Devemos nos perguntar que tipo de mundo se “deu-a-ver” a partir do que convencionalmente chamamos de Pós-modernismo e como, nesse mundo, os sujeitos articulam e produzem seu olhar/experiência.
O Pós-modernismo gosta de termos que implicam abertura, multiplicidade, pluralidade, heterodoxia, contingência, hibridismo. Jameson84 dirá, paradoxalmente, que é uma teoria unificada de diferenciação vendo-se deste modo, dilacerado entre o impulso de unificar seus campos com asserções totalizadoras e o impulso contraditório de proliferar diferenças. Uma das condições principais da Pós- modernidade é o fato de ninguém pode ou deve discutir-la como condição histórico- geográfica85.
Ao se desfazer o “subjetivismo”, típico da tradição ocidental que lhe atribuiu a fonte da verdade ao Sujeito do cogito, nos encontramos frente a um Sujeito da Pós- modernidade cujo cenário é justamente o lugar da visualidade do Outro. Visualidade mostrada por meio de uma crítica-reflexiva e de imagem (vídeos, fotografia, documentários, exposições, livros) que, principalmente, diziam respeito às diferenças.
Um cenário polifônico, caleidoscópico, onde as muitas vozes e as muitas imagens facilitam a formação de múltiplas e diferentes “identificações”. Uma multiplicidade que permite repensar a subjetividade como possibilidade de vir-a-ser. Devemos lembrar que Joseph Beuys86 em seu conceito ampliado de arte já
falava da união do mundo interior do artista com o exterior, de modo que a arte passava a ser agente ativo na vida social, abandonando o círculo restrito e culturalista das belas-artes, da música e da literatura: A arte há de sair da academia, da exclusividade de um meio concreto. Deve explorar outros terrenos. A partir de 1964, Beuys passou a designar seu método de trabalho pela expressão Vehicle-Art (Arte Veículo) como forma de afastar a Arte de uma problemática meramente
83 Nesta dissertação, o conceito de arte contemporânea será referendado como a arte que se
manifesta a partir da década dos 60 até os dias atuais. Será enfocada em duas etapas: uma em relação a trabalhos de arte até a década dos 90, para o qual utilizaremos o conceito e a nominação de Pós-modernismo como condutor das manifestações artísticas. Envolvendo os processos artísticos de 90 até a atualidade, usaremos o conceito e a nominação de Arte Atual.
84 JAMESON (1997) apud STAND (2005. p. 217). 85 HARVEY (2008, p. 301).
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estética e acentuar a idéia de um deslocamento nômade pela realidade, que chamou de escultura social.
Geralmente, a subjetividade é entendida como um espaço íntimo do homem (seu mundo interno) com o qual ele se relaciona com o espaço externo (mundo social). A partir de Lacan, via Freud, não poderemos considerar um separado do outro. Isto porque o mundo interno, como já foi colocado, está formado por Inconsciente e Consciente. Um Inconsciente que “fala” a voz do Outro através da estrutura significante. Um Consciente angustiado que tenta unificar: por um lado, consciente e inconsciente deste Sujeito dividido ($), e por outro lado, unificar mundo interno com mundo externo, através da articulação do Simbólico instituído (significantes “Outros” do campo da normatividade) com seu Imaginário (mais significantes “outros” idealizados) e, da mesma forma, com seus semelhantes.
A teorização lacaniana87, em relação ao signo, ao sujeito e a articulação dos registros referenciais, desenvolvida no âmago desta mudança de paradigma não podia ser mais adequada para compreender esse Sujeito Pós-moderno que aproxima a Arte à Vida. Este Sujeito, (parafraseando a Heráclito) nunca se banha no mesmo rio, precipita-se nos Mundos de Vida de Heggel e Heidegger, na Comunidade de Comunicação de Habermas, nos Mundos Possíveis de Guattari e Bourriaud. Compreende a frase nietzscheana “Deus está morto” como o fim da metafísica e se espalha rizomaticamente pelo Solo, pela Terra. Torna o espaço um lugar praticado desde o cotidiano, como coloca Certeau. Levanta a bandeira de “É proibido proibir”. Busca transgredir os limites que tocam ao sofrimento e a morte em busca do Gozo. Procura rever seus vínculos com a ordem simbólica para dar vazão a novos vínculos. Ao final, como Lacan já tinha colocado, uma língua entre outras não é nada mais do que a integral dos equívocos que a sua história deixou persistir88.
