No decorrer do texto temos usado o termo composto olhar/experiência e exemplificado, indiretamente, com alguns exemplos no campo da arte. No entanto será necessária uma melhor compreensão do que significa “olhar” para apreender este termo. Se como prescrito, a opacidade, a perda, nos traz a possibilidade de novos modelos conceituais que favorecem o movimento experencial é porque ela se assemelha ao olhar de Édipo e de Tirésias que, embora cegos, conseguem vislumbrar o passado e o futuro no presente. O olhar se estende para o invisível, para os olhares limites que jamais aceitam o mundo tal qual é, mas como poderia ser, onde se questionam os limites entre o eu e o outro; entre interior e exterior. Devemos pergunta-nos de que modo esse olhar pode se constituir que permita um acoplamento direto da experiência.
Vocês verão que as vias pelas quais ele [Merleau- Ponty] nos levará não são apenas da ordem da fenomenologia visual, pois elas chegam a reencontrar – aí está o ponto essencial – a dependência do visível em relação àquilo que nos põe sob o olho de que vê. Ainda é dizer de mais, pois esse olho é apenas a metáfora de algo que melhor chamarei de o empuxo daquele que vê – algo de anterior a seu olho. [...] é a
64 DEUTSCHE (Ibid, p. 318). 65 KWON (1997).
66 ECO (2005, p. 136-148).
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preexistência de um olhar – eu vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte68
.
Na opinião de Antonio Quinet69 há, como Lacan definiu, a pré-existência de um dado-a-ver, o que significa que, na relação inicial com o mundo algo é dado-a- ver àquele que vê. A contribuição de Lacan a questão do olhar é decorrente de seu pensamento: se “sou” constituído pelo Outro, o lugar do Simbólico, que já existe antes do “meu” nascimento é porque existe uma relação dialética entre ambos e é justamente nesse campo, o campo escópico, que o olhar se desenvolve, instaurando dita relação entre ambos.
Em nossa relação às coisas, tal como constituída pela via da visão e ordenada nas figuras da representação, algo escorrega, passa, se transmite, de piso para piso, para ser sempre nisso em certo grau elidido – é isso que se chama olhar70.
A partir do gráfico usual renascentista Lacan71 desenvolveu um esquema representativo da Visualidade segundo os conceitos por ele desenvolvidos.
Deste modo teremos: primeiro o esquema visual - o “cone da visão” - da perspectiva que representa o olhar renascentista, de janela, de ponto de vista do sujeito que vê a cena; perspectiva como desenhada por Brunelleschi, Dürer e Alberti72 e predominante na modernidade:
Gráfico 4 – Gráfico usual renascentista
68 LACAN (1985, p. 73). 69 QUINET (1997). 70 LACAN (op. cit. p. 74).
71 Ver LACAN (Ibidem, p. 90-115); LACAN (1973) apud FOSTER (2001, p.142). 72 VANIER (2005, p. 46). SUJEITO Ponto Geometral: o lugar da visão do sujeito OBJETO Parte do Mundo IMAGEM
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Quando Lacan, ao se referir que o sujeito é olhado pelo mundo, coloca este sujeito na situação de objeto (como se fosse um quadro, cumprindo a função quadro, função puntiforme, evanescente). Ou seja, num sentido contrário ao “cone da visão”, surge outro cone com o vértice do lado de lá, do lado da cena, e a base voltada para os olhos. Neste vértice emana um ponto de luz (objeto, uma “parte” do mundo) ou seja, aquilo que me atrai e me permite vê-lo; o que Lacan chama de A Mirada. Este segundo cone organiza, estrutura a cena e chama-se “cone do olhar”.
Gráfico 5 – Esquema visual lacaniano – o cone da visão
No “cone do ver” o plano da Imagem situa-se entre o olho e o objeto. No “cone do olhar” é a Tela o intermediário.
Lacan superpõe ambos os cones, representado com o esquema seguinte que, com algumas indicações elucidativas, permite uma boa compreensão desta conceitualização.
SUJEITO/IMAGEM
Sujeito sendo olhado por A Mirada desde o Ponto
de Luz PONTO DE LUZ Desde onde A Mirada, no mundo, me olha TELA
Acervo cultural das imagens, códigos,
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Gráfico 6 – Esquema visual lacaniano
O significado de Tela se refere à reserva cultural de que cada imagem é um exemplo. É o lugar das convenções da arte, dos esquemas de representação, dos códigos da cultura visual.
