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O Eixo 1 compreende a Classe 4, ver Figura 4, que explica 37,5% da variância total do corpus analisado. Isso significa que de todo o material analisado, esse percentual está relacionado às questões abordadas pela classe 4. A tabela 1 apresenta as palavras que atribuem maior significado à classe com seus respectivos khi-quadrados (χ²). Cabe salientar que para melhor compreensão as formas reduzidas foram aqui apresentadas como palavras. As formas reduzidas e suas palavras derivadas encontram-se no dicionário de formas reduzidas presente no relatório completo fornecido pelo Alceste.

Figura 4 - Classe 4: Diagnóstico e Tratamento

Logiciel ALCESTE, 2009

Como podem ser observadas na Tabela 1, as palavras que compõem esta classe estão relacionadas, de modo geral, a procedimentos envolvidos no diagnóstico e tratamento do câncer, tais como médicos(as), exames, procedimentos e operações. As palavras dor e aguentar podem remeter à forma como esses (as) pacientes se sentiram durante esse processo. Além disso, é importante observar que os verbos apresentados estão no tempo pretérito, denotando acontecimentos do passado, ou seja, no momento em que foi revelado o diagnóstico do câncer.

Tabela 1 - Palavras e variáveis significativas da Classe 4 PRESENÇA SIGNIFICATIVA χ² Médico (a) 56 Exame 31 Disse 21 Câncer 21 Operei 18 Falou / Falei 17 Hospital 16 Medo 13 Tratamento(s) 11 Meses 10 Pulmão 10 Nódulo 10 Tirar 9 Mama 9 Sangue 9 Biópsia 9 Fazendo 9 Infecção 9 Tranquila 9 Dor 7 Aguentar 7

*Renda 2 (+1 a 2 salários mínimos) 33 *Escolaridade 3 (de 4 a 7 anos) 26

*Sujeito 06 19

*Sujeito 16 6

Outro dado interessante que deve guiar as análises para a apreensão do sentido da classe é a lista de palavras significativamente ausentes (χ² < 0). Pela Tabela 2 podemos perceber que a classe 1 não está relacionada à igreja católica, oração e pai.

Tabela 2 - Ausências Significativas na Classe 4 PALAVRAS AUSENTES χ² Igreja -28 Oração -16 Pai -15 Católica -15

Nesse sentido, com base no roteiro de entrevista, é possível sugerir que esta classe responde à primeira pergunta da entrevista (que aborda o fato do recebimento do diagnóstico de câncer) e, assim, está relacionada ao diagnóstico e tratamento do câncer do (a) paciente.

As variáveis com presença significativa indicam que os discursos reunidos nesta classe se aproximam, principalmente, dos discursos dos (as) entrevistados (as) com renda de mais de um a dois salários mínimos e aqueles (as) com escolaridade entre quatro a sete anos.

Também como variáveis significativas estão os sujeitos 06 e 16. A presença dessa variável indica que as participantes 06 e 16 são consideradas sujeitos típicos da classe. Isso significa que o discurso desses sujeitos está muito próximo / muito relacionado ao tema abordado por esta classe. Vale salientar a importância de observar o valor do χ² para esta variável, no sentido que quanto maior o valor do coeficiente de associação mais fortemente a variável está relacionada ao tema da classe.

A análise das UCE, selecionadas pelo Alceste como mais características oferecem informações importantes para a compreensão e atribuição de sentido à classe. Alguns pontos discutidos pelos sujeitos no que se refere ao diagnóstico e tratamento podem ser ressaltados.

5.3.1.1 Primeiros sintomas e início do tratamento

A concepção de saúde-doença pela visão antropológica está relativada ao entendimento dos moldes sociais, econômico, político, religioso e cultural a qual pertence cada pessoa. As representações das doenças estão estruturadas no imaginário das concepções populares, ou pela singularidade do próprio doente e de sua vivência com os eventos de saúde-doença (DUARTE, 2003).

A existência paradoxal entre saúde e doença está em nível de conceitos empírico e subjetivo e, de como se cria a imagem de uma pessoa saudável.

A concepção de saúde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) idealizou para o ser humano é senão utópico ou inalcançável, levando em consideração o conceito de que saúde não é ausência de doença, sim um completo bem estar, isto envolve uma área periférica muito ampla, que vai desde o meio ambiente familiar, até a que constituem os poderes políticos.

Enfim, podemos considerar que as doenças fazem parte da vida do ser humano. A questão é a maneira que cada indivíduo reage à situação conflitante entre o binômio saúde/doença.

As diferentes reações frente aos resultados dos exames, e confirmação do diagnóstico de câncer foram relatadas pelos pacientes.

