Se há uma função do artista hoje, esta será determinada em relação da situação sócio-política-cultural. Situação como “lugar” para desenvolver uma estética que possibilite a partilha-comunitária (Maffesoli); a construção de mundos possíveis (Bourriaud; Deleuze-Guattari); a emergência de pequenas ecologias culturais (Laddaga) numa realidade que parece ter aberto vários “buracos” na Tela por onde penetra o Real (Tela que é o suporte de nossa realidade simbólica, já que esta Tela se constitui para nos “proteger” do Real). Perante esta situação os artistas deveriam “mirar” ao sesgo, obliquamente, como coloca Zizek139
.
Sesgo como um “deslocamento” do ponto de vista que nos permite sair do “meu centro”, deslocar “meus referentes”, ir pelas bordas ou pelos interstícios, para ficarmos atentos e praticar outros mundos dando atenção a vozes silenciadas que sempre estiveram presentes. Mas sesgo é também um erro sistemático que quando aparece na ordem social afeta nossas interações sociais. Permanecer atentos será por tanto, olhar duplamente “ao” sesgo e “o” sesgo.
Para Zizek140
confrontar as obscenidades [obs-cenidades] do capitalismo da abundância requer uma transformação da imaginação ético-política. Não elaborar diretrizes éticas, mas desenvolver e fazer uma politização da ética, um modo de conduzir-se, uma ética do real no aqui-agora próximo, o que significa uma transformação da “prática” ético-política. Como seres humanos, somos responsáveis por nossos atos, inclusive a construção do sistema capitalista. Esta ética emerge sempre que transgredimos as normas na descoberta de novas direções, que envolvem mudanças “traumáticas”; o real num autêntico desafio ético que se dispõe
139 ZIZEK (2006). 140 Idem, Ibidem (p. 28).
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a arriscar o impossível, no sentido de romper com posturas padronizadas, impositivas e aniquilantes.
Interessante é destacar que, artistas atuais cientes desta condição, realizam suas práticas artísticas com ênfase na construção da realidade, seja esta Concreta ou Virtual (por meio das tecnologias). Ambas são relacionais e colaborativas, se realizam com a participação indispensável do outro. Por este motivo podemos falar também, numa arte com visão de paralaxe, de co-existência de dois pontos de vista para designar o mesmo. Equivale a dizer que, entre o Eu e o Outro, uma zona dialógica se desencadeia capaz de dar um novo sentido à realidade. Os processos artísticos contemporâneos buscam estremecer os conceitos antes aceitos como arte e através deles os artistas procuram esburacar as certezas do discurso instituído141 na tentativa de se verem livres da especificação que faz da arte um “bem-produto” (um bem valorativo) que obedece às leis do mercado.
Se a ética está para além da moral, não deve obedecer a imposições sociais super-egóicas e sim se “presentificar” como uma reflexão consciente sobre o modo de “fazer” no tempo vivido. Devemos perguntar-nos “como” nos dias atuais podemos fazer isto tendo em mente que, a ética do real (ou ética real) significa que não podemos confiar em nenhuma forma de Outro simbólico que endosse nossas (in)decisões e (in)ações, de acordo com Zizek142
, lembrando que Lacan considerava, como bom filósofo, que a realidade não é o que está fora, mas sim, o que cada um de nos aceita como realidade.
O conceito de tempo, empregando o pensamento de Linker, que cinde e fragmenta o contexto real de vida, se experimenta como a verdadeira vida, como uma segunda natureza. Desta maneira nos possibilita ficarmos atentos para não sermos coptados pelo sistema, para permanecermos cientes de nossa responsabilidade no coletivo, no “estar junto com”, no “estar em comum”, onde praticamos nossa alteridade, onde tem lugar a existência além de nós mesmos e onde viabilizamos os processos de mudança.
A relação do artista com o tempo no qual ele se manifesta é sempre contraditória. É sempre contra as normas reinantes, normas políticas, por exemplo, ou até mesmo esquemas de pensamento, é sempre
141 Como o demonstra a quantidade de textos de artistas escrevendo sobre o como, e os porquês de
seus trabalhos e os escritos de teóricos tentando organizar numa série de estéticas estes modos de ver e fazer arte.
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contra a corrente que a arte tenta operar novamente seu milagre. [...] Diante dessa espécie de seringa que, se eu divagasse, me pareceria um tipo de aparelho para tirar sangue do Graal é precisamente o que, no Graal, falta143.