Esta Tela é mediadora entre A Mirada do objeto para o sujeito ao mesmo tempo em que protege este sujeito desse olhar, ou seja, capta o olhar pulsante, deslumbrante e espalhado e o domina até convertê-lo em imagem73.
Para apreender este olhar/experiência, podemos dizer que as mudanças que transcorrem nos campos sócio-históricos e lingüístico-simbólicos, resultam de uma série de novas conceitualizações desses espaços, que se apresentam diretamente ligadas às relações que, no exercício de nossa humanidade, se manifestam. Experiências que se constituem e se revelam através do entre jogo do olhar.
A mediação que o ser humano pode fazer entre ele e o mundo o diferencia dos animais (que estão no mundo mostrando-se capturados em A Mirada do
73 FOSTER (2001, p. 143, tradução nossa). A MIRADA como Objeto Lugar do Real SUJEITO como Imagem/quadro Lugar do Imaginário IMAGEM/TELA/VÉU Lugar de mediação. Espaço de ver e fazer imagens.
Acesso ao Simbólico
Campo escópico
Constituído a partir do lugar onde localizo o ponto em que se mira, o alvo-objeto. Espaço ou oportunidade para um movimento (atividade ou pensamento desimpedido).
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mesmo) por ter a capacidade da reflexão74. Reflexão considerada como uma função
intelectual que lhe permite o acesso ao Simbólico (Tela) por meio do Véu75, onde
pode manipular e dominar a Mirada, negociar uma deposição, uma desistência. Ver sem a Tela e o Véu seria estar cegado por A Mirada e tocado pelo Real. Ver através deles, é formar uma imagem atropopeica76, que afasta e protege. Esta detenção de A Mirada, segundo Lacan 77 quando é apolínea forma uma imagem
[moderadora], que aplaca e relaxa o espectador de seu desejo de tocar o Real que, neste caso, resultaria na formação de uma imagem dionisíaca [dominadora] que se sustenta na ordem imaginária quando “parece” que a asseguramos.
Para Didi-Huberman78, aluno de Lacan, a “imagem” não é a imitação das coisas, icônica, mas sim um “intervalo” traduzido de forma visível, a linha de fratura entre as coisas. É o lugar da cisão, da esquize, do solo fértil da heurística, das aproximações e semelhanças, onde à medida que novas tensões se instauram a imagem-obra se transforma em outra. O modelo dialético coloca o saber em movimento e recusa a idéia de continuidade. Faz-se de sobrevôos, de deslocamentos fundamentando-se na análise dos rastros. Um movimento onde tudo é anacrônico, um exercício de resignificar o mundo onde o leque do tempo se abre, se expande dando novos sentidos ao que vemos, não para cristalizar este sentido, mas para reconduzir a cisão, despertar o desejo e estimular a experiência.
O espaço onde se encontram “o agora” e o “não mais agora” representa a imagem e está sempre impregnada de tensões que o observador desperta a partir de seu presente. Imagens como um real-possível, um entre-dois.
Segundo Alberto Manguel
As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens, alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo, experiência, questionamento e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos79
.
74 “Husserl considera o ato reflexivo como a mais importante capacidade do ser humano e atua de
maneira diferente nas diversas culturas” (ALES BELLO, 2004, p. 56-57).
75 “Esta tela-véu também é chamada de peneira justamente porque lhe permite ao sujeito desde o
ponto da imagem contemplar o objeto no ponto da luz” (FOSTER, 2001, p.143).
76 Atropopéico: que tem poder de afastar (uma influência maléfica, uma desgraça etc.) In: Dicionário
Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0.
77 LACAN (1973) apud FOSTER (2001, p. 144, tradução nossa). 78 Ver: DIDI-HUBERMAN (2005).
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No campo escópico, tudo se articula entre dois termos que funcionam de maneira antimônica – do lado das coisas há o olhar, quer dizer, as coisas têm a ver comigo, elas me olham, e com tudo eu as vejo. Neste sentido é que é preciso entender a palavra martelada no Evangelho – Eles têm olhos para não ver. Para não ver o quê? – justamente que as coisas têm a ver com eles, que elas os olham80.