Podemos observar nos discurso dos entrevistados que a descoberta do câncer muitas vezes se dá por acaso, ou em uma consulta rotineira e, pode surgir como algo inesperado e assustador, estou doente!

O sintoma foi repetindo e o tratamento também. Eu já trabalhava em farmácia e tinha visto pessoas com esse sintoma, inclusive meu avô, e isso me preocupava. No inicio de 1970, me transferi para Pernambuco e, em Recife, o médico deu o mesmo diagnóstico de infecção urinária. (*s_01

*sex_mas)

Aí, minha filha me levou no Dr. Tinoco. Aí o Dr. Tinoco me examinou e falou logo, fez os exames. (...) Ele falou logo, ele disse: ‘ isso é câncer, a

A figura dos profissionais da área da saúde, principalmente o médico, apesar dos avanços tecnológicos, é o instrumento mais importante no diagnóstico.

Foi dia vinte nove de setembro, no pâncreas, olha! Eu não assustei, foi surpresa, mas não assustei não, eu confiei nos médicos e tudo bem, fui operada dia três, onze horas mais ou menos, demorou um tempinho, nem sei quanto tempo, mas demorou um pouco, mas depois que eu acordei, eles me disseram que foi tudo bem (...). (*s_19*sex_fem)

Faz mais ou menos uns oito anos que o médico pediu a biopsia. Fez o toque e sentiu algo diferente. Eu fiz a biopsia e confirmou o PSA cinco pouco. Ele falou que eu tinha que fazer uma cirurgia, eu tinha plano de saúde e foi autorizado. (*s_03 *sex_mas)

Em 2008, eu tirei uns dias de férias, fui passear em Manaus. Ao tomar banho, eu verifiquei uma saliência no meu seio e fiquei muito apreensiva e chamei a minha sobrinha, que também era médica. (...) Pedi que olhasse aquilo ali. Então, ela olhou e na mesma hora ela já marcou uma consulta com um médico conhecido dela, que era um ginecologista bom. Dali dois dias, a gente já estava com a consulta feita, dali três dias a gente já estava fazendo uma biopsia, foi para o laboratório em São Paulo. (...). Quer dizer, até agora estou fazendo os meus tratamentos, muitos cuidados alimentares e vamos ver. Vou tomar comprimidos por cinco anos, assim disse o médico. Este foi o modo como fiquei sabendo do meu tumor e como passei por esta cirurgia. (*s_02 *sex_fem)

As reações de negação ao descobrirem a sua doença estão presentes nas falas dos pacientes, alguns reagem com medo frente ao desconhecido, ao novo, com desejo de fuga. Cada ser humano reage de forma própria à situação de conflito, isto se dá pela estrutura impar e essencial que é comum a todos, por isso as reações são diferentes em cada um (ESPÍDULA, 2009).

Desesperamos-nos mais ainda. Aí corremos para Ji–Paraná, onde tinha

feito um exame, um mais profundo para descobrir, não sei falar bem qual é. E aí deu. (*s_16 *sex_fem)

A descoberta do câncer pode manifestar sentimento de raiva, pena de si, sentimento de perda de controle da em relação à vida, medos, angustia, desejo de fuga (CEOLIN, 2008)

Fiquei com muito medo que era câncer. Fiquei com medo de operar, fazer cirurgia. O médico falou que não é necessário a cirurgia, vai sarar assim mesmo. Fiquei contente, só vai ser demorado, vou ter que ficar uns meses no (Hospital) São Pellegrino. (*s_17 *sex_fem)

O diagnóstico de doença grave não atinge apenas o indivíduo, podendo ter repercussão no sistema familiar, isto significa uma ameaça à estabilidade emocional, criando um ambiente de angústia e incerteza.

Os meus filhos foram para Manaus. Eu estava lá fazendo a cirurgia lá. Meus filhos chegaram todos de olho arregalado, com medo, apavorados e, quando chegaram, ficaram tranquilos, meus filhos. Isso aí é assim mesmo, a vida é essa. (*s_02 *sex_fem)

5.3.1.1.2 O tratamento

Outro relato muito presente na fala dos(as) entrevistados(as) diz respeito à longa duração do tratamento. Este processo de tratamento, conforme apresentado, com frequência tem início no combate a sintomas anteriores à confirmação do diagnóstico do câncer.