Sabemos que os valores se solidificam com o tempo, mas esses valores foram resultado de dinâmicas, de acordo com Laddaga144, que se orientam numa certa direção, através de idéias gerais que serviram para organizar e generalizar dados numa situação determinada e que tiveram a capacidade efetiva de reorganizá-la e, deste modo, induzir uma precipitação mais ou menos rápida num entorno; mas quando essas idéias se consolidam e “iluminam” um campo de instituições e de práticas estamos ante algum tipo de “cultura de”.No caso da Arte, não se institui mais como Esfera Cultural, mas sim como cultura da arte explicando desse modo o campo das próprias práticas e das instituições145.
Certamente durante um tempo, esta “cultura da arte” responderá com êxito aos interesses do contexto, logo já normatizada, provocará tensões que levará a reiniciar o ciclo de novas idéias e práticas e assim sucessivamente. Na busca do sentido na Arte devemos ter consciência de que a harmonia entre arte e sociedade só produz “obras” medíocres 146.
As características principais que atingem nossa época, entre outros fatores relacionados à nossa condição sócio-histórica-cultural, como: a Globalização; o Capitalismo Cultural (a nova centralização da informação e o conhecimento); a produção de mercadorias (objetos do desejo); as desterritorialidades (de identidades, gênero e afins); a legitimação do espaço de imagens-em-movimento; as Redes Virtuais; afetam o desenvolvimento dos processos das práticas artísticas contemporâneas.
Assim como as cidades deram o tom aos modos de vida do conjunto dos países, a sinergia tecnologia- megalopoles faz do mundo inteiro uma “aldeia global” onde as modas, os costumes, os pensamentos, as músicas e os esportes são partilhados sem as diferenças de classe, as especificidades locais ou culturais determinem mudanças notáveis147.
143 LACAN (1997, p. 177). 144 LADDAGA (2006).
145 Sobre o tema ver LADDAGA (2006) e RANCIÈRE (2005). 146 GRÜNER (2006, p. 317).
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O olhar de Argus multifocal, panóptico e sempre vigilante, parece nos espreitar constantemente, mas ele tem cem olhos dos quais cinqüenta permanecem adormecidos e cinqüenta em vigília, alternadamente. É nesse lampejo de alternância que podemos sabiamente nos desfocar. Um interstício-tempo que abre para novas possibilidades. Argus se esquece que vê, mas pode ser visto.
A supermodernidade é um conceito que Augé148 designa para caracterizar o momento atual. É interessante fazermos uma análise um pouco mais detalhada deste conceito, suas características e categorias seguindo o pensamento do autor citado. A contemporaneidade é um mundo de transformações aceleradas que se caracteriza pelo excesso: uma superabundância factual, superabundância espacial e um retorno à individuação das referências. Características estas que trazem como conseqüência transformações nas categorias de tempo, espaço e indivíduo.
Vivemos um tempo acelerado, que corresponde ao fato de uma multiplicação de acontecimentos (fatos) na maioria das vezes não previstos pelos economistas, historiadores ou sociólogos. Estamos com a história em nossos calcanhares, com uma grande multiplicação de acontecimentos e interdependências no chamado “sistema-mundo” que visibilizam superabundância factual e a dificuldade de pensar o tempo. Precisamos, “exigimos”, encontrar um sentido ao presente, compreendê-lo, e disto recorre à dificuldade de dar um sentido ao passado próximo. Dar o espaço para a experiência pelo relato. Até porque, como Augé sugere, o aumento da expectativa de vida que permite a coexistência de três ou quatro gerações, provoca mudanças práticas na ordem social. Se por um lado somos cada vez mais solicitantes de sentido, paralelamente esses fatos estendem a memória coletiva genealógica e histórica e multiplicam para cada indivíduo as ocasiões em que pode ter a sensação de que sua história cruza a História e que esta se refere àquela. Suas exigências e decepções estão deste modo, ligadas ao reforço dessa sensação.
A segunda transformação acelerada diz respeito ao espaço. O excesso de espaço resulta numa sensação de encolhimento. Tudo o que está longe parece próximo demais, seja pela questão de mudança de escala (no que diz respeito à conquista espacial ou à aceleração dos meios de transportes rápidos); mas também, pela multiplicação de referências energéticas e imagéticas que resultam das
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distorções possíveis vindas das informações e suas imagens, ambas geralmente manipuladas, que nos atingem a todo instante, via meios de comunicação rápida.
Tudo isto resulta em modificações físicas consideráveis tais como concentrações urbanas, transferências de população, gentrificação e multiplicação de não-lugares. Estes não-lugares são tanto as instalações necessárias à circulação acelerada das pessoas e bens -vias expressas, trevos, rodoviários, aeroportos- quanto os próprios meios de transporte ou os grandes centros comerciais, ou ainda os campos de trânsito prolongado onde são alojados os refugiados do planeta.