Essas imagens se apresentam a nossa consciência instantaneamente, como um lampejo que destrói nossas certezas num instante nos deixando de frente com o que faz enigma. Há aqui uma referencia a Lacan81
quando conceitualiza que num quadro podemos notar a ausência que nos faz perceber que o olhar não é visto, e sim imaginado por mim no campo do Outro.
Cada um de nós trama seu Véu (nossa realidade) com os fios do Imaginário e do Simbólico. Imaginário formado pelo conjunto de imagens ideais que guiam tanto nossa relação de indivíduo com nosso ambiente próprio, quanto o desenvolvimento de nossa personalidade. Simbólico (que “nos pertence”: o dos significantes – aqueles que unem um conceito a uma imagem acústica - adquiridos num tempo sócio-cultural determinado) para inserir uma descontinuidade, um novo sentido, na Tela do Simbólico instituído (o da Cultura, da Lei, da Ordem que determina os lugares que cada um pode ocupar na vida social no mundo).
A navete, utilizada para tramar, será o jogo da experiência desenvolvido como um anteparo de proteção para não sermos atingidos livremente pelo Real, que não é a dimensão da experiência imediata e sim uma imediatez inalcançável.
É deste jogo, do visível-indizível-dizível, que nosso olhar/experiência ira se reconstituindo continuamente.
Você está numa tenda. Do lado de fora, é uma grande imensidão gelada. É uma desolação urrante [...] Há ruínas também, muitas ruínas [...] Há arbustos espinhosos, árvores retorcidas, muito vento. Mas você tem uma pequena vela em sua tenda. Você pode se manter aquecido. Muitas coisas estão urrando lá fora na desolação urrante. Muitas pessoas estão urrando. [...] O barulho é ensurdecedor. Também é assustador. Os urros estão se aproximando de você, de sua tenda, onde você está agachado em silêncio, torcendo para
80 LACAN (1985, p.106) 81 LACAN (op. cit.).
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não ser visto. Você está assustado por si mesmo, mas especialmente por aqueles que ama. Você quer protegê-los, quer juntá-los dentro de sua tenda como medida de proteção.
O problema é que sua tenda é feita de papel. Papel não irá impedir a entrada de nada. Você sabe que precisa escrever nas paredes, nas paredes de papel, na parte interior da tenda. Você precisa escrever de baixo para cima e de trás para frente, precisa cobrir todo o espaço disponível tem de descrever os urros que soam do lado de fora no papel. Parte da escrita tem que descrever os urros que soam do lado de fora [...] é difícil porque você não consegue ver através das paredes do papel e, portanto, não pode ser exato acerca da verdade, e não pode ir lá fora, no meio da desolação, para ver por si mesmo. Parte da escrita tem que ser sobre as pessoas que você ama e a necessidade que sente de protegê-las, e isso é difícil porque nem todas elas conseguem ouvir os urros do mesmo jeito que você, elas não querem ficar presas num espaço apertado com você e sua pequena vela e seu medo e sua irritante obsessão com caligrafia, uma obsessão que não faz sentido para elas, e fica tentando escapar por baixo das paredes da tenda.
Isso não o impede de escrever. Você escreve como se sua vida dependesse disso, a sua vida e a vida delas. Você imprime em taquigrafias suas personalidades, suas feições, seus hábitos, suas histórias; você muda os nomes, é claro, porque não quer criar evidencias, não quer atrair o tipo errado de atenção para essas pessoas que você ama, algumas das quais - você está descobrindo agora – não são pessoas, e sim cidades e passagens, lagos e roupas [...] você não quer atrair os urradores, mas eles são atraídos assim mesmo, como que pelo faro: as paredes da tenda de papel são tão finas que eles podem ver a luz de sua vela, podem ver sua silhueta e, naturalmente, ficam curiosos porque você pode ser sua presa [...] Você é muito visível, você se traiu.
Porque você acha que essa sua escrita, essa grafomania numa caverna frágil esses rabiscos de um lado a outro e de cima abaixo das paredes do que está começando a parecer uma prisão, é capaz de proteger alguém? Isso é ilusão [....] O vento entra, a sua vela cai e lança uma labareda, e uma aba solta da tenda se incendeia, e pela abertura enegrecida você pode ver os olhos dos urradores [...] mas você continua escrevendo porque o que mais você pode fazer?82
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