Percebemos, deste modo, que a subjetividade só pode advir de relações com e em, que decorrem de dois modos originais constitutivos. Um modo advindo das relações com o “Outro” como estrutura significante do Simbólico - o Tesouro de significantes - no Inconsciente (Lacan, a respeito, dirá que estas são as relações autenticamente intersubjetivas). Concomitantes a estas, outro modo recorrente das
87 Ver em Apêndice.
88 SCHÃFFER, M. Psicanálise, subjetividade e enunciação. Disponível em:
<http://www.educacaoonline.pro.br/psicanalise_subjetividade.asp?f_id_artigo=372> Último acesso em: 12 de jun. de 2008.
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relações com o “outro” meu semelhante (neste caso Lacan chamará de “inter- subjetividade imaginária” própria à relação entre sujeito e o outro) das quais resultam as formações da linguagem simbólica que me permitem desenvolver subjetividades89.
Si pensarmos que o Simbólico, se relaciona com esse sujeito-outro a partir de “outros”, estaremos ante a possibilidade de uma leitura dos processos humanos (sejam eles éticos, filosóficos, religiosos, políticos, artísticos e mais alguns) e suas representações (sejam estas objetuais, conceituais, contextuais e afins) como recorrentes das articulações de mundos em espaços e tempos que se atravessam. A realidade em sua complexidade é um texto que os artistas devem articular através de redes relacionais inventadas. Para Bourriaud90
A essência da prática artística radica na invenção de relações entre sujeitos; cada obra de arte encarnaria a proposição de habitar um mundo em comum, e o trabalho de cada artista, um feixe de relações com o mundo que, por sua vez, gera novas relações, e assim até o infinito.
Indo ao encontro deste pensamento, Luiz Brea91 afirma que, o modo de
trabalho que chamamos artístico deve, a partir, de agora se consagrar a um produzir similar na esfera do acontecimento, da presença: nunca mais só no da representação [objetual-formal].
De um modo particular, as análises feitas por diferentes teóricos e através de diversos “ângulos de visão” que é o mesmo que dizer: muitos “outros” se relacionando e vivenciando experiências em processos de subjetivação, comprovam como certos tipos de subjetividades (recorrentes dessas ações) determinam mudanças paradigmáticas que desencadeiam representações específicas, possíveis de serem, posteriormente, “cartografadas”, como as feitas nos textos de Rosalind Krauss, Escultura em campo ampliado de 1979; de Luiz Brea, Ornamento e Utopia de1997; de Miwon Kwon, Um lugar após outro: anotações sobre Site Specificity, de 1997; de Paloma Blanco, Mapeando o território, de 2001 ou de Rubens mano Um lugar dentro do lugar, de 2003.
89 Ver SAFATLE (2007, p. 44). 90 BOURRIAUD (2001).
91 BREA (2001) apud GOLVANO, F. Arte contemporánea: aperturas liminares. Euskonews &
Media 118.zbk. 2001. Disponível em:
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De “repente” (um milionésimo de segundo, todos os tempos humanos, cinqüenta, trinta ou vinte anos?) estamos inseridos num “labirinto multicursal” de muitas entradas e com uma vasta capacidade de amplitude e possibilidade dos caminhos se cruzarem em e com os muitos “outros”.
O mundo das artes e das representações simbólicas viu-se diante da necessidade de refugar meios e formas de expressão consagrados ou obsoletos que não mais serviam à assimilação e ao relacionamento com essa realidade. Com o solapamento das bases já caducas herdadas do romantismo e reformuladas pelo modernismo, o pós-modernismo traz à baila a saída útil embutida na nova visão pragmática: tudo é permitido, inclusive negar às origens, desde que um objetivo supostamente válido seja instaurado. Ou quando levado ao estremo, conforme rezava o lema da Revolução Estudantil de maio de 1968: “É proibido proibir” 92.
Nesta amplitude nada mais nos resta senão caminhar, jogar, modular, relacionar. Só que esse “resta” é o sentido para dar sentido a nossa tessitura do Véu. Tessitura, assim, com “ss” como uma composição, uma construção, que se insere na tecedura desse Véu (“nossa” – em plural- escrita na Tenda de Atwoot?).
