na preparação do
professor e percepção da superdotação pelos estudantes Surdos?
Para além de uma pura e simples representação numérica, os resultados obtidos com o presente estudo permitiram vislumbrar algumas implicações relativas ao Atendimento Educacional Especializado. Pela perspectiva educacional inclusiva, todas as necessidades educacionais dos estudantes devem ser supridas pela escola. O estudante Superdotado Surdo passa a ter necessidades associadas a ambas as condições que carecem de atendimento para o pleno desenvolvimento de seu potencial. Nessa perspectiva, o estudante, além do atendimento previsto para suas necessidades relacionadas à Surdez, passa a exigir também, o processo inclusivo relativo à AH/SD, implicando o direito de frequentar a Sala de Recursos das AH/SD.
Considerando que o trabalho realizado na Sala de Recursos para estudantes superdotados visa “o aprofundamento e o enriquecimento do processo de ensino- aprendizagem, assim como a criação de oportunidades para trabalhos independentes e para as investigações nas áreas de habilidades e talentos” (SABATELLA, 2008, p. 191), questiona-se como esse trabalho seria realizado com o estudante com a dupla condição AH/SD-S, sendo ele linguisticamente diferente e culturalmente, por professores que não têm a formação adequada com relação à segunda condição (Surdez) e ainda não falam sua língua (Libras).
Porém, conforme apontaram os resultados, as Salas de Recursos estão preparadas, do ponto de vista da formação dos professores, para atuar
especificamente na área de Surdez ou na de Altas Habilidades/Superdotação. Os