No sangue, estava com anemia muito forte. Me levaram no Hospital de Base. Fiz exame e acusou, era leucemia no sangue. Começo tratamento lá, me lembro até o dia, no dia 03 de maio de 2007, que eu fui internada. Passei dois meses internada, me tratando. (*s_09 *sex_fem)

Fui operado do coração a vinte quatro anos. Em oitenta e sete fui operado. Depois de doze anos precisei fazer nova cirurgia, por sorte o Exército me mandou para São Paulo. (...) Se passaram mais de doze anos, o último problema foi com a próstata. Foi feito exame em Campinas, primeiramente foi por aqui descoberto pelo médico. Eu fui por conta própria para Campinas, desde 2000 que eu faço tratamento lá. (*s_05 *sex_mas) Eu comecei com um problema de infecção no rim tomando remédio. Por mim eu desconfiei que eu estava meio (...). Fiz um exame e descobriu que eu estava com essa doença, foi bem assim, eu fiz um exame com o doutor, que estava normal, eu fiz exame de sangue e acusou, né? Daí fiz a biopsia e acusou que eu estava com câncer. O médico me enviou para aqui.

5.3.1.1.3 As dores

Tal como relatado no trecho anterior, além da longa duração, outra dificuldade enfrentada durante o tratamento do câncer seria a presença da dor. Os(as) entrevistados(as) pontuam:

Vai fazer cinco anos agora em dezembro, cinco anos que eu fui operada, foi Dr. Tinoco. Eu comecei a sentir, as pessoas às vezes fala que a pessoa não sente dor, mas isso não é verdade, a gente sente dor sim. (*s_06

*sex_fem)

“.... Eu sei que aí eu passei mais um ano me tratando, mas ainda sinto aquela dorzinha, era de todos os meses fazer os exames. Agora estou fazendo de seis em seis meses. (*s_06 *sex_fem)

Para o paciente oncológico, um dos fantasmas mais temido é a dor, pois está causa fragilidade psíquica, pelo fato de comprometer a integridade a integridade física e como consequência, o isolamento social, sendo esta a mais frequente nos estágios avançados do câncer.

A dor foi definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como “uma experiência sensorial e emocional desagradável que é associada a lesões reais ou potenciais ou descrita em termos de tais lesões. A dor é sempre subjetiva e, cada indivíduo aprende a utilizar este termo por meio de suas experiências” (SBED, 2012).

Por ser subjetiva, não existe uma maneira precisa de mensurá-la, apenas pelo referido quadro de sensação de desconforto, causando desequilíbrios emocionais e comprometimento físico de quem padece.

Comumente associa-se dor a problemas psicológicos e sociais, quando torna- se crônica. A dor crônica está associada aos indicadores de depressão, comprometimento da qualidade do sono, anorexia, inatividade, falta de vigor, comprometimento da capacidade de concentração, perca de prazer de viver e ideação suicida, fatores estes correlacionados com suicídio em doentes com câncer (FERREIRA; BRITO, 2009).

Dores nas costas, mas essa dor que eu sentia, depois de dois anos eu senti que eu estava melhorando. Me apresentou uma doença no meu pulmão. Eu senti muita dor no meu pulmão e aí o médico falou que o câncer tinha passado no pulmão. (...) [Mas] aí os médicos fizeram um exame geral e disseram que não era câncer, que eu estava com uma infecção no meu pulmão. Queriam que eu fizesse a quimio, eu disse que eu não ia aguentar, já tinha feito trinta sessões de radioterapia. (*s_06

*sex_fem)

5.3.1.1.4 Sentimento de culpa e desamparo

Uma UCE selecionada pelo Alceste como significante para esta classe aponta para um possível sentimento de culpa com relação à evolução da doença.

A doença suscita uma série de sentimentos, autopenalização e autoculpabilidade e autopunição pelas consequências ocorridas diante do não acompanhamento de sua saúde. “A culpa traduz a ideia de que algo foi feito de maneira inadequada” (SILVA, 2000, p.186).

Desta forma a culpa a si atribuída, contribui para aumentar o seu desespero e contribui para o sentimento de castigo por não ter tido tempo de consertar a inconsequência do erro, isto pode ser sentido no relato:

Eu fracassei também de não ter continuado fazendo a mamografia todos os anos, passei cinco anos sem fazer. E aquele nódulo foi crescendo. Então, eu ficava mais ou menos desconfiada, no ano passado, eu digo não! Agora eu vou atrás, que esse nódulo está grande, vou procurar.

(*s_11 *sex_fem)

Na fala do sujeito 09, demonstra que o médico não contribui para formação de uma atitude positiva e esperançosa do paciente, sendo que a conduta ética e humana é imprescindível na relação médico-paciente, pois é na mão dupla desta relação que há uma melhor adesão do tratamento e a eficácia nos esquemas terapêuticos.

O médico, sempre que vou lá, disse que não tinha fé de eu me curar, mas a minha fé em Deus é muito forte, muito forte. (*s_09 *sex_fem)