Esse “resta” também faz com que possamos aproximar pensamentos anacrônicos. Porque sempre estamos lendo com novos olhares, por exemplo, pré- socrático, socráticos, platônicos ou especificamente como acontece no pós- modernismo Nietzsche, Marx, Kant, Spinoza? Também nos faz sair, através da falta, do lugar da opacidade, da viscosidade, em que a sociedade totêmica, como dizia Lacan, nos coloca. Sem a falta o Sujeito nunca pode vir-a-ser, nunca pode vir a se reinventar como sujeito sendo assim, a dialética do desejo seria esmagada. Quando não há nenhuma possibilidade de falta, quando tudo nos é dado, a angustia passa a nos perturbar, no entanto, quando nossos desejos são induzidos (ou produzidos?) por qualquer dispositivo de subjetivação dominante, nossa dialética do desejo fica comprometida.
Por fim, amamos o desejo, e não o desejado. A frase
é de Nietzsche, mas cabe em Lacan. Núcleo do ser do sujeito lacaniano, a característica principal do desejo é não ter objeto naturalmente dado. Ele é manifestação de um vazio, [falta] de uma pura
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negatividade que quer consumir os objetos nomeados pela linguagem, passar por eles, mas que não se satisfaz com nenhum. "O desejo é sempre o desejo de Outra coisa." Até porque o homem é o único animal que não deseja exatamente coisas. Ele deseja desejos. Para Lacan, um objeto só se torna desejável a partir do momento em que ele é objeto de desejo do Outro. Daí a frase: "O desejo do homem é o desejo do Outro” 93.
Sociedade “totêmica” porque sempre, por trás dos elementos do Simbólico, se encontra um significante fálico (de falhus, falta) como sentido ligado a representações de potência e força. Um significante encarregado de designar como “um” todos os efeitos de um significado; sempre que este significante os condicione com sua presença como significante94. Vários são os significantes nesta sociedade
do espetáculo, da cultura visual, do simulacro. Por exemplo: o Capitalismo, a Globalização, o Aquecimento Global, a Fome do Mundo, o Desarmamento, a Água do Mundo, o Fundamentalismo Islâmico, a queda do “Império” americano; as Novas Diásporas, a Bolsa de Valores, a Gripe A, por citar alguns, ao redor dos quais giram vários e variados sub-significantes. Significantes, estes que, ao conter o princípio masculino e princípio feminino (a “lei” e o “desejo”), passam a determinar fluxos de subjetivação através das cadeias de significantes, atuando como operadores capazes de transmitir sentido.
Por que se deu na Pós-modernidade a necessidade de buscar outros meios e formas de expressão? A doutrina modernista, de acordo com Deutsche95, se fundamenta a partir de que a “visão”, tem um lugar de destaque como modo superior de acesso às verdades universais e autênticas, por causa da suposta distância frente a seus objetos analisados. A idéia deste distanciamento visual e outras noções a ele relacionadas, como a do juízo desinteressado e a contemplação imparcial, se sustentam sobre a crença de que existe uma ordem do significado em si, nas coisas mesmas, como uma presença.
Dentro deste panorama de uma visão estética desinteressada, o sujeito espectador auto-suficiente contemplaria um objeto igualmente autônomo, possuidor de significados independentes das condições particulares de produção ou recepção. De acordo com a idéia de pureza visual (Greenberg seria um dos mais influentes
93 SAFATLE apud ZIZEK (2001). 94 LINKER (2001, p. 404). 95 DEUTSCHE (2001, p. 318).
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defensores deste conceito) as instituições de arte, galerias e museus, teriam a função de, simplesmente, descobrir e mostrar os valores intemporais e transcendentes das obras de arte. Paradigmas que derivavam do processo de mudança que tinha se instaurado no início da Modernidade.
A grande mudança epistemológica no campo geral do conhecimento, do pensamento clássico para o moderno, não teve até hoje, nada à altura que justifique uma cisão semelhante capaz de substituir uma forma de pensar o conhecimento por outra; tampouco em relação a sua característica fundamental: a ruptura de qualquer condição histórica precedente e o desenvolvimento da ciência para alcançar fins maiores como progresso, igualdade e fraternidade. Mas, o paradigma estético na Pós-modernidade apresenta, sem dúvida, uma ruptura com a ordem estética da modernidade. A respeito Jameson coloca,
A estética pós-estruturalista contemporânea [...] marca a dissolução do paradigma moderno – que privilegia o mito e o símbolo, a temporalidade, a forma orgânica e o universal concreto, a identidade do sujeito e a continuidade da expressão lingüística – e prognostica a emergência de uma nova concepção propriamente pós-moderna ou esquizofrênica da cultura – que se reformula estrategicamente como ”texto” ou “écriture”. [...] que acentua a descontinuidade, a alegoria, o mecânico, a brecha entre significante e significado, a desaparição do significado, a sincopa na experiência do sujeito”96
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A partir da década de sessenta, “pós-modernismo”, segundo David Harvey97 tornou-se um conceito com o qual lidar, e um campo de opiniões e forças políticas conflitantes que já não pode ser ignorado. Os editores da revista de arquitetura Precis 6 (1987), segundo este autor, anunciam que a cultura na sociedade capitalista avançada passou por uma profunda mudança na ‘estrutura do sentimento’.