No momento em que o espaço se torna pensável, acompanhando o pensamento de Augé, paradoxalmente muitos querem ficar sozinhos em casa, e/ou outros, reencontrar uma pátria embora se reforcem as redes multirraciais. O mundo da supermodernidade não tem as dimensões exatas daquele no qual pensamos viver, pois vivemos num mundo que ainda não aprendemos a olhar. Temos que reaprender a olhar o espaço.
A terceira figura do excesso é a do ego, a do indivíduo. Nas sociedades ocidentais o indivíduo quer um mundo para ser um mundo. Ele pretende interpretar, por e para si, as informações que lhe são dadas numa busca individual de sentido, no que Augé chama de individualização das referências. Comparada a época atual com outras, nunca as histórias individuais foram tão explicitamente referidas pela história coletiva, mas nunca também os pontos de identificação coletiva foram tão flutuantes. Perante esta realidade como pensar em situar o indivíduo?
Augé busca referências em Certeau, em “A invenção do cotidiano”, que fala das “manhas das artes de fazer” que permitem aos indivíduos submetidos às opressões globais da sociedade moderna, principalmente urbana, desviar-se delas, usá-las e, por uma espécie de elaboração diária, traçar aí seu cenário e seus itinerários particulares. Também recorre a Freud, quando, nos seus escritos sociológicos, usava a expressão homem comum, o homem que está alienado pelas instituições, mas que está em condições de observar em si mesmo os mecanismos e os efeitos da alienação. Alienação necessária, de acordo com Lévi-Strauss que é a do homem que chamamos de saudável de espírito, porque é alienado, já que consente em existir num mundo definido pela relação com outrem.
Além do peso maior dado à individuação das referências, estão outras singularidades nas quais se deveria prestar atenção, destaca Augé: singularidade dos objetos, singularidade dos grupos ou de pertinências, recomposição de lugares,
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singularidades de toda ordem e que são o contraponto paradoxal dos processos de relacionamento, de aceleração e de deslocamento, reduzidas e resumidas por expressões como homogeneização- ou mundialização da cultura.
O século XXI será antropológico, não só porque as três figuras do excesso não são senão a forma atual de uma matéria prima perene, que é a própria matéria da antropologia [a questão do outro e a organização do lugar], mas também porque, nas situações de supermodernidade [...] os componentes se somam sem se destruírem149
.
O coletivo La Société Anonyme150 fazendo uma redefinição das práticas artísticas contemporâneas para o século XXI coloca,
Não somos artistas, tampouco somos críticos. Somos produtores [...] Não existem obras de arte. Existe um trabalho e práticas que podemos denominar artísticas. [...] O trabalho de arte que chamamos artístico deve, a partir de agora, se consagrar a produzir um similar – na esfera do acontecimento, da presença: nunca mais no da representação [objetual]. O artista como produtor é: a) um gerador de narrativas de reconhecimento mútuo; b) um indutor de situações intensificadas de encontro e sociabilização da experiência; e c) um produtor de mediações para seu intercâmbio na Esfera Pública151
.
A época atual, despojada de missões messiânicas e certezas fundamentais, ressalta Ticio Escobar152, se mostra mais tolerante, o que é uma vantagem, mas também, é muito menos entusiasta e bastante mais tediosa decorrente, enfatiza este autor, do fato de não existir causas boas ou más, nem honras nem grandezas, nem verdades privilegiadas e todas as opiniões serem consideradas respeitáveis. Isto visto deste modo melancólico e apático é um inconveniente que requer certas negociações no entre-jogo do olhar/experiência.
Essas “negociações” são as que permitem as redefinições manifestas pelo coletivo La Société Anonyme quando destaca a “função” do artista para gerar
149 AUGE (loc. cit. p. 42).
150 La Société Anonyme é um coletivo de artistas e teóricos de composição variável, fundado em 1990
e dedicado especificamente a investigar e desenvolver, experimentalmente, as relações entre as práticas artísticas e o pensamento crítico. O “manifesto” se encontra disponível em: <http://aleph- arts.org/lsa/index_esp.html>
151 LA SOCIÉTÉ ANONYME; Manifesto on-line, 2001 (passim, tradução nossa). 152 ESCOBAR (1997, p. 73).
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narrativas de reconhecimento mútuo; produzir situações intensificadas de encontro e sociabilização da experiência que permitam mediações de intercâmbio na sociedade.