A este respeito Huyssens coloca,
A natureza e profundidade dessa transformação são discutíveis, mas transformação ela é. Não quero ser entendido erroneamente como se afirmasse haver uma mudança global de paradigma nas ordens cultural, social e econômica [...] Mas, num importante setor de nossa cultura há uma notável mutação na
96 JAMESON (1979) apud FOSTER (2001, p. 194). 97 HARVEY (2008).
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sensibilidade, nas práticas e nas formações discursivas que distingue um conjunto pós-moderno de pressupostos, experiências e proposições do de um período precedente98.
Esta “mutação de sensibilidade” parece estar validada por um modo particular de ver, de fazer e de sentir, que leva a mais problemática faceta do pós- modernismo: a alteração nos seus pressupostos psicológicos quanto à personalidade, à motivação e ao comportamento99.
As formações discursivas que ajudam a compreensão desta problemática parecem vir de um âmbito composto por variantes que o determinam como sociológico, filosófico, antropológico, político, teológico, no entanto com substrato formado por instâncias que emergem da Lingüística, da Psicanálise e da Ideologia100. Três instâncias que se entrecruzam e vão constituir o sujeito no desenvolver da experiência.
De acordo com Leandro Ferreira101, o sujeito é afetado por três ordens a da Linguagem, a Ideologia e a Psicanálise que deixam em cada uma delas um furo, como é próprio da estrutura de um ser-em-falta: o furo da linguagem representado pelo equívoco, o furo da ideologia expresso pela contradição, o furo da psicanálise manifestado pelo inconsciente. Decorrendo daí o fato da incompletude ser tão marcante, e que faz que essa falta, ou melhor, o que falta nesse buraco, se torne o lugar do possível para o sujeito. Sujeito constituído na linguagem a nível simbólico, na qual faz sua morada, por ela marcado por ser “efeito da linguagem” 102. Possível,
também, para o sujeito “desejante” do inconsciente, descontínuo por excelência e que se ordena por irrupções pontuais. Possível, assim mesmo, para o sujeito interpelado ideologicamente através do discurso, o sujeito “assujeitado”. Se não houvesse a falta, se o sujeito fosse pleno, se a língua fosse estável e fechada, se o discurso fosse homogêneo e completo, não haveria espaço para o sentido transbordar, deslizar, desviar, ficar à deriva.
98 HUYSSENS (1984) apud HARVEY (1989. p. 45). 99 HARVEY (op. cit, p. 56).
100 Para este conceito de ideologia, apelamos à definição de Leandro Ferreira (2007) entendida como uma tomada de consciência da realidade, como pensamento historicamente situado, é ou, como um reflexo da realidade.
101 FERREIRA (2007).
102 Já tínhamos prescrito que o Sujeito se constitui desde o outro, desde algo exterior a ele: desde a
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Podemos dizer neste sentido que a falta não é um negativo, porém a própria “mola” da relação do sujeito com o Outro. A falta não se produz por si mesma, e mais, só há falta no nível do ser se houver sujeito, mas em contrapartida, requer o ato do sujeito para se fundar como falta103. O que quer dizer que o sujeito é o
correlato ativo da falta e esta é o que nos faz sujeitos na cultura, não da cultura, pois não somos meros efeitos da cultura104.
A morada do sujeito [que ele encontra na linguagem] fica tomada [...] pela inscrição ideológica que se marca no desejo, o qual opera por deslizamento em um plano de contigüidade e remete sempre a uma falta. E o campo comum onde essas relações se travam e onde esses conceitos se forjam é o campo da linguagem [enquanto forma material]. É importante ressaltar: o lugar do assujeitamento, representado pela ideologia e o lugar do desejo, representado pelo inconsciente, se encontram e se constituem na linguagem105.
O entre jogo da experiência, a navete com que tecemos o Véu, é plasmado no campo escópico, o lugar do Olhar, o lugar possível de articulação do Simbólico e o Imaginário, lugar de recriar a Linguagem através da experiência. Ante a pergunta o que é a experiência? como coloca Jorge Bondía106 diremos: é o que nos passa, o
que nos acontece, o que nos toca. Sabemos que há, num primeiro momento, uma experiência imediata que se dá no nível do saber sensível, ou nível da sensibilidade e das impressões deixadas pelos sentidos, é a etapa em que recolhemos os fluxos dos sons, os significantes. Logo se transforma em aprendizado mais amplo num processo ao longo do tempo que, junto com os saberes adquiridos em curto prazo, vai construindo através do próprio jogo da experiência, a personalidade do ser humano.
Este ritmo de aprendizado, que determina a estrutura da organização da experiência não é arbitrário, assim sendo não se pode modificar a vontade por ser resultado de um social coletivo107 no qual experiência, subjetividade e inter- subjetividade se relacionam de forma integrada.
103 ELIAS (2007, p. 48). 104 ELIAS, loc. cit.
105 FERREIRA (2007, p. 104). 106 BONDÍA (2002).
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O funcionamento do sujeito acontece quando algo se lhe opõe, um bloco, uma coisa em si (Ding an sich) à que deve vencer e que é inseparável do mecanismo funcional da experiência produzida por este sujeito. Este material da experiência individual não se deixa apropriar nunca completamente. Tudo o que é experiência real, que pode ser verificada e repetida por outros sujeitos racionais, é expressão de um processo de produção que está fundado, não em indivíduos isolados, senão que caracteriza a atividade de um sujeito total, social e coletivo dentro do qual concentram-se todas as atividades que resultam da confrontação com a natureza exterior e interior. Experiência que é, simultaneamente, um processo de produção e de recepção de acordos sociais que pertencem as manifestações fenomenológicas dos objetos ou de sua conformidade, as leis. [...].
Certamente o movimento real da experiência só pode ser recordado, modificado e castrado na mente dos seres humanos, mas sua produção e organização é um processo social cooperativo que só pode ser compreendido quando se abandona a ficção do conhecimento individual108.
Falar de experiência é, portanto, falar apreensão, de saber. Não o saber entendido como resultado de acúmulo de informação, porém como exercício da experiência através de uma inquietação. De acordo com Bondía, o tempo atual se caracteriza como o tempo da opinião, precisa-se saber de tudo um pouco para opinar rapidamente, geralmente só a favor ou contra, sem saber muito bem sobre o quê estamos opinando. Um tempo acelerado (tomando esta palavra mais do campo do fazer mecânico que do fazer humano) que possibilita a rapidez da informação- opinião ao mesmo tempo em que impossibilita a experiência e facilita a manipulação do sujeito.
Um tempo rápido demais e com excesso de trabalho, no qual o sujeito moderno, atualizado, crê que pode fazer tudo o que se propõe, sempre está se perguntando sobre o que pode fazer, sempre está desejando fazer algo, produzir algo, regular algo. Sempre esta destruindo a experiência, a possibilidade de manifestação do olhar/experiência. Um tempo rápido demais onde um acontecimento é substituído imediatamente por outro, tão fugaz quanto, se tornando uma vivência instantânea e fragmentada que impede a conexão significativa entre os acontecimentos, o silêncio e a memória.
63 Quando Benjamin109
coloca o conceito de experiência na problemática da necessidade de sua reconstrução dentro uma narratividade que comporte narrador e ouvinte no mesmo fluxo narrativo (garantindo a memória e a palavra comuns) estamos ante a mesma preocupação de Bondía em relação à destruição da experiência: a necessidade de um gesto de interrupção, de corte, de cisão que permita a “receptividade” e a “disponibilidade”. Interrupção fundamental como abertura essencial para fazer desta experiência uma paixão, por ser um território de passagem para que “algo aconteça”, para dar sentido. Uma relação intrínseca entre vida e morte, um saber constituído no e pelo padecer, um saber humano entendido como páthei máthos110. Ainda assim, não podemos esquecer que,
Toda produção do campo do sentido é da ordem simbólica, seja ela falada ou não. Um gesto, uma expressão no rosto, do corpo, uma dança, um desenho, tanto quanto uma narrativa oral, serão produções simbólicas, regidas pelo significante, e assim, ditas verbais, por estarem na dependência do verbo significante, e não por serem expressas por via oral111.