Recodificações fatíveis de se efetivar através de uma arte onde o que está em jogo é a produção de uma subjetividade que deriva de um conjunto de relações com o “Outro” e os “outros”. Subjetividade que se articula na forma de engate no mesmo tempo em que se produz como resultado das afinidades entre o Sujeito (através da articulação de seu RIS) com o Mundo, e com Mundos Possíveis que derivam da articulação dos mesmos.
Uma associação de formas assuntivas, composta de “dimensões significantes”, incluindo aqui, além do Sujeito, o Simbólico de maneira integral: cultura como contexto e produções/produtos decorrentes dessa cultura. Também devemos incluir a Natureza como um todo inclusivo das duas formas anteriores. Dimensões significantes que se manifestam por meio de fluxos derivados do movimento dessas formas retentoras de significância.
Fluxos estes vindos de contextos ou instâncias variadas dos Mundos da Vida, como os dos territórios existenciais e os dos universos sensíveis, cognitivo, afetivo, estético, ético-político. Fluxos que desenvolvem subjetividades e possibilitam manifestações individuais ou coletivas, que são articuladas através do Imaginário e Simbólico no Real. Devemos destacar que Lacan a partir de sua topologia do nó borromiano (de três elos) e posteriormente do nó de quatro elos, produziu uma interessante articulação de elementos fragmentários e heterogêneos, em um sistema aberto a fluxos diversos153.
Este movimento de fluxos introduz uma dinâmica que nos permite um olhar mais certeiro acerca da realidade. Mesmo ante a aparência de monotonia, de ânimos lânguidos, “algo” nessa ambiência borbulha possibilitando novos olhares. Maffesoli154 enfatiza que a “viscosidade” tende à indistinção, à constituição de
pequenos corpos específicos, de ‘tribos’ que viverão de forma mais ou menos explosiva o prazer de estar-junto através de diferentes mimetismos, cuja aparência é apenas o aspecto mais visível. Territórios existenciais capazes de nos possibilitar identificações no mundo em que vivemos.
153 Destacando e para pensar, é interessante destacar que, segundo Oliveira Weimann, (2002, p. 6)
“Este modelo topológico começou a ser utilizado por Lacan a partir de 1972 mesmo ano da publicação de ‘O anti-édipo’ de Deleuze e Guattari”.
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O pensamento de Guattari155 em relação a territórios e sobre ecosofia,
considerando esta como uma articulação ético-política entre os três registros ecológicos: o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana. Pensamento que se apresenta como uma possibilidade de prática que viria a tolher a falta de graça e a passividade ambiente.
Hoje nos deparamos com práticas contemporâneas que se processam integrando significantes em três âmbitos principais: práticas em territórios existenciais coletivos; práticas como se fossem ferramentas que permitem desenvolver táticas diversas de viabilização de fazeres e práticas como dispositivos espaço-tempo. Mas também em territórios existenciais pessoais que permitem inventar novas relações, de acordo com Guattari156, com o corpo, o fantasma [fantasia] o tempo que passa, os mistérios da vida e da morte. Nos reinventar.
Práticas que sirvam também, segundo este autor, para resistir à uniformação dos pensamentos e dos comportamentos (considerando sempre que dispositivos podem existir na escala das megalópoles ou dos jogos dos significantes através da linguagem de um indivíduo) se articulando sempre com uma postura eco-mental ou ecosófica, na qual prevaleça a ética nos campos do socius, da natureza e do tecnológico. Da mesma ordem é o pensamento de Mafessoli quando coloca que há uma reversibilidade constante que tende a estabelecer-se entre o indivíduo e o seu meio, onde este deve ser compreendido não só como meio natural mais também como social157.
Quer se trate de uma viscosidade (Maffesoli), de ânimos lânguidos (Escobar) ou de uniformação nos modos de pensar e fazer (Guattari), do que temos certeza é que este é nosso momento e nosso lugar. Qual é nossa “função simbólica” como significantes? Será conhecendo no possível o sitio da Mirada (a emergência do discurso, o lugar a partir do qual se nos olha) que poderemos encontrar novos sentidos à realidade, que camuflada numa homogeneidade aparente, se apresenta como espelho deformante do real.
Uma homogeneidade (metaforicamente uma anamorfose) que quando “mirada” ao sesgo, podemos nela, simplesmente, nos refazer constantemente e refazer essa nossa realidade. “Porque a única finalidade aceitável das atividades
155 GUATTARI (2004).
156 GUATTARI (2000), apud BOURRIAUD (2006, p. 115-117). 157 MAFFESOLI (2005, p. 207).
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humanas, disse Guattari, é a produção de uma subjetividade que auto-enriquece de maneira contínua sua relação com o mundo